terça-feira, 17 de março de 2020

This is Lu



Luísa me liga no dia do meu aniversário. Claro que ela não sabe que é meu aniversário, a mãe é que pôs ela no telefone, mas ela sabe o que é um aniversário de todo modo. Ela me pergunta se vai ter festa, e eu digo que não. Pergunta, então, se vai ter bolo e eu nego. Por fim, ela me dá os parabéns, responde um par de perguntas minhas e se pica meio desapontada.

This is Lu.

Ladina que só ela. Mas titia ama mesmo assim, hehe. Eu saquei Luísa com dois meses de idade e aprendi uma coisa sobre o amor: amar é achar graça até nos defeitos. Acreditem, isso é possível.

Luísa fez cena comigo quando ela mal se movia, com dois meses, me castigando por ter desaparecido alguns dias. Esse tipo de coisa que os bebês fazem me intriga. Como é que sabe que a gente é família, que a gente faz parte de um grupo que não é equivalente a qualquer pessoa, a todo mundo? Só pode ser algo epigenético-espiritual mesmo.

Antes de aprender a andar, ela já dava as dela. Aprontona, quando era retirada do local do crime, gritava "Aiiiii!". Ela sacou que o "ai" fazia a pessoa largar ela. Quando aprendeu a falar, aprendeu também a comer o mundo. Não podia ver ninguém comendo que maliciosamente chegava perguntando o que era aquilo, só pra pessoa oferecer um pouquinho e ela beliscar.

A lista é extensa. Luísa sabe como se dar bem. Sabe até demais e às vezes até passa do ponto. Eu me preocupo com isso, mas é mais fácil trabalhar esses excessos do que a falta de energia. E ela tem energia vital, ela está na vida, ligada, imprimindo movimento. Dessa parte dela eu sou fã. Também aprecio a inteligência.

Um dos dias mais estranhos na vida de quem é "boa pessoa" é descobrir que fazer tudo certo e ser bom não te poupa de nada e não te traz recompensa. A única é a de você com você mesma. Se Luísa crescer sem se sentir assim, não vou mentir a ela que ela precisa ser boa pessoa porque a vida será boa com ela. Mas espero que se essa não for a natureza dela, que ela ao menos seja responsável.




terça-feira, 10 de março de 2020

Rabiosa

Nós, brasileiros, somos um povo cheio de raiva. E raiva tem a ver com frustração, com decepção, com a sensação de injustiça. Por mais que sejamos problemáticos em nossas condutas, temos motivos para ter raiva, pois este é um país que toma infinitamente muito mais do que entrega. Só o medo que a gente tem da violência já inviabiliza a existência saudável no Brasil.

É o ônibus lotado, é o calor que faz passar mal, é a rua sem asfalto, é o salário curto (isso quando não se está desempregado), a Saúde que não funciona, a insegurança total e absoluta, a dificuldade até de obter o benefício quando doente. Há motivos, e ninguém pode negar.

Só a raiva, acho, explica elegerem Crivelas e Bolsonaros da vida. E a raiva, em dado momento, é irracional e tóxica.

O brasileiro se fode tanto que tem raiva de quem recebe qualquer ajuda. O brasileiro só admite ajuda mediante humilhação. "Quem quer comer faz qualquer coisa e consegue o dinheiro", disse o cidadão de bem que dirigia o Uber outro dia.

A raiva, tóxica, faz a gente esquecer, a despeito das fraudes que, infelizmente, sempre acontecem, que o Bolsa Família é necessário para tirar alguns indivíduos, que vivem quase como animais, desse patamar.

Temos raiva e com razão, mas através dela, ao invés de construirmos a reviravolta, investimos na mesquinhez como esporte nacional.

domingo, 8 de março de 2020

Dialógos da depressão

1: O que você costuma fazer quando está na merda, querendo sair correndo por aí e berrar?
2: Eu bebo e assisto Gossip Girl. Às vezes só bebo mesmo.
1: Gossip Girl presta?
2: Essa é uma pergunta difícil.
1: Olhei agora. Menino, isso é rich people problems.
2: Sim.
(pausa)
1: É isso que faz passar a sua raiva da vida?
2: Sim. 😅
1: Masoquista.
2: Ah, é porque é tão distante de mim que eu nem penso que é o mesmo mundo.
1: Entendi. É tipo Star Wars só que em Manhattan.

Siga a sua paixão

Essa semana um colega me enviou um TEDx muito bom sobre profissão, o tipo de material que eu queria ter tido acesso aos 20 anos e teria me ajudado um montão. É o seguinte: uma mulher, ex-produtora de Marta Stewart, um dia perde o emprego e a partir daí ela reanalisa essa questão de carreira, de seguir a sua paixão. Ela sugere que em vez de procurar uma paixão, que se procure por algo que faça sentido, que a pessoa ache importante fazer.
Ela pontua umas coisas interessantes sobre essa frase que se tornou um mantra:
1) Paixões mudam ao longo da vida;
2) Você descobre coisas interessantes sobre você quando está fazendo outras coisas, você descobre habilidades e interesses que não imaginava;
3) A vida acontece enquanto você está fazendo; não é algo que você constrói e depois vive;
4) Paixões implicam em grande tempo de espera e até por isso esse lema é elitista.



Fora que, assim como as paixões amorosas, haverá quem vai passar pela vida sem tê-las. E tudo bem. Mas a cultura fala "Faça o que você ama e nunca mais vai ter que trabalhar". Por favor, se ligue: fazer o que você ama é às vezes a deixa nociva para se preocupar em dobro e se anular como indivíduo. Conheço gente assim.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Eject

Eu tenho visto que a eutanásia está em questão em Portugal. Não li sobre isso ainda, mas achei massa. Acredito que as pessoas devem ter o direito de decidir sobre tudo, inclusive sobre quando e como morrer. Pena que num fim de mundo como o Brasil isso nunca vai ser discutido, regulamentado.

