segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Ansiedade

 Desde a adolescência, eu tenho episódios de falta de energia, que eu achava que eram de depressão. Mas nunca o remédio receitado fazia efeito. Eu achava que era uma dessas pessoas imune a remédios - sim, elas existem. Qual foi a minha surpresa, após 15 anos peregrinando, ser diagnosticada com ansiedade e tomar, enfim, um remédio que fazia efeito?

Ansiedade é igualmente uma merda, a diferença é que não te paralisa. Quer dizer, há momentos, no pico da ansiedade, que o corpo te apaga, parecendo uma depressão. Eu não tenho falta de energia. É que de tanto gastar energia com o que me causa a ansiedade, o corpo se esgota.

E havia pistas disso. Por exemplo, eu brigo para dormir e brigo para levantar. Me meto em mil coisas ao mesmo tempo. Não tenho muita paciência para esperar. Cabeça sempre no futuro. Como não iria ficar cansada?

Agora é aquilo: tive sorte. Mas e quem não tem e fica a vida sem o tratamento certo? E no meu caso, o tratamento foi pontual. E quem tem um problema crônico?



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Mordida de amor

 Piscianamente, só hoje fui me conter na sabedoria dessa música, depois de 30 anos. Óbvio: se  você não conclui, não fecha, jamais dirá adeus. 


Quando faz amor se olha no espelho
Será que você gosta mesmo de mim?
Vai me dizer que era prá sempre
Isso é amor ou uma doce mentira?

Uh, Baby!

Mas quando está só
Se morde de amor
Rolando na cama
E chama o meu nome...

Eu não quero tocar em você, oh baby!
E fazer seu jogo vai me deixar louco
Sei que você pensa o amor é do seu jeito
Coração quebrado e orgulho inteiro

Amar assim é jamais dizer adeus
Já não é mais a grande surpresa
Viver assim a se morder de amor

(Refrão)

Amar assim jamais dizer adeus
Já não é mais

Amar assim é jamais dizer adeus
Já não é mais a grande surpresa
Viver assim a se morder de amor

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Ganhos secundários

 É triste admitir (porém elucidante), mas por trás de uma situação aprisionante sempre há ganhos por debaixo. Ou melhor, os chamados ganhos secundários. 

De graça, amores, ninguém fica. Alguma besteirinha boa rola nessa história. Claro, não estou falando aqui das situações de violência.

Você não quer sair do emprego que te massacra emocionalmente todo dia. Ganho secundário: estabilidade, salário e benefícios.

Você é maltratada pelo marido, que te põe pra baixo dia sim, dia não, mas não larga o indivíduo. Ganho secundário: o status de casada e "antes mal acompanhada do que só". Quem maltrata, afinal, não ignora.

Ted (foto) nunca logrou ficar com Robin antes de ficar viúvo, que já falou na cara dele que não o amava. Suspeito que, no final, ela ficou com ele como prêmio de consolação, já que ela tinha feito tudo que queria e não havia dado certo com ninguém. Por que Ted se sujeitou a isso? Amor? Não creio. É que essa fantasia virou estruturante da vida dele, e sem isso seria um tédio. 

Por isso, quando estivermos presos em situações que nos maltratam, convém investigar que ganhos secundários há na situação. Só assim pra desmontar a permanência.


domingo, 9 de agosto de 2020

Inútil

 Sejamos inúteis um para o outro como um recém-nascido é no colo dos seus pais. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Donde estás corazón?


É, meus caros, tenho que admitir, após 25 anos de luta contra, que onde o coração não está, eu não consigo permanecer bem nem que a vaca tussa. Sim, sou dessas. Me lenhei. Não tem razão que comande 100% minhas emoções. Já evoluí muito, mas... Vai ver que é por causa do meu tipo psicológico, sentimento/sensação. Eu tenho bom senso, até gosto da rotina, do conhecido, mas desde que eu extraía algo subjetivo também disso tudo. Só pelo dinheiro, não rola. Eu seria uma péssima prostituta.

Mas mais preocupante que essa constatação está outra: a de que eu não sei onde está meu coração, só onde ele não está.

E que Deus me ajude a cumprir essa jornada.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Fersami




