sábado, 24 de janeiro de 2026

O sonho que só agora entendi

Quando era adolescente, caloura de Jornalismo, uma amiga minha sonhou que ela andava com uma caixa nos braços, e andava, andava, andava, e não conseguia deixar essa caixa em nenhum lugar. Hoje saberia o que dizer desse sonho. Ela, muito imatura na época, mais que a média, recebia uma mensagem do inconsciente: o caminho não é se livrar, é aprender a sustentar a sua caixa, suas bagagens, aquilo que pesa nos braços. Ela fez um conto com esse sonho, mas acredito que até agora não entendeu ele. Soube que, aos 45 anos, ela está em crise. É a meia idade batendo na porta dela, na nossa porta, vendo se a gente fez a lição de casa, se cumprimos a lição de viver de uma forma íntegra. Se ainda fosse amiga dela, faria essa observação. Ela não está sozinha, tem uma multidão de gente, da mesma faixa etária, na mesma barca. Parece uma frase boba, mas é um peso a menos retirar dos ombros a sensação de incompetência individual. É um desafio para todo mundo. 

Esta semana, vi um vídeo no Instagram em que a moça falava sobre a crise entre os 35 e 45 anos. Ela elencou oito pontos de crise: da aparência, do envelhecimento corporal; da saúde, do corpo que já não é tão funcional como costumava ser; da comparação, em que se tem a sensação de que todos sabem viver melhor que a gente; da crise do tempo, em que se percebe que há menos tempo por vir do que o já vivido; do vazio, que por mais que você já tenha realizado, ainda está lá e nada preenche; do recomeço, a sensação de que quer jogar algumas coisas pro alto e começar de novo; a sétima é a dor de ver quem você mais gosta envelhecendo, ficando incapaz e morrendo; a oitava é a crise da aceitação, de entender que certas coisas não vão ser mesmo como queremos e temos que dar adeus a elas pra abrir caminho até para outras possibilidades se apresentarem.  

Concordo muito com essa lista. Aliás, a própria ciência reconhece que a meia idade é a fase mais difícil, apontando que a partir dos 70 anos, volta-se a ter mais vitalidade. É duro lidar com a finitude: com a própria, com a de fases da vida e com a de pessoas queridas. A maturidade, essa musculatura da alma, nos ajuda a sustentar todas essas faltas e lutos. E a maturidade não precisa ser sisuda. Ouso dizer que ela precisa sim ser lúdica, criativa. A vida é um exercício de criatividade. É que nem comida: se a gente não temperar, come ruim, sem sabor, sem vontade, passa mal até.

Não se trata de descartar a caixa no lixo ou dar pra alguém segurar. Temos que nos fortalecer pra aprender a sustentá-la. Ela é nossa, vai conosco enquanto caminhamos; nosso peso e nossos tesouros estão ali. 

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