quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem tem medo da mulher solteira?

Eu acho que um monte de gente tem, infelizmente.
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O corpo

Quem tem um não precisa ir a Guantánamo. Sério.
É muita interdição na vida do ser humano por causa dele.
Você não "pode" usar certas roupas para não dar ideia errada aos outros.
Você não pode ser carinhosa ou assídua de uma companhia do seu mesmo sexo porque vão dizer que você é homossexual.
Se o mesmo acontece com alguém do sexo oposto, tá rolando algo.
Mas se você não é muito de toque, é frio.
O corpo ainda cumpre uma pena que não é dele. Na verdade, é da mente.
O crime perfeito.

*****
Cada vez mais confirmo que a mente humana não ultrapassa o nível de crianças da quinta série, não importando quão velho/a a figura seja.
Só isso explica não evoluirmos em coisas tão simples.
Um amigo recebeu uma confissão de uma amiga de que ela gosta dele. Ele não quis admitir, mas pesquei que ele está fugindo dela. Disse a ele que pode estar magoando alguém à toa (mas sei que não é essa a intenção). Ela provavelmente está tentando fingir que nada aconteceu e ser a mesma de antes, para não perder a amizade, e ele está cauteloso à beça com ela achando que qualquer atenção pode alimentar os sentimentos da tal figura.
Não tenho ampla experiência nisso, mas já me aconteceu - uma vez o papo foi até bem direto, me pegando de surpresa. Eu fiquei constrangida - normal porque além da situação, entra em jogo a minha timidez -, mas não demorei a ser a mesma com o cara. Era meu amigo e eu não levei isso como ofensa; ficamos de boa logo. Aliás, como pode ser ofensivo alguém encher o seu ego? Isso só não aconteceu com quem fechou a porta na minha cara. Afinal, para os que provaram não serem amigos, a lei - como dizia o outro. Para os que são, falsidade seria eu me afastar. Na boa, moças, nada a ver ficar chocada porque o seu amigo - de verdade, não do tipo que finge com segundas intenções - confessou que sente vontade de transar com você. Vai fazer com o inimigo? Você pode até não gostar da ideia, mas ela está longe de ser indigna.
Eu penso o seguinte: as pessoas têm o direito de propor, você de negar ou aceitar. Dá um certo constrangimento mesmo quando as vontades não se casam, mas cada um é responsável por si, certo?
Ficar nessa cautela pode até ter uma boa intenção por trás, mas, na prática, só fere a dignidade do outro, que sente que a pessoa tomou pânico dela. E quem tem carinho a ponto de se declarar não merece isso, né mesmo? Eu até entendo, mas, na boa, pense bem, é chutar cachorro morto. A pessoa já tá ali, rejeitada pelo "não" e ainda vem essa?! Dose.
Enfim, gente, é todo mundo adulto. Ou deveria ser, sei lá.

domingo, 31 de maio de 2015

Tudo D´Eles, nada nOSSO

Quando frequento o Itaigara, onde minha irmã mora, fico muito constrangida com as relações patrões e funcionárias domésticas (sim, são elas, negras, da periferia, 99% das vezes). 
Eu entendo que quem contrata, no Brasil, sofre com a má formação da mão de obra. Às vezes, a galera é sem noção mesmo. Mas esse não é fator que prepondera nessa relação laboral.
Frequentemente, percebo que os ricos cometem um erro fatal: achar que quem precisa de emprego e dinheiro por causa disso não tem direito a ser humano (leia-se, alguém com dignidade e que também deseja).
Acho que o mundo só vai para frente, mesmo, quando "gente de bem" se der conta que todos querem a mesma coisa, independentemente de sua origem social.
Essa ignorância sobre o poder do desejo, brilhantemente abordada por Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/05/1631415-desejo-e-necessidade.shtml), nos faz cometer equívocos, por exemplo, ao pensar sobre a violência no nosso país.
Invisibilidade
Os coxinhas e a militância erram pelo mesmo motivo: ignorar que essa gente é igual e não bicho ou personagem de pesquisa de Ciências Sociais.
Não é à toa que a igreja evangélica, e sua promessa de prosperidade, avançam tanto. Ela trabalha em cima daquilo que a sociedade prefere ignorar: pobre também sonha com bens materiais e em ter uma vida menos sacrificada.
Aos coxinhas:
Nosso direito de escolher é afetado pelas circunstâncias das quais dispomos. Não venha dizer que "é só querer e amanhã assim será". O buraco é bem mais embaixo, a pessoa tem que ter muita vontade e persistência. Subir na vida, no Brasil, é para os excepcionais; não há muitas oportunidades.
À militância:
Mas não se enfia a faca em alguém para roubá-lo por necessidade e falta de formação familiar. Outras coisas preponderam aí. Primeiro, a pessoa tem que ter uma agressividade dentro dela. Segundo, nesses casos mais impera o desejo de se dar bem que a necessidade. Porque dá para matar a necessidade (a mais básica, primária) de outros modos não-violentos. Já o desejo é mais complicado...

