Outro dia, sentada na areia, compartilhei algumas angústias minhas com uma amiga querida. Pra minha surpresa, apesar de ter um temperamento oposto e ser bem mais jovem, ela disse que já havia passado pelo mesmo.
Na verdade, a medida que envelheço, vejo que as questões são muito parecidas, mas ninguém fala. Então fica todo mundo com a sensação de inadequação. As pessoas só contam quando você conta algo a elas. Quanta solidão e sentimento de inadequação seriam evitados se a gente falasse mais francamente com as pessoas mais próximas?
Já entrei em muita fria simplesmente porque ninguém me falava as coisas e eu achava que o problema era comigo. A mais fofa delas foi quando eu tinha três anos e chorei numa festa lá em casa porque o telefone não conversava comigo. Mas chorei tão sentida que a festa parou pra me acudir, o povo achando que eu tinha me machucado. Quando me perguntaram, eu só soluçava e balbuciava "Por que ele não quer falar comigo!?", sentindo a rejeição por todos os poros do meu corpo. Reza a lenda que demoraram um pouco pra entender o absurdo da situação, que eu, um bebê grande, pensava que o telefone era mágico e bastava tirá-lo do gancho pra alguém conversar comigo. Tinha aproveitado que ninguém estava me vendo pra me aventurar - sempre adorei fazer isso -, e quando ouvi só "pupupu" do outro lado, não aguentei tanta rejeição. Fiquei arrasada, humilhada, chorei muito e sentida. Fim da história: me explicaram como funcionava o telefone, eu me acalmei imediatamente e fui brincar. Eu só precisava saber.
Minha família, que quase não gastava filme tirando fotos das crianças, tirou uma enorme minha com a cara inchada de chorar e segurando, inconsolável, o telefone de casa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário