segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ninguém fala

Outro dia, sentada na areia, compartilhei algumas angústias minhas com uma amiga querida. Pra minha surpresa, apesar de ter um temperamento oposto e ser bem mais jovem, ela disse que já havia passado pelo mesmo. 
Na verdade, a medida que envelheço, vejo que as questões são muito parecidas, mas ninguém fala. Então fica todo mundo com a sensação de inadequação. As pessoas só contam quando você conta algo a elas. Quanta solidão e sentimento de inadequação seriam evitados se a gente falasse mais francamente com as pessoas mais próximas?

Já entrei em muita fria simplesmente porque ninguém me falava as coisas e eu achava que o problema era comigo. A mais fofa delas foi quando eu tinha três anos e chorei numa festa lá em casa porque o telefone não conversava comigo. Mas chorei tão sentida que a festa parou pra me acudir, o povo achando que eu tinha me machucado. Quando me perguntaram, eu só soluçava e balbuciava "Por que ele não quer falar comigo!?", sentindo a rejeição por todos os poros do meu corpo. Reza a lenda que demoraram um pouco pra entender o absurdo da situação, que eu, um bebê grande, pensava que o telefone era mágico e bastava tirá-lo do gancho pra alguém conversar comigo. Tinha aproveitado que ninguém estava me vendo pra me aventurar - sempre adorei fazer isso -, e quando ouvi só "pupupu" do outro lado, não aguentei tanta rejeição. Fiquei arrasada, humilhada, chorei muito e sentida. Fim da história: me explicaram como funcionava o telefone, eu me acalmei imediatamente e fui brincar. Eu só precisava saber. 
Minha família, que quase não gastava filme tirando fotos das crianças, tirou uma enorme minha com a cara inchada de chorar e segurando, inconsolável, o telefone de casa. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Os infantes terribles

Vivemos tempos muito esquisitos. E pior: não podemos contestar as bizarrices. Todo mundo fala do bolsonarismo - e com razão -, mas fora os minions, ninguém aponta as terraplanices do pessoal da esquerda. E tem - e como tem! 

[Sendo cancelada em 3, 2, 1...]



Eu comecei a desconfiar disso a partir da pauta racial. Há coisas que são pura forçação de barra e que as pessoas contestariam fácil não fosse quem está dizendo. Sim, se uma pessoa negra militante diz qualquer coisa, automaticamente essa afirmação passa a ser incontestável. E todos os que se reconhecem negros precisam seguir um roteiro: cabelo afro, culto ao candomblé, exaltar tudo que é de África (mesmo que não tenha nada a ver com o que entendemos por África aqui...), e por aí vai. Confesso que dei risada quando Carla Akotirene dialogou com Chimamanda na certeza de que ela cultuava orixás e a nigeriana ignorou completamente isso, respondendo a pergunta como cristã. Já fui em África e lá nada disso é questão pra eles: elas usam peruca lisa, são de outras religiões e nada disso mexe com a identidade. Óbvio, porque a sua realidade não some quando você alisa o cabelo, ninguém controla como o mundo te vê quando se faz parte de uma minoria. 

Aliás, mesmo aqui no Brasil, o negro é a única minoria que precisa militar. Pensa comigo: a criança tem direitos só por ser quem é e assim também acontece com o idoso, a mulher, o deficiente, etc. Você não precisa levantar bandeira, sequer gostar de pertencer a qualquer uma dessas minorias. O direito é seu, afinal, o mundo te julga pelo que você é, não pelo que você defende. Mas o movimento negro é muito esperto e não faz isso à toa: precisa que vire ideologia para gerar uma força social que não o deixe perder o controle absoluto da narrativa - por isso representantes dessa militância podem falar a maior asneira e mesmo assim não perdem a razão. Não tem problema falar asneira; é do humano. O problema é isso virar verdade incontestável. 

Olha só o que fizeram com a garota da parditude (que é questionável mesmo, mas levantou uma pauta legítima). Muitos militantes ridicularizam a figura do pardo, como se o negro de pele mais clara fosse um charlatão, um branco encardido que agora quer se chegar e roubar direitos (que só existem por causa da numerosidade deste grupo, aliás), mas quando o pardo começou a questionar a postura da militância racial, lá veio ela, com um discurso quase criminalizante, tentando encerrar o incipiente debate. Percebe como são rápidos e truculentos ao retomar a narrativa?

Soube que agora não estão gostando do uso da lei do racismo para outras minorias discriminadas. Há quem defenda que isso faz com que percam o contexto histórico desta lei que criminaliza o racismo. Ninguém se cria pra cima do movimento negro (alô, feminismo!) porque eles são obcecados com o poder. Eu tenho formação política, então sei que isso é da política. Como ouvi uma vez, poder não se pede, se toma. É ocupação de espaço mesmo. A disputa política não é asséptica, fofinha. Infelizmente o modus operandi é ser truculento, fazer cabo de força até ganhar. O problema é que tem uma manada desinformada, deslumbrada e querendo o selo de "aliado" que acha que tudo que um militante faz é  incontestável. Aí é que mora o problema... 

Esses movimentos de esquerda são autoritários e dogmáticos, pode reparar. Às vezes é quase como estar numa igreja evangélica, daquelas fundamentalistas. Aliás, é o que mais ouço de dissidentes desses grupos: "Só vivi algo assim antes quando era da igreja". Mas fundamentalismo de gente descolada aparentemente pode (não vou debater aqui a extrema direita porque é dispensável, dado que é flagrante que se trata da lata de lixo da política contemporânea). E as pessoas não questionam porque ser contra tudo isso é receber o selo de "retrógrado", quando não de "desumano". Aliás, não se trata de estar contra as pautas, porque elas são legítimas, mas do dogmatismo. Tudo precisa ser debatido, ponderado e corrigido mesmo quando não nos favorece. Eu sou da escola do que é justo é justo. Acabei de dizer que essa truculência é da política, mas entrego um dos meus terraplanismos pessoais: acredito que a meta do ser humano deve ser perseguir o bom, o justo e o verdadeiro. (Meu outro terraplanismo é achar que sei cantar 😝)

Questionar certezas e corrigir rotas deveria ser de adultos, mas esqueço frequentemente que a sociedade do século 21 é altamente infantilizada. Ninguém aguenta desconforto, talvez só na prancha e por não mais de 100 segundos. 

Outra pauta que venho questionando (e me afastando, não vou mentir) é a queer. Já fui dessa igreja, embora ainda continue rezando a missa do respeito e da dignidade. Mas não defendo que isso ocorra às custas das mulheres. Orixá não é bagunça e mulher também não!

Percebi certos aspectos problemáticos do queer ativismo, com mais clareza, na confusão recente envolvendo a Comissão da Mulher e a Erika Hilton. Em resumo, não acho interessante para as mulheres que apaguem o demarcador "corpo" da definição de mulher. Na lei da misoginia, já não aparece. Detalhe: a turma trans já tem uma lei que criminaliza a transfobia. Tenho uma perspectiva materialista e entendo que é o fato de nascer fêmea que desenrola toda a opressão. A mulher não se resume ao corpo biológico e essa é parte da luta, mas ela é tratada de um modo pela sociedade justamente porque nasce nesse corpo, um corpo, aliás, que nem sequer foi estudado satisfatoriamente. 

Outro dia me questionava sobre o motivo da minha mãe chegar com pior saúde que meu pai aos 79 anos, sendo que ele abusou mais que ela e os dois têm boa genética. Ela, agora com problemas renais, tomou remédio a vida toda. Que mulher não toma? Eu mesma, durante a menstruação, chego a tomar quatro comprimidos pra dor em um dia, até quase desmaiar com a pressão lá no dedo do pé. Aliás, tomamos remédios que não são feitos pensando no corpo feminino. Alás, sequer temos a cura da endometriose a essa altura do campeonato. Como é que corpo não importa? Não dá pra ignorar este fato tão fundante das vidas das mulheres. 

Fora que a questão da autodeclaração, neste caso, deixa as mulheres mais vulneráveis à violência em espaços privados (a questão não é a mulher trans de verdade, mas os picaretas que podem se utilizar deste critério simples e imediato para penetrar espaços exclusivos e íntimos). Este negócio de definir como mulher quem se identifica ou sente como uma não vai dar bom. E travesti existe desde que o mundo é mundo e nunca precisou disso antes. Sempre foi um sujeito à parte, um terceiro sexo. Que eu, aliás, acho mais interessante para todos os envolvidos, inclusive para as pessoas trans. Primeiro, que desejar se enquadrar como homem ou mulher não questiona nada, não avança em nada. Segundo, que isso puxa pra pessoas trans a obrigação de transformar o corpo em um adequado ao gênero de transição (tomando uma quantidade absurda de hormônios, que ninguém sabe ainda como vão bater nestes corpos futuramente) e estimula a negligência com aspectos do corpo de origem (há uma queixa, por exemplo, de que mulheres trans mais velhas não cuidam da próstata). As coisas de mulher e as de homem não vão servir pra esta comunidade porque o corpo existe e estes corpos são híbridos, precisam, inclusive, de políticas públicas específicas. Aliás, esse é um terraplanismo de esquerda que ninguém deste espectro tem coragem de dizer em voz alta (varrer pra debaixo do tapete, eu que tenho Plutão na casa 3, me deixa nervosa): não se muda 100% quem você nasceu sendo. Se eu quiser ser igual a Xuxa, não vai rolar. Eu posso me aproximar, pintar o cabelo, alisar, emagrecer, mas eu sou negra, não vai rolar. É terraplanismo total essa premissa do ativismo queer de que dá pra migrar de uma identidade pra outra. Até dá dentro do seu coração, mas na matéria esses 100% são inatingíveis. 

E se o binarismo oprime tanto, é tão ruim, não entendo tanto esforço pra se enquadrar nele. Criem um terceiro sexo, mudem a cara da coisa.

Outro dia li em algum lugar que um grupo de homens trans querem reivindicar o espaço deles no feminismo. Virou mangue, como se diz na Bahia. Mas sabe por que essas aberrações acontecem? Porque a mulher é criada pra deixar todo mundo invadir o espaço dela, é criada pra ser boazinha, acolhedora e todos os "inhas" que só nos fodem. Agora, diante desta onda de feminicídios no Brasil, quem está com as mulheres? As religiões? O movimento queer definitivamente não. Nem o antirracista, embora as mulheres negras sejam as principais vítimas. Estamos sozinhas há séculos e ainda sendo cobradas pra "acolher" todo mundo. Mulher é o capacho de "todas, todos e todes" mesmo, né?

Cheguei ao cúmulo de ler feminista marxista defendendo o apagamento do corpo do conceito de mulher. Se eu não entendi errado, Marx falava justamente que as ideias não criam o mundo material, mas sim que elas surgem a partir da materialidade. Se uma sociedade está na beira do mar, ela vai ser pesqueira, dificilmente vai adotar a caça como modelo econômico. Uma mulher é tratada como mulher, se torna o segundo sexo, subjugado, justamente porque nasce num corpo de fêmea, caramba!

Ninguém folgaria deste modo com o movimento negro como fazem com o feminismo. Você visualiza alguém tomando a ousadia de chegar pra militância negra pra ditar que não é pra falar de raça porque outros grupos também sofrem racismo, que é pra falar de "pessoas que sofrem racismo", como falam de "pessoas que menstruam"? Quem tem que dizer o que é mulher são as mulheres, e isso não está sendo sequer considerado, que dirá respeitado. Qualquer discordância com o conceito queer de mulher cai na vala da transfobia. Uma "ótima" atitude com um grupo historicamente silenciado.  

Sou da teoria de que tem que estar bom pra todo mundo. Se numa matéria que envolve os direitos das mulheres não está bom para a esmagadora maioria delas, alto lá! Outro dia li uma indígena reclamando que já é invisibilizada racialmente porque o movimento negro apagou a causa indígena e que agora estava sendo invisibilizada na categoria mulher, já que o corpo deixou de ser um marcador por causa do ativismo queer

Outra mulher questionava a cultura drag, que na visão dela é o blackface da mulher. A moça contou que dois amigos gays e negros declararam que se incomodavam com blackface, mas, como fazem show de drag, acabaram com a raça dela quando fez a equivalencia entre as duas coisas. Eu nunca tinha feito essa associação, mas, de fato, se apropriam do feminino, às vezes ressaltando seus aspectos sociais mais problemáticos. A intenção é essa? Provavelmente não, mas alguém que se fantasie de negro mesmo com as melhores intenções, se identificando de coração com essa raça, não vai escapar de uma escovada, de ser acusado de racista. 

Salvador tem um bloco de homens que saem vestidos de mulher. Não pode indígena, não pode negro e até enfermeira, mas mulher pode ser fantasia. E as mulheres ainda devem achar legal que um homem se fantasie de mulher pra não serem atacadas. Tá bom pra você?

Esses são argumentos que, no mínimo, merecem ser debatidos. Eu acho. 

Fico de cara como as mulheres não são respeitadas nem quando a pauta diz respeito só a elas. Todo mundo se acha no direito de invadir o nosso espaço, físico ou simbólico. E somos agredidas se questionamos isso, o que não acontece com absolutamente nenhuma outra minoria - talvez porque elas sejam formadas também por homens e o que é do homem é respeitado. 

E, afinal, por que uma minoria reivindica poder político e social? Por ser maioria numérica. Negros falam de políticas para a negritude por este grupo superar mais da metade da população brasileira dentro do recorte traçado, que engloba o pardo. Sem o pardo não há número pra fazer pressão. Por que a pauta das mulheres tem (ou deveria ter) força? Porque somos a maioria da população. Minha gente, é muito prático querer ocupar um espaço tão suado, que resulta de séculos de luta - e de mortes. Eu mesma nasci em um dia marcado pelas mortes de dezenas delas. Uma luta das mulheres, apenas delas, porque os demais movimentos nunca abraçaram as pautas feministas, nem os LGBTs, pra início de conversa. Os gays falam deles, até as lésbicas ficam apagadas, repare. 

E a cota trans? Os gays e lésbicas nunca ganharam cotas, mas a turma queer, que ainda é pouco representativa na população brasileira, está lá e sem critério algum. Precisa mesmo de cota? Porque a travesti mais lenhada, o trans em situação precária já poderia se beneficiar da cota para pessoas negras. Daí o cara branco e de classe média que se diz não binário de repente tem cota na universidade. Um espaço, aliás, que nem tem direito política pra pcd, pra mãe solo... Eu não sou contra políticas públicas, pelo contrário, mas elas precisam ter critério, serem pensadas e acompanhadas. Estou dizendo o óbvio aqui. Mas se você questiona qualquer coisa, automaticamente vira "transfóbica". Todo mundo, mesmo aquelas pessoas que trazem questões pertinentes, viram inimigos na mesma hora. E nessa os ressentimentos vão se juntando. Os mais fracos sucumbem à extrema direita. 

As pessoas que realmente têm disforia de gênero possuem a minha solidariedade, mas ainda me questiono se a maioria desta turma, se nunca tivesse ouvido falar de não-binário, trans, etc, teria se pensado como alguém deste perfil. Ouso dizer que boa parte quer chamar a atenção e receber um acolhimento, mesmo que de uma parcela mínima da sociedade, acolhimento que não teria se não fosse a identidade queer. Só lembro de um comentário da Fernanda Montenegro, de que ela percebia que algumas pessoas vão procurar nas artes a desculpa para o desconforto de serem como são, quando na verdade não possuem vocação nenhuma para ser artista. Pense em Zelia Duncan, por exemplo. É uma mulher de visual bem masculino. Passando rápido o olho nela você até acha que é um homem. Se ela fosse jovem hoje, seria alta a probabilidade dela querer transicionar. Em suma, enquanto algumas pessoas de fato precisam transicionar para serem quem são, outras tantas precisam amadurecer e se assumirem como são: mulher masculina, homem efeminado. 

As pessoas que gostam de pensar em si mesmas como empáticas e as que são empáticas de fato gostam de torcer pelo lado mais fraco. Essas narrativas possuem um apelo inegável entre pessoas de esquerda, até porque vêm sendo abordadas pela indústria cultural.   

Agora mesmo, nos Estados Unidos, há um monte de filhos de celebridades se dizendo trans ou não-binários. Se elas não estivessem sendo bombardeadas por esse tipo de informação, será que elas se manifestariam assim? Quantas vão sustentar a nova identidade? A seguir cenas dos próximos capítulos. 

É muita imaturidade, pra não dizer outra coisa... E nisso todas as minorias são gente como a gente demais: brilhando em se coçar pra dentro e falhando em elevar o nível da ética, da inteligência e do progresso na sociedade. Mais uma vez, nada de mais, não fosse pelo fato dessa galera não assumir a própria humanidade e se colocar no lugar de régua moral da sociedade, de paladinos da justiça, quando em vários exemplos é possível enxergar mais do mesmo, a reprodução daquilo que, no discurso, se quer mudar. 

Já dizia Paulo Freire (e você sabe a qual frase dele me refiro)...

E tem mais, infelizmente não pára por aí. Há ainda os excessos psiquiátricos.