Fernanda Santana Miranda aka fersami (pelo menos no e-mail que eu ajudei a criar nos anos 2000 e que ela usava até a última vez que nos encontramos, hehe) faleceu no último domingo, depois de oito anos de uma batalha cheia de dignidade, generosidade e sabedoria contra o câncer que teimava ocupar seu jovem corpo de 40 anos. Não lamentei que tivesse partido; até eu, que estava de fora, estava exausta de "câncer vai, câncer volta", imagine ela. Na verdade, lamentei anos antes, quando soube da metástase. Fernanda era muito jovem, muito dinâmica, cheia de vida, amigos e interesses.  Eu lembro dela assim, como nessas fotos, e era assim que ela estava antes da doença. Mesmo desgastada pelos tratamentos, ela tinha uma aparência corada, bonita, mas eu quero lembrar dela assim.
Como disse, senti alívio com a notícia, acompanhado de um sentimento natural de tristeza. Na verdade, eu chorei a morte de Fernanda em 2014, antes do diagnóstico de metástase, quando o câncer voltou. Tinha ido na casa de uma amiga de meu cunhado, que joga cartas, e acabei perguntando por Fernanda, e a mulher me disse que ela não ia escapar. Fui pro jornal, meu emprego na época, chorando muito, tentando cobrir os olhos com os óculos escuros. Parecia cena de filme de Paul Thomas Anderson, daquelas em que sobe o som e o personagem se acaba no drama. E confesso que não chorei só pela má sorte dela. Eu e ela temos a mesma idade, ela 17 dias mais nova que eu. Chorei ao descobrir a minha própria mortalidade. Gente de 30 anos não costuma saber que pode morrer. Com Fernanda eu vi a minha própria morte. Vejo hoje as meninas, Mariana e Ceyse, chorando e sei que não é só saudade, mas a perda da própria inocência, a certeza de que o que nasce, morre também - e bem poderia ser qualquer um de nós já que pôde ser Fernanda. A gente nunca chora pelos outros sem chorar a si mesmo em alguma medida.
Plot point
Nem sempre Fernanda foi uma pessoa legal, embora nunca tenha sido detestável. Mas ela era do grupinho que se achava descolado, da escola, e às vezes era meio metidinha (delas, a única que consegui realmente gostar depois de adulta foi justo ela). No entanto, sempre foi educada. Lembro-me de uma atividade da escola, em que mandamos bilhetes secretos para colegas, e ela elogiou minha inteligência de um modo muito sincero e bacana. Depois que foi morar fora, mudou, amadureceu e deixou essa versão Garotas Malvadas para trás definitivamente. Se ela fosse essa pessoa aos 12 anos, teríamos sido grandes amigas. Ou talvez ela já fosse e eu não via. 
Fernanda tinha uma personalidade que admiro no sentido de ser audaciosa na atitude individual e suave na abordagem dos outros. Acho que por sempre valorizar os outros, teve tantos amigos. Áries com ascendente em Libra. Era muito ligada à cultura, ao aprendizado. Nisso eu me identificava com ela. 
Vi que Fernanda tinha se tornado outra pessoa quando assumiu ser lésbica. Conhecendo ela desde priscas eras, senti que ela evoluiu porque sempre a vi como alguém que se preocupa com a opinião dos outros (se bem que ela andava com artistas, um meio em que a homossexualidade é natural). E principalmente aceitou com muita docilidade os revezes, tanto na vida amorosa (foi abandonada de forma escrota quando descobriu que tinha metástase) quanto na saúde. Nisso, ela se mostrou mais evoluída que 99% dos meus conhecidos, inclusive essa que aqui escreve. Eu não seria tão sábia e desapegada quanto Fernanda foi. Bato palmas para quem ela se tornou. Onde muitos esmorecem, ela se agigantou. Lamento que tenha sido pelo caminho da dor, mas Fernanda passou pela escola da vida e com louvor. Fico com as palavras do amigo dela, Alexey:

E foi assim que a gente se conheceu: por causa do câncer, em 2014. O meu, bem menos grave que o dela. Descobertos na mesma época. Deram-lhe um mau prognostico, mas Fernanda teimou: “pelo menos quarenta anos eu vou fazer”. E fez, este ano. Se dissermos que foram seis anos sem sofrimento, estaremos mentindo. Mas foram seis anos heróicos, nos quais Fernanda ajudou uma quantidade descomunal de mulheres com o mesmo problema. Ajudou-as como profissional, como mulher, como paciente oncológica. Dedicou-se profundamente a ajudar a quem, como ela, sofria. Uma vez, me disse que isso dirimia as dores físicas que sentia. Ao dedicar-se aos outros, esquecia-se do próprio padecimento. Talvez seja este, o segredo.
Neste ínterim, aconteceram milagres médicos: os tumores sumiram. Voltaram. Sumiram. Voltaram. Mas Fernanda nunca, jamais sumiu. Ela até pode ter nos deixado hoje, mas sumir é impossivel.
Foi-se suave, e como queria: sem dor, e ao lado da mãe.
Adeus, minha amiga querida. Não sei se existe vida após a morte, mas sei que existe vida antes da morte. Nem todo mundo tem vida antes de morrer.
Você teve.  (Alexey Dodsworth Magnavita)

domingo, 5 de julho de 2020

A soma de todas as opressões (e depressões)




Sou rata de YouTube e sigo alguns canais de brasileiros que moram fora e de gringos que moram no Brasil. Tem jeito não: tenho rodinhas na alma, o mundo é minha nação. Uma conversa entre franceses ontem me chamou atenção para um tema: o número de travestis no Brasil. Sei lá, de cada 10 na Europa, 8 são brasileiras. Me espanta o baixo número de travestis europeias. Daí que a gente vê que é uma questão local e não apenas da condição de gênero e sexualidade das pessoas. Para um menino gay afeminado no Brasil só deve sobrar isso como alternativa de sobrevivência. Talvez europeus e americanos nessa mesma condição tenham oportunidades mais variadas de trabalho. 

A travesti, coitada, é um pot-pourri das opressões: são afeminadas em um país profundamente machista, que rechaça o feminino, ainda mais a traição de um homem de nascimento à masculinidade; geralmente são negras e da periferia. Enfim, juntam gênero, sexualidade, raça e classe num pacote só. E como as oportunidades para seres periféricos já são poucas e com a autoestima sendo esfrangalhada desde criança (quando não sofrem violência desde a infância, no colégio e no bairro), o que muitas vezes sobra pra pessoa é trabalhar com beleza ou vender sexo, momento em que recebe algumas migalhas de atenção. Não vamos esquecer que o sexo também serve para isso: para se sentir desejada e de alguma forma valorizada e às vezes até é uma das poucas oportunidades de estar no comando - Cleópatra que o diga. Não é à toa que, no Brasil, travesti tem expectativa média de vida de 35 anos. Poucas histórias são como as de Dani. Ariana, né, more? Nem o cão pode com essa raça. Mas ali foi a satanariana brigando para viver, na força do ódio. Mas ela não esqueceu o que ela viveu. Alguns relatos são de partir a alma de verdade. 98% das pessoas que conheço não sobreviveriam, assim como muitas travestis não sobrevivem mesmo. Eu imagino que fora a violência, a taxa de suicídio deve ser enorme entre essa população. Não é fácil viver - e num país que já te atrapalha tanto como o Brasil - sendo tratada como uma aberração. 

Eu me pergunto como um continente tão belo, com uma cultura tão foda e gente tão diversa e bonita pode ser tão cruel como é a América. Que maldição é essa que a gente traz desde os nossos antepassados? Quando isso vai parar? O colonialismo, que produziu o racismo, foi a pior coisa da história da humanidade, porque é estrutural e inconsciente muitas vezes. Tô quase passando um zap pra Cláudia pra ver se ela soluciona isso, se é que ela não desapareceu do mundo original. 