Eu acho que, de fato, a invisibilidade dá mais deixa para os amigos do "baixo clero" entrarem no crime do que a necessidade. Aliás, a invisibilidade provocada tanto pela pobreza quanto pela riqueza liberam as pessoas para a transgressão. Se eu sou sempre visto pela minha condição financeira, que compromisso preciso ter com as regras, com a sociedade? Ninguém chama Thor Batista de assassino, lembrando o crime e o descaso que cometeu no trânsito; ele será sempre o rapaz loiro e rico, o filho de Eike Batista. É o que define ele socialmente. E o crime tem um grande "quê" de vaidade, não percamos isso de vista. Aliás, na nossa "amada" classe média tem gente que só não libera esse lado negro da força por mera pressão social. Eu conheço alguns elementos (do sexo feminino também) que só não deram para marginais porque o entorno está de olho, pronto para julgar e discriminar. Mas se não fosse isso, hum...

Eu, particularmente, me choco é com o fato de gente tão jovem não se dar nem a chance de tentar, antes de, frustrado, cair no crime. Sim, porque o que vemos é uma geração sem persistência, sem paciência para ao menos tentar antes de sucumbir. Meninos de dez anos cheirando cola. Por mais que tenha sofrido em casa, é demasiado cedo para desistir, convenhamos. Fico pensando que se meu pai e outras pessoas que tiveram uma infância de violência e fome, como ele, vivessem a infância hoje, eu não teria existido. Seriam meninos como esses que enfiam facas para ter um celular ou trocá-lo por cola. Mas é que naquela época não havia internet, televisão em massa, nos fazendo acreditar que o quintal de todo mundo é mais verde.

E acho, também, que do rico ao miserável, carregamos, como povo, o ranço do oportunismo.  Um exemplo pequeno do que estou dizendo: semana passada fui cobrir o Dia sem Impostos. Fila quilométrica de gente em frente a um posto de gasolina. Sabe pra quê? Pra comprar 17 litros a metade do preço. Gente na fila desde as 3h. Faz sentido esse sacrifício? Claro que não. É o desejo de levar vantagem. Isso permeia a nossa vida privada e pública. Quando vamos encarar esse fato de frente?

A smile like yours

Eu vou viver e nunca vou entender certas nuances do comportamento masculino.
Por exemplo: a obsessão que eles têm pelo nosso sorriso.
Long time ago, percebia que um colega me olhava constantemente. Confesso que eu, do alto do meu "autismo", achava ele ok e só. Aquela minha característica de os outros só existirem quando crio laços afetivos. Hoje acho ele bonitão, tenho outro olhar, embora sejamos só amigos.
Naquela época, como não estava fazendo nada da vida mesmo, resolvi me distrair dando bola pro fulano. Qual a primeira coisa que ele me disse? Adivinha! "Por que você é tão séria?".
O que é ser séria? É não sorrir fácil? Eu não tenho riso frouxo, é verdade, mas sou uma pessoa geralmente pacata. Digo, não acho que tenho uma expressão que bota os outros para correr.
Mas os homens têm uma fixação nisso. Repare na cara deles quando fazem uma mulher sorrir. Isso sim me faz ter vontade de dar risada.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Esse tal de bonde da vida

Outro dia falava com uma amiga sobre um amigo em comum.
Ok, isso não é nada nobre, mas, minha gente, vamos aceitar o fato de que a vida dos outros e reclamar é o que rende.
Bem, ela comentava que o fulano em questão estava demorando muito para tomar certas decisões.
Uma outra amiga diz que tudo pode acontecer a qualquer hora. E eu concordo com ela.
Mas eu sou da turma que acha que o seguro morreu de velho. Leia-se, uma ansiosa crônica.
Tenho uma tendência realista que beira ao pessimismo, eu sei.
E a minha experiência, aos 35 anos, diz que se para Deus nada é impossível, para o corpo as possibilidades vão diminuindo com o passar dos anos.
Contra algumas coisas não há muito como lutar. Meu prazo de validade, para ser mãe, por exemplo, vai até 2017. Não adianta, não me vejo com 60 anos levando gente de quinze ao show de rock.
Eu não quero me atropelar, não quero mais correr, mas sei perfeitamente que não é tempo de parar. Sabe aquele período que passei "giboiando" entre os 24 e os 28 anos, inerte, praticamente, porque perdida da Silva? Não rola mais não, gatos e gatas. "Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos". Sinto que haverá uma diferença grande entre quem eu sou agora e daqui a dez anos em termos de possibilidades biológicas e sociais.
2
Eu reparo que somos uma geração que espera demais da vida. Esperamos a onda perfeita, como se fôssemos eternos. Corremos o sério risco de envelhecermos amargurados. O ser humano tem necessidade de realizar. O que estamos realizando, afinal? Eu não estou satisfeita, mas se não estivesse em movimento, já teria me enforcado. Juro. Não dá mais para bancar esse tipo de ócio. Mexendo aqui e acolá, me ocupando até com o que não me agrada muito, vou movimentando minha energia, pelo menos, se não tenho direção, sinto alguma ação.
Botem fé, amigos, navegar é, sim, preciso. Quem não faz isso corre o sério risco de ficar encalhado na praia.

