domingo, 19 de outubro de 2025

Mr. Darcy

Muita gente fala porcaria nesses posts de autoajuda de Instagram, mas de vez em quando, acontecem umas exceções. Outro dia, li uma análise do personagem do Mr. Darcy, de "Orgulho e preconceito", que foi na mosca. A pessoa dizia que, ao ouvir as críticas de Elizabeth, ele não resistiu, ele foi atrás de se tornar uma pessoa melhor. Aliás, nem foi esse o caso: ele foi atrás de mostrar o lado bom dele, porque ao resistir ao sentimento que tinha por alguém que ele julgava uma má escolha, também criou resistência a ser generoso com esse relacionamento. Coisas que ele faria a outras pessoas, ele não estava fazendo com Elizabeth. Vou morrer e não vou entender esse delírio masculino de ser endeusado mesmo fazendo birra e oferecendo o mínimo. Amor vem da admiração, oras. A resposta de Liz à declaração dele foi bem neste sentido, de que não tinha como ela se apaixonar por ele já que não era admirável, pelo contrário, era mesquinho e esnobe. 

O orgulhoso Darcy provou que a honestidade intelectual era mais forte que o orgulho. Sabia que só tinha uma chance, que se ele casasse com outra seria infeliz pra sempre. Naquela época, só se casava uma vez. E ele não era de gostar de ninguém, então valorizou esse sentimento inédito. Mesmo hoje não seria muito diferente, exceto pelo fato de que se separar é moleza. Mas, igualmente, se perdesse Liz, mesmo que se envolvesse com ela mais pra frente, não teria a mesma potência, mágoas já estariam instaladas. E ainda que fosse feliz com outra pessoa, não estaria inteiro, sempre haveria um pedaço dele naquela experiência intensa e não concluída. Integridade do século 19 mandou lembranças ao cinismo do século 21.

Darcy analisou, viu que Liz tinha razão em pensar isso dele, se explicou, deu provas de que era um homem íntegro e conquistou a moça pelas ações, não com blábláblá vazio. Ele não quis disputar com ela, sair por cima, etc. Um homem comum teria noivado uma mulher mais rica e mais bonita, pra pisar no calo da outra. Teria usado o silêncio pra manipular, quando simplesmente significava falta de profundidade e empatia. Mas como Darcy respeitava Liz, deu ouvidos ao que ela pensava e tratou de fazer os movimentos que precisava fazer. E o importante, sem deixar de ser quem ele é. Em nenhum momento ele implorou a ela, ele só fez o que julgou ser o correto. Naturalmente, ela passou a ver qualidades nele. Viu o que existia, não o que ela imaginou ou inferiu, como nos é ensinado. 

Você sabe, essa maturidade quase não existe nos homens da vida real. Darcy só podia ser um homem do século retrasado e criado pela imaginação de uma mulher. E não qualquer mulher: Jane Austen prezava pela integridade. Preferiu viver a vida inteira solteira que casar só por casar. E olha que, na época dela, não casar era uma tragédia social. Charlotte Lucas não era fraca nem fracassada. Era uma mulher do seu tempo, pensando pragmaticamente e pensando não só nela, mas na família. Elizabeth/Jane Austen foram ousadas, quase kamikazes. Mas é este o preço que se paga por ser autêntico, e, digo, nunca é demais perto da paz que isso gera.

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