E a pior, hoje me dou conta, é o racismo. Essa porra (desculpa o palavrão, mas eu sou baiana, tô revoltada e o blog é meu!) mata as pessoas aos poucos, tira a autoestima, as adoece física e psicologicamente, quando não mata à queima roupa. O racismo nunca foi o meu marco de opressão, embora tenha experimentado isso na minha vida embora nunca frontalmente. Venho de uma saga de mulheres com relacionamentos ruins, infelizes, então a questão de gênero sempre foi mais forte na minha vida, inclusive nas (faltas de) oportunidades e dores. Há dores que eu só experimentei porque sou mulher no Brasil. 

Claro que se eu tivesse a aparência da Marina Ruy Barbosa ou da Bruna Marquezine - para falar de uma mulher que não tem aparência europeia, mas não é lida como negra - minha vida seria muito mais fácil, inclusive a amorosa (em parte, porque eu sei que é deixar de ser mula para ser bicho de estimação; o machismo é um jogo que a gente nunca ganha). Mas eu tenho uma passabilidade nessa questão de raça. Se me esforçasse como Renata para embranquecer, nem seria uma questão marcante na minha identidade, não na maioria dos círculos. Minha questão como mulher é que nem sou a "troféu", de quem o homem vai suportar muita coisa até em alguns casos (porque algumas delas têm o dom da chatice, da nojentice, reúnem o pior do estereótipo da feminilidade tóxica) apenas pelo símbolo que ela representa para a sociedade, nem sou a mulher dócil, simpática. Explico: eu tenho senso crítico, sou franca e não sou sedutora; não sou de ir atrás de ninguém. Em uma cultura de subserviência feminina, como a do Brasil, não "ser dada" é um problema e tanto para uma mulher, ainda mais se for das que não agregam ao camarote. O homem fica com ressentimento, achando que você não valoriza. Eu sou eu o tempo todo e as pessoas não estão acostumadas com isso. Nunca aprendi a jogar o jogo - e essa minha afirmação não é um autoelogio; é uma constatação, com todos os problemas e virtudes que não jogar traz. 

Tenho amigas ótimas que não conseguem ter um relacionamento duradouro justamente porque são ótimas mesmo sozinhas. Não são muitas, não; infelizmente as conto nos dedos. Tem um monte de mulheres que se acham ótimas só porque são esteticamente bem cuidadas e ganham bem; falo de mulheres feministas na prática, alegres, engajadas na própria vida, esclarecidas e solidárias a outras minorias. Uma das minhas amigas que é assim é da umbanda. Uma vez, a pomba gira deu a real a ela: disse que todos os ex terminaram com ela ainda gostando muito dela, por medo de não estarem sendo correspondidos, pois, afinal, ela não demonstrava dependência. E eu acho que rola também uma certa inveja dessa independência, dessa autoestima a mais. Isso só me lembra a frase que ouvi de um homem uma vez: "A única coisa que um homem tolera que a mulher seja mais que ele de boa é ser mais bonita"... Olha o que é o ser humano (isso é universal, tanto faz homem ou mulher): a pessoa prefere estar com alguém de quem gosta menos ou nem gosta e que oferece menos do que com alguém de quem gosta muito, que admira, mas que não mostra dependência emocional, não dá a segurança do controle sobre o outro. Olha com que tipo de espírito as pessoas entram nos relacionamentos. Olha o que a masculinidade tóxica produz, fazendo homens acreditarem que devem estar sempre por cima e as mulheres sempre aceitando isso. Olha a nossa pobreza afetiva. :/ 

Meu mal, como disse Juan Del Diablo, foi achar que todos os seres humanos são iguais. Aliás, o de muita gente. Dizem isso pra gente na infância e alguns piscianos ou ingênuos mesmo acreditam, bichinhos. Hoje eu já sei que não, mas já me iludi bastante me achando igual em ambientes elitistas e tomando na cara, da forma mais dura - da parte de pessoas pelas quais tinha afeto ou em circunstâncias que me eram caras -, quando essa diferença vinha à tona. E o pior: por que eu mesma achava que devia estar naqueles lugares e entre aquelas pessoas que, no final das contas, vi que não acrescentavam nada para o que eu realmente queria? A gente é tão martelado com determinados modelos de felicidade que a gente se encaminha pra eles automaticamente, sem nem perguntar se aquilo é o que nos preenche realmente. 

Que as pessoas, aqui e acolá, marquem posições, eu ainda consigo entender porque gente não é gente. Mas já as instituições... Bem, o mal é que as instituições são feitas de gente. E nem adianta sonhar com as máquinas não, pois elas também são programadas por pessoas, algumas explicitamente preconceituosas. Só o meteoro pra dar jeito nesse caos. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Qual é o meu conceito de felicidade e o que me faz bem nessa vida? (Tchan, tchan, tchan, tchan...)


Primeiro que eu não acredito em felicidade mas em alegria, ou seja, não acredito em um estado, mas em uma atitude diante da existência. Tem gente que, como dizia Freud, nasce com uma natureza mais favorável, que sabe fazer do limão a limonada.

Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, mas é onde eu releio o que escrevo e, ademais, ninguém lê. E, a propósito, mesmo que alguém lesse, é a minha verdade e ninguém precisa pensar igual a mim.

Não peguemos emprestado os conceitos dos outros. Isso distrai e deprime, e o pior, sem razão de ser, sem necessidade. É como um cego definhando porque deseja um livro que não é escrito em braile.

Vamos lá, vou fazer esse exercício agora, na linha Faustão de "quem sabe faz ao vivo".