sábado, 2 de maio de 2015

The Way We Were

Ou, em português, "O nosso amor de ontem".
É um filme da década de 70, dirigido por Sidney Pollack e estrelado por Robert Redford (!!!) e Babra Streisand.
Descobri esse filme em 2006, se não me engano, e fiquei melancólica ao final dele.
A história é assim, segundo eu lembro: Babra é uma judia pobre, que com muito esforço, ralando o abdômen no balcão, consegue estudar e aos poucos se desenvolver na vida. Desde a faculdade, ela cobiça Robert.
Ele é aquele cara lindo e bem nascido, que tem tudo fácil na vida. É boa gente, nada afetado.
Ela acha que ele nunca vai sequer olhar pra ela. Mas um dia até que rola e eles começam a se relacionar.
Só que ela é muito à flor da pele e ele, por azar, personifica tudo aquilo que ela detesta no mundo - ela é militante e ele frequenta "azelite" -; enfim, os mundos não se encaixam. Mas o problema é que eles se amam pra caramba. Eles tentam, sofrem, o amor cresce, tentam e, finalmente, se cansam de ficar tentando, tentando e tentando. Ainda se amando, resolvem se separar. A essa altura, ela está grávida dele. Eles combinam de ficarem juntos até o bebê nascer.

Moral da história: não se deixa uma mulher grávida.

Submoral da história: militante é um bicho chato da peste. Nem com um Redford na mão a mulé sossega, gente!

domingo, 26 de abril de 2015

Nós, os viajantes solitários

Einsten, assim como eu, tinha ascendente em câncer e lua em sagitário. Era ariano, raça que eu adoro! Só não era negão, para ficar 100% perfeito. Acho que já disse aqui que a fórmula infalível pra ganhar meu coração é ser negão e de signo de fogo, né? :P
Essa frase abaixo é simplesmente a cara de uma lua sagitariana. O centauro ama liberdade, nasceu para ganhar mundo, ver e aprender.

 “Meu apaixonado senso de responsabilidade social sempre contrastou com minha pronunciada ausência de necessidade de contato direto com outros humanos. Eu sou realmente um ‘viajante solitário’ e nunca pertenci a meu país, meu lar, meus amigos ou mesmo à minha família com todo meu coração. Mesmo com todos estes laços, nunca perdi a necessidade de estar sozinho”. (The World as I See: An Essay by Albert Einstein)

Respeito, por favor: revolta não é ressentimento!

Olha, eu sou a primeira a admitir que não gosto do barulho que a militância, por exemplo, provoca. Detesto barulho, qualquer que seja. Às vezes, quando os ânimos estão muito exaltados nesses grupos, se fala besteira, perde-se a cabeça. Ossos do ofício.
Mas a revolta é necessária à mudança. E num país hipócrita, pseudocristão, como o nosso, as pessoas tomam a revolta (ativa) por ressentimento (passivo). É mais prático rebaixá-la, né?
Os movimentos de minorias são revoltados, sim, senhor. Porque verbalizam, jogam merda no ventilador, querem mudança, lutam por políticas públicas. Não ficam falando por trás, chorando no travesseiro à noite.
Revolta é tentativa de reequilíbrio de poder. Ressentimento é o gozo secreto do lugar de vítima.
Qual é o nosso problema com isso?
É que a coragem alheia nos incomoda. Olhar para os nossos defeitos nos dá pânico. Mudar dói pra caralho.
Já a covardia é total free. Vide os comentários nas notícias dos veículos online.
Apesar de toda a violência sofrida, espíritos livres não se dobram e vão.
Podem continuar a fazer barulho. Eu engulo meu incômodo com isso enquanto morro de admiração. <3 nbsp="">

terça-feira, 21 de abril de 2015

Being Erica (or anyone else)