Eu fico pensando em Fernanda, que está com câncer metastático, e eu, apesar de não saber o que se passa com ela, acredito que mais do que a perspectiva de ter uma vida mais breve, a dor é que deve ser a verdadeira tortura dela. Eu não saberia conviver com dor física por quase uma década. Não sei o que ela tem a perder, mas, no meu caso, eu preferiria morrer, pediria uma morte digna, sem tanto sofrimento. Aliás, a irmã caçula dela, que passou anos também lidando com o câncer, pediu pra morrer. Eu entendo. As pessoas deveriam largar de hipocrisia e também entender. Mas é que eu acho que aceitar a vontade dos outros de morrer mexe com as frágeis certezas delas sobre querer viver ou sobre outros entes queridos quererem viver.

Eu não tenho medo de morrer, eu tenho medo do como, de sentir dor, de ser torturante.

Confesso que não saberia o que dizer a alguém que cansou de viver. Eu saberia, acho, demover alguém que está querendo morrer por causa de terceiros, até porque isso é muita estupidez, mas não por estar cansado da própria vida. Poderia dizer: "Aguarda mais um pouquinho, espere pra ver se as coisas melhoram", mas não ousaria contestar o seu cansaço. Quem calça o sapato é quem sabe onde o calo aperta.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

This is us







A primeira vez que ouvi falar dessa série foi no Facebook. Alguém comparou-a às novelas de Manoel Carlos. Sem querer rebaixar a produção nacional, mas, na boa, nem em mil anos MC chegaria nesse nível. Até porque há certas diferenças culturais. Entre os autores brasileiros, acho que a Lícia Manzo, de "A vida da gente", é a mais próxima do texto de "This is us".

Resolvi experimentar pra ver e me apaixonei. Por que resolvi ver? Porque além de me interessar por relações interpessoais, por questões de família, eu amo Milo Ventimiglia há 20 anos. Eu conheci ele ainda adolescente, quando protagonizava um seriado teen que parou na primeira temporada, chamado "Opposite sex". Uns parenteses aqui: esse seriado realizou uma das cenas românticas teen preferidas da vida. O personagem de Milo é um garoto comum da escola, nem loser nem winner, que, se não me engano, se mudou pra aquela cidade nova e está em processo de se encaixar ali. Ele faz amizade com uma menina que é toda perdida, nem de longe a mais bonita, mas alegre e sensível. Uma graça. Um belo dia, ele a acompanha em alguma festa onde vai estar um cara mais velho tocando, por quem ela está apaixonada. E o sujeito trata os adolescentes muito mal, deixa o povo olhando de um cercadinho. Na hora em que Milo vê a amiga ali, decepcionada por causa de um bonitão babaca, ele fica indignado, querendo tirar ela de lá, querendo dar um consolo, e daí ele percebe que se apaixonou por ela e se pergunta por que alguém que não tem nada de especial desperta nele tanto carinho. A cena é uma graça, de um romantismo crível e delicado.

Depois assisti Milo como o Jessie de "Gilmore Girls", todo rebelde, nenhum porte de galã dos anos 50, porém munido de charme masculino. Aí vem "This is us" e ele acaba de matar mamãe interpretando o marido e o pai dos sonhos. <3

Por causa dele eu comecei a assistir a série, que é fofa sem deixar de ser realista. Jack é o meu preferido, mas eu gosto de quase todos os personagens.

Jack teve uma vida familiar de merda, mas conseguiu construir uma família massa. Eu gosto muito de ver isso: gente que, pela dureza da vida, tinha tudo para não dar amor, mas, por essência, seguiu pelo caminho do afeto. A cola de tudo isso era a esposa, uma fofa, que ele amava profundamente. Aliás, Mandy Moore me surpreendeu como atriz. E o roteiro da série é bom, então a mãe, apesar de ter muito da mulher ideal, é um ser humano com suas dores, dúvidas e fracassos. Adoro Rebecca. Ela não é a típica mulher que joga toda culpa no marido; ela olha para ele. Contrariando a máxima de Contardo Calligaris, de que as pessoas se casam para ter em quem jogar a culpa pelas suas frustrações, da vez em que Rebecca tentou fazer isso, ela depois refletiu e viu que Jack também sacrificou sonhos em prol da família. E ele também reconhece a importância dela para que aquele lar seja o que é. Na verdade, como ele mesmo admitiu uma vez, a vida dele só ficou boa quando conheceu ela. Isso é amor: você não tem a pessoa perfeita, mas você admira, presta atenção e entende essa pessoa, nunca desiste de mantê-la como companheiro de trincheira.

A história é a seguinte: filhos de lares complicados, Jack e Rebecca se conhecem e logo se casam. Ela quer ser cantora e ele tem talento para a construção/arquitetura. Em determinado momento, ele pede a ela por filhos e, enfim, apaixonados até a raiz do cabelo, esperam trigêmeos (é sempre assim: Rebecca, como a linha de frente da família, claro, tem dúvidas, e Jack empurra a coisa pra frente dando segurança a ela). Os filhos são Kevin, que é um ator cheio de inseguranças, Kate, que é meio perdida também, mas, ao contrário do irmão, tem como acréscimo ser o oposto do padrão de beleza, e tem o Randall, filho adotivo, negro, que é ansioso, obcecado por controle e perfeição, mas, bem sucedido, é o único entre os irmãos com a família margarina (amo o núcleo de Randall!).

Todos da família são profundamente influenciados pelo amor incondicional de Jack, mas por isso mesmo a ausência dele deixa buracos que contribuem para o mal-estar de todos no presente, quando os filhos já tem 36 anos, mesma idade do pai quando eles nasceram. Jack era obstinado em manter aquelas pessoas bem. Ele não depreciou ou largou nenhum filho por mais que os meninos fossem difíceis desde pequenos. Como disse o médico, era a pessoa que teimava em fazer do limão uma grande limonada. Tem uma fala de Kate, que era a preferida do pai, em que ela conta que toda vez que chovia, escangalhava a janela do quarto dela e entrava água no quarto. E toda vez, sem reclamar, com toda paciência, ele consertava a janela para que não molhasse mais a filha. Convenhamos que na vida adulta achar alguém assim é achar agulha no palheiro. Jack tinha mesmo que fazer muita falta. Um legado de amor desses é pra glorificar de pé. E, veja, não custa nada gostar das pessoas e mesmo assim anda difícil pra caramba.

Uma das cenas mais lindas da série, para mim, é essa primeira. Nesse episódio, os meninos deram problemas do início ao fim, nesse dia que era pra ser divertido, mas, no final, Jack conseguiu fazer todo mundo se aconchegar no peito dele - e ele apoiado no colo de Rebecca. Melhor metáfora dos Pearsons não há.

O grande destaque de "This is Us" está no texto, que todo episódio vai trazer algo pra nos fazer chorar. É batata. Você quer ser como os personagens, mas, ao mesmo tempo, se identifica bastante com as fraquezas deles. Caramba, nas primeiras cenas de Kevin, dele como ator, eu tive vontade de arrancar ele dali. É isso, é uma série sobre empatia. Quando você acha que entende um deles, lá vem um flash-back (e ultimamente um flash-forward) pra acrescentar mais um dado que ressignifica aquele personagem na trama.

Não tem muito como explicar uma série sobre personagens. É uma questão de envolvimento emocional, de achar carisma naquelas figuras. Mas eu acho que "This is Us" traz, acima de tudo, boas reflexões sobre os nossos relacionamentos, sobre a vida da infância à velhice. Eu recomendo muito.





Você tem fome de quê?

Eu tô muito gorda, no nível de estar perdendo roupas já. Estou fazendo dieta. Na verdade, como não tenho muita paciência para ficar passando fome, tô cortando açúcar, industrializados e tal. E percebi que realmente o açúcar tem um papel na minha química, no meu humor. Eu fico triste sem as minhas guloseimas.

Há muito tempo tenho a teoria de que "a seco" ninguém encara essa vida. Há quem compre, quem jogue, quem ande freneticamente atrás de sexo e até quem se entretenha evitando tudo isso, se esforçando demais para ter o controle de tudo. A comida é, talvez, um dos prazeres mais democráticos. Em minha viagem de agora, para a Paraíba, vi um menino de rua pedindo guloseimas e sendo atendido pelas pessoas. Até ele pode se deliciar de vez em quando. A felicidade de um bom churros pode não ser duradoura, mas é intensa enquanto dura. <3

Quem tem fome de vida e tá de prato vazio geralmente descamba para a comida. O padrão que eu percebo (repito: que eu percebo, pois não fiz pesquisa, nem sou psiquiátrica ou psicóloga) no álcool é de gente que quer fugir de conflito, que quer se acalmar. Álcool é como uma anestesia para as dores da vida. O guloso quer afeto, quer prazer e, não tendo isso, vai se consolar com a acolhedora, saborosa e disponível comida. Tem até um termo para certas comidas, "confort food", que são comidas acolhedoras, que geralmente trazem uma memória afetiva.


A personagem da foto acima é Kate de "This is us" (em breve escrevo sobre isso). Ao contrário dos irmãos, ela não tem um conflito interno gerado a partir da família. Os pais foram ótimos com ela, mas todos nós carregamos uma alma e a dela é frágil. A vida é dura e pode ser duplamente dura para quem não aprende a ser forte. Talvez ela tenha endeusado as pessoas da família e, não se achando à altura, tenha dado início ao processo de esconder-se atrás da gordura, de buscar afeto na comida. 

Eu sempre digo que as pessoas não têm um problema porque são gordas, mas se tornam gordas porque têm um problema emocional. Não se deixa de ser gordo só com bariátrica, reeducação alimentar e academia. Ninguém engorda porque tem fome, mas porque desconta algo, uma carência de algo, na comida. Por isso que pressionar a pessoa a perder peso não funciona, pelo contrário. Isso só serve para a pessoa se afundar ainda mais. 

Uma amiga minha que é psicóloga faz acompanhamento de gente que fez bariátrica. Ela diz que é muito comum a pessoa trocar uma dependência por outra, geralmente por bebida ou sexo. 

Ou seja, folks, a vida é complicada pra caralho. Até Brad Pitt, a quem teoricamente nada falta, disse isso e não sou eu, pobre mortal, Maria Ninguém, que vou discordar. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Fraude do Gugu



Nunca gostei de Gugu. Nem dele, nem do Huck. Ambos lucram com a miséria alheia, mas fazem beicinho de quem tá comovido, tá ajudando de coração. Gugu era mais fake ainda do que o marido de Angélica. Menos mal que, dizem, era generoso com as pessoas ao redor. Levo isso em conta ao formar minha opinião.

Então não me surpreendi quando veio o testamento e ele simplesmente ignorou a mãe dos filhos dele. Óbvio que ela não tem direito a metade do que é dele, porque ele já tinha tudo isso quando constituíram família. União estável não é essa festa toda que o povo acha; tem critério na coisa. Claro, todo mundo sabia que Gugu era gay. Eu, criança, me lembro de ter lido em uma Contigo! da vida uma matéria sobre o rompimento dele com Silvinha, ajudante de palco do Viva a Noite, e ela dizendo que ele só alisava, insinuando mesmo que não havia sexo. Com uma mulher normal, que gosta de sexo, ele nunca conseguiria levar essa farsa adiante. E Rose Miriam parece ser obcecada por ele, o que alguns conhecidos do casal confirmaram. A pata perfeita. Não importa se rolou muito dinheiro, mas se prestar ao que ela se prestou, subjetivamente, e colocando na conta que era uma mulher jovem e longe de ser uma pobre coitada, foi pesado. Por isso que adoeceu, porque se anulou demais, provavelmente esperando um reconhecimento dele que nunca veio, cuja pancada final foi o testamento.

Sim, porque eu acho que em duas coisas ele foi inegavelmente sacana. A primeira foi ter dado a curadoria das meninas à irmã. Poderia ser compartilhada, mas não tratar a criatura como se nada tivesse a ver com os próprios filhos. A segunda foi não ter garantido uma renda vitalícia. Ela foi o armário dele por 20 anos, ele a sustentava (porque se não queria fazer isso pra sempre, que deixasse claro desde o começo) e ele inclusive ganhou dinheiro com essa imagem de homem de família. Para o produto Gugu, Rose e os filhos foram um plus, não tenha dúvida. Ela foi mais importante para ele, economicamente, do que os sobrinhos que ele fez de herdeiros. Achei muito feio a família dele falando dela como se fosse uma completa estranha, como se ao ser mãe dos meninos de Gugu não fizesse parte da família de alguma maneira.

Gugu tinha que ser coerente no testamento com o que fez parecer em vida - 25 anos de capas de Caras estão aí pra não deixar mentir (vide essas fotos aí de cima). Sempre comparo o caso de Gugu com o de Michael Jackson. Na prática, foram bem semelhantes, mas MJ sempre jogou limpo, sempre situou a Debora no lugar dela de barriga de aluguel para ter filhos.