Todo mundo hoje em dia é neurodivergente. De novo: essas pessoas existem e merecem dignidade e é óbvio que temos mais recursos hoje para diagnostica-las do que há 30 anos, mas quantos foram de fato avaliados? Quantos não receberam um diagnóstico descuidado, lambão e, insatisfeitos consigo mesmos, resolveram usa-lo como uma muleta existencial? A impressão que tenho é que se mandássemos todo mundo ao psiquiatra, teríamos uma reprodução da história de "O alienista", de Machado de Assis. Eu mesma já recebi, numa primeira consulta, diagnóstico de TDAH. Mas sou uma pessoa com deficit de atenção ou sobrecarregada mentalmente? Muitas queixas individuais de hoje em dia são produtos de um capitalismo na sua versão mais filha da puta. Apenas.  

Outro dia, aquele menino do BBB26, Juliano Floss, que foi diagnosticado com TDAH, disse que não sentia mais falta de atenção dentro da casa. Pois é, confinado, sem tecnologia pra sobrecarregar os sentidos, ele conseguiu prestar atenção de novo. 

Resumindo esta conversa, falta critério, sobra barulho, e isso está desorganizando absolutamente tudo. 

Hoje penso assim, pensava diferente ontem e posso rever muitas coisas que escrevi aqui amanhã. Estou neste mundo pra isso: pra aprender, pensar, reformular ideias e rotas, mas com a minha própria cabeça, construindo pensamentos que fazem sentido interno e que tenham correspondência com a realidade (aliás, um dos males da esquerda brasileira é justamente que as ideias não se encaixam nos fatos, por isso também ela não chega no povão). Não acho que falei nada que não seja passível pelo menos de debate, de uma indagação, mas é justamente isso que as pessoas não se permitem mais ter. De fato, temos uma sociedade com muita preguiça cognitiva, que aceita meias verdades sem questionar as meias mentiras que vêm a reboque. Aceitam, como Moisés recebeu de Deus as tábuas, mandamentos, dogmas de gente tão falível e limitada como todos nós somos. È dar muito poder aos outros e esvaziar-se muito de si mesmo.

Não contem comigo pra isso. Se for pra errar, que eu erre os meus próprios erros. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Why Stevie speak so low?


Uma amiga minha terminou um namoro complicado, mas ela só quer assumir um dos fatores que levaram ao fim, a interferência da família. Minha lingua coça e eu estou tentando ser respeitosa, mas outra parte dessa história é que o cara não queria. Não muito. Em relação a mulher, principalmente, o homem, quando quer, resolve, quando não quer, escorrega. Hoje ela soube por ele que ele conversou comigo. Eu não tive coragem de dizer a ela o que ele disse dela, porque fiquei com vergonha alheia por ele, que não disse nada que 90% dos homens não diria. Não foi nada maldoso, porque ele não é uma pessoa má, porém ele fez uma fala insensível. É um egoísmo, um autocentramento que por Deus... Essa é a crise dos relacionamentos hoje em dia: as pessoas de um modo geral estão imaturas e os homens estão com idade mental de adolescente de filme americano. Não dá pra construir uma vida com gente infantilizada. Como diz minha mãe, quem dorme com criança corre o risco de acordar mijado. Nós, mulheres, estamos cansadas do mijo deles. 

Menos uma mágoa pra ela, que continua amiga dele, mas sinto que está livrando a cara do ex porque isso doeria no ego. Não que ele tenha feito algo, mas ele apenas não ama ela. É mais fácil jogar a culpa só na família. Me deu gatilho, pois passei 37 anos da minha vida fazendo essas coisas com as pessoas das quais gostava embora elas não gostassem de mim. Eu passava dez, mais anos aguentando poucas e boas, conversando e nada. Saía com a autoestima toda arrebentada e teria sido melhor ter feito isso logo de primeira. Infelizmente, no Brasil mulher vale pouco e as pessoas leem perdão como coisa de gente otária, capacho. A pessoa maltrata e a gente ainda oferece a outra face. Depois dos 40, perdi a paciência. Como sei que quem faz uma provavelmente fará duas, corto logo. Dizem que é o estrogênio em falta. Se for, já foi embora tarde. 


sábado, 24 de janeiro de 2026

O sonho que só agora entendi

Quando era adolescente, caloura de Jornalismo, uma amiga minha sonhou que ela andava com uma caixa nos braços, e andava, andava, andava, e não conseguia deixar essa caixa em nenhum lugar. Hoje saberia o que dizer desse sonho. Ela, muito imatura na época, mais que a média, recebia uma mensagem do inconsciente: o caminho não é se livrar, é aprender a sustentar a sua caixa, suas bagagens, aquilo que pesa nos braços. Ela fez um conto com esse sonho, mas acredito que até agora não entendeu ele. Soube que, aos 45 anos, ela está em crise. É a meia idade batendo na porta dela, na nossa porta, vendo se a gente fez a lição de casa, se cumprimos a lição de viver de uma forma íntegra. Se ainda fosse amiga dela, faria essa observação. Ela não está sozinha, tem uma multidão de gente, da mesma faixa etária, na mesma barca. Parece uma frase boba, mas é um peso a menos retirar dos ombros a sensação de incompetência individual. É um desafio para todo mundo. 

Esta semana, vi um vídeo no Instagram em que a moça falava sobre a crise entre os 35 e 45 anos. Ela elencou oito pontos de crise: da aparência, do envelhecimento corporal; da saúde, do corpo que já não é tão funcional como costumava ser; da comparação, em que se tem a sensação de que todos sabem viver melhor que a gente; da crise do tempo, em que se percebe que há menos tempo por vir do que o já vivido; do vazio, que por mais que você já tenha realizado, ainda está lá e nada preenche; do recomeço, a sensação de que quer jogar algumas coisas pro alto e começar de novo; a sétima é a dor de ver quem você mais gosta envelhecendo, ficando incapaz e morrendo; a oitava é a crise da aceitação, de entender que certas coisas não vão ser mesmo como queremos e temos que dar adeus a elas pra abrir caminho até para outras possibilidades se apresentarem.  

Concordo muito com essa lista. Aliás, a própria ciência reconhece que a meia idade é a fase mais difícil, apontando que a partir dos 70 anos, volta-se a ter mais vitalidade. É duro lidar com a finitude: com a própria, com a de fases da vida e com a de pessoas queridas. A maturidade, essa musculatura da alma, nos ajuda a sustentar todas essas faltas e lutos. E a maturidade não precisa ser sisuda. Ouso dizer que ela precisa sim ser lúdica, criativa. A vida é um exercício de criatividade. É que nem comida: se a gente não temperar, come ruim, sem sabor, sem vontade, passa mal até.

Não se trata de descartar a caixa no lixo ou dar pra alguém segurar. Temos que nos fortalecer pra aprender a sustentá-la. Ela é nossa, vai conosco enquanto caminhamos; nosso peso e nossos tesouros estão ali. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Valor sentimental

 



Vi "Valor sentimental", de Joachim Trier. Amei! Mas, calma aí, não se empolgue, pois não é um filme para todos. Haverá quem ache lento. Haverá quem ame por ser intimo, lento, interior. Eu tenho daddy issues, então me pegou em cheio. E é com Renate Reinsve, a mesma de "A pior pessoa do mundo". Esse filme é melhor, mas também gostei de "Valor sentimental".

A história começa com a morte da mãe e a volta de um pai ausente, Gustav, renomado diretor de cinema, pras vidas de duas filhas já adultas. Uma é Norma/Renate, uma atriz renomada. A outra, Agnes, já foi atriz na infância, mas largou a carreira depois do abandono do pai e é historiadora, casada e mãe de um menino de 9 anos. 

Obviamente elas são refratárias a presença desse pai, que surge como se nada tivesse feito a elas e as tivesse visto ontem. Norma mais ainda. Ela está numa fase triste, apesar do sucesso profissional. É uma mulher solteira, que duvida da sua capacidade de se vincular. Inclusive, tem uma cena muito tocante da irmã lembrando a ela que foi cuidada por ela na infância. Isso é tão vida real: a gente faz coisas incríveis, engole elefantes, mas não reconhece isso até que outra pessoa diga. Por outro lado, passa décadas remoendo supostos fracassos. Olha só o poder das coisas que, se ditas, teriam mudado o modo como nos sentimos sobre nós mesmos.

A casa da família é um cenário importante. Aliás, eu amo essas casas do norte da Europa. Sou apaixonada por elas desde "A pior pessoa do mundo" e "Dark". Meu sonho é morar num lugar grande, bonito e seguro assim, mas vai ficar pra outra vida. Não sei se é viagem minha, mas achei genial a sacada da descoberta da casa não ser da mãe e sim do pai - há duas gerações. As irmãs achavam que estavam circulando num espaço materno, quando todo tempo estavam no espaço paterno. Na psicologia analítica, a casa significa a psíque e elas duas foram muito moldadas pela ausência deste pai. Só quem viveu esse tipo de abandono sabe como é pesado. É a força que te criou te tratando como insignificante (mais pra frente voltaremos a isso). Senti em mim quando Gustav vira pra Norma e fala "É muito difícil amar alguém que não tem perdão, alguém tão cheio de raiva". Abandono é uma das experiências mais difíceis que um ser humano pode passar. Assim como a personagem, também venho puxando situações de abandono ao longo dos anos pra reviver essa raiva do pai. Pra provar que ele tá certo e eu não presto. Quando um menor é abandonado/rejeitado, não aprende a odiar quem fez isso, mas a pensar que não é suficiente. Se não houvesse testemunha disso dentro do cinema, acho que teria chorado ali mesmo. 