Eu entendo por "felicidade" bem-estar e afeto. A essa altura eu já percebi que meu barato maior não está em ser a mais popular, a mais rica, a mais famosa, enfim, todos esses clichês. Aprendi até muito tarde na vida que quem não é feliz comendo pão com café não vai ser feliz com nada. Acho que o difícil mesmo é dar sentido ao ordinário, aprender a ser apesar e acima de tudo, porque tudo pode nos ser tirado. E aí? Quem sou eu sem meu emprego, meu marido, minha fortuna, minha juventude, meus amigos e meu filho que não fazem mais parte da minha realidade? Meu barato é ter qualidade de vida. Eu nunca ia querer ser Lady Gaga simplesmente porque, embora eu adore música, canto, nunca seria feliz em uma rotina que me transforme em máquina de trabalhar. E não me venha com essa palestra de "quando você acha um propósito". Meu propósito, de preferência, tem que caber em um turno de trabalho. No restante, eu quero viver a gosto, sem compromisso. Get a life, don´t be a workaholic. A maioria de nós não é Picasso, Steven Spielberg, Bill Gates ou Mandela que nasceu para dar algo significativo à humanidade. Nossa missão aqui é desenvolvermos a nós mesmos.

Por isso, gosto de viver fragmentada entre vários interesses e aprendizados. Acho que é por isso que gosto tanto de ler, assistir, fazer cursos, bater papo e viajar.
Eu gosto de fazer no meu tempo, sem pressa. Eu, cansada, erro até o meu nome.
Eu gosto de ter autonomia. A essa altura, eu percebi que definitivamente preciso disso. Não aguento administrar gente, não tenho saco para executar ordem burra.

E gosto de afeto, mas de intimidade. Esse negócio de grandes grupos, eu passo. Gosto de poucos, mas íntimos. Gente com quem eu me sinto à vontade, que me aprecia, que me acompanha, que me ama de verdade. Porque tem gente que gosta de sua companhia, mas só faz aquele extra quem te estima de verdade. Não quero ser útil para ninguém. A gente passa a vida inteira querendo se fazer amável até o dia em que a gente descobre que o amor acontece mesmo quando você é "inútil" pra quem te ama, só por ser.

Eu gosto dos pequenos prazeres, do conhecimento, da realização, da autonomia e da intimidade. Isso me energiza.

And you?



terça-feira, 30 de junho de 2020

O final de Dark (contém spoilers)

Que aperto de mente, meus caros! Que cansaço! Que final agridoce! 


E Jonas mais lindo que nunca, apesar de não tomar banho há 33 anos! <3 Aliás, achei o elenco masculino, dessa vez, bem melhor (o adulto). Mas achei alguns personagens novos chatos, porém os antigos (com exceção da Martha histérica) valeram a pena continuar. Menção de honra para Claudia, la reina! Sempre acreditei em você, Claudjenha, hehe.

Dark revelou, nesta temporada, não só alguns mistérios, mas realmente a que veio: é uma série interessada em ciência, embora o fio da meada seja as famílias de Winden. Os showrunners nos mostraram dramas familiares na primeira temporada, arrependimentos e esperanças antigos na segunda e um artigo científico de física na terceira, hehe (é modo de dizer, porque quem entende de Física disse que os roteiristas se apropriaram dos conceitos fazendo uma ficção em cima deles). Foi uma temporada densa, com alguns buracos na história, mas satisfatória. Gostei mais das outras temporadas, mas valeu a espera. 

Eu gostei de Dark, apesar de uma falha aqui e acolá e de achar que a série tinha potencial para ser melhor. No fundo, quanto a Dark, a pergunta não é o que mas como. Se você parar pra pensar, a história é simples, mas os autores embaralham tanto as coisas, que ficou a impressão de que era algo muito complexo.

O final foi agridoce: para salvar o mundo que eles queriam preservar a todo custo (Jonas até virar Adam), tiveram que aceitar desaparecer e que os seus afetos também desaparecessem, ou seja, desapegar do mais profundo desejo para que as coisas seguissem seu curso natural. 

Definitivamente, se eu encontrar uma máquina do tempo, eu quebro toda, hehe.

Me despeço da série e desse texto com uma frase usada na entrada da terceira temporada: 
"O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer."
(Schopenhauer)







terça-feira, 16 de junho de 2020

Perdidos no espaço



Eu estou lendo um livro sobre terapia de vidas passadas, de um especialista holandês. Ele fala que quando entra um trauma ou algo do tipo, um pedaço seu é "ejetado". O vazio, a solidão seria falta de si mesmo, dessa parte perdida por aí.
Hoje estava conversando com um amigo sobre uma amiga em comum que sofre muito, embora seja uma boa pessoa. Vive com problemas de depressão. Negra, de família pobre, lésbica. E gente delicada não sabe se defender direito e se for inteligente piorou, porque ainda por cima vai sacar a situação. Eu acho que boa parte dela foi ejetada.
Daí, mais tarde, lembrei de uma aluna de jornalismo muito inteligente, mas a rainha da ausência de corpo presente, eterno ar de entediada. Ia chamar de preguiçosa quando lembrei das linhas gerais dela: negra, da periferia, lésbica, militante, gorda.
E como elas penso em um monte de gente que faz parte de minorias, que enfrentaram violência na vida, com dificuldade de estar presente, com eterno ar de Escrava Isaura, caminhando meia boca pela vida. Um cansaço de alma que não passa. Feridas de guerra que, inconscientes, não vão cicatrizar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Survivor


Sobrevivente:
1.
que ou o que permanece vivo ou continua a existir, depois de determinada experiência de risco.
2.
que ou quem resiste aos embates, circunstâncias, dificuldades da vida.

Sim, eu sou uma sobrevivente. Quem tá de fora talvez não tenha essa consciência, mas juntando a minha natureza com a minha história de vida, e eu acho um milagre eu ainda estar aqui. Nunca vou esquecer de um tratamento de cromoterapia que eu fiz em 2013. Quando a terapeuta foi checar os meus chacras, só o básico estava forte e trabalhando intensamente para compensar os outros, o que fez ela exclamar: "É o animal brigando para viver". E era isso mesmo e é isso até agora.
Claro que isso deixa sequelas e no meio do processo eu perdi minha espontaneidade (o que levou junto meu lado afetuoso e, eu sei que pra algumas pessoas seria difícil acreditar, sou uma pessoa muito carinhosa), um pedaço da minha alegria e um tanto do meu senso de humor, boa parte da minha confiança nos outros e, por enquanto, perdi a vontade de me juntar. Mas, como disse o poeta, "quem quer passar além do Borjador, tem que passar além da dor". O caso é que eu sobrevivi e estou cada dia melhor que ontem, embora a lista de trabalho a fazer ainda seja imensa. 
Portanto, meus queridos, como canta Queen Bey:
I'm a survivor (what), I'm not gon' give up (what)I'm not gon' stop (what), I'm gon' work harder (what)I'm a survivor (what), I'm gonna make it (what)I will survive (what), keep on survivin' (what)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Paulina




Sabe aquele filme que te leva para um lado, depois te joga para o outro e, no final, você fica com a mente fervendo? É Paulina, filme argentino de 2015, uma adaptação de La Patota, filme dos anos 1960.

