quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem tem medo da mulher solteira?

Eu acho que um monte de gente tem, infelizmente.
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?


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