Tem gente que não é nada de mais, não - embora haja sempre quem ponha maldade nas coisas. Apenas beleza. Tem gente que é bacana de olhar, que tem uma aparência gostosa que, às vezes, chega a salvar o dia.
A beleza tem o seu lugar, não vamos mentir. Ela desperta um carinho. Mas às vezes isso é tudo e é bom apenas por ser assim.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Pedro Paulo ou a inesperada virtude da ignorância
Pedro Paulo é amigo de um amigo. De cara, adorei ele. Ar de gente boa, cara bonita (isso é assunto para outro post...), tranquilinho. Tem alma de cachorro, é afável com todo mundo. Um fofo, como se diz. Quem nos apresentou é o oposto disso, ligado no 220 w, desesperado, crítico. Amigos de infância que se adoram, mas não têm nada a ver.
É engraçado quando os dois começam a interagir, beira o patético em algumas situações.
Sabe aquela coisa que eu já disse aqui, de que tem gente que terá uma vida linda contanto que nunca tenha certas epifanias? É ele. E, segundo o meu amigo, isso é de família; Pedro Paulo e o irmão são assim desde crianças, o que o intriga ainda mais.
Ele tenta desafiar o bichinho a ter senso crítico de todas as formas, mas não consegue provocar nem um suspiro de cansaço, nem uma ruga de expressão. Pedro Paulo continua lá, na dele, uma folha em branco.
O amigo tenta convencê-lo de que a vida o maltrata, como a todos nós. Que ele passou um tempão trabalhando sem carteira assinada e ainda hoje ganha mal, precisando frilar nas folgas semanais. Que ele nunca vai a lugar nenhum que não seja o Capão. Que ele não come coisas boas. Que morar perto do trabalho e morar na casa da avó não são motivos para ele estar tão satisfeito com a vida.
Aliás, tenho que admitir: uma coisa boa nisso tudo é que ele é a única pessoa que, ao me ouvir reclamando da vida, não tenta competir comigo. E mais: ele ainda ratifica que a vida dele é boa, sem cinismo ou maldade. Pedro Paulo não tem essa complexidade.
No final da história, tudo fica como antes no quartel de abrantes. Se alguém fica abalado é o meu amigo, que, claro, tem ressaca moral de ter abusado tanto o outro a troco de nada. Ele diz: "É, não tem jeito. Então é melhor que ele nem acorde mais e morra assim".
Amém.
É engraçado quando os dois começam a interagir, beira o patético em algumas situações.
Sabe aquela coisa que eu já disse aqui, de que tem gente que terá uma vida linda contanto que nunca tenha certas epifanias? É ele. E, segundo o meu amigo, isso é de família; Pedro Paulo e o irmão são assim desde crianças, o que o intriga ainda mais.
Ele tenta desafiar o bichinho a ter senso crítico de todas as formas, mas não consegue provocar nem um suspiro de cansaço, nem uma ruga de expressão. Pedro Paulo continua lá, na dele, uma folha em branco.
O amigo tenta convencê-lo de que a vida o maltrata, como a todos nós. Que ele passou um tempão trabalhando sem carteira assinada e ainda hoje ganha mal, precisando frilar nas folgas semanais. Que ele nunca vai a lugar nenhum que não seja o Capão. Que ele não come coisas boas. Que morar perto do trabalho e morar na casa da avó não são motivos para ele estar tão satisfeito com a vida.
Aliás, tenho que admitir: uma coisa boa nisso tudo é que ele é a única pessoa que, ao me ouvir reclamando da vida, não tenta competir comigo. E mais: ele ainda ratifica que a vida dele é boa, sem cinismo ou maldade. Pedro Paulo não tem essa complexidade.
No final da história, tudo fica como antes no quartel de abrantes. Se alguém fica abalado é o meu amigo, que, claro, tem ressaca moral de ter abusado tanto o outro a troco de nada. Ele diz: "É, não tem jeito. Então é melhor que ele nem acorde mais e morra assim".
Amém.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
"A vida não é um filme. Você não entendeu..."
Eu sempre tive dificuldade para realmente perceber que a vida é comigo e não uma ficção. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda espero que alguém me acorde e me diga que isso não aconteceu, que isso não é a minha vida. Eu ainda acho que vai ser possível, um dia, entrar na máquina do tempo e reviver.
Ainda acho que isso tudo aqui é ilusão. Que eu sou uma extraterrestre perdida no corpo de uma terráquea. Que eu nunca fui humana antes e pertencia a um grupo de amebas. Que estou no mundo de Matrix.
É um problema de existir mesmo, acima de qualquer coisa.
É um problema de existir mesmo, acima de qualquer coisa.
Vejamos.
Desde que eu tinha uns cinco anos, tenho pensamentos estranhos.
Eu nunca entendi porque eu tinha que ser Juliana. Eu nem sou exclusivamente Juliana. Muita gente, muita mesmo, tem o meu nome. Por que obedecer a ele, sempre? Eu não entendia por que não ser às vezes Carol, Fernanda ou Mariana.