Agnes surta quando o pai tenta transformar o filho dela em ator mirim como fez com ela. O medo da rejeição nasceu ali, quando ela num minuto era tudo pro pai e no momento seguinte havia sumido da vida dele. Norma vai além, porque ela continua dialogando indiretamente com Gustav através da carreira (e ele ocultamente a acompanha, afinal, além de pai, ele é um diretor de cinema) e personifica, como atriz nata que é, as mulheres da vida do pai, ao ponto de muita gente achar que o roteiro que ele quer filmar com ela é sobre a avó de Nora, quando é sobre ela. As duas compartilham a mesma tristeza. Aliás, o povo da Constelação Familiar vai surtar com esse filme.

Mas esse pai se acha maravilhoso e pensa que essa descendência é também maravilhosa por consequência. Já ouvi isso da terapeuta sobre o meu pai: que ele se achava ótimo, por isso não via que problemas nós, filhos dele, poderíamos ter. É um jeito colorido de não ver o outro e se autocentrar na própria vida. Gustav é imagem e som, a ilusão do audiovisual; Norma gosta de palco, intimidade, exposição, verdade. Gustav é bem melhor que meu pai, pois usa a sensibilidade de artista pra ver o lado mais bonito das filhas e do neto. Meu pai ainda fala mais mal do que bem de mim até hoje. Eu só presto quando vivo do jeito que ele acha certo, ignorando que sou outra pessoa. 

O caso é que para além desse egoísmo de Gustav, ele era a alma daquela casa e a levou quando foi embora. E é isso que ele, sentindo a tristeza da mais velha, quer resgatar nela: o espírito vibrante. Ele está no final da vida, quer ficar em paz com elas. Quando Agnes e Norma leram o roteiro, entenderam que a conexão nunca foi embora, que havia amor ali. Norma viu que ela e o pai podiam conversar através daquilo ali, que ele não era insensível a ela. Havia afeto, não do modo esperado, mas do jeito que ele podia dar. Havia. Isso é suficiente pra qualquer coração de filho. Houve paz quando elas viram que estavam sendo vistas por Gustav. 

Posso novamente estar viajando, mas fiquei pensando que o fato de reviver o sofrimento dela num filme dirigido por ele não deixa de ser uma terapia ao estilo psicodrama. Assim como mamãe, papai também é uma espécie de terapeuta. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Deus é maior, maior é Deus

(Estou obcecada por essa música!)

Ontem uma amiga fez um desabafo sentido, não quis entrar em muitos detalhes, alegando uma coisa que eu concordo: tem dores que são tão nossas que ninguém entenderia, nem o psicólogo. E olha que um especialista pega muita coisa. Mas certas coisas, pessoas e eventos só a gente sabe como batem por dentro.

A vida é isso aí, um eterno lidar com o caos, com o tédio e com a ruindade/egoísmo humano. E por isso é um exercício de criatividade, de ver motivação onde tudo se repete; de buscar novos amores mesmo com tantas decepções acumuladas; de aceitar o que não pode mudar, mas procurando mudar o que for possível. Isso aqui, sem a nossa boa vontade pra viver bem, é puro suco de insatisfação. Não cai do céu, a gente é que tem que criar as paisagens que nosso olhos (merecem) vão ver. 

E a gente se autoabandona, como se fosse cair do céu. Porque é muito, muito cansativo mesmo. Eu morro de medo de perder meu poder de criar motivos pra seguir em frente. Racionalmente, há anos acho que não tenho, mas eu quero ter porque mereço ter uma existência bonita. A essa altura, quero mais que sobreviver; eu mereço viver à altura do que plantei, de quem eu sou. 

A gente também respira, se levanta e acredita na sorte outra vez. 

(Clareou, ôôô!...)

sábado, 15 de novembro de 2025

Ninguém quer

Uma figura que simpatizo muito, mas não conheço pessoalmente, está com câncer de mama. Super tratável, tudo indica que ela vai ficar bem. 

Ontem, ela estava comentando no Instagram que muita gente vem falando com ela, inclusive gente que não falava há muito tempo. Entre elas, desafetos. E questionou: por que essas pessoas não me procuraram quando estava no meu auge? Por que só agora que estou passando por um momento difícil?

Confesso que sempre achei pretensiosa, coisa de gente que gosta de se sentir invejada, essa máxima de que seus amigos te parabenizam no sucesso. Eu achava uma conclusão até burra, porque na fartura, quem não vai querer se chegar e morder um pedacinho da abundância? No fracasso, quando essas pessoas não têm nada a ganhar, elas desaparecem. 

Mas tem o outro lado desta moeda. Acredito que estende a mão na dor quem já passou por ela ou quem morre de medo de precisar e dá aos outros o que gostaria de receber. A palavra-chave aqui é trauma, medo. E acho que só quem desceu no inferno tem empatia com quem tá descendo. Nem todo mundo tem paciência pra reclamação, choro, solicitação, história triste. E tem gente que tem medo só de pensar nisso e se afasta. Vi quando uma amiga teve metástase. Muita gente não teve psicológico pra lidar com a tragédia dela e saiu de perto pra não encarar a própria morte. 

Mas acho que entendo o que essa figura da internet quis dizer. Haverá quem comemore o seu sucesso visando tirar uma casquinha dele, mas, via de regra, só suporta o nosso sucesso quem se importa com a nossa felicidade. 

Alguém que volta anos depois de uma ruptura, num momento desse, está interessado em si mesmo e não na pessoa que passa pela tragédia - provavelmente sem consciência de que a motivação é essa. Entendo o que moça quer dizer. Em ocasiões assim, é mais honesto e eficaz orar.


domingo, 19 de outubro de 2025

Mr. Darcy

Muita gente fala porcaria nesses posts de autoajuda de Instagram, mas de vez em quando, acontecem umas exceções. Outro dia, li uma análise do personagem do Mr. Darcy, de "Orgulho e preconceito", que foi na mosca. A pessoa dizia que, ao ouvir as críticas de Elizabeth, ele não resistiu, ele foi atrás de se tornar uma pessoa melhor. Aliás, nem foi esse o caso: ele foi atrás de mostrar o lado bom dele, porque ao resistir ao sentimento que tinha por alguém que ele julgava uma má escolha, também criou resistência a ser generoso com esse relacionamento. Coisas que ele faria a outras pessoas, ele não estava fazendo com Elizabeth. Vou morrer e não vou entender esse delírio masculino de ser endeusado mesmo fazendo birra e oferecendo o mínimo. Amor vem da admiração, oras. A resposta de Liz à declaração dele foi bem neste sentido, de que não tinha como ela se apaixonar por ele já que não era admirável, pelo contrário, era mesquinho e esnobe. 

O orgulhoso Darcy provou que a honestidade intelectual era mais forte que o orgulho. Sabia que só tinha uma chance, que se ele casasse com outra seria infeliz pra sempre. Naquela época, só se casava uma vez. E ele não era de gostar de ninguém, então valorizou esse sentimento inédito. Mesmo hoje não seria muito diferente, exceto pelo fato de que se separar é moleza. Mas, igualmente, se perdesse Liz, mesmo que se envolvesse com ela mais pra frente, não teria a mesma potência, mágoas já estariam instaladas. E ainda que fosse feliz com outra pessoa, não estaria inteiro, sempre haveria um pedaço dele naquela experiência intensa e não concluída. Integridade do século 19 mandou lembranças ao cinismo do século 21.

Darcy analisou, viu que Liz tinha razão em pensar isso dele, se explicou, deu provas de que era um homem íntegro e conquistou a moça pelas ações, não com blábláblá vazio. Ele não quis disputar com ela, sair por cima, etc. Um homem comum teria noivado uma mulher mais rica e mais bonita, pra pisar no calo da outra. Teria usado o silêncio pra manipular, quando simplesmente significava falta de profundidade e empatia. Mas como Darcy respeitava Liz, deu ouvidos ao que ela pensava e tratou de fazer os movimentos que precisava fazer. E o importante, sem deixar de ser quem ele é. Em nenhum momento ele implorou a ela, ele só fez o que julgou ser o correto. Naturalmente, ela passou a ver qualidades nele. Viu o que existia, não o que ela imaginou ou inferiu, como nos é ensinado. 