A protagonista é uma advogada brilhante, filha de um juiz de Buenos Aires, que escolhe dar aulas sobre política numa escola bem pobre do interior da Argentina. Lá, ela passa por uma situação punk, mas, ao contrário das expectativas, ela continua no mesmo lugar, fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim é a personagem central: às vezes você a entende, em outras tem vontade de dar um chacoalhão nela.

Paulina toca em várias discussões: violência contra mulher, a truculência do sistema policial-jurídico, que, como diz a protagonista, quando se trata de pobres, não quer saber de buscar justiça, mas de culpados. É uma personagem de convicções muito fortes, de tal forma que determinadas escolhas em nome de uma ideologia parecem anulá-la como ser humano, enquanto individualidade. Como eu disse, desperta admiração e também indignação.

O ponto mais interessante da protagonista é justamente esse: a capacidade de mesmo diante de uma situação muito desfavorável a ela manter um senso crítico sobre o que a sua figura representa socialmente. Mas isso às vezes escorrega na culpa por ter privilégios sociais, por ter nascido branca, rica e inteligente, o que de certa forma tira a sinceridade da luta dela e de certo modo também a dignidade das próprias pessoas que ela quer ajudar/poupar. Como adverte uma mulher local: ela sente pena e ninguém gosta de ser olhado assim, situação que faz é despertar ódio e não ligação. Esse é um erro de gente de esquerda: paternalizar demais os subalternizados socialmente, como se a pobreza lhes tirasse a agência, a capacidade de escolher, de agir por conta própria, enfim, quase como se fossem sem alma. Esquerdista falando de pobre é quase Caminha falando dos índios (risos). A esquerda bota essa turma pequena demais enquanto que a direita coloca grande demais, no sentido de achar que a força do indivíduo sozinha é capaz de superar estruturas opressoras seculares, como se o contexto social não quisesse dizer nada e todos tivéssemos as mesmas condições para o sucesso. 

Dolores Fonzi merece palmas. Eu já a vi em outros filmes, então sabia que era boa atriz, mas essa personagem era difícil. E eu gosto da aparência dela, que é bonita, mas não é alinhada: o cabelo é meio desgrenhado, ela tem uma verruga nos lábios, ela usa pouca maquiagem. A cara mesmo de Paulina.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

The raw truth

A gente tem muito a tendência de ser perfeito/a, né? Da classe média para cima, então, só tem candidato/a a alecrim dourado (valores elitistas explicam). Eu já fui desse clube, mas estou mudando a direção.

Na verdade, perfeição é coisa de quem tem baixa auto estima. Pronto, falei! Imagine se Jesus tivesse querido ser perfeito para a sociedade da época dele? Ele não seguiu as regras, ele quebrou as regras; ele elevou as regras ao seguir as regras dele.

Muita gente sofrendo não por si mesmo, mas porque não cumpriu as expectativas dos outros. E tem gente que, mesmo íntima, é cruel com os seus afetos. Ninguém deveria fazer isso em uma família, em um relacionamento. Até porque muitas vezes essa exigência com os outros é baixa autoestima nossa. 

Como sabiamente diz José Medrado, o "sim" que você dá aos outros é o "não" que você se dá. Deveríamos nos tocar disso.

Uma amiga minha, que tem essa mania de passar os outros na frente dela, comentava comigo da barra enfrentada por uma amiga em comum que lida há anos com o câncer. As pessoas olham para vidas "imperfeitas" com medo e desprezo. Em parte entendo, porque o medo de sofrer é altamente compreensível. O problema é o modo como se olha para quem passa por um sofrimento. Sinceramente, na abundância é fácil ser grande; quero ver é pisar no fogo e conseguir chegar inteiro do outro lado. A gente se ilude em perseguir o posto de "band leader", mas a gente está aqui para enfrentar o que vier; o que a gente tem é o dia. O grande objetivo disso tudo é ser melhor que ontem. E digo mais, nem tudo que você precisa resolver, vai resolver nessa vida. É fazer o que puder, o melhor que puder pra viver (e morrer) em paz. 

Essa amiga com câncer em questão se tornou alguém visivelmente melhor espiritualmente ao passar pela doença. Vale dizer que antes disso ela já estava na trilha. Se ela for embora deste mundo amanhã, além de ter tido uma boa vida, com amigos e cheia de experiências bacanas, ela soube usar os eventos da trajetória dela para se engrandecer. Gostem ou não, isso é a vida. A gente está aqui para transcender nossos limites. Ponto.

Equilíbrio



Adoraria ser independente financeiramente de forma folgada. Na falta disso, eu adoraria ser herdeira ou sustentada (mas ainda prefiro independência, para poder sair quando puder). Buscar dinheiro é um grande aperto de mente e às vezes te faz fazer concessões nada agradáveis, ainda mais num país escravocrata como o Brasil.

Não sou contra a mulher ser dona de casa sustentada pelo marido, não, desde que isso seja de comum acordo. Só acho que pode ser uma armadilha, haja vista que, por melhor que seja o caráter dos envolvidos, no coração não se manda.

Uma amiga minha, que estudou terapia sistêmica de família, estava me explicando isso de um ponto de vista terapêutico, dizendo que o ideal é que a energia do dinheiro entre igual dos dois lados. Do contrário, é bem possível que, ao estar com alguém que o/a sustente, esteja procurando um pai ou uma mãe.