E se de repente te fosse dada uma oportunidade de voltar ao passado e refazer tudo que você acha que deu errado por culpa sua?
É sobre isso que se trata o seriado canadense "Being Erica", apresentado há pouco tempo aqui pelo GNT, diariamente. Comecei a assisti-lo por indicação de Ingrid.
Erica é uma mulher de 30 e poucos anos, canadense de metrópole e de classe média, solteira, cuja vida anda tão fracassada que até gente mais íntima dela fica constrangida de lhe perguntar como está.
Erica é bonitona, criativa e inteligente. Por que, então, deu tão errado?
Bem, numa dessas aventuras da protagonista que acabam em vexame, ela vai parar no hospital e conhece um terapeuta, Dr. Tom, que lhe oferece os serviços dele. Ela hesita, mas o procura. E descobre que a tal terapia é beeem inusitada: de porte de uma lista de arrependimentos da sua paciente, o tal doutor a envia para as situações de seu passado que ela lamenta para que possa fazer diferente. Legal, né?
A primeira temporada da série, para mim, é a melhor. É quando ela volta para várias situações do passado que tem a ver com ela (em outras temporadas se mistura mais com as vidas dos outros personagens).
O surpreendente é que Erica, apesar de conseguir fazer diferente, não consegue mudar os resultados das histórias.
Dá o que pensar.
A gente acha que tem muito controle das coisas quando não tem. Podemos fazer a nossa parte, mas quem garante o resultado? Você pode estudar para a prova e passar, mas se aplicar não garante um dez. Há uma conjunção de fatores para que coisas boas (e ruins) aconteçam.
Eu não sei, não. Acabo achando que o sentido de fazer bem feito é a paz interior, realmente. É o que acontece com Erica: mesmo sem ter mudado os resultados, ela sai satisfeita das viagens ao passado só por ter modificado a própria atitude. É que o real arrependimento, quase sempre, foi não ter sido honesta consigo mesma.
Aliás, uma liçãozinha oportuna de lembrar, by doctor Tom“You can’t go back to fix other people’s mistake. It’s about you. Your list. Your regrets. You" (Você não pode voltar para consertar os erros dos outros. Isso é sobre você. Sua lista. Seus arrependimentos. Você). 
Essa pós-modernidade em que todo mundo quer o máximo da vida é super bacana por um lado, mas a pressão por resultados, por "produtividade", nos tira a solidariedade e a autocompaixão. Há sempre um culpado. Não deveria ser assim. Temos que aprender a aceitar a nossa própria humanidade.

“Choices. Look close enough, and you can see them everywhere. But what do you do when you see your life as a series of bad choices? When you would give anything to have made different ones? The question is, ‘If you could go back and do it all differently, would you still be you?’

(Escolhas. Olhe perto o suficiente e as verá por toda a parte. Mas o que fazer quando se vê a própria vida como uma série de escolhas erradas? Quando você daria qualquer coisa para fazê-las diferentes? A pergunta é: Se você pudesse voltar e fazer tudo diferente, ainda seria você?)

Pois é, nada como uma boa terapia!

domingo, 19 de abril de 2015

Patrulhamento feminino

Gente, que ninguém me ouça, mas apesar de ter muito homem insuportável nesse mundo, as mulheres chegam junto nesse sentido. Se fosse homem, virava gay, na boa.
Eu já comentei aqui que há uma nova geração de mães que idolatram as crianças e acham que qualquer comportamento longe disso é de uma mãe indigna. Sinceramente, só posso ler isso como muito agradecimento e deslumbramento com o fato de se tornar mãe, algo não tão garantido para as mulheres de hoje.
Pois é, não lembro dos nossos pais agirem assim com a gente. Naquela época, se dizia até que pé de galinha não mata pinto. Concordo. Acho que muito da ansiedade e da mal criação das crianças de hoje vem do fato de seus pais serem inseguros para desagradar. Filho não é amigo. Filho é alguém que precisa da sua tutela. Como ele vai confiar nos pais se nem eles confiam em si para fazer o que tem que ser feitoE eu agradeço muito por ter sido criada sem frescura.
Olha, eu reclamo da minha família, mas deixa eu explicar uma coisa. Eles foram ótimos comigo e minhas irmãs na infância. Tive uma infância de cuidados e diversões, se duvidar, melhor do que a da maioria dos meus amigos. Meus sobrinhos adoram os avós.
O problema deles foi quando deixamos de ser crianças, quando as filhas saíram daquela fase em que pai e mãe decidem tudo. Meus pais não sabem lidar com opiniões, rebeldias, vontades, enfim, com gente grande. Aliás, esse é um mal geral da família, que eu tento entender pelo prisma do abandono, já que eles foram criados por outras pessoas e logo ficaram responsáveis por si mesmos.
A nossa geração é que está desenvolvendo essa habilidade de lidar com filhos crescidos. Minhas primas dez, 15 anos mais velhas que eu, têm outra relação com a prole, mais de parceria e suporte. Graças a Deus...
Essas mães das quais falei mais acima são amorosas, não tenho dúvida, mas são quase umas fascistas quando tentam impor seu método de criação a outras que não pensam igual. Engraçado, soam muito como a patrulha antiaborto que a maioria delas, feministas, criticam.
É isso que eu não entendo.
Vamos por partes.
Todos nós fomos criados numa sociedade racista, machista e homofóbica. Esses valores tortos vivem dentro da gente. Não espero perfeição de ninguém. Mas espero desejo de melhorar. É assim que separo quem vale a pena e quem não vale ficar na minha vida.
Portanto, por mais que eu queira me "atualizar" e alcançar o nível de consciência dos meus amigos militantes por várias minorias, eu ainda me pego criticando uma mulher que faz o que não faço ou temendo um negro, com uma expressão nada amigável, perto de mim na rua. Mas eu me policio pra não levar esses reflexos do passado para o âmbito da ação.
O problema é que numa cultura passional como a nossa, "por amor", tudo é válido. Então quando se trata dos filhos, por exemplo, a porteira da intolerância fica aberta.
Gente, me corrija se eu não estiver correta, mas o feminismo não é sobre o direito de escolher? Então por que sendo eu uma pessoa em boas condições mentais, não posso criar o meu filho de acordo com as minhas possibilidades e visão de mundo? Daqui a pouco vão começar a culpar as mães da periferia por deixarem os filhos com outras mulheres para trabalhar.
A emancipação feminina, pelo visto, parece estar muito distante.
Caso 1 - Muita mulher, apesar de lutar por independência na sua própria vida, morre de medo de ser chamada de feminista. Acha que automaticamente será rotulada de "sapatão" ou "mulher que tem raiva dos homens". Feminismo não é odiar os homens, mas denunciar as condutas violentas. O machismo faz mal ao homem e à mulher. Precisa desenhar?
Caso 2 - A mulherada, que se diz feminista, fica patrulhando as outras se viram donas de casa ou se criam os filhos fora da cartilha do politicamente correto. Pode isso, Arnaldo?

