Esta semana começou com uma notícia chocante, que até agora estou com dificuldade de assimilar: a morte do criminalista Daniel Keller, provavelmente por suicídio. Conheci ele há 16 anos, quando era um menino de 25 anos recém-formado, e trabalhamos na mesma empresa. A impressão que tive dele é de uma boa pessoa, mas mais imaturo do que queria aparentar, com muita vontade de fazer sucesso (e ser validado), mas com baixa autoestima, no fundo. Também não era muito fã de banho e de escovar os dentes, preciso dizer. Sempre teve namorada, nunca estava sozinho, mas sempre o mesmo tipo de mulher-troféu como Jéssica (Senra) e a última, uma advogada que ele noivou e com quem havia terminado há pouco, o que dizem ter sido o estopim pro suicídio (que é sempre multifatorial). Atuou em casos famosos enquanto criminalista, mas nunca pus muita fé na competência dele, não vou mentir. Penso que ele meteu os pés pelas mãos no caso dos irmãos mortos pela médica, por exemplo. Pra resumir, achava ele uma boa pessoa, meio meninão, nada brilhante, porém esforçado e ambicioso. Um ser humano como muitos por aí, mas talvez pra ele não fosse o bastante. (Por que não dizemos às pessoas que não precisam ser excepcionais para serem dignas de serem amadas?)
Keller foi ator amador na escola - assim me contou uma vez. Era muito teatral, performático, então acho que isso dificultou um pouco perceberem que estava mal. Mas mesmo assim, especialmente os mais íntimos, não viram nada? O dia 12, que mexe com quem tem problemas de relacionamento e rejeição, deveria ter sido previsto, já que havia terminado um noivado. Fico besta com essas negligências, mas também acho que Keller foi vítima das próprias ilusões. A gente vai atrás de umas escolhas, imaginando ser olhado e amado, mas no fundo não é algo que a gente queria ou não consegue se preencher com isso. Pior ainda quando essas "escolhas" nos levam a lugares que atiçam os nossos maiores gatilhos. Mulher troféu, assim como o homem trofeu, gosta de receber, de ser paparicada, mas não são boas companheiras. A homenagem de Senra foi muito bem escrita, bonita, mas como as pessoas se entregam nos discursos, ela quase falou dele como um fã qualificado. Esses amigos, será que eram amigos mesmo ou gostavam dele pelo que proporcionava? Se ele largasse a advocacia e escolhesse um caminho menos glamouroso, será que essas pessoas permaneceriam com ele? A família não devia enxergá-lo, tanto que Jessica insinuou que ele tinha questões de infância. E ninguém pensa que pessoas bem sucedidas podem estar quebradas por dentro. Típico. Ficou evidente que ele não tinha um lugar seguro para recorrer em meio a crise. Ele e a torcida do Flamengo, né? Perdemos nosso senso de comunidade.
Gente muito sensível deve evitar ambientes muito competitivos. Alguns são bastante: a advocacia, o jornalismo, as artes, a política. Acontece que é quase irresistível pra gente com pouco amor próprio ir pra esses lugares pra se provar pros outros e conseguir a migalhinha de atenção e de aplauso. Keller se deu bem, mas a que custo? A mesma coisa nos relacionamentos. Se você precisa fazer demais para que alguém olhe pra você, é sinal de que está com as pessoas erradas. Nunca pode ser unilateral e precisa fluir, não pode ser forçado. Neste caso, é melhor distribuir sopa na rua, pelo menos o reconhecimento vai ser mais sincero.
Três coisas aprendi na vida, mas já tarde: desistir é ter força; rodar máscaras não é falsidade, mas uma necessidade; simpatia nem de longe é quase amor.
Temos que ter muito cuidado com isso, com o se auto objetificar e também objetificar o outro, porque na sociedade de consumidores, é fácil escolher alguém pra dividir a vida com a mesma lógica que se escolhe tomate na feira. Mas relacionamento, qualquer um, é a junção de bom caráter e afinidades, pede lealdade e não pode ser pensado como um mero custo-benefício. Gente carente - que parece ter sido o caso dele - se dá muito, geralmente para pessoas erradas (egoístas), na esperança de serem reconhecidas e receber algo de volta, mas no final sai magoada e levando apenas algumas migalhas. Ele não se matou por causa desta noiva, mas provavelmente pela sensação acumulativa de nunca ter sido amado de fato. Isso dói. Pena que desta vez ele não conseguiu esperar a dor passar. 😞
No dia dos namorados, data em que Keller se matou, a cantora Vania Abreu participou de um programa de tv e fez uma colocação que achei muito pertinente sobre os amores de hoje. Nascida em 67, ela disse que a geração dela se jogou no amor, aceitando o que vem com ele: o tesão, as alegrias e os sofrimentos. E deu crédito às músicas da época, que imprimiam esta pedagogia, que ensinavam a viver o amor com integralidade. Para ela - e eu concordo - as pessoas hoje estão com medo e as músicas falam de revanche, e não há mais essa preparação para a arena afetiva. Minha geração é bem essa e as mais jovens não sei se estão mais preparadas. Difícil amar querendo só o "venha a nós".
Esta idade dos 40 é foda. A própria ciência diz que é o ponto mais baixo da felicidade do ser humano. Muita gente se dá conta que não viveu uma vida que valeu a pena. E é nessas horas que a gente pode desequilibrar e cometer um ato extremo de vez. Em um mês, ele é o quarto caso de homem na faixa dos 40, bem sucedido, que se suicida. Isso significa alguma coisa, com certeza.
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