quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Flavio

Viajei com Erica, minha amiga de longuíssima data, e conversa vai, conversa vem, falando da família, ela me atualizou sobre Flavio. Nascido em setembro de 1981, ele é um herói da resistência. As sucessivas crises de epilepsia, numa época em que não havia muitos recursos, fez dele uma pessoa que vegeta em vida. Fiquei triste, inclusive, de saber que ele passou dez anos dopado. O pai abandonou ele, o irmão caçula maltrata, a mãe se ejetou do corpo e está exausta e minha amiga não dá conta dele. 

Ele foi a primeira pessoa com deficiência intelectual que convivi na vida. Na adolescência, achava que ele era mais feliz que a gente, por não ter consciência. Mas Erica me contou que ele tinha sim, e se revoltava com as limitações dele. Pois é, aprendi que não é porque alguém não consegue se expressar que não existe um mundo interior, uma consciência crítica. 

A história dele me assusta. Eu fico assombrada vendo como alguém que não tem poder fica vulnerável na nossa sociedade - e olha que vivemos a melhor versão do mundo, com direitos humanos supostamente assegurados. Podem fazer o que quiserem com alguém como Flávio, pois ele não tem como se defender disso. A família o trata como um incômodo. No fundo, devem torcer até pra morrer e acabar essa responsabilidade. Ninguém vai admitir isso, mas aposto que sentiriam um alívio depois da dor imediata. Afinal, ele não está mais aqui em espírito. 

Há um quê de egoísmo nisso, mas, por outro lado, não sou hipócrita e sei que na prática, a teoria é outra. A gente mal se aguenta, que dirá um outro tão demandante. Cansa mesmo e pra quem é cuidador, inclusive, chega a ser desumano. A mãe tem toda a razão de estar no limite, sem paciência. Eu estaria. 

Não existem instituições que ajudem as famílias de fato e há muito preconceito com a institucionalização. Mas somos humanos, tanto pra sentir limites e cansaços quanto para prestar assistência a um ser mais frágil. É complicado resolver esse tipo de situação, eu não sei o que dizer. Só sinto muito por Flávio, que merecia ter vivido a vida e não apenas vegetado. Todo mundo deveria ter o direito, ao menos, de tentar. 

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