Tá foda, viu, minha gente? Pelo visto, séculos de desunião não serão superados tão cedo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Os integrantes da Academia

Tenho um amigo de infância que é até gente boa, mas um completo idiota quando se trata de política. É aquele tipo de gente que acha que tudo é uma questão de querer. Explico: a mãe dele conseguiu montar o próprio negócio, que por sinal não a deixou rica - não chega nem a classe média alta -, mas proporcionou uma vida com direito à Disney e à faculdade particular aos filhos, e por isso sempre se achou no direito de falar mal do governo e se queixar dos sofrimentos que um empresário no Brasil enfrenta para sustentar o seu negócio.
(Olha, minha mãe tem toda razão quando diz que o mal dos outros é achar que podem discursar assim que sobem no tijolo. Não preciso explicar a ironia contida na frase, ok?)
O lado privilegiado precisa aprender urgentemente a diferença entre revolta (ativo) e ressentimento (passivo). O cristianismo nos incutiu essa moral escrava que diz que devemos dar a outra face e, nessa, o mesmo grupo vai se perpetuando no poder. Nada mais legítimo do que quem sustenta essa pirâmide querer o seu pedaço também.
Quem milita não se queixa enquanto fica sentado na pedra esperando ela criar lodo. Muito pelo contrário. Um estudante cotista tem um centímetro de privilégio na entrada, mas rala o dobro pra sair da universidade.
Ninguém deve se sentir mal, claro, por ter tido oportunidades, mas, faça o favor, reconheça os seus privilégios e as léguas de frente que isso deu em relação a maioria desprivilegiada. Demonstre empatia.
Outro dia, fui cobrir o aniversário do Colégio Antônio Vieira. Descobri que lá eles têm a Academia Vieirense de Letras e Artes. Fiquei pasma. Imagine o que ser parte de uma academia e ser "vieirense" fazem pela autoestima de uma criança! É claro que ela só vai querer pensar alto. Nessas pequenas coisas a gente já vai projetando o nosso lugar na sociedade. Agora pense no menino da escola pública municipal. Ele não recebe nem a merenda. Não tem professor. A família não faz muito gosto, muitas vezes, nos estudos, que é coisa de gente preguiçosa na visão deles. Quantas vezes não ouvi insinuações desse tipo na minha própria família? Meu pai me respondia, quando eu queria um livro, que era desperdício porque livro só tem graça ler a primeira vez. Minha sorte é que sempre gostei de ler e dava um jeito. Mesmo assim, quando cheguei na Facom, ficou visível a minha defasagem em relação aos coleguinhas.
Daí vem um bufado desse dizer que não faz diferença!? Ele mesmo, pelo comportamento que tinha quando menino, não tivesse caído num ambiente protegido, provavelmente não teria sido o que preste.

Como escreveu uma figura que eu sigo no Facebook:
"Estudei num dos melhores colégios de Salvador (o Antônio Vieira), e sempre lamentei que nem todo mundo tenha as oportunidades que eu tive na vida. Sim, porque não há talento que resista se não houver a oportunidade. Semente boa não vinga em solo ruim."

Precisa desenhar? No fundo, sabe qual eu acho que é o "trauma" dessa gente? É saber que no lugar dessas pessoas que batalham, não teriam a mesma competência para tocar em frente. Fora a culpa, lá no fundo, em explorar o próximo. Geralmente quem vem com esse discursinho babaca, adora tirar vantagem de quem pode menos economicamente.

Cada vez mais tenho preguiça dessa gente, na moral...

sábado, 21 de março de 2015

"Have I Told You Lately That I Love You..."



Lulu é muito mais linda, de perto, do que essas imagens podem fazer crer. Um pitel, a boquinha mais bem feita da redondeza.
Mas aí é fera. Já chegou chegando. Anda confirmando o mapa astral dela; a bichinha é boa de briga.
Ela não é dengosa como Felipe. Mas sabe soltar aquele sorriso quando não está contrariada, rs.
Enfim, não sei explicar, mas acho essa criatura uma coisinha muito lindinha. E acho que ainda vou dar muita risada com essa sagitariana invocada. A seguir cenas...

