Tenho um amigo de infância que é até gente boa, mas um completo idiota quando se trata de política. É aquele tipo de gente que acha que tudo é uma questão de querer. Explico: a mãe dele conseguiu montar o próprio negócio, que por sinal não a deixou rica - não chega nem a classe média alta -, mas proporcionou uma vida com direito à Disney e à faculdade particular aos filhos, e por isso sempre se achou no direito de falar mal do governo e se queixar dos sofrimentos que um empresário no Brasil enfrenta para sustentar o seu negócio.
(Olha, minha mãe tem toda razão quando diz que o mal dos outros é achar que podem discursar assim que sobem no tijolo. Não preciso explicar a ironia contida na frase, ok?)
O lado privilegiado precisa aprender urgentemente a diferença entre revolta (ativo) e ressentimento (passivo). O cristianismo nos incutiu essa moral escrava que diz que devemos dar a outra face e, nessa, o mesmo grupo vai se perpetuando no poder. Nada mais legítimo do que quem sustenta essa pirâmide querer o seu pedaço também.
Quem milita não se queixa enquanto fica sentado na pedra esperando ela criar lodo. Muito pelo contrário. Um estudante cotista tem um centímetro de privilégio na entrada, mas rala o dobro pra sair da universidade.
Ninguém deve se sentir mal, claro, por ter tido oportunidades, mas, faça o favor, reconheça os seus privilégios e as léguas de frente que isso deu em relação a maioria desprivilegiada. Demonstre empatia.
Outro dia, fui cobrir o aniversário do Colégio Antônio Vieira. Descobri que lá eles têm a Academia Vieirense de Letras e Artes. Fiquei pasma. Imagine o que ser parte de uma academia e ser "vieirense" fazem pela autoestima de uma criança! É claro que ela só vai querer pensar alto. Nessas pequenas coisas a gente já vai projetando o nosso lugar na sociedade. Agora pense no menino da escola pública municipal. Ele não recebe nem a merenda. Não tem professor. A família não faz muito gosto, muitas vezes, nos estudos, que é coisa de gente preguiçosa na visão deles. Quantas vezes não ouvi insinuações desse tipo na minha própria família? Meu pai me respondia, quando eu queria um livro, que era desperdício porque livro só tem graça ler a primeira vez. Minha sorte é que sempre gostei de ler e dava um jeito. Mesmo assim, quando cheguei na Facom, ficou visível a minha defasagem em relação aos coleguinhas.
Daí vem um bufado desse dizer que não faz diferença!? Ele mesmo, pelo comportamento que tinha quando menino, não tivesse caído num ambiente protegido, provavelmente não teria sido o que preste.
Como escreveu uma figura que eu sigo no Facebook:
"Estudei num dos melhores colégios de Salvador (o Antônio Vieira), e
sempre lamentei que nem todo mundo tenha as oportunidades que eu tive na
vida. Sim, porque não há talento que resista se não houver a
oportunidade. Semente boa não vinga em solo ruim."
Precisa desenhar? No fundo, sabe qual eu acho que é o "trauma" dessa gente? É saber que no lugar dessas pessoas que batalham, não teriam a mesma competência para tocar em frente. Fora a culpa, lá no fundo, em explorar o próximo. Geralmente quem vem com esse discursinho babaca, adora tirar vantagem de quem pode menos economicamente.
Cada vez mais tenho preguiça dessa gente, na moral...
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