Eu também tenho muita dificuldade de aceitar a incompletude das coisas. Como boa lua em fogo, se falta um pedaço, falta tudo e eu não quero mais, não. Quando eu tinha cinco anos, o sapato de um dos pés da minha Susi caiu dentro de um capô de carro. A boneca acabou, ali, pra mim. Não dá pra brincar com uma boneca descalça. Falta algo. O sapato. A inteireza.
Eu quase nunca lembro dos eventos de uma perspectiva minha. Sei do que aconteceu com todo mundo, menos comigo. É que as coisas são tão aleatórias ou empurradas (ou mesmo rápidas quando são boas), que eu quero apenas que elas passem pra eu poder voltar para casa. Viver cansa. Estar rodeada de gente é bom, mas trabalhoso, ainda mais pra quem tem pouca energia e mente dispersa. Focar e produzir. Arre!... Só curto depois de pronto. Raramente o processo não é um sofrimento.
O que será que vai comigo dessa existência? Sinceramente, não sei. Há dez anos, a minha infância era muito presente. Mas, descobri num grupo de ex-colegas de escola, que isso já não me diz mais nada - eles que não me ouçam, mas é, mesmo, como se fosse uma lembrança de outra vida.
Minha nova infância são os meus dois primeiros anos na faculdade. Porque, de fato, minha vida começou na "adultescência". Eu sei por quê. Além da liberdade - que veio casada com a independência financeira -, teve a descoberta de gente que era como eu; o aprendizado acelerado de um monte de coisas, as descobertas de mundos que eu mal conhecia; o desenvolvimento pessoal. Foi intenso como nunca mais ocorreu na vida.
Minha nova infância são os meus dois primeiros anos na faculdade. Porque, de fato, minha vida começou na "adultescência". Eu sei por quê. Além da liberdade - que veio casada com a independência financeira -, teve a descoberta de gente que era como eu; o aprendizado acelerado de um monte de coisas, as descobertas de mundos que eu mal conhecia; o desenvolvimento pessoal. Foi intenso como nunca mais ocorreu na vida.
Naquela época, poderia contar o meu futuro e ele parecia um filme. A seguir, cenas dos próximos capítulos...
domingo, 2 de agosto de 2015
Dependência
Por coincidência, assisti a dois filmes que tocam no tema "dignidade diante da doença", nesse final de semana:"Para sempre Alice" e "Mar adentro".
O primeiro é mais dramático; o segundo é mais leve, mas produz excelentes reflexões. Que diálogos! Fora o carisma do elenco espanhol.
O protagonista, Ramon Sampedro, diz algo que eu nunca tinha pensando, apesar de ser bastante óbvio: "Quando a gente depende dos outros para tudo, perde a privacidade". Não é só o brio que vai pro espaço, mas o direito de ficar a sós. Tão precioso!...
Deus do céu, já não era tempo de haver cura para essas coisas? Tomara que não tarde a acontecer.
O primeiro é mais dramático; o segundo é mais leve, mas produz excelentes reflexões. Que diálogos! Fora o carisma do elenco espanhol.
O protagonista, Ramon Sampedro, diz algo que eu nunca tinha pensando, apesar de ser bastante óbvio: "Quando a gente depende dos outros para tudo, perde a privacidade". Não é só o brio que vai pro espaço, mas o direito de ficar a sós. Tão precioso!...
Deus do céu, já não era tempo de haver cura para essas coisas? Tomara que não tarde a acontecer.
sábado, 1 de agosto de 2015
Qual o limite do humor?
Muita gente, eu me lembro, se queixava de Joan Rivers, a famosa crítica do tapete vermelho. Não havia meio termo: ou você era fã do humor mordaz dela ou achava a mulher uma bruxa insensível.
Ok, expor as pessoas ao ridículo é cruel, mas, na boa, dizer que quem é lindo, bem sucedido e às vezes até está na festa para receber um prêmio se vestiu mal, está brega, não tem o poder de causar lá grandes prejuízos à figura. Se isso acontece, é mais um caso de ir ao psicólogo que à Justiça, a meu ver. Além do mais, essas pessoas ou exageram, querendo chamar a atenção, ou são displicentes quando têm, à disposição, toda uma indústria, em torno de si, querendo ajudá-los com a aparência. É um jeito nada educado de passar uma informação, mas, convenhamos, se a celebridade tiver um pouco de senso crítico, vai poder aprender com aquilo, quer assimilando ou se posicionando.
Outra coisa é tirar sarro de uma catadora de lixo, tão vulnerável socialmente, tão agredida na autoestima.
Enfim, pra mim, o limite é não fazer críticas gratuitas, sem sentido, muito menos para chutar cachorro morto.
Agora, humor é que nem sexo: pra valer, nunca vai ser limpinho. Desistam dessa ideia.
Os discursos necessários
Um ser humano, por mais libertário, raramente não vai ter seus estranhamentos. É normal. Todos viemos de um recorte social.
Estou numa fase em que, apesar de não lutar contra os meus estranhamentos, eu quero apoiar quem é estranho. Por mais que me desagrade, algumas bizarrices são necessárias para que todos comecem a se acostumar com a diversidade.