Entre os orientais é comum que eles sejam donos de um mesmo negócio, buscando esse equilíbrio. Olhos puxados, visão larga.

Mas existe outro desequilíbrio, que é o de expectativas. Homens entram no casamento para ter família; as mulheres para ter romance. Como a expectativa do homem é objetiva, é muito comum que ele negligencie a subjetiva da mulher. Que, por sua vez, acaba às vezes jogando essa vontade de ligação para os filhos (olha o problema!). Minha amiga observa que falta amizade entre os casais, que as pessoas não são orientadas por seus familiares a procurar por isso numa relação e que, na experiência dela de casada e de terapeuta, sem isso vai por água abaixo - e eu observo que sem isso, se continua, alguém trabalha por dois e ressentido.

Acho que fica evidente que o ideal é entrar nas relações já resolvido, sem necessitar de nada, só mesmo do amor do outro, sem esse lance de metade da laranja. Fábio Jr. cancelado

domingo, 31 de maio de 2020

"O começo é o fim e o fim é o começo"

Sim, ainda estou na vibe de "Dark" 😎. Mas hoje, vendo um filme francês, ouvi de um dos personagens (foto) uma coisa que sempre achei: o motivo que te faz tomar abuso de uma pessoa geralmente é o mesmo que te atraiu.


A pessoa que era muito racional com o tempo nos irrita pela falta de coração e espontaneidade; quem era "na dele", enche o saco pela indiferença; quem tem opiniões fortes começa a aborrecer pelo autoritarismo, e por aí vai. Mas por que a gente comete esse tipo de inconsistência de julgamento? No filme, o personagem, se sentindo rejeitado pela mulher, alega que assim ela nunca vai construir nada. Mas e se a base é falsa, tem como construir algo de fato? Só se for a casa fajuta do porquinho, pra Lobo Mau derrubar com um sopro. Casa bem construída, como nos ensina a história dos Três Porquinhos, o Lobo morre de falta de ar, mas não consegue derrubar. Não que a consistência nos salve do fim, até porque não ter fim não é selo de sucesso de uma experiência. A consistência nos salva da desilusão, da descoberta de que o que víamos nunca existiu.

Nesse filme mesmo, o cara era um extrovertido e, por detrás do charme dessa característica, havia manipulação e violência. E por que uma pessoa inteligente, como a protagonista do filme, muitas vezes se presta a não enxergar isso (sim, porque está ali, não ver é uma escolha)? Porque convém, porque somos carentes, porque andamos pelo mundo e nos relacionamos com o pires na mão. Porque não achamos graça em nós mesmos, na nossa vida e precisamos que o outro performe para botar um sal nisso. 

Hoje eu acho que um pouco de aventura não faz mal a ninguém, pelo contrário, mas é importante saber onde está se metendo. Esse, pra mim, é o pulo do gato. Na minha própria experiência, o que machuca não é o fim, mas a desilusão de descobrir que o que você adorava não existia, era invenção da tua carência, era projeção. 

Sabe aquela história de ir a uma festa ou ir ao mercado e fazer uma boquinha antes para não agir por desespero, e ou comer demais e passar vergonha na festa ou comprar bobagem no mercado? Pois é, a mesma coisa vale para os afetos. Quando a gente tá nutrido consigo mesmo, de barriga cheia com a própria vida, a chance de passar mal ou ter prejuízo é menor.    

Mas o filme também pontua algo interessante: ela se livra dele, mas demora dez anos até isso acontecer, entre idas e vindas. E ela é uma mulher com toda a condição de viver sem ele, tanto financeiramente quanto socialmente. É que certas decisões envolvem processos, mexem com sentimentos muito profundos e difíceis, que você não vai resolver por decreto. Aliás, é até capaz de dar mais merda se o corte vier fora do tempo, abruptamente. 

Perdidos na Noite



Nunca deu muito certo me deixar perdida, no ar. Velho, como repórter mesmo, sempre notei a diferença entre quando recebia uma pauta de verdade e entendia o que eu ia fazer e quando eu ficava perdida sem sequer saber o que queriam de mim e por onde começar a apuração. O nervosismo me bloqueia, me faz errar, ao contrário de quando eu estou segura e executo muito bem a tarefa. É uma diferença gritante, tanto quanto entre estar muito cansada e descansada e fazer algo. Tem gente que não perde a qualidade quando varia de contexto, eu perco e muito, e é por isso que eu fico puta quando me colocam nesse tipo de esparrela, porque eu sei que vai me custar muito energeticamente e não vai resultar. 
Querer não é exatamente poder. O ser humano tem seus limites. Todos podem conseguir algum resultado, mas dificilmente com a mesma qualidade e nunca do mesmo modo. Acho incrível esse desrespeito ao funcionamento das pessoas, porque isso interfere mesmo. Mas ninguém quer saber do outro, né, minha gente? Ainda estamos no arcaico modelo "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 
Eu já consigo aceitar, me trabalhar quanto ao fato de que a vida é a arte do improviso, no sentido de que você vai fazer um plano e alguma circunstância vai aparecer te propondo algo diferente. Eu não consigo aceitar é ficar completamente sem direção e ser jogada para lá e para cá. Deus, na boa, não dá. Send me informações, please!

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Dark


Olha que menino bonito! É tão bom olhar para gente bem diagramada, simétrica, bem talhada, né?
É a única pessoa bonita da série, ele e a versão dele de 50 anos. O restante... Ufff! A beleza da Europa ficou no Mediterrâneo. O povo da Alemanha tem uma cara de século 19, uma aparência antiga e meio mal acabada: testão, cabelo lambido, narigão (agora vejo que Xuxa é bem Meneghel mesmo), sem boca, corpo grande e às vezes desengonçado.

Mas saindo das futilidades fúteis, vamos para as futilidades úteis, para a série, no caso "Dark", essa produção alemã da Netflix, que, putz!, é muito boa e deu um nó na minha cabeça.