"I want it all...

... And I want it now".

Mais uma polemica esta semana envolvendo os homossexuais (hasta quando, meu povo).
Os donos de uma grife italiana se posicionaram contra famílias formadas por adultos  gays.  Um deles arrematou sua opinião com um "na vida não se pode ter tudo".

Ele tem razão sob esse aspecto. Mas essa é uma realidade muito dura para a gente se conformar assim. É como a morte. Todo mundo sabe que é isso mesmo, mas toda a trajetória humana é uma tentativa de ser imortal. É isso o que nos move. Um sentimento completamente além da lógica.

Só é prudente se preparar, também, para a hipótese desse "tudo" não vir.

Ludibriadxs

Uma amiga mandou essa, na lata, pelo Instagram:
"Namore um homem que não desista de você
Mesmo sabendo que você é louca e complicada".

Pois é, chega uma hora em que todx bom ou boa moçx se depara com uma verdade que lhe foi ocultada: o amor não é terreno dos virtuosos, mas dos corajosos. A não ser que a sua virtude envolva capital erótico... Portanto, muchachada, mais vale um cafajeste na mão que um bom moço voando. O primeiro acaba levando a melhor porque sabe que "quem não chora, não mama".

Espero estar por perto dos meninos para ensinar isso quando for a vez deles.
Abrirei o jogo, mas com uma importante ressalva: assim como na alimentação é no amor: só vale a pena "comer besteira" se a vontade for grande, irresistível. Ganhar peso a troco de nada é falta de inteligência. Tem que ser tentação de fazer as pernas tremerem.


sábado, 14 de março de 2015

Orgulho

"Tu me mandaste embora, eu irei
Mas comigo também levarei
O orgulho de não mais voltar"

Maria Bethânia, "Orgulho".

Essa semana, andei pensando muito a respeito de um tema importante - que não revelarei aqui - e vi que, para a minha contrariedade, me pareço com uma certa pessoa de minha família com quem não gostaria de ter nenhuma semelhança na personalidade. Ironia do destino que logo o que eu tenho de mais forte em mim vem delx.
Não compartilhamos o mesmo sangue à toa. Vejo isso todo dia em Felipe. Ele tem muito de mim, embora tenha saído de outra barriga. Não é à toa que eu o amo tanto. Em muitas coisas ele se parece comigo na idade dele e sempre achei que eu, até os cinco anos de idade, fui a minha melhor versão. Morro de amores até hoje por aquela menininha fofa.
Sim, personalidade se herda. Mas ainda não consegui descobrir de quem puxei certas maravilhosidades da minha alma. :P
Um dia, há mais de 20 anos atrás, encontrei uma de minhas irmãs sentada na escadaria do nosso prédio. Ela não chorava, apenas tinha uma expressão de derrota, de desgosto, na cara. Havia brigado feio com o primeiro namorado e, em cinco dias, o sujeito não colaborava para acabar com a situação, como se ela não fosse importante, fingia que ela não existia. Ela começou a duvidar do amor dele. E admitiu que algo havia se partido a partir dali e me disse uma frase que eu, ao longo da vida, fui me identificando à beça: "Não consigo gostar de quem me maltrata".
Indispensável contar que aquele relacionamento acabou em indiferença total da parte dela, que deixou o moço, alguns anos depois, quando se convenceu que era possível se apaixonar uma segunda vez, e partiu pra outra sem nunca mais olhar para trás. Ele não entendia, foi a vez dele cair em depressão. E a dela de fingir que ele não existia. Mas se pudesse ver o quanto ela ficou magoada com a atitude dele naquele junho de 1993, compreenderia perfeitamente.
Minha irmã e eu compartilhamos esse mesmo traço, de matar por dentro quem nos mata aos poucos. O engraçado é que as pessoas reagem à minha indiferença, quando ela realmente chega, como traição, como se fossem incapazes de acreditar que eu um dia agiria com firmeza. Ou elas devem me achar uma santa, que sempre perdoa tudo, ou devem me achar tão miserável a ponto de não ter direito de me aborrecer com ninguém (só digo que, em ambos os casos, estavam falando com a pessoa errada). Obviamente, também tenho o meu amor próprio e, sinceramente, olhando para trás, ele mais me protegeu que me fez mal. Na verdade, não consigo ver que tenha me feito mal. Pra ser bem sincera, acho mesmo que ele sempre chegou tarde demais, que acabei aguentando sempre mais do que deveria.
O orgulho desce pro meu coração quando estou convencida de que tenho bons motivos para tê-lo. Não sou orgulhosa por qualquer coisa. Não é qualquer crítica, não é qualquer pisada na bola, não é qualquer ofensa que me põe para correr. Isso, na verdade, seria insegurança ou infantilidade. Tenho coragem para insistir. Aliás, essa minha teimosia, como diz meu pai, é a minha grande qualidade. Quantas vezes, ao longo da vida, já ouvi essa frase: "Não sei como você aguenta. Já teria desistido, no seu lugar". Mas, nessas circunstâncias, tinha bem claro para mim que era maior do que a falta de consideração alheia e, principalmente, o que fui buscar ali. Sim, havia um ganho em jogo, algo importante a receber. Também não me arrependo de nenhuma dessas situações, olhando para trás.
Mas maltrato de quem a gente só quer o amor, isso não aturo, não. Na família, nas amizades, no amor de casal, isso é tudo que a gente tem para receber e para dar, porque, qualquer outra coisa, já temos dentro da gente. Só não trazemos a capacidade de nos amar, porque "ser amado" envolve mais alguém. E mesmo que quisesse aturar, não conseguiria. Vai além das minhas forças. Eu deixo de amar quem me maltrata. E Graças a Deus é assim. Mais do que ter orgulho, é importante ter dignidade.