Dizem os advogados que Gugu deixou pra ela uma casa de 6 mi em São Paulo e que ela tem um investimento de meio milhão de dólares nos EUA. Primeiro que o imóvel não garante a ela uma renda compatível com a que ela tinha com Gugu e vitalícia. Segundo, esse investimento foi com o intuito de garantir o Green Card, e não sei se renderia o suficiente para mantê-la mensalmente. Se ele deixou uma pensão para a própria mãe, por que a mãe dos filhos dele não receberia? Não vai ser aos 57 anos que ela vai conseguir se reposicionar no mercado para ter o padrão de vida a qual está acostumada há 20 anos.

Eu penso assim: se eu fosse milionária, não tivesse nada com o pai dos meus filhos, mas se ele tivesse sido um bom pai e sempre disponível para mim, enfim, se tivesse sido meu funcionário como a Rose foi com o Gugu, criando os filhos (e ainda que tenha sido um negócio, envolvia afetividade e uma vivência de família), eu faria questão de deixar essa pessoa bem. Deixaria uma boa pensão vitalícia e uma casa, compatível com o que a pessoa tinha quando eu era viva. Pode não ter sido nada meu, mas será de meus filhos, de meus netos. Filho amanhã casa, vira a cabeça por causa de namorada, etc, é injusto deixar a pessoa passando o pires assim. Eu acho que a pessoa que vai criar meus filhos e netos é tão importante como os de sangue.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Aprendizados

Sempre gostei de aprender. Desde quando comecei a trabalhar, há quase 20 anos, nunca deixei de aprender/conhecer alguma coisa nova, pelo menos, todo ano. Fiz uma retrospectiva aqui.




2000 Primeiro estágio. Primeira matéria publicada.
2001 Curso de italiano e de audiovisual. Grupo de pesquisa. Primeira vez como repórter no jornal da faculdade. Tentei aprender webdesign, mas não deu certo.
2002 Empresa Junior, primeira experiência com o audiovisual. Primeiro contato com a psicologia.
2003 Primeira viagem sozinha. Conheci Olinda, Recife e Porto de Galinhas. Conheci Minas Gerais. Fui ao meu primeiro congresso de Comunicação. Primeira vez publicada no jornal A TARDE.
2004 Aprendi a dirigir, tirei carteira. Aulas de forró?
2005 Astrologia. Tive algumas poucas lições de espanhol num curso em Brasília.
2006 Violão (to be continued) e blog. Aprendi a diagramar. Primeira vez trabalhando em campanha política.
2007 Comecei de fato as aulas de espanhol. Pilates.
2008 Primeira vez no São João do interior da Bahia. Primeira experiência em campanha política no interior.
2009 Primeira vez trabalhando de carteira assinada. Primeira vez fazendo terapia.
2010 Primeira vez em jornal. Primeira vez no Sul, em Santa Catarina.
2011 Primeira vez em São Paulo e em Itacaré. Primeira vez fora do país, na França e em Portugal. Comecei a aprender francês. Dança do ventre.
2012 Tia pela primeira vez. Constelação familiar pela primeira vez. Hidrobike.
2013 Fui na Espanha e na Itália.
2014 Entrei na pós-graduação. Conheci o interior do Mato Grosso.
2015 Fui ao México.
2016 Aprendi tarô. Conheci Aracaju. Primeira vez trabalhando em TV. Primeira vez em um evento esportivo mundial.
2017 Mestrado, aprendi sobre gênero. Primeira experiência na umbanda.
2018 Morar sozinha. Dissertação. Primeira vez dando aula.
2019 Curso de Direito. Primeira vez na Argentina. Aprendi Reiki.
2020 Curso para virar terapeuta. Curso de edição (a ver...). Conheci a Paraíba. Aprendi a fazer assessoria de imprensa de fato. Primeiro trabalho de voluntariado. :)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Emotional Education

Sempre me impressiona (ou não) a facilidade com que as pessoas "cancelam" as outras. Hoje, falando sobre um caso, um amigo veio com aquela tradicional pergunta: "Será que você não tem muitas expectativas sobre os outros?". Não. Até um passado recente, sim, mas não mais. De tanto tomar na cara, aprendi e aprendo cada dia mais a contar comigo. Conversando com outra amiga, ela fez a provocação contrária. Ela acha que as pessoas é que estão exigindo demais de seus amigos e parceiros. Saiu do roteiro traçado, exclui-se a criatura da vida, e acontece que as pessoas não são iguais. Essa conta não fecha.

Além disso, eu acho que você tem que aprender, como diz uma colega minha, a "cair em cima de si mesmo". O que é isso? É não esperar que os outros vão se responsabilizar ou saber consertar/lidar o que você mesmo não consegue. E as pessoas exigem do outro uma infalibilidade, uma perfeição que nem elas sustentam em suas próprias vidas. 

Mas, minha gente, por outro lado, certas coisas fazem parte do "contrato" e sem elas não se pode falar de amizade, de família e de relacionamento amoroso, por mais que os tempos sejam líquidos e as responsabilidades individuais. Você tem alguns deveres e direitos. Ponto. Vamos pensar nas relações trabalhistas, onde há traços específicos que as caracterizam para a justiça. É por aí. Em qualquer relação, desde a mais banal, ninguém é livre totalmente. Quem quer fazer tudo que lhe dá na telha, vai ter que viver sozinho. Conviver é "viver com", é ceder, não tem pra onde escapar.

Eu tive uma amiga de anos, de viajar, de frequentar a casa, que em determinado momento eu percebi que não era minha amiga, que havia uma amizade unilateral (coleguismo não é amizade, sorry). Ela não fazia as coisas comigo por gosto, mas "batendo o ponto". E quando o que estava em jogo era a diversão dela, ufff... Uma vez senti que ela ficou com raiva de mim por ter passado mal durante um voo. No entanto, eu me sentia má quando reclamava de coisas sérias que ela fazia contra a nossa amizade. A condição base para o contrato de amizade não estava sendo cumprida e, quando era, era na base da obrigação, no tédio. Quando a pessoa tá nessa vibe, ela parou de olhar pra você, ela já te desumanizou e é daí que toda a confusão acontece. Minha parte equivocada nessa história foi esperar dela algo que há muito tempo ela sinalizava, aqui e acolá, que ela não era. Um belo dia, de saco cheio por causa de mais uma desconsideração dela, eu fui falar o que eu achava, e ela nunca mais falou comigo, porque, em tempos de cancelamento, se saiu do roteiro, se questionou, o povo prefere cair fora do que admitir que errou, do que lidar com as coisas. Talvez fosse essa a deixa que ela estava esperando. Nunca saberei. Aliás, as pessoas se ofendem demais, mas nunca pedem desculpas quando pisam na bola. Ego demais, inflexibilidade, falta de autocrítica, mimo... tá difícil. Outra conta que não fecha.

Ainda sobre esse caso, algo paradoxal me aconteceu nesse episódio: uma das amizades mais importantes, quando se foi, me causou a menor dor dos últimos tempos. E eu não acho que tem a ver com ter sido algo que foi erodindo gradualmente, mas com uma mudança de paradigma meu. Àquela altura eu já conseguia separar os outros de mim, eu já conseguia entender que alguém pode não gostar de mim e isso ter a ver só com ela e não comigo. Isso tem a ver com o que eu escrevi nos dois primeiros parágrafos, que é você ter noção do que cabe ao outro e do que cabe a você em qualquer relação. Aprendi, tarde demais na vida (mas melhor que nunca!), que por mais que eu tente, se o outro não quiser, se não trabalhar também, não vai rolar.

Outra coisa que eu aprendi foi a não barganhar. Você expôs suas questões, fez sua parte e a pessoa não fez nada? Antigamente eu ficava argumentando com a pessoa, hoje eu aceito. Justa ou injusta, foi uma decisão e, diante de uma decisão do outro, a gente só pode aceitar e seguir em frente. Quem te quer na vida facilita os processos. Quem dificulta... o meio é a mensagem.

Eu me acho tolerante pra caramba. Defeitos todos nós temos, mas eu acho que tenho uma paciência com as pisadas de bola dos outros e com as características complicadas de cada um que eu não vejo muito por aí, não. Pelo menos eu não recebo de volta na mesma proporção. Desenvolvi um critério para manter e tirar pessoas da minha vida que acho justo (sim, eu preciso achar justo, eu não consigo "cancelar" alguém só por birra, tenho que ter uma fundamentação). Eu me pergunto: É uma boa pessoa? Essa pessoa gosta de mim (e nisso está embutida a consideração pela minha pessoa: me aceitar, ter vontade de estar comigo, dar demonstrações de carinho)? Se "não" para uma delas, posso puxar meu carro. Pode ser a melhor pessoa da face da Terra, mas eu me pico. Satisfeitas essas duas condições, dá pra ficar, mesmo que seja uma pessoa com problemas. Por enquanto eu ainda tenho paciência pra maluco do bem.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Você é aquilo que ninguém (quer) vê

Ontem, excepcionalmente, estava desabafando com um amigo. O tipo de coisa que dá sempre um frio na barriga de fazer, porque, afinal, gente não é gente. Mas, enfim, eu também sei quem eu sou, então qualquer ataque eu sei filtrar o que é verdade e o que não é. Eu sei que a gente não tem uma visão neutra e 100% verdadeira sobre a gente, mas, por outro lado, a gente sabe o que viveu e sentiu e é impressionante a má vontade que as pessoas têm de reconhecer as dores dos outros. Parece que no fundo há uma competição. Ninguém quer dar o braço a torcer que o outro foi mais corajoso, mais forte ou simplesmente é mais amoroso de superar certas coisas difíceis. O que mais dói geralmente não é exibido.

Saindo de mim, que sou suspeita, eu tenho um amigo que é um exemplo disso. Trata-se de uma das pessoas mais racionais que eu conheço. E das mais inteligentes também. Bichinho só se fode. Ele não é apreciado pelas virtudes porque simplesmente não é o simpaticão do rolê. As pessoas lembram dele quando precisam de algo, não para oferecer algo a ele. As pessoas não andam com você porque é gente boa, as pessoas andam com você somente se elas querem ser igual a você. 

Pois bem, eu, sempre que converso com essa criatura, vejo como ele racionaliza tudo que acontece ao redor dele e com ele. Às vezes é tão racional que chega choca. Mas ele, pra mim, é a prova de que nem a mente mais racional consegue segurar a barra que é existir às vezes. Eu vejo sintomas do que a solidão e o azar na vida causaram nele.

Ele está cada vez mais isolado. Sai pouco, cada vez menos tolera gente. Quando a gente viajou juntos, em determinado momento eu saquei que ele estava incomodado em ter uma pessoa o tempo todo junto com ele. Os revezes da vida fuderam o emocional dele. Há ali uma depressão de fraca a moderada, porém perene. Ele não procura ajuda. Eis aí o lado ruim de ser racional demais. 

domingo, 26 de janeiro de 2020

Anne with sombras



Já havia me prometido que não ia mais agregar séries à minha lista enorme de títulos pendentes. A vida é curta para dar conta da enxurrada de produções. Mas falaram tanto de 'Anne with an e" que eu resolvi dar uma espiada. Pela descrição, achei que seria um respiro em meio a uma sociedade tão pesada ultimamente. Esperava algo algodão doce como "Pollyana". É um livro que eu li com nove anos que falava de uma órfã que, tendo tido uma vida fodida, aprendeu a procurar sentido no lado bom das coisas. Anne vai mais além. As duas primeiras temporadas, pelo menos, exploram bastante os traumas da personagem, que sofreu pra burro, psicologicamente e fisicamente. O primeiro episódio, então, é de cortar o coração e botar no espeto. Eu me incomodei, não vou mentir.
É isso: Anne virou a página e começou uma vida mais feliz, com amor, mas é interessante como, a cada ameaça de dor, ela se torna reativa, age de forma desesperada, o passado retorna e ela não quer sentir tudo de novo. Parece um pouco com o que eu já li sobre estresse pós-traumático. E é interessante, também, como ela tenta compensar a baixa autoestima querendo, toda hora, chamar atenção pra si. É como se ela só existisse se fosse validada por todo mundo. O episodio da fofoca sobre a colega quando chegou a nova professora é bem ilustrativo disso.
Anne é luz, porque alguém que sofreu tanto poderia facilmente ter ficado pelo caminho, se não efetivamente morrendo, morrendo por dentro, afetivamente. Anne é amorosa mesmo sem ter tido isso durante quase toda a sua vida. Ela é otimista. Mas Anne também é sombra. Ela levou com ela todos os traumas, todas as dores. Porque somos a nossa história - só enlouquecendo ou morrendo para não sermos mais -, mas podemos torná-la mais difícil ou mais fácil, a depender da nossa natureza, sorte e disposição para isso.
Resumindo: gostei de "Anne with an e". Eis um personagem positivo, mas humano ao mesmo tempo. Fora que a série trata o tempo todo de temas progressistas de um jeito delicado, adequado aos personagens e à época em que se passa a história. 



Obs. 1: Amo Gilbert. Aliás, ele, ela e a escola me trouxeram lembranças da minha época de colégio. Alguns tipos e situações parecem eternos.

Obs. 2: Amo Matthew. Todo mundo tinha que ter um Matthew na família. Coisa mais doce.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Gatilhos

"Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar...". Pois é, a onda agora é advogar contra os gatilhos, eventos comuns que podem desencadear mal estar em pessoas que sofrem algum trauma. Eu entendo a preocupação com gatilhos como a ansiedade provocada por uma cena de violência no cinema quando a pessoa sofreu violência. Em boa parte das vezes, dá pra fazer algo menos gráfico. Mas acontece que estão implicando com coisas da vida. "Não comemore Dia dos Pais porque isso faz mal a quem não tem pai presente".
Na moral, pra quem está na merda, quem morreu atropelado é uma ofensa, beijo de novela corta a alma, enfim, qualquer coisa vai servir de gatilho. Qualquer coisa mesmo. O problema está na pessoa, não na vida. Eu sei porque eu já me senti assim, fodida. E quem está mal não deve ficar vendo a vida dos outros nas redes sociais. Se você já acha que sua vida é ruim, vendo as dos outros essa sensação aumentará.
Um conhecido meu está se lamentando disso nas redes sociais. Dá vontade de dizer: "Bicho, seu lugar é na terapia e não aqui, contando coisas suas, íntimas, nas redes sociais". Mas se eu disser, vou ser insensível. Essa cartilha da empatia traz coisas boas e outras complicadas, das quais ninguém quer sequer falar. 
Empatia funciona até a segunda linha. Os monstros, o vazio interno é nosso e em boa parte só a gente mesmo pra resolver.

domingo, 19 de janeiro de 2020

O que não nos faz desistir

É difícil especialmente depois de uma certa idade se autoestimular. Você já viu muito, às vezes até tudo. Achar sentido na vida é gostar da vida e pra isso é preciso ter um olhar curioso e criativo. Isso é um dom e é também sorte. Anne Frank foi uma prova disso.
Obviamente vejo muita gente velha, mais do que jovem, desapontada, sem olhar criativo para a vida. Não só porque as condições físicas pioram, mas porque é neste ponto que aquelas distrações que nos permitiam seguir com a vida, dar aquela bela empurrada com a barriga, acabam.
A pessoa passa anos jogando energia psíquica em cima do emprego, da criação dos filhos e de uma hora para outra tudo isso some e a pessoa fica sem nada porque esgotou toda sua energia em tudo, menos no exercício criativo de viver a própria vida. É mais fácil, né, achar graça nos outros que em si.
Ver o novo é tão importante que os vampiros, depois de séculos vendo e vivendo tudo, começam a enlouquecer, a não aguentar mais. Pessoalmente, acho uma tragédia que o ser humano viva cem anos. Teremos criatividade para tantos anos?
Precisamos, desde jovens, de uma vida interna, de um olhar criativo sobre a vida. Não que isso resolva tudo, mas sem fica muito mais difícil.
O que me faz persistir sou eu mesma. Fui empurrada para isso, não foi uma escolha, mas se o caminho foi pedregoso, o resultado foi benéfico. Eu quero sempre poder encontrar sentido em mim.

sábado, 4 de janeiro de 2020

I love Geralt

Apaixonei por Geralt de Rivia, o protagonista de The Witch. Não pelo personagem, mas pelo ator. De corpo, dá pra ver que ele é bonito, mas está muito bombado. Mas que rosto e que voz (apesar de um acréscimo desnecessário de efeitos especiais)! Lindjo esse Henry Cavill. <3


Geraldão tem uma personalidade fofa também. No começo, achei a atuação a la Cigano Igor, mas me explicaram que o personagem era assim mesmo, treinado para não demonstrar emoções. E realmente ele sempre foi maltratado, mas, ainda assim, não conseguiu abafar o lado humano.
Interessante isso: a pessoa é treinada por anos, mas não consegue abafar uma necessidade emocional e nem eliminar instintos de bondade. Mas, embora ele faça o bem, de cara todo mundo só dá porrada nele, é como se por ser bruxo fosse escória, não tivesse humanidade; ninguém olha para os seus atos, só pra aparência. Até me lembrou uma certa pessoa. 
Yennefer é o pós Geralt. Digo, os dois tiveram uma vida muito ruim, de rejeição especialmente na infância, mas ele consegue barganhar consigo mesmo, a racionalidade ainda tem força ali. Ele pensa em construir ou pelo menos conter danos. Ela já deixou a amargura, o caos comandar a zorra toda e, desesperada, acredita que ter poder vai adiantar alguma coisa.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Ah, o racismo... :/