Estou com preguiça de resumir a série, mas em linhas bem gerais fala de viagem no tempo, num período de um século, de pessoas de quatro famílias de uma cidadezinha tipo Chernobyl, criada em torno de uma usina nuclear, no interior da Alemanha. Além dessa ideia de viagem no tempo (de, na verdade, passado, presente e futuro acontecerem ao mesmo tempo), a série traz várias questões filosóficas, sobre Deus ser o mesmo que o tempo, de termos livre arbítrio ou não, etc. Dá para perceber que existe um lastro teórico, uma bibliografia, uma discussão na base da história, além da série reunir um elenco competente e uma direção de produção americana. No final da segunda temporada, até inseriram a questão do multiverso e mundos paralelos na pauta. Luxo!...

Amei que parte da história se passa nos anos 80. Só de ver as cenas, me dá saudade. Talvez seja por ter sido a década da minha infância, aliás, também a dos autores da história. Cara, por falar em anos 80, eu era exotérica desde pequenininha, viu? Naquela época, dizia que Atlântida tinha existido quando vi um filme que se passava lá e meu maior desejo era justamente a máquina do tempo; sempre fui apaixonada por História. Mas não sei se ia ser jogo, não. E nem sei para que certamente nos serviria essa experiência. Acho que seria tão ou mais complicado do que fazer regressão a vidas passadas (tvp).

Alguns avanços humanos são mais pirotecnia que qualquer outra coisa.


"Dark" tem vários personagens que não conseguem se desligar do passado e mesmo aqueles que sabem o que vai acontecer no futuro, bem, parece que essa informação não serve para muita coisa no sentido de dar um sentido maior a tudo que se viveu. Não diria nem que Adam, o aparentemente mais tranquilo, está em paz com o seu passado. Do contrário, por que estaria motivado a terminar com a humanidade?
Olhar as coisas na perspectiva do que aconteceu, da origem, da trajetória pode ser esclarecedor ou um caminho para a desilusão. O contexto da frase de Hannah (foto) é peculiar, mas nos lembra que realmente, por mais que a gente conviva com alguém, falta um pedaço desse quebra-cabeça, que é aquilo que não vivemos junto com essa pessoa, que não testemunhamos e, portanto, ignoramos. A gente gosta ou desgosta da ideia que temos das pessoas, daquilo nosso que projetamos nelas, inclusive, mas é equivocado achar que conhecemos alguém. Até a gente mesmo se surpreende com certas facetas nossas que surgem, de supetão. Aliás, essa é a pergunta de um milhão de dólares: quem é essa pessoa que nos habita? Ao final da segunda temporada, parece que os autores acham que é possível que várias versões de nós vivam em universos paralelos. Uma alma esfarelada pelo cosmo, já pensou? Parece interessante e, quem sabe, é possível. Não duvido nem um pouco. Eu também sempre tive fé na ficção científica. 

Acho que as ideias ou contam do passado que não lembramos ou do futuro que ainda ignoramos. Está tudo aí no inconsciente da humanidade, no inconsciente da coletividade.


Essa questão do livre arbítrio, levantada pelo Jonas de 2052 (foto), também vem de uma forma interessante na série. Por mais que os personagens viagem no tempo, as coisas tendem a sempre acontecer como sempre aconteceram, como se houvesse um fio do destino que comanda tudo. Dizem que sentir é mais importante que saber (eu estou entre esses que "dizem"), e o personagem se questiona em relação ao desejo e o poder dele sobre as ações humanas. Com um "inquilino" martelando o nosso juízo, quem realmente é livre? Você pode até domar a fera, mas não fica livre; sentimento não se arranca, no máximo se ressignifica. Adam tem até uma fala sobre isso, de que alguns acontecimentos mudam a gente para sempre e não tem como escapar disso. 



A outra questão do tempo tem a ver com a frustração (foto), daquilo que se sonhou e saiu dos trilhos por uma série de eventos que pareciam inofensivos, mas que tiveram, em conjunto, a capacidade de produzir grandes estragos. Vários, senão todos os personagens da série têm quilos de frustração, mesmo os do núcleo adolescente. Desejo e frustração são as molas dos ciclos temporais da série.

A última temporada de "Dark" vai ao ar dia 27 de junho de 2020, data cuja soma é 1, o número que significa tanto liderança quanto novos inícios. A terceira etapa... Olha a santíssima trindade aí, hehe. Não é exagero pensar num toque de religião nessa ficção científica. Os nomes dos personagens, aliás, saíram da Bíblia. Mas, enfim, vamos ver como essa história vai acabar. Tenho fé na precisão alemã (aquela testa toda não pode ser à toa). :P

Por enquanto, fiquem com a sabedoria do roteiro de Dark.




terça-feira, 26 de maio de 2020

A Estrangeira


O título desse texto poderia ser "desencontro". Concordo com Vinicius de Moraes quando falava que a vida é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros. Nas minhas relações pessoais, meu sobrenome é desencontro. Por onde eu vou, por mais que eu tenha carinho pelas pessoas, a coisa não se encaixa, eu me sinto estrangeira. Já chego sabendo que daqui a pouco vou embora.
Mas tudo bem. Big girls don´t cry porque entendem que a vida é esse eterno pegar e deixar passageiros de estação em estação, que as pessoas têm data de validade na vida da gente, que elas têm inclusive o direito de irem embora e que isso pode ser total problema delas e não uma responsabilidade da gente. Quem já não fez de tudo para alguém ficar e a pessoa nem tchum? Pois é. Acho até que essa foi a minha parte nesses desencontros: não saber oferecer o que as pessoas queriam de mim, no caso em que elas queriam algo de mim. Oferecia o meu melhor e levava rasteira no final (sim, algumas pessoas foram ingratas, coração duro, mas isso é problema delas). Ofereci errado, baseado no que eu queria receber, e não rolou conexão. Sabe aquele marido que cuida de você pagando as contas, dando as coisas e achando que está fazendo a melhor das ofertas, mas que não te dá o que você mais precisa, que é um abraço, um carinho? A vida da gente é cheia desses desencontros, é disso que eu tô falando. É preciso saber viver, como canta Robertão. É preciso saber ler as pessoas. É preciso ter sobretudo autoestima para se retirar e se bastar depois disso.
É nisso que eu ando investindo ultimamente. Autoconhecimento, autoestima, autorrealização. Ando me perguntando muito onde eu me autorrealizo. Nem acho que sei muito sobre isso, mas vamos em busca até encontrar. 
Teclado e tela branca do blog, me ajuda a pensar. Vamos lá: acho que meu eixo é o conhecimento, é aprender. Eu acho que gosto tanto de ler, de curso e de viagem por causa disso, por causa do acesso ao diferente, ao diverso e ao humano. Eu quero uma vida de baixa pressão, conforto e aprendizado. É o que eu quero da vida. Eu ando direcionando a terapia para esse lado profissional, que é de onde virá as condições materiais para eu ter essa vida. Eu quero envelhecer com tranquilidade, pelo menos a material. Quero ser uma dessas velhas do Barra que ficam batendo papo com as colegas sem se importar com a conta do restaurante. Acho que meu caminho no médio prazo vai ser o concurso público e no longo prazo a terapia. Ou talvez o Direito. Sinceramente, não quero saber do caminho, só quero ficar bem, leve (mas não no nível Reginazista Duarte, pelo amor de Deus!).