Você sabe, essa maturidade quase não existe nos homens da vida real. Darcy só podia ser um homem do século retrasado e criado pela imaginação de uma mulher. E não qualquer mulher: Jane Austen prezava pela integridade. Preferiu viver a vida inteira solteira que casar só por casar. E olha que, na época dela, não casar era uma tragédia social. Charlotte Lucas não era fraca nem fracassada. Era uma mulher do seu tempo, pensando pragmaticamente e pensando não só nela, mas na família. Elizabeth/Jane Austen foram ousadas, quase kamikazes. Mas é este o preço que se paga por ser autêntico, e, digo, nunca é demais perto da paz que isso gera.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Let Them

Hoje estava ouvindo uma coluna do Michel Alcoforado sobre a teoria Let Them, da americana Mel Robbins. Já vi vários cortes dela no Instagram, dizendo que é pro povo deixar quem quis ir embora, ir, e quem quiser fazer qualquer coisa, fazer. Toca o seu barco e deixe eles pra lá, ela diz. 

Alcoforado comentou algo que venho comentando em conversas com amigos mais próximos há tempos e por aqui também: essa gestão da vida de modo individualista é altamente mentirosa e alienante. Ou, melhor dizendo, é uma meia verdade.

Não dá pra andar pela vida se abstendo das nossas relações sociais/afetivas. Outro dia, conversando sobre autoestima com uma amiga, dizia a ela que isso não é só uma decisão, mas uma relação. Nos confirmamos através do outro, ou do contrário estamos loucos. Tanto que Freud advertiu: antes de achar que está com depressão, verifique se não está cercado de idiotas. Mudando a relação, quem sabe?, muda-se até a personalidade do indivíduo. 

Obviamente, há contextos mesmo em que o mais inteligente é deixar ir, pois nada se resolve unilateralmente. Mas as relações têm - é humano! - expectativas, desdobramentos e consequências. 

Martha Medeiros, uma figura que acho muito sensata, escreveu uma crônica, outro dia, dizendo que as pessoas têm dificuldade de serem devolvidas a elas mesmas depois de uma separação. Acredito que ela esteja se referindo a quem toma medidas drásticas ou desenvolveu dependência emocional. Porque se ela está falando das situações corriqueiras, pela primeira vez vou pensar que ela não foi razoável. As pessoas sentem, e isso não é demérito. E vamos combinar que raramente as pessoas se afastam de outras que lhes são significativas por nada. Muitas vezes houve mágoas envolvidas, cansaço. Não precisamos ser "civilizados" o tempo todo, acho até um atentado à própria saúde represar sempre as emoções. Uma colonialidade da alma. Os atos têm consequências e quem as cavou que lide com elas também. Aliás, observo que anda faltando um pouco disso no mundo atualmente, e penso que por isso vemos tantos comportamentos que beiram à sociopatia. 

Vou escrever um livro chamado "Let´s face". Que tal? Já aposto que não será best seller. 

 



domingo, 7 de setembro de 2025

Masculino e feminino

Os homens estão ficando estranhos, mais do que já eram. Estão vestindo a roupa do injustiçado e jogando a culpa integralmente nas mulheres. Autocrítica zero, muito pelo contrário. Partiram abertamente pra briga, que é o modo como eles se afirmam no mundo. A cultura redpill tá aí com força e em todas as faixas etárias. 

Almocei, nas minhas férias, com um amigo. Pessoa educada e tal, que até então julgava ponderado, ele me chocou naquele dia. Soltava, com raiva, frases como "Vocês acham que têm o monopólio da virtude". A cara do ressentimento, a um passo da misoginia. Mesmo eu dando um desconto devido a frustração pela separação, ainda assim aquilo ali não se justificava (e ele percebeu que me caiu mal, tanto que depois me mandou uma mensagem claramente desconfiado disso).

Mulheres também cospem discursos ressentidos - eu com frequência e estou, inclusive, tentando dar um freio nisso -, mas quando uma mulher chega neste ponto, ela já se lenhou demaisssssss e, principalmente, tentou bastante se dar bem com os homens. E os homens tentam? Eu não vejo. Acredito que esta é a nossa principal diferença. Ser humano, imperfeito, errático todo mundo é, mas as mulheres tentam. Tentamos tanto que até nos colocamos em risco emocionalmente e fisicamente. Os altos índices de feminicídio estão aí e não me deixam mentir. 

Este meu amigo, que fez um negócio bem mesquinho comigo naquele almoço, aliás, me deu a impressão de ser mesquinho também no casamento dele, que está por um fio. Homens e mulheres entendem errado o que é um casamento, mas os homens vão além e sequer têm a noção de que estão em casal, em família e que isso significa não pensar mais a vida individualmente, mas coletivamente. Frequentemente eles entram num casamento escondendo patrimônio; elas ainda hoje comem mosca neste sentido, talvez por se iludirem que vão ficar casadas pra sempre e que o esposo não lhes prejudicaria. Este amigo em questão me deu a impressão de estar sofrendo porque está pagando sozinho as contas da casa e não tá sobrando muito pra botar na poupança. Não me espantaria ele estar escondendo dinheiro da esposa.

Não convivi com o casal, mas pelo que ele mesmo me conta, a situação é a seguinte: a primeira filha deles vive no hospital porque tem problema cardíaco. A criatura tem três anos. Toda vez que falo com ele, sei lá, em intervalos de três, seis meses, alguma coisa aconteceu com essa criança que teve que ir pro hospital. Agora me diga: podendo bancar, que pais não iam preferir que ela ficasse em casa com a mãe do que com estranhos? A esposa ficou mais dependente, mas isso não veio do nada. Eu ficaria fragilizada se minha primeira filha corresse constante risco de vida. Isso não pode durar uma vida inteira, claro, mas diante da situação, não acho absurdo. Ele chegou a se classificar como um empregado (dela) que paga pra trabalhar. Mas ele não se ressente nem um pouco quando a vantagem é dele: quando ele viaja a trabalho e ela cuida sozinha da criança; quando ele tira férias sozinho e ela, mesmo precisando acudir o pai, proporciona isso a ele e leva a filha com ela. 

E o pior é que ele gosta da criatura, mas do que adianta se é mesquinho na relação, se ele acha que casamento é o mesmo que uma sociedade com um bróder qualquer!? Acho que os caras não entenderam ainda que quando você casa, não tem essa de sua vida lá, minha vida cá e a gente racha as contas no meio como dois amigos na mesa de bar. É tudo de todo mundo de certa forma. Até a lei interpreta assim na maioria dos casos. Se você não aceita isso, das duas, uma: ou você não é capaz de estar num casamento ou não gosta o suficiente do/a parceiro/a pra praticar o "su casa, mi casa". Enfim, se você se ressente quanto a isso, algo está muito errado e é melhor avaliar.

E sinto que ainda sobrevive o mito da mulher interesseira. Cada vez mais mito, diga-se de passagem. Na minha bolha, poucas são as mulheres que dependem do marido financeiramente. Isso quando elas não sustentam a casa. Vejo muito homem na aba, ultimamente. A ciência já aponta isso: enquanto eles casam "bem" conforme sobem de status, elas casam "mal", com homens de status inferior, quando sobem de vida. E vamos combinar (vale pra homens e mulheres): Salvador é uma cidade pobre, a maioria das pessoas ganham muito mal, portanto, a meu ver, o que vale é se o outro é esforçado e responsável, porque se você for esperar por um par que ganhe bem pra se relacionar, vai criar teia de aranha. 

Um amigo meu, gay, resume bem, a meu ver, a cilada hetero: os dois lados querem do outro uma performance de gênero clássica (apesar do ano ser 2025). Eu acho que um pouco daquilo que se diz masculino e feminino vai bem - e pros dois lados -, mas esses papeis clássicos são bizarros, além de altamente desvantajosos pras mulheres. Mas, de novo, os homens estão bem piores quanto a isso. O que as mulheres exigem dos homens, de ser o provedor, ter atitude, etc, eles também estão exigindo/obtendo delas. Porém, e esse é o pulo do gato aqui, eles continuam querendo uma mulher servil em casa e na cama; eles, mesmo os esforçados, não entregam a mesma coisa que elas no ambiente doméstico/privado. 

Mas sabe quando isso vai mudar? Quando as mulheres aprenderem a dizer: "Olha, cidadão, prefiro ficar sozinha de fato do que sozinha acompanhada". E numa coisa tenho que admitir que eles são dez mil vezes mais espertos que a gente: homem, quando está a fim de ganhar, não perde tempo tentando entender no que ele precisa evoluir, especulando sobre as possíveis razões do outro, calculando o cateto da hipotenusa; eles apenas fazem o que precisam fazer pra obter o que desejam. 

Tem muita gente pregando que devemos compreender os homens (sou muito reticente, hoje em dia, em ajudar quem não pediu ajuda ou sequer reconhece que tem um problema), mas acho que em um primeiro momento eles precisam é de um tratamento de choque em massa, pra caírem na real. Isso de jeito algum significa egoísmo, rebaixamento ou maus tratos. Trata-se de tirar o rei da barriga, reconhecer seu verdadeiro tamanho, meter a mão na massa e parar de explorar esse cavalo chamado mulher. O caso é que perder ilusões e privilégios dói. E não vão ser as mulheres que vão pagar por isso, mas é isso que os homens estão dispostos a fazer por agora. Eles simplesmente querem ficar onde estão, mas nós não mais. 


It´s a sin

Neste exato momento estou às voltas com um amigo gay em depressão, pela segunda vez, porque acha que está com uma doença grave. Não é o primeiro, infelizmente.

Minha teoria é que homens gays, especialmente, em particular os nascidos nos anos 70 e 80, internalizaram que o seu desejo é um pecado e que a doença (HIV) é o castigo. Crime e castigo, bem assim. Então, mesmo que não seja a maldita, qualquer doença sexualmente transmissível ou com alta chance de morte leva ao trauma da Aids. 

Tenho um amigo gay que recebeu esse diagnóstico e morreu por dentro desde então. Sabe aquele meme do "acabou a luz, mas sigo funcionando"? É ele desde então. Tenho certeza que o estigma que acompanha a doença é dez vezes pior que a maldita em si. 

Este mesmo amigo me disse algo, uma vez, que me chocou e me partiu em pedaços. Ele, que é uma pessoa dócil. confessou que nunca conseguiu gostar 100% dos pais que, religiosos, o fizeram crescer achando que a sexualidade dele é um desvio, uma coisa errada. Imagine o tamanho dessa ferida, dessa dor. 

domingo, 31 de agosto de 2025

Edouard Louis

Acabei de ler a obra mais famosa de Édouard Louis, "Mudar: método". Gostei. Pra mim, o que ele faz não é bem literatura literatura. Falta um estilo, um trabalho mais fino de escrita. É mais um depoimento, como receber um longo e-mail de alguém. É uma crítica social e sob este ponto de vista vale a pena ler. Principalmente pelo fato de estar em primeira pessoa. Aquilo é real, embora cada narração de si tenha sempre um quê de ficção. 

Assim como o editor dele, eu não esperava ouvir essa história de uma família francesa. Mas a pobreza não é só sobre a falta de recursos materiais, mas fundamentalmente ela mata o espírito. As pessoas se dissociam, se ejetam do próprio corpo, da realidade. Édouard é resultado de uma família de ejetados de si mesmos. Comeu o pão que o diabo amassou para estar presente no mundo, mas pelo visto não conseguiu gostar dele. Ou de si. Tomara que um dia ele consiga desenergizar esse trauma. A pobreza, a privação não é neutra, muito menos feliz. Ela pode sim traumatizar. Assim como para o autor francês, ela é o meu maior medo. Dinheiro significa segurança e dignidade em vários aspectos da vida. Eu me identifiquei muito, aliás, com o pensamento dele, ao longo da vida, de que obter sucesso profissional o deixaria a salvo. Sempre tive o mesmo sentimento, mas ainda estou lutando para me salvar. 

Mas não é só o trauma da pobreza. É também o trauma da solidão, do não poder contar com ninguém. O dinheiro te protege de depender financeiramente dos outros pra sobreviver, de não ter o status de lixo humano. 

Lia o livro pensando que, astrologicamente, ele devia ser um sol de casa 8 como eu. Gente, o excesso de crises ao longo da vida é a cara do sol na casa 8. Bingo, ele é! Edouard também tem um aspecto que eu tenho e que quando vejo no mapa de alguém chega me arrepio: sol em aspecto tenso com saturno. Neste aspecto, a pessoa aprende, através do paí, que a vida não é fácil. Mesmo quando a relação com ele é boa, o filho cresce vendo esse pai se lascando. E essa falta de lastro paterno produz uma sensação de insuficiência, baixa autoestima e principalmente um carrasco interno que açoita a pessoa vida a fora. Pessoas com este aspecto querem o sucesso, mas não qualquer sucesso. Ela tem que estar convencida de que aquilo se justifica, o aplauso tem que ser interno também, senão não vale. 

Édouard se expõe de modo cru e o que mais gosto nele é a forma com que costura os lados das histórias. Ele parece não se poupar - embora, claro, não diga tudo, até porque ele ainda é jovem demais pra ter consciência de tudo -, mas ao mesmo tempo ele sabe se defender, no sentido de nos fazer sentir o lado dele na questão. Eu sinto que ele se esforçou pra ser sincero.

E algumas situações são complexas mesmo, como o fim da amizade dele com Elena. De um lado, a moça ficou com o ego ferido ao perceber que ele, que era socialmente tão aquém dela, já não se contentava mais em ser como ela, mas já almejava ser mais que ela. É aquela coisa da pessoa querer seu bem, mas não que você fique melhor que ela. É muito interessante este ponto porque, embora ele seja branco e francês, Edouard aqui esbarrou num critério que limita até pessoas como ele de pertencer à elite daquele país: a tradição. Ele não tem linhagem. 

Por outro lado, ele realmente soou rasteiro e falso quando na surdina se preparou pra ocupar a vaga dos sonhos dela, que ela não ousava tentar por achar tão difícil. Imagine você contar a alguém que entrar em tal vaga é seu sonho e de repente a pessoa, que nunca se manifestou sobre aquilo, aparecer ostentando a aprovação? Fica parecendo que a criatura sente inveja e quer provar que é mais que você. No livro ele explica, e é um argumento plausível, que ele tinha medo de dizer e ser ridicularizado, mas que pegou mal, pegou. Ele meio que assume que usou muita gente enquanto crescia na vida e entendemos que por trás disso está um pavor em regredir e voltar à pobreza. Acho que só o fato dele admitir isso já fala bem dele.

Responsabilizar-se é uma sofisticação da alma cada vez mais rara. E, no caso dele, é curioso: quanto mais ele foi subindo, parece que mais desenvolveu empatia pelas pessoas que surgiram neste caminho. Talvez porque tenha subido, de certo modo, às custas delas, refletindo e contando sobre elas.  

E por falar em Elena, adorei a resposta que Édouard deu à mãe dela, no livro, sobre a acusação de ter se beneficiado da família delas. Ele questiona se Elena também não se beneficiou do meio em que cresceu. Bingo! Óbvio. Essa gente cresce na vida se beneficiando do meio em que nasceu, dos contatos, dos acessos. Mas algumas pessoas estão autorizadas a se beneficiar e outras não. Enfim, igualdade, liberdade e fraternidade não é para todos, nem na pátria que lançou esse slogan.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Imagens e aventuras

Todos nós, a depender da sua identidade, tem suas imagens de perfeição e aventura. Uma mulher cresce acalentando a imagem da bela, sedutora e amada. A aventura é viver um grande amor. Os homens crescem com as imagens de virilidade, força e heroismo. A aventura é viver em perigo e se sobressair como o mais forte. Pessoas ricas crescem acalentando aventuras profissionais, de aquisição, de ascensão social. Com os meninos da favela, a aventura é a de se tornar o traficante, o criminoso temido ou o jogador famoso, e com isso vem todas as imagens de masculinidade já citadas aqui. Os meninos de classe média se aventuram em intercãmbios e na escalada profissional. Cada um segundo o que seu meio prega como o difícil disponível.  

Na verdade, é até esquisito que a gente se prenda nesta teia de aranha e ache que a vida é isso aí mesmo. Que o ser humano, a depender do grupo, aceite passivamente que aquela é a imagem dele, que aquele é o tipo de aventura que ele tem que buscar. 

Mas será que tem como destruir isso? Será que tem como ampliar os tipos de referências e desejos? Não sei. Alias, cada vez menos sei das coisas.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Flavio

Viajei com Erica, minha amiga de longuíssima data, e conversa vai, conversa vem, falando da família, ela me atualizou sobre Flavio. Nascido em setembro de 1981, ele é um herói da resistência. As sucessivas crises de epilepsia, numa época em que não havia muitos recursos, fez dele uma pessoa que vegeta em vida. Fiquei triste, inclusive, de saber que ele passou dez anos dopado. O pai abandonou ele, o irmão caçula maltrata, a mãe se ejetou do corpo e está exausta e minha amiga não dá conta dele. 

Ele foi a primeira pessoa com deficiência intelectual que convivi na vida. Na adolescência, achava que ele era mais feliz que a gente, por não ter consciência. Mas Erica me contou que ele tinha sim, e se revoltava com as limitações dele. Pois é, aprendi que não é porque alguém não consegue se expressar que não existe um mundo interior, uma consciência crítica. 

A história dele me assusta. Eu fico assombrada vendo como alguém que não tem poder fica vulnerável na nossa sociedade - e olha que vivemos a melhor versão do mundo, com direitos humanos supostamente assegurados. Podem fazer o que quiserem com alguém como Flávio, pois ele não tem como se defender disso. A família o trata como um incômodo. No fundo, devem torcer até pra morrer e acabar essa responsabilidade. Ninguém vai admitir isso, mas aposto que sentiriam um alívio depois da dor imediata. Afinal, ele não está mais aqui em espírito. 

Há um quê de egoísmo nisso, mas, por outro lado, não sou hipócrita e sei que na prática, a teoria é outra. A gente mal se aguenta, que dirá um outro tão demandante. Cansa mesmo e pra quem é cuidador, inclusive, chega a ser desumano. A mãe tem toda a razão de estar no limite, sem paciência. Eu estaria. 

Não existem instituições que ajudem as famílias de fato e há muito preconceito com a institucionalização. Mas somos humanos, tanto pra sentir limites e cansaços quanto para prestar assistência a um ser mais frágil. É complicado resolver esse tipo de situação, eu não sei o que dizer. Só sinto muito por Flávio, que merecia ter vivido a vida e não apenas vegetado. Todo mundo deveria ter o direito, ao menos, de tentar. 

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Feel

 Come on hold my hand

I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given
I sit and talk to God
And he just laughs at my plans
My head speaks a language, I don't understand
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins, going to waste
I don't wanna die
But I ain't keen on living either
Before I fall in love
I'm preparing to leave her
I scare myself to death
That's why I keep on running
Before I've arrived, I can see myself coming
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins, going to waste
And I need to feel real love
And a life ever after
I cannot get enough
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
I got too much love
Running through my veins, to go to waste
I just wanna feel real love
In a life ever after
There's a hole in my soul
You can see it in my face, it's a real big place
Come and hold my hand
I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given

Outro dia, parada estava esperando o uber na Feira de São Joaquim, com Daniela e seu Nildo, e um maluco, desses do Centro, tentou me vender uns colares bem rústicos com pedras ligadas aos orixás. Depois de dizer meu orixá (ele acertou Yemanja, mas errou Ogun), o homem disparou a dizer coisas sobre mim: disse que eu tinha cara de quieta, mas era barril, que eu ficava brava; que as coisas que eu quero vão rolar (isso ele não falou com muita convicção e fui eu que perguntei); disse que no amor eu digo que não quero, mas quero (acho que captei a crítica); mas principalmente me disse que tem muita gente falsa ao meu redor, inclusive na família. Disse que sou do tipo que me dedico ao povo, mas quando viro as costas, essas pessoas não estão nem aí pra mim. Me mandou, quase gritando, me valorizar. Joguei no Google "como me valorizar' e uma das respostas mais coerentes que ouvi é que pra isso você precisa se cercar de gente que goste de você. 

Mas não é essa gente que eu ando procurando incessantemente, sem sucesso, a vida inteira? Quem me trata bem, logo sai da minha vida ou nunca rola um contato mais próximo. Quem eu aposto que vai dar bom comigo, uma hora mete a faca nas costas, sem eu entender por quê. Eu fui maltratada pelas pessoas mais próximas, a quem dei mais e de quem mais gostava. É de lascar, rasga a alma. É o desgosto de enterrar pessoas queridas vivas. Eu tenho um cemitério lotado. A minha vida inteira é lastreada nessas perdas. Eu praticamente só perdi até agora. O que eu tenho? Minha cultura, dois diplomas e saúde, graças a Deus. As minhas relações sociais/ afetivas são um acúmulo de decepções e rejeições: na família não salva ninguém, sem vida amorosa e sem amigos de fato. Quando digo que muita gente não aguentaria calçar os meus sapatos, é a isso que me refiro. É duríssimo viver sem afeto, sem ter com quem de fato contar. Eu não só não tenho, como nunca tive um afeto leal, dos bons. Pego umas migalinhas daqui, outras dali e tô com 'fome" há 45 anos. Racionalmente eu sei que a coisa tá feia pra muita gente, mas eu tenho a impressão que pouca gente se deu mal em todas as esferas como eu. E mesmo que eu esteja errada, o que eu posso fazer se a única coisa que eu sinto é o que se passa aqui dentro?

O que o cara da feira me disse combina com o que uma vidente me falou há alguns meses, de que eu não deveria dizer minhas coisas aos outros, pois nem todo mundo me quer bem. 

Eu realmente, de verdade, não entendo qual é o problema das pessoas comigo. As pessoas agem como se eu fosse privilegiada, quando pra extrair o mínimo do mínimo da vida eu ralo pra porra, estou quase o tempo todo com medo que o pouco que eu tenho vá embora - e ainda tô esperando a tal colheita, pois o que tá aqui não é compatível com o que plantei. Tenho três hipóteses pra esse desamor gratuito:

1) As pessoas que ligam muito para as aparências me reconhecem como uma loser, de acordo com o que prega a sociedade, e tem medo de ser como eu, por isso me tratam como alguém de pouco valor;

2) Ou, por este mesmo motivo, as pessoas acham que eu não mereço ter coisas boas e que defender minha dignidade é metidez, e ficam botando olho gordo nas poucas coisas que, com muito esforço, eu consigo na vida. Porque elas, com muito mais, não vao pra frente (e eu faço até muito a partir de muito pouco);

3) Talvez seja algo inconsciente ou espiritual. Sei lá, uma maldição, um animus adoecido que puxa essa disputa, essas brigas. 

Sinceramente, não sei... Não sou santa, mas não merecia tanto desamor nesta vida. Me diz: se somos relacionais, como me valorizar se ninguém me valorizou ao longo da vida? E com o tempo, você vai se isolando, porque, além de perder energia com o envelhecimento, rejeição dói (e demora pra curar).

Será que um dia vou encontrar a minha turma? 



quinta-feira, 10 de julho de 2025

Nova portaria e o fim de uma era

Decidi hoje que não terei mais amizade com homem. Colega eu continuo sendo de qualquer pessoa, mas amizade quero mais não. De agora em diante, só me junto às meninas, no máximo com os gays (porque há uns bem misóginos). Não dá certo. E nem é pelo motivo que você está pensando, é por outro que atravessa absolutamente todos os meus incômodos de lidar com o sexo oposto: o autocentramento. Isso é pior que egoísmo. Valeska Zanello fez uma distinção da hora entre egoísmo e autocentramento: no primeiro, você vê o outro, e caga; no segundo, você nem se preocupa em olhar pro lado, não tem alteridade alguma. Você acha que ser amiga ou qualquer outro laço afetivo vai te proteger da falta de consideração, e quebra a cara miseravelmente. Homem só olha pro próprio umbigo e eu não estou falando só do amor. É isso em todas as instâncias de relacionamentos. Não dá.

E eu tô pensando muito nos meus relacionamentos. Pra perto, eu só vou manter quem significa. Eu quero troca. Não vou me permitir mais ser usada. 

Fim de uma era. 

terça-feira, 8 de julho de 2025

You may say I´m a dreamer...

Hoje desabafei com um amigo que estou cansada desta vida tão difícil, em que tenho que fazer tanta força para obter o básico. E em certas circunstâncias nem o básico tá me rendendo. 

E sobretudo estou muito esgotada das relações utilitaristas. Parece que é só o que há. E isto está me fazendo endurecer. As pessoas estão com você enquanto é útil, daí quando surge uma situação mais vantajosa (geralmente materialmente), elas pulam de galho descaradamente e te descartam que nem brinquedo velho. Tudo líquido demais, sensação da porra de patinar em gelo fino todo o tempo. Eu não tenho nervos pra lidar com isso.  

Queria, pelo menos uma vez na vida, relaxar e descansar. Mas o que ou quem(ns) é meu pedaço de chão? Onde eu posso deitar a minha cabeça e confiar em dormir? Estou mais nômade que cigano. Não nasci pra isso. Eu quero criar raízes e ter condições de voar. 

Veja, todos os meus movimentos e inclusive brigas nesta vida são pra ser tratada como ser humano, o que frequentemente não acontece. Eu não me sinto enxergada nem por quem é próximo, nem por quem me pôs no mundo. Eu não preciso que ninguém faça nada por mim, eu só queria ser vista e acolhida de vez em quando. Mas ninguém sabe mais como sair de dentro de si e se doar dois minutos ao outro. Me sinto sozinha o tempo todo e o pior, objetificação e ainda por cima, um objeto barato.