Esse mês eu venho discutindo, por diversas razões, racismo com alguns amigos.
Velho, o racismo faz um estrago enorme na autoestima da cidadã, do cidadão (claro, eles são piores do que nós para lidar com qualquer frustração, inclusive com essa). E se as pessoas não prestarem atenção, se tornarão pessoas tão tóxicas quanto os racistas que criaram essa fenda, especialmente para si mesmos e para os mais próximos.
Ser famoso não vai curar essas feridas.
Ter dinheiro não vai curar essas feridas.
Ser o mais inteligente não vai curar essas feridas.
Ser violento não vai curar essas feridas.
Ser o chefe não vai curar essas feridas.
Casar com um/a branco/a não vai curar essas feridas.
Se centrar no reconhecimento exterior não vai curar essas feriadas, em suma.
Eu sei que é duro não ser visto, mas é mais tóxico, a longo prazo, se rebaixar, jogar os valores, a dignidade para ser visto.
É como paquerar alguém que você quer muito que te queira e topar qualquer coisa para conseguir essa pessoa. Você pode conseguir a pessoa, mas dificilmente vai ser feliz com ela porque, no fundo, ninguém perdoa ser esnobado. Vai ter ali um exercício de ego, de poder, mas amor, que é o que no fundo todo mundo busca, não vai rolar. Antes voltasse essa energia para estar bem e disponível a quem lhe queira.
Eu ouvi uma história, de uma pesquisadora, que eu compreendi, mas ainda assim discordei da atitude do homem. Ele tinha arrecadado, através de doações, dinheiro para comprar fralda da filha. Usou parte desse dinheiro para comprar um tênis caro e ser visto, na loja, ao se tornar consumidor. Ele calcula que outras pessoas darão a fralda pra filha, que portanto esse ato não vai ter consequências pra ela. Ok, isso evidencia uma sociedade profundamente violenta que se baseia em status e dinheiro, onde você não é ninguém se não tiver um pouco dos dois. Porque respeito tem que vir independentemente de qualquer coisa. Mas se por um lado ele não tá tirando a fralda, ele tá tirando outra coisa da família dele e traindo a boa fé das pessoas que tiraram do seu bolso - e num país como o Brasil dinheiro sempre faz falta - pra esse fim e não para ele comprar tênis. Só porque a pessoa é pobre ela não pode desejar o tênis? Pode, ué, mas não engane os outros para isso. Quer um tênis? Então diga às pessoas que quer ajuda financeira pra isso.
Complexo de inferioridade é um exercício de ressignificação. Não adianta nada você estar numa posição desejada sem ressignifcar o que te ocorreu, o que você sente sobre si mesmo.
Neste final de semana, maratonei The Witch. Me identifiquei com o Geralt (depois explico o motivo), mas Yennefer é bem isso que eu tô escrevendo aqui e que eu ando vendo muito na galera da minha geração para baixo: ego frágil não se cura com algo externo. Se não me engano, tem uma cena em que a feiticeira que a formou fala isso.
No plano externo, eu acho que a gente deve trabalhar para que futuras gerações não passem por isso. Minha irmã sofreu na autoestima dela por ter cabelos cacheados. Minha sobrinha lida bem com isso e até ensinou minha irmã a gostar de cabelos cacheados. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Serenidade estóica

Gramsci respondendo ao irmão sobre seu estado de espírito face o contexto em que vivia:


“[...] de resto, você mesmo viu que eu não estou abalado, desanimado e nem deprimido. Meu estado de espírito é tal que mesmo que já fosse condenado à morte continuaria tranqüilo e até mesmo, na noite anterior à execução, talvez estudasse uma lição de língua chinesa. (…) Parece-me que em tais condições [I Guerra], prolongadas durante anos, e com tais experiências psicológicas, o homem deveria alcançar um grau máximo de serenidade estóica, e adquirir a convicção profunda de que ele tem, em si mesmo, a fonte das próprias forças morais, de que tudo depende dele, de sua energia, de sua vontade, da férrea consciência dos fins que se propõe, e dos meios que emprega para realizá-los — a ponto de jamais desesperar, e não cair nunca mais naqueles estados de espírito – vulgares e banais – a que se chamam pessimismo e otimismo. Meu estado de espírito sintetiza esses dois sentimentos e os supera: sou pessimista com a inteligência mas um otimista com a vontade” (GRAMSCI, 2005, p. 382).

