sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Valor sentimental

 



Vi "Valor sentimental", de Joachim Trier. Amei! Mas, calma aí, não se empolgue, pois não é um filme para todos. Haverá quem ache lento. Haverá quem ame por ser intimo, lento, interior. Eu tenho daddy issues, então me pegou em cheio. E é com Renate Reinsve, a mesma de "A pior pessoa do mundo". Esse filme é melhor, mas também gostei de "Valor sentimental".

A história começa com a morte da mãe e a volta de um pai ausente, Gustav, renomado diretor de cinema, pras vidas de duas filhas já adultas. Uma é Norma/Renate, uma atriz renomada. A outra, Agnes, já foi atriz na infância, mas largou a carreira depois do abandono do pai e é historiadora, casada e mãe de um menino de 9 anos. 

Obviamente elas são refratárias a presença desse pai, que surge como se nada tivesse feito a elas e as tivesse visto ontem. Norma mais ainda. Ela está numa fase triste, apesar do sucesso profissional. É uma mulher solteira, que duvida da sua capacidade de se vincular. Inclusive, tem uma cena muito tocante da irmã lembrando a ela que foi cuidada por ela na infância. Isso é tão vida real: a gente faz coisas incríveis, engole elefantes, mas não reconhece isso até que outra pessoa diga. Por outro lado, passa décadas remoendo supostos fracassos. Olha só o poder das coisas que, se ditas, teriam mudado o modo como nos sentimos sobre nós mesmos.

A casa da família é um cenário importante. Aliás, eu amo essas casas do norte da Europa. Sou apaixonada por elas desde "A pior pessoa do mundo" e "Dark". Meu sonho é morar num lugar grande, bonito e seguro assim, mas vai ficar pra outra vida. Não sei se é viagem minha, mas achei genial a sacada da descoberta da casa não ser da mãe e sim do pai - há duas gerações. As irmãs achavam que estavam circulando num espaço materno, quando todo tempo estavam no espaço paterno. Na psicologia analítica, a casa significa a psíque e elas duas foram muito moldadas pela ausência deste pai. Só quem viveu esse tipo de abandono sabe como é pesado. É a força que te criou te tratando como insignificante (mais pra frente voltaremos a isso). Senti em mim quando Gustav vira pra Norma e fala "É muito difícil amar alguém que não tem perdão, alguém tão cheio de raiva". Abandono é uma das experiências mais difíceis que um ser humano pode passar. Assim como a personagem, também venho puxando situações de abandono ao longo dos anos pra reviver essa raiva do pai. Pra provar que ele tá certo e eu não presto. Quando um menor é abandonado/rejeitado, não aprende a odiar quem fez isso, mas a pensar que não é suficiente. Se não houvesse testemunha disso dentro do cinema, acho que teria chorado ali mesmo. 

Agnes surta quando o pai tenta transformar o filho dela em ator mirim como fez com ela. O medo da rejeição nasceu ali, quando ela num minuto era tudo pro pai e no momento seguinte havia sumido da vida dele. Norma vai além, porque ela continua dialogando indiretamente com Gustav através da carreira (e ele ocultamente a acompanha, afinal, além de pai, ele é um diretor de cinema) e personifica, como atriz nata que é, as mulheres da vida do pai, ao ponto de muita gente achar que o roteiro que ele quer filmar com ela é sobre a avó de Nora, quando é sobre ela. As duas compartilham a mesma tristeza. Aliás, o povo da Constelação Familiar vai surtar com esse filme.

Mas esse pai se acha maravilhoso e pensa que essa descendência é também maravilhosa por consequência. Já ouvi isso da terapeuta sobre o meu pai: que ele se achava ótimo, por isso não via que problemas nós, filhos dele, poderíamos ter. É um jeito colorido de não ver o outro e se autocentrar na própria vida. Gustav é imagem e som, a ilusão do audiovisual; Norma gosta de palco, intimidade, exposição, verdade. Gustav é bem melhor que meu pai, pois usa a sensibilidade de artista pra ver o lado mais bonito das filhas e do neto. Meu pai ainda fala mais mal do que bem de mim até hoje. Eu só presto quando vivo do jeito que ele acha certo, ignorando que sou outra pessoa. 

O caso é que para além desse egoísmo de Gustav, ele era a alma daquela casa e a levou quando foi embora. E é isso que ele, sentindo a tristeza da mais velha, quer resgatar nela: o espírito vibrante. Ele está no final da vida, quer ficar em paz com elas. Quando Agnes e Norma leram o roteiro, entenderam que a conexão nunca foi embora, que havia amor ali. Norma viu que ela e o pai podiam conversar através daquilo ali, que ele não era insensível a ela. Havia afeto, não do modo esperado, mas do jeito que ele podia dar. Havia. Isso é suficiente pra qualquer coração de filho. Houve paz quando elas viram que estavam sendo vistas por Gustav. 

Posso novamente estar viajando, mas fiquei pensando que o fato de reviver o sofrimento dela num filme dirigido por ele não deixa de ser uma terapia ao estilo psicodrama. Assim como mamãe, papai também é uma espécie de terapeuta. 

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