Meu amigo disse que o que eu quero não existe mais. Nunca achei que sou sonhadora. Eu acho que é o contrário: as pessoas estão nivelando por baixo demais. Ninguém mais tem ideais, valores e sentimentos. E há tempos venho denunciando o quanto isso é coletivamente perigoso. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

Trauma de família

Eu odeio a minha, na moral. Fora o apoio financeiro do meu pai, que infelizmente precisei ao longo desses anos, esse povo, além de não me ajudar, ainda me atrapalha. E critica quando eu reclamo. Eu sou a ruim da história. Sério mesmo, foram tantos anos de sobrecarga emocional, que eu tomei ranço. Se houver uma situação em que eu precise cuidar dos meus pais, teremos problemas, porque não estou aguentando a mínima convivência mais. Foram anos confinada num quarto e sala com minha mãe, colada em mim, sem vida própria, que não saía de casa. Ela ainda sai de dedicada, quando na verdade virou uma parasita da minha vida. Ninguém gosta de parasita, ninguém suporta ser sugado energeticamente. Mas tive que aguentar porque é mãe (e eu gosto dela, mas não dá pra viver a vida nesta simbiose doentia). Minha mãe tem sido uma figura tão pesada que me tirou qualquer vontade de constituir família. Deus me livre ficar presa a alguém de novo. 

Se minha vida foi uma grande sucessão de abusos emocionais, a família foi o principal palco disso, infelizmente. Me choca como eles se enxergam como pessoas ótimas e não enxergam o quão tóxicos são em família. Eu tenho consciência dos meus, mas eu sou a ponta dessa corda, a última a chegar. Muita coisa já é resposta e autodefesa. Sabe aquela coisa do se der mole, monta em cima? Bem isso aí. 

Meu pai há quatro anos promete me ajudar a procurar a minha casa, mas toda vez, além de me submeter a esse confinamento que eu odeio, que me bota trancada em um quarto minúsculo, não faz nada. É desculpa pra tirar férias. Ele só fez isso uma vez. Ele tira meu sossego pra tirar férias. Só que ele não tem nada pra fazer o dia inteiro; já o meu dia só pára depois das 22h. Eu não tiro férias, mas minha irmã tira e marca pra meus pais chegarem bem no meio de um feriado em que eu poderia viajar (ela viajou, eu não). Acabou com as minhas férias, mais uma vez marcando essa porra dessa viagem sem falar nada comigo. Tive que cancelar. Mamãe querida mais uma vez queria impor a presença dela aqui, mesmo eu falando que não queria ela aqui. Quando eu consigo juntar um dinheiro pra me distrair, a irmã mais velha, mais uma vez, estraga as minhas férias. E eu sou a gente ruim da história. Passei a vida inteira sobrecarregada, nunca ajudada, muito menos emocionalmente, mas eles não hesitam em jogar um peso a mais, como se eu fosse um burro de carga, qualquer coisa, menos um ser humano.  

Qual é o problema deste povo comigo? Eu não faço nada pra essa gente, fico o mais no meu canto possível, mas além de não me ajudarem em nada, eles não estão nem aí pro caso de me atrapalhar. É inveja? É maldade pura? Eu não sei. Só sei que só terei paz quando estiver longe deles. Amém!

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Daniel Keller, a indiferença social, as más escolhas da vida e Vânia Abreu

Esta semana começou com uma notícia chocante, que até agora estou com dificuldade de assimilar: a morte do criminalista Daniel Keller, provavelmente por suicídio. Conheci ele há 16 anos, quando era um menino de 25 anos recém-formado, e trabalhamos na mesma empresa. A impressão que tive dele é de uma boa pessoa, mas mais imaturo do que queria aparentar, com muita vontade de fazer sucesso (e ser validado), mas com baixa autoestima, no fundo. Também não era muito fã de banho e de escovar os dentes, preciso dizer. Sempre teve namorada, nunca estava sozinho, mas sempre o mesmo tipo de mulher-troféu como Jéssica (Senra) e a última, uma advogada que ele noivou e com quem havia terminado há pouco, o que dizem ter sido o estopim pro suicídio (que é sempre multifatorial). Atuou em casos famosos enquanto criminalista, mas nunca pus muita fé na competência dele, não vou mentir. Penso que ele meteu os pés pelas mãos no caso dos irmãos mortos pela médica, por exemplo. Pra resumir, achava ele uma boa pessoa, meio meninão, nada brilhante, porém esforçado e ambicioso. Um ser humano como muitos por aí, mas talvez pra ele não fosse o bastante. (Por que não dizemos às pessoas que não precisam ser excepcionais para serem dignas de serem amadas?)

Keller foi ator amador na escola - assim me contou uma vez. Era muito teatral, performático, então acho que isso dificultou um pouco perceberem que estava mal. Mas mesmo assim, especialmente os mais íntimos, não viram nada? O dia 12, que mexe com quem tem problemas de relacionamento e rejeição, deveria ter sido previsto, já que havia terminado um noivado. Fico besta com essas negligências, mas também acho que Keller foi vítima das próprias ilusões. A gente vai atrás de umas escolhas, imaginando ser olhado e amado, mas no fundo não é algo que a gente queria ou não consegue se preencher com isso. Pior ainda quando essas "escolhas" nos levam a lugares que atiçam os nossos maiores gatilhos. Mulher troféu, assim como o homem trofeu, gosta de receber, de ser paparicada, mas não são boas companheiras. A homenagem de Senra foi muito bem escrita, bonita, mas como as pessoas se entregam nos discursos, ela quase falou dele como um fã qualificado. Esses amigos, será que eram amigos mesmo ou gostavam dele pelo que proporcionava? Se ele largasse a advocacia e escolhesse um caminho menos glamouroso, será que essas pessoas permaneceriam com ele? A família não devia enxergá-lo, tanto que Jessica insinuou que ele tinha questões de infância. E ninguém pensa que pessoas bem sucedidas podem estar quebradas por dentro. Típico. Ficou evidente que ele não tinha um lugar seguro para recorrer em meio a crise. Ele e a torcida do Flamengo, né? Perdemos nosso senso de comunidade.

Gente muito sensível deve evitar ambientes muito competitivos. Alguns são bastante: a advocacia, o jornalismo, as artes, a política. Acontece que é quase irresistível pra gente com pouco amor próprio ir pra esses lugares pra se provar pros outros e conseguir a migalhinha de atenção e de aplauso. Keller se deu bem, mas a que custo? A mesma coisa nos relacionamentos. Se você precisa fazer demais para que alguém olhe pra você, é sinal de que está com as pessoas erradas. Nunca pode ser unilateral e precisa fluir, não pode ser forçado. Neste caso, é melhor distribuir sopa na rua, pelo menos o reconhecimento vai ser mais sincero. 

Três coisas aprendi na vida, mas já tarde: desistir é ter força; rodar máscaras não é falsidade, mas uma necessidade; simpatia nem de longe é quase amor. 

Temos que ter muito cuidado com isso, com o se auto objetificar e também objetificar o outro, porque na sociedade de consumidores, é fácil escolher alguém pra dividir a vida com a mesma lógica que se escolhe tomate na feira. Mas relacionamento, qualquer um, é a junção de bom caráter e afinidades, pede lealdade e não pode ser pensado como um mero custo-benefício. Gente carente - que parece ter sido o caso dele - se dá muito, geralmente para pessoas erradas (egoístas), na esperança de serem reconhecidas e receber algo de volta, mas no final sai magoada e levando apenas algumas migalhas. Ele não se matou por causa desta noiva, mas provavelmente pela sensação acumulativa de nunca ter sido amado de fato. Isso dói. Pena que desta vez ele não conseguiu esperar a dor passar. 😞

No dia dos namorados, data em que Keller se matou, a cantora Vania Abreu participou de um programa de tv e fez uma colocação que achei muito pertinente sobre os amores de hoje. Nascida em 67, ela disse que a geração dela se jogou no amor, aceitando o que vem com ele: o tesão, as alegrias e os sofrimentos. E deu crédito às músicas da época, que imprimiam esta pedagogia, que ensinavam a viver o amor com integralidade. Para ela - e eu concordo - as pessoas hoje estão com medo e as músicas falam de revanche, e não há mais essa preparação para a arena afetiva. Minha geração é bem essa e as mais jovens não sei se estão mais preparadas. Difícil amar querendo só o "venha a nós". 

Esta idade dos 40 é foda. A própria ciência diz que é o ponto mais baixo da felicidade do ser humano. Muita gente se dá conta que não viveu uma vida que valeu a pena. E é nessas horas que a gente pode desequilibrar e cometer um ato extremo de vez. Em um mês, ele é o quarto caso de homem na faixa dos 40, bem sucedido, que se suicida. Isso significa alguma coisa, com certeza. 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Como os nossos pais - no caso, a mãe

Hoje me veio a epifania de que minha dedicação aos estudos é uma reprodução da minha mãe. Não deixa de ser irônico porque a velha tem alergia a escola e livros. Mas assim como ela se dedicou ao trabalho gratuito por toda a vida a fim de ser validada - e a sociedade não valida ambos os trabalhos -, olha eu aqui estudando sem parar - de graça - com o mesmo objetivo. Eu gosto mesmo - e pra sempre - de aprender. Isso é meu, ponto. Mas já virou compulsão, e como toda compulsão quer dizer algo.