sábado, 7 de março de 2015

Ator x Personagem


Outro dia, após dar mechas no cabelo, me senti diferente. E percebi que isso, ainda que sutilmente, me mudou. É, tive mais uma das minhas epifanias. Sim, vi que somos atores natos - logo eu, que nunca considerei sequer fazer teatro por diversão.
Muda-se a aparência e já estamos agindo diferente. O mesmo se aplica aos cenários, pessoas ao redor e atividades cotidianas. Todo mundo adora atuar.
Mas ninguém gosta de personagens. Eu odeio e meia torcida do Flamengo já me confessou o mesmo.
Estranho, né?
É porque quando as pessoas falam que não gostam de personagem, na minha opinião devem estar confundindo isso com uma caricatura, aquela coisa com dois ou três traços exagerados, que quase nos faz rir. O personagem é complexo. Ele exige atuação. Porque atuar não é fingir que se é outro nada a ver com você. Uma boa atuação vai partir do que existe no ator em comum com aquele outro ser inventado. É se ver por outro ângulo inexplorado da alma.

Nada é por acaso

Parece título de livro de Zíbia Gasparetto, mas garanto que não é o caso, embora esse post seja sobre a mediunidade, em uma das suas roupagens mais populares: a inspiração.
Contam por aí que um crítico de cinema escreveu que a cidade espiritual mostrada no filme "Nosso Lar" tinha sido inspirada em Brasília. Seu diretor, Walter Assis, retrucou questionando se não era o contrário.
Eu bem sei o que ele quer dizer. Quero dizer, saber, saber, de modo demonstrativo, com provas e testemunhas, não sei. Mas sinto. 
Eu não acredito em invenção, ficção. É tudo realidade, que já passou ou está por vir.
Por esse motivo me sinto desconfortável com histórias de ficção científica e morro de medo filmes de terror. Tudo aquilo existe. O mal existe e a ficção certamente está antecipando o nosso futuro. Inconscientemente sabemos disso e por isso nos interessamos por esse tipo de história. É um modo de já nos prepararmos para o que está por vi.
Tive bem esse insight quando as torres gêmeas caíram em Nova York. Eu passei meia hora sem acreditar no noticiário, achando que estava vendo um filme de Hollywood. Mas os filmes de Hollywood é que estavam vendo o futuro de Nova York, hoje eu penso. 
Desconfio mesmo que o reino de Atlântida não é lenda. E acho que ET um dia ainda vai sair de bicicleta por aí.
Quem viver, verá!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Meu gerente

Não sei a cor do cabelo, a altura, como são os olhos, mas ele MANDA. Ô, se manda!...
Há algum tempo, de tão consciente do poder dele sobre mim, arranjei-lhe um apelido: the boss, ou, simplificando, meu gerente.
Meu gerente tem o perfil cauteloso. O bichinho é responsável que só. Quebra a mente, faz hora extra, tenta ser criativo focando, sempre, em articular a melhor solução para o meu negócio. Tem uma paciência de Jó com os rompantes de uma tal de Angústia e com os ataques da Ansiedade. Aliás, deve estar já fortinho de tanto segurar a onda desses "maiores abandonados".
Ando percebendo, porém, que tamanha eficiência às vezes é prejudicial. O excesso de planejamento dele vem comprometendo a produtividade.
Explico: ele, matemático que é, vai sempre louvar as condições ideais. Mas a matéria-prima desse negócio definitivamente passa a léguas da perfeição. E aí?...
Eu sei que preciso dispensá-lo mais, descentralizar o poder que ele possui. Mas gosto tanto dele e ele parece ter afeição por mim também. É tão bom moço, bem intencionado, tão honesto... Se bem que do alto da sua competência, não conseguiu gerenciar muito bem um funcionário problemático chamado Apego.
Como abandonar algo com o qual você se identifica?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Receitas prontas (e sem substância) para viver