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Carta a Pi

Feliz aniversário, meu amor!!! Parece que foi ontem que você nasceu, chorou quando se viu de repente fora da barriga da sua mãe e num quarto escuro de hospital, só parando manhosamente quando eu te dei meu dedo para segurar. Mas, veja só, agora até já sabe ler e escrever, fala inglês e é o irmão mais velho da Luísa. Que lindo você se tornou, por dentro e por fora.
Hoje você faz oito anos, então eu acho que já posso falar de certas coisas com você. Não ando conversando com você ultimamente, é verdade, mas sua vó me conta sempre de vocês, que sempre estão em pensamento comigo. Não sei, infelizmente, como andam as coisas a essa altura: se você já se decepcionou feio com um amiguinho do qual gostava muito, se já tem um melhor amigo, se ainda se reta com Luísa (ou já entregou o caso a Jesus) ou se ainda pensa mesmo em ser jogador de futebol ou agrônomo, como andaram me dizendo que você queria por causa do sítio do seu tio avô (eu acho ótimo; eu mesma, se mais 20 anos de juventude tivesse, estudaria Agronomia).
É estranho falar para alguém tão jovem que a juventude acaba, mas acaba. Mas tudo bem se você não acreditar nisso antes dos 35 anos, quando o seu joelho começar a doer. Tudo na vida começa e acaba. A partida de futebol, o final de semana, o jardim de infância, seus sete anos que agora são oito e os ciclos da vida. A sua infância, mesmo, daqui a pouco acaba e você vai virar adolescente que nem Leka e Drica. O fim geralmente também é um começo e isso é muito bom.
Em algum momento você vai estranhar esse entra e sai de pessoas, de situações e de obrigações e vai se perguntar o sentido da vida. Bem, eu tenho cinco vezes a sua idade e eu acho, até agora, que o sentido da vida é gostar dela, da vida. E se um dia você estiver cansado e achar isso difícil, lembre que na verdade é muito fácil, os adultos é que complicam. Mas você, como criança, sabe: a vida é boa quando a gente acorda e come um pão quentinho com café; quando estamos brincando com os amigos; quando damos risada com um filme; quando podemos correr à vontade porque temos um bom corpo e saúde; quando temos família que nos cuide. Tudo é questão de sintonia e eu te aconselho a sempre a buscar a alegria que está aí nas coisas boas do dia-a-dia.
A vida é boa sempre, mas muitas vezes não é simples nem fácil. Não é fácil quando a gente tem que acordar de manhã para ir à escola, mas não quer. Não é fácil quando a professora manda um monte de tarefas e a gente não se empolga e nem entende muito bem por quê. Não é simples quando as pessoas agem de um jeito que a gente não concorda ou entende. Isso faz parte da vida, não adianta se zangar. Nem sempre se ganha, aliás, poucas vezes se ganha. Ou melhor, tem um jeito de ganhar sempre sim, porém não aos olhos dos outros, mas da gente mesmo: sendo boa pessoa e fazendo tudo a que a gente se propõe com todo o nosso empenho e coração. Vamos pensar numa partida de futebol. Você treinou, jogou pra caramba, mas perdeu. O motivo pode ser qualquer um: o adversário jogou muito bem, o juiz te roubou, etc. Mas se você fez o seu melhor, vai ficar chateado naquela hora, mas vai saber que, embora não tenha ganho, se superou, avançou como jogador sendo melhor que antes daquele treino, daquela partida. Quando a gente não se dedica, quando fazemos de qualquer jeito, repare como a gente passa dias remoendo, pensando no que poderia ter feito melhor. Enfim, não existe pior coisa do que perder para si mesmo. Quem faz o seu melhor sempre sai vencedor. Faça por você, porque a gente está nesse mundo para ser melhor do que era ontem, para se desenvolver como pessoa.
Aliás, estou sabendo que o senhor não anda estudando direito. Fiquei triste. O colégio é uma das coisas que você não pode escolher. É preciso ter estudo para uma série de coisas da vida adulta. Mas eu não quero que você estude só para não repetir de ano, só porque seus pais cobram isso de você. Aprender é uma das coisas mais legais da vida. O conhecimento é uma coisa bacana, a única que ninguém pode tirar de você. Eu amo aprender coisas novas e eu te garanto que é divertido, basta você saber olhar pelo ângulo certo e trocar que isso é uma "obrigação" pelo fato de que isso é um "recurso" a mais. Quase um super poder. Pode parecer chato estudar inglês agora, mas pense em quanta coisa você poderá ler sobre futebol e que só está escrito em inglês. Já pensou em encontrar o David Beckham na rua e poder pedir a ele um autógrafo em inglês? Olha que legal poder falar com gente do mundo todo e as pessoas te compreenderem. E Geografia? Eu adorava saber onde ficavam os países já imaginando para onde eu queria ir quando fosse adulta. E é muito interessante saber como outras pessoas vivem. Se você for mesmo jogador, como você vai decidir se quer jogar em um time sem aprender mais sobre o país, sobre a cultura dele? Do que adianta ganhar muito dinheiro se a cidade na qual o clube está é ruim? Como vai saber se o contrato é bom mesmo sem falar língua estrangeira e sem saber fazer cálculo de matemática? Aprender é bonito, estudar é legal, mas como tudo na vida precisa de tempo e esforço. Então deixe de preguiça, que rapadura é doce, mas não é mole, seu menino! E por falar em preguiça, tô sabendo que o senhor anda pedindo até pros outros (Elen) calçarem a sua chuteira. Me poupe, viu, seu Felipe? hehe...

Feliz vida, Coração, hoje e sempre!
Um beijo da sua tia que te ama muiiito.

PS.: Meu filho, já que estamos falando da vida, vou te dar um conselho de coração: troque de time, não fique sofrendo pelo Vitória, não. Se pique desses times baianos, vá torcer pelo Flamengo, que é rubro negro e foi onde seu avô Luiz também jogou. Tô lhe dizendo, se ficar torcendo pro Vitória não vai ser campeão brasileiro nunca... Depois não diga que eu não lhe avisei, hehe.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Tudo depende do lugar onde você se bota

Alexandre, o Grande, encontrou Diógenes, que era um mendigo nu, com apenas uma lâmpada, sua única posse. E mantinha sua lâmpada acesa mesmo durante o dia. Ele, obviamente, estava se comportando de maneira estranha, e até mesmo Alexandre teve de lhe perguntar: — Por que essa lâmpada acesa durante o dia? Ele levantou sua lâmpada, olhou para o rosto de Alexandre e disse: — Estou à busca do homem de verdade dia e noite, e não o encontro. Alexandre ficou chocado. Um mendigo nu dizer esse tipo de coisa a ele, um conquistador do mundo. No entanto, ele podia ver que Diógenes era altivo em sua nudez. Os olhos eram serenos, o rosto tão pacífico, suas palavras tinham autoridade, sua presença era tão tranquila, que o próprio Alexandre sentiu-se  um mendigo frente dele. Ele escreveu em seu diário: ‘Pela primeira vez senti que a riqueza é algo diferente de ter dinheiro. Eu vi um homem rico’.
Moral da história: tudo depende de como você se vê. Os outros só têm o poder que você mesmo dá a eles.

domingo, 20 de outubro de 2019

A inexplicável arte de amar


Tenho uma amiga que está desenvolvendo um trabalho com Constelações Familiares. Outro dia, ela gravou um vídeo interessante sobre o que faz um casal ficar junto. Tema espinhoso. Eu poderia listar, como já fiz várias vezes aqui, exemplos do que não é amor. O problema é que eu sou eu e o outro é o outro, e por mais que me custe botar fé, há a possibilidade daquilo que eu não consigo visualizar como bom ser uma relação funcional. Gente é um bicho esquisito, de fato...
Ela aponta, do ponto de vista sistêmico, três motivos para que um casal fique junto, apesar de mil problemas: 1) Projeto. Isso pode ser um filho, a ideia de ter uma família, um negócio, uma casa. 2) Amizade, philia. Às vezes a vida de casal não está funcionando no stricto sensu, mas tá no lato e você fica porque aquela criatura, apesar de tudo, é seu parceiro, te dá apoio na vida. 3) O amor. Mas aqui não é o amor como a gente definiria. Trata-se do sentimento que A tem quando está com B. Isso não tem a ver com a qualidade de quem o outro é ou com a qualidade do sentimento que a figura tem por você, mas com o que surge do contato entre as partes. É a parte de mim que aparece só quando estou com o outro e da qual eu gosto por N motivos, incluindo o de me fazer sentir viva.
Eu achei uma leitura inteligente. Tô respeitando mais a maluquice dos outros a partir dessa reflexão, ou melhor, o caos dos outros, porque tem coerência interna conforme vimos acima. Sabe-se lá onde dói e onde goza um indivíduo. Como diz um amigo meu, quem realmente está insatisfeito pede pra sair.