"Tu me mandaste embora, eu irei
Mas comigo também levarei
O orgulho de não mais voltar"
Maria Bethânia, "Orgulho".
Essa semana, andei pensando muito a respeito de um tema importante - que não revelarei aqui - e vi que, para a minha contrariedade, me pareço com uma certa pessoa de minha família com quem não gostaria de ter nenhuma semelhança na personalidade. Ironia do destino que logo o que eu tenho de mais forte em mim vem delx.
Não compartilhamos o mesmo sangue à toa. Vejo isso todo dia em Felipe. Ele tem muito de mim, embora tenha saído de outra barriga. Não é à toa que eu o amo tanto. Em muitas coisas ele se parece comigo na idade dele e sempre achei que eu, até os cinco anos de idade, fui a minha melhor versão. Morro de amores até hoje por aquela menininha fofa.
Sim, personalidade se herda. Mas ainda não consegui descobrir de quem puxei certas maravilhosidades da minha alma. :P
Um dia, há mais de 20 anos atrás, encontrei uma de minhas irmãs sentada na escadaria do nosso prédio. Ela não chorava, apenas tinha uma expressão de derrota, de desgosto, na cara. Havia brigado feio com o primeiro namorado e, em cinco dias, o sujeito não colaborava para acabar com a situação, como se ela não fosse importante, fingia que ela não existia. Ela começou a duvidar do amor dele. E admitiu que algo havia se partido a partir dali e me disse uma frase que eu, ao longo da vida, fui me identificando à beça: "Não consigo gostar de quem me maltrata".
Indispensável contar que aquele relacionamento acabou em indiferença total da parte dela, que deixou o moço, alguns anos depois, quando se convenceu que era possível se apaixonar uma segunda vez, e partiu pra outra sem nunca mais olhar para trás. Ele não entendia, foi a vez dele cair em depressão. E a dela de fingir que ele não existia. Mas se pudesse ver o quanto ela ficou magoada com a atitude dele naquele junho de 1993, compreenderia perfeitamente.
Minha irmã e eu compartilhamos esse mesmo traço, de matar por dentro quem nos mata aos poucos. O engraçado é que as pessoas reagem à minha indiferença, quando ela realmente chega, como traição, como se fossem incapazes de acreditar que eu um dia agiria com firmeza. Ou elas devem me achar uma santa, que sempre perdoa tudo, ou devem me achar tão miserável a ponto de não ter direito de me aborrecer com ninguém (só digo que, em ambos os casos, estavam falando com a pessoa errada). Obviamente, também tenho o meu amor próprio e, sinceramente, olhando para trás, ele mais me protegeu que me fez mal. Na verdade, não consigo ver que tenha me feito mal. Pra ser bem sincera, acho mesmo que ele sempre chegou tarde demais, que acabei aguentando sempre mais do que deveria.
O orgulho desce pro meu coração quando estou convencida de que tenho bons motivos para tê-lo. Não sou orgulhosa por qualquer coisa. Não é qualquer crítica, não é qualquer pisada na bola, não é qualquer ofensa que me põe para correr. Isso, na verdade, seria insegurança ou infantilidade. Tenho coragem para insistir. Aliás, essa minha teimosia, como diz meu pai, é a minha grande qualidade. Quantas vezes, ao longo da vida, já ouvi essa frase: "Não sei como você aguenta. Já teria desistido, no seu lugar". Mas, nessas circunstâncias, tinha bem claro para mim que era maior do que a falta de consideração alheia e, principalmente, o que fui buscar ali. Sim, havia um ganho em jogo, algo importante a receber. Também não me arrependo de nenhuma dessas situações, olhando para trás.
Mas maltrato de quem a gente só quer o amor, isso não aturo, não. Na família, nas amizades, no amor de casal, isso é tudo que a gente tem para receber e para dar, porque, qualquer outra coisa, já temos dentro da gente. Só não trazemos a capacidade de nos amar, porque "ser amado" envolve mais alguém. E mesmo que quisesse aturar, não conseguiria. Vai além das minhas forças. Eu deixo de amar quem me maltrata. E Graças a Deus é assim. Mais do que ter orgulho, é importante ter dignidade.
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