domingo, 24 de maio de 2020

Glória Perez e a horda de super frustrados do bolsonarismo

Eu admito: gostava de Gloria Perez. Não pelas novelas, mas pela mulher mesmo. Não pela carreira, mas por ter continuado aparentemente bem depois de ter perdido dois de seus três filhos. Achava ela uma mulher da porra, quase sobrenatural, até vir o bolsonarismo arrastando algumas reputações com ele, entre elas a de Glória.
Acho que ela colou em Bolsonaro por acúmulo de frustração. Eu não vou entrar no mérito do que deve ser a dor de perder um filho, ainda mais um filho perfeito de saúde, jovem pra cacete (22 anos!) e que foi assassinado por alguém que era amigo. Eu achava ela (e quem sobrevive a isso) sobrenatural por levar a vida adiante de forma relativamente boa, produtiva, alegre. Mas ela sempre deixou transparecer a frustração dela com a impunidade da morte da filha, e daí, quando apareceu Bolsonaro falando em fazer e acontecer com bandido, ela abraçou, como se diz na Bahia, "di cum força" esse movimento bizarro. Claro que isso não justifica, mas creio que explica, até porque sei de outros pais de vítimas da violência que abominam Bolsonaro (como o pai daquela menina Liana). Mas eu reconheço um padrão no bolsonarismo: são pessoas muito frustradas, amargas até a raiz do cabelo. Nem sempre são pessoas ruins, algumas até são boas pessoas, mas sempre são pessoas frustradas pra caramba. A irmã de um amigo meu é um caso desse: gente boa, do tipo que te recebe super bem na casa dela, mas bolsonarista doente. Por quê? Porque ela é frustrada por não ser rica, por não ser casada, por não ter filho, por não ser valorizada. Ela é do tipo que no fundo acha que por ser branca deveria estar em uma posição melhor, desfrutando, não sendo vendedora de uma loja em que ela atende Xuxa, mas mal consegue pagar as contas básicas do mês, que dirá desfrutar a vida como ela quer.
Eu acho que Glória já teve preocupação social, mas deixou a frustração subir à cabeça, perdeu o juízo e virou puro rancor na velhice (ela é da idade de meus pais mais ou menos, já deve ter 70 anos).
E eu acho que a velhice, se a pessoa não trabalha certas questões que ficaram soltas ao longo da vida, deixa algumas pessoas amargas, envelhecendo mal realmente. A velhice vai amplificar o que você tem de bom e o que você tem de ruim. Você sabe quem viveu bem pela qualidade da fase idosa. Essa é uma fase em que você perde muita coisa: saúde, poder, trabalho, amigos e parentes. Se você não ressignifica certas perdas, a tendência é ficar um velho amargo, punitivista, preconceituoso, apegado a um passado idealizado. Esse é o meu palpite sobre Glória Perez e os 20% do núcleo duro do bolsonarismo que têm acima de 60 anos.

Amor à flor da pele


Depois de muito tempo, assisti "Amor à flor da pele". Muito tempo mesmo, 20 anos depois que entrou em cartaz. Filme bom, lírico. O final (lá vem spoiler) é que dá pano pra manga.
Os dois não terminam juntos e ficam farejando um ao outro no ar, mas sem tomar a atitude. Engraçado que dias antes, uns dois mais ou menos, uma ouvinte ligou para um programa de rádio que eu escuto falando que estava de caso com um ex com quem ela não pôde se envolver na juventude por causa do pai (o ex também estava casado). O apresentador foi na jugular: ela estava revivendo isso por frustração do que não pôde ser, não por amor (ela não fez nenhuma menção do tipo na fala dela, ela destacou, no lugar, a frustração do passado), até porque, anos depois, esse homem já é outra pessoa, acrescentou ele.
É isso aí.
Eu não duvido do amor de ninguém, embora algumas situações, como essa aí, são pura teimosia em resgatar o irresgatável. Mas cada vez mais, tendo a achar que (fora em contextos de catástrofes sociais) você não faz o que não quer. Ou até queria, mas não tanto assim. Às vezes o medo é maior. Em outras ocasiões a acomodação é maior. Enfim, tem de tudo. Deixe os mortos enterrarem os seus mortos, o passado morto ficar com as suas histórias mortas.
Vou dar um exemplo do que estou dizendo: "As pontes de Madison". Francesca não amava Robert mais do que amava ficar com a própria família ou, talvez, mais do que temia a culpa de abandonar eles. Não interessa, o fato é que Robert não era a prioridade. E como toda escolha, algo se perdeu. Ela teria perdido também se tivesse ido. Em suma, acho que a gente faz o que precisava e conseguia fazer. Deixem o passado no passado. Se for pra resgatar antigos contatos, que seja no agora e não continuando algo que já foi. É ilusão e das improdutivas.