domingo, 7 de setembro de 2025

Masculino e feminino

Os homens estão ficando estranhos, mais do que já eram. Estão vestindo a roupa do injustiçado e jogando a culpa integralmente nas mulheres. Autocrítica zero, muito pelo contrário. Partiram abertamente pra briga, que é o modo como eles se afirmam no mundo. A cultura redpill tá aí com força e em todas as faixas etárias. 

Almocei, nas minhas férias, com um amigo. Pessoa educada e tal, que até então julgava ponderado, ele me chocou naquele dia. Soltava, com raiva, frases como "Vocês acham que têm o monopólio da virtude". A cara do ressentimento, a um passo da misoginia. Mesmo eu dando um desconto devido a frustração pela separação, ainda assim aquilo ali não se justificava (e ele percebeu que me caiu mal, tanto que depois me mandou uma mensagem claramente desconfiado disso).

Mulheres também cospem discursos ressentidos - eu com frequência e estou, inclusive, tentando dar um freio nisso -, mas quando uma mulher chega neste ponto, ela já se lenhou demaisssssss e, principalmente, tentou bastante se dar bem com os homens. E os homens tentam? Eu não vejo. Acredito que esta é a nossa principal diferença. Ser humano, imperfeito, errático todo mundo é, mas as mulheres tentam. Tentamos tanto que até nos colocamos em risco emocionalmente e fisicamente. Os altos índices de feminicídio estão aí e não me deixam mentir. 

Este meu amigo, que fez um negócio bem mesquinho comigo naquele almoço, aliás, me deu a impressão de ser mesquinho também no casamento dele, que está por um fio. Homens e mulheres entendem errado o que é um casamento, mas os homens vão além e sequer têm a noção de que estão em casal, em família e que isso significa não pensar mais a vida individualmente, mas coletivamente. Frequentemente eles entram num casamento escondendo patrimônio; elas ainda hoje comem mosca neste sentido, talvez por se iludirem que vão ficar casadas pra sempre e que o esposo não lhes prejudicaria. Este amigo em questão me deu a impressão de estar sofrendo porque está pagando sozinho as contas da casa e não tá sobrando muito pra botar na poupança. Não me espantaria ele estar escondendo dinheiro da esposa.

Não convivi com o casal, mas pelo que ele mesmo me conta, a situação é a seguinte: a primeira filha deles vive no hospital porque tem problema cardíaco. A criatura tem três anos. Toda vez que falo com ele, sei lá, em intervalos de três, seis meses, alguma coisa aconteceu com essa criança que teve que ir pro hospital. Agora me diga: podendo bancar, que pais não iam preferir que ela ficasse em casa com a mãe do que com estranhos? A esposa ficou mais dependente, mas isso não veio do nada. Eu ficaria fragilizada se minha primeira filha corresse constante risco de vida. Isso não pode durar uma vida inteira, claro, mas diante da situação, não acho absurdo. Ele chegou a se classificar como um empregado (dela) que paga pra trabalhar. Mas ele não se ressente nem um pouco quando a vantagem é dele: quando ele viaja a trabalho e ela cuida sozinha da criança; quando ele tira férias sozinho e ela, mesmo precisando acudir o pai, proporciona isso a ele e leva a filha com ela. 

E o pior é que ele gosta da criatura, mas do que adianta se é mesquinho na relação, se ele acha que casamento é o mesmo que uma sociedade com um bróder qualquer!? Acho que os caras não entenderam ainda que quando você casa, não tem essa de sua vida lá, minha vida cá e a gente racha as contas no meio como dois amigos na mesa de bar. É tudo de todo mundo de certa forma. Até a lei interpreta assim na maioria dos casos. Se você não aceita isso, das duas, uma: ou você não é capaz de estar num casamento ou não gosta o suficiente do/a parceiro/a pra praticar o "su casa, mi casa". Enfim, se você se ressente quanto a isso, algo está muito errado e é melhor avaliar.

E sinto que ainda sobrevive o mito da mulher interesseira. Cada vez mais mito, diga-se de passagem. Na minha bolha, poucas são as mulheres que dependem do marido financeiramente. Isso quando elas não sustentam a casa. Vejo muito homem na aba, ultimamente. A ciência já aponta isso: enquanto eles casam "bem" conforme sobem de status, elas casam "mal", com homens de status inferior, quando sobem de vida. E vamos combinar (vale pra homens e mulheres): Salvador é uma cidade pobre, a maioria das pessoas ganham muito mal, portanto, a meu ver, o que vale é se o outro é esforçado e responsável, porque se você for esperar por um par que ganhe bem pra se relacionar, vai criar teia de aranha. 

Um amigo meu, gay, resume bem, a meu ver, a cilada hetero: os dois lados querem do outro uma performance de gênero clássica (apesar do ano ser 2025). Eu acho que um pouco daquilo que se diz masculino e feminino vai bem - e pros dois lados -, mas esses papeis clássicos são bizarros, além de altamente desvantajosos pras mulheres. Mas, de novo, os homens estão bem piores quanto a isso. O que as mulheres exigem dos homens, de ser o provedor, ter atitude, etc, eles também estão exigindo/obtendo delas. Porém, e esse é o pulo do gato aqui, eles continuam querendo uma mulher servil em casa e na cama; eles, mesmo os esforçados, não entregam a mesma coisa que elas no ambiente doméstico/privado. 

Mas sabe quando isso vai mudar? Quando as mulheres aprenderem a dizer: "Olha, cidadão, prefiro ficar sozinha de fato do que sozinha acompanhada". E numa coisa tenho que admitir que eles são dez mil vezes mais espertos que a gente: homem, quando está a fim de ganhar, não perde tempo tentando entender no que ele precisa evoluir, especulando sobre as possíveis razões do outro, calculando o cateto da hipotenusa; eles apenas fazem o que precisam fazer pra obter o que desejam. 

Tem muita gente pregando que devemos compreender os homens (sou muito reticente, hoje em dia, em ajudar quem não pediu ajuda ou sequer reconhece que tem um problema), mas acho que em um primeiro momento eles precisam é de um tratamento de choque em massa, pra caírem na real. Isso de jeito algum significa egoísmo, rebaixamento ou maus tratos. Trata-se de tirar o rei da barriga, reconhecer seu verdadeiro tamanho, meter a mão na massa e parar de explorar esse cavalo chamado mulher. O caso é que perder ilusões e privilégios dói. E não vão ser as mulheres que vão pagar por isso, mas é isso que os homens estão dispostos a fazer por agora. Eles simplesmente querem ficar onde estão, mas nós não mais. 


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