É notória a mania que as pessoas têm de demonizar coisas quando o problema está na medida. Estou lendo agora uma crítica que fala do programa "Além da Conta", estimulador do consumismo, segundo o crítico. 
O programa é questionável até porque questionar não é o forte de Ingrid Guimarães. Mas, caramba, consumir faz parte da vida. Quem não gosta? Não adianta demonizar o consumo. O desequilíbrio é que é ruim.
Os smartphones. Eles já fazem parte do dia a dia. Faço um monte de coisas através de aplicativos. Fato. Qual é o drama de entrar no Whatsapp? É só não passar o dia inteiro nele. E o programa já faz parte da vida real. Você se comunica, inclusive, com gente que está longe através dele. 
Na boa, eu não vou ficar orgulhosa de não usar o smartphone por dois dias. Tenho preocupações mais substanciais quanto à minha vida. Eu posso usar essa zorra todo dia contanto que não faça disso o único momento da minha vida diária. 
Eu posso fazer qualquer coisa, contanto que haja bom senso. Esse é o meu ponto. E, a propósito, na hora de criticar, ele também deveria estar presente.
Se estou numa mesa cheia de gente, que mal há em parar dois minutos para responder um recado no Whatsapp? É até mais educado que receber um telefonema e fazer barulho atrapalhando a conversa dos outros. Todo mundo sabe que há um momento em que o papo se esvazia e você cai no tédio, para depois voltar à roda de novo quando a conversa voltar a lhe interessar. Se for um grupo maior que três, então, as chances de só uma ou duas figuras monopolizarem a conversa e você ficar de plateia são enormes. Qual é a diferença entre ficar quieto pensando na morte da bezerra e dar uma espiada nos seus emails e recados? Claro, ninguém vai convidar um amigo para sair e ficar pendurado o tempo todo no celular. Como disse acima, há de se ter bom senso.
"Ah, o self, que coisa idiota". Velho, todo mundo gosta de tirar retratos, desde a época da minha vó. Lógico, tudo tem limite. Self no velório é o fim da picada. Se você está dançando ou vendo o filho nascer, melhor pedir a outra pessoa para registrar enquanto você vive aquele instante. Mas um autorretrato ou fotos com a galera, se não cortam a onda do programa, são um plus, um momento divertido também para viver.
E quem tem até 40 anos menos ainda tem o direito de reclamar de computadores e smartphones, afinal, fomos a geração de crianças e jovens que fazia muita coisa em frente a TV, ao videogame, e isso não nos alienou, acredito. A "vida real" tem e sempre terá o seu lugar.
E há ainda, hoje em dia, uma série de modinhas discutíveis, mas que, sobretudo, servem para oprimir quem não adere a elas. Ser vegetariano. Se eu me sinto bem comendo carne e se há na natureza outros animais carnívoros, por que tenho que ser rotulada como uma pessoa pior só por comer carne? Porque o discurso de quem é vegetariano insinua isso.
A caceta do parto normal. Eu gosto da ideia, até porque fico horrorizada só de pensar numa faca cortando a minha barriga. Mas nessa hora do parto é o que a mãe se sente mais segura para fazer, ora. Que adianta ela ter um parto normal se tremendo de medo da dor? "Ah, é melhor para o filho?". Paciência, bicho. Numa relação, tem que estar bom para ambos. Lição número um: mãe é gente, não é santa. Como gente, ela tem o direito de não querer parto humanizado, normal, whatever!
Enfim, eu não quero ser heroína de nada. Eu me interesso em cultivar uma dose de bom senso, mas não tô aqui para fazer sacrifícios ao nada, como bem definiu Nilton Bonder. Queeeee!... A vida é muito curta para ficar me ocupando com esse tipo de preocupação vazia. Garanto que não vai ser esse tipo de picuinha que vai fazer a diferença.

Birdman

Fui assistir a "Birdman". Saí do cinema com o estômago embrulhado e não sabia se era culpa do capuccino que tomei na Sala de Arte ou da minha angústia com o desespero do protagonista. Eu me reconheci naquele nível de ansiedade. Sério. 
Deus do céu, que pânico é esse de ser esquecido que impede que a gente vire a página? Que sede é essa de ser especial para a sociedade? Que engano a gente alimenta ao pensar que popularidade significa afeto? Por que tanto medo de fracassar se, como diz o povo, do chão a gente não passa?
Você faz as suas escolhas, elas vão de encontro com o que o coletivo espera mas são sinceras com o seu querer, e ainda assim não dá para ficar bem com isso? Especiais são aqueles que conseguem se deixar em paz.
A gente procura por uma intensidade, por um significado, que não casa com a natureza da vida. Eu me pergunto se em 1500 as pessoas queriam tanto assim da própria existência, porque a minha teoria é que isso começou com a mídia, com a comunicação. Mas é que para vender informação/cultura, tem que haver apelo. Viver "na apelação" é contraproducente porque a vida não é entretenimento, é 99% de transpiração, você faz conforme as possibilidades; é espera e imperfeição suportadas pelo sonho de que, quem sabe um dia...