E acho que nem todo discurso hipócrita deve ser combatido. Explico. Por exemplo, nosso ex-professor WG não é aquela criatura justa e amável do Facebook. Não mesmo! Qualquer um que tenha sido aluno dele por um mês sabe que ele é preconceituoso e elitista. Mas o discurso dele nas redes sociais, ainda que hipócrita, tem sido muito importante. É um discurso liberal, de aceitação da diversidade, democrático. É uma falsidade do bem. Ele ganha muito com isso, obviamente, mas, inegavelmente, produz um bem ao botar um pouco de luz na cabeça de quem acredita que ele é assim mesmo.
A mesma coisa penso do Jean Wyllys. Se bem que sinto que ele, apesar de elitista e deslumbrado, tem uma essência amorosa, se importa de verdade. Ele está tendo o seu momento "Super Xuxa Contra o Baixo Astral", mas tem feito a diferença na luta das minorias.
Enfim, babies, há situações em que "mentiras sinceras" super interessam.
A Mulher Cordial
Quando estiver na vibe do mestrado, vou propor uma dissertação que vai se chamar "A Mulher Cordial".
A sociedade espera, elas não se posicionam. Quando isso vai mudar? A quem interessa manter? Que síndrome de Estocolmo dos infernos é essa?
Não precisa ser uma Miley Cyrus, não, para chocar. Basta não ser "delicada". Basta não ser "compreensiva". Basta ser direta. E todos vão te criticar, te garanto.
Eu até entenderia se o mesmo valesse para os homens. Mas não é assim. Faça você, mulher, uma piada e faça um homem. A aceitação vai ser completamente diferente. Eles podem. Você que fique confinada na sua caixa de boneca de porcelana.
Eu me lembro, ainda, da primeira vergonha que eu fiz minha mãe passar. Mas por culpa dela, que quis bancar a caridosa às minhas custas. Eu tinha cinco anos e estava em uma festa de aniversário em uma chácara. Teve uma corrida, eu venci e ganhei um porco de plástico verde, com uma nota de R$ 5 dentro. Ela queria que eu devolvesse o prêmio porque as outras crianças eram menores que eu. Me recusei, disse que o porco era meu, que eu era a vencedora. Ela insistiu, querendo me forçar a ser "boazinha". A mãe da dona da festa interveio - não sei se por reconhecer a minha razão ou para evitar o constrangimento -, dizendo a minha mãe que me deixasse, que eu havia ganho a corrida e o prêmio era meu.
A mulher tem que ser sempre enquadrada, desde pequena. "Não reclame". "Seja delicada". "Ceda sempre, sem se importar".
Mas e se eu for uma boa pessoa, solidária, afetuosa, etc, eu me torno uma criatura ruim por defender os meus direitos e a minha individualidade? Desculpe, não é a minha natureza e, na boa, eu não quero ser assim. Por que se ater nisso em detrimento das qualidades?
Por exemplo, eu acho que ninguém tem que aturar infinitamente gente folgada. Por que eu tenho que ter paciência, consideração sem fim, delicadeza com quem não se importa se está me abusando ou não? Se a pessoa não quer parar de ser sem noção, se ela não me enxerga e não se importa comigo, ela tem que assumir, pelo menos, o risco de levar uma cortada uma hora dessas. Das vezes em que fui cara de pau, sabia o que poderia vir e, quando veio, aguentei firme. Afinal, o tamanho do saco da paciência varia conforme o dia. Por muito menos os homens jogam logo um "Porra" na cara da criatura e ninguém diz um "Ai". Mulheres não precisam ser santas. Tá na hora de assumir nossa carne e nosso sangue.
Isso não é apenas uma impressão minha. Saindo da esfera privada para a pública, infelizmente, o mercado de trabalho tem demonstrado que conhece muito bem essa realidade e vem trocando, em seus setores mais em crise, homens por mulheres. Girl Power? Sabe de nada, inocente...
Uma amiga estava lembrando, ontem, da ex-diretora do NY Times, que foi demitida após ter descoberto que o seu antecessor, do sexo masculino, ganhava muito mais, o que a fez pedir por paridade salarial. Ainda nos querem, nesses cargos, para Rainha da Inglaterra, aquela figura elegante que não apita nada, realmente.
As empresas fazem isso porque, mesmo pagando 30% menos às chefes mulheres, elas vão se sentir muito agradecidas e vão se portar como cães de guarda do patrão, morrendo de medo de perderem o emprego.
Eu já disse que odeio chefia feminina e é por causa disso. Elas não fazem o que é possível, não são objetivas como os homens, não defendem a equipe, não se seguram nas próprias pernas. O diretor da empresa dá uma ordem absurda e elas vão sacrificar o que for para mostrar serviço. Depois, arrependidas de terem agido como megeras com os subalternos, vêm puxar o saco. É patético.
Isso acontece porque elas são incapazes de se posicionarem diante de uma ordem maluca, são incapazes de defenderem as suas equipes. Agem como mães que acham que podem tudo com os filhos e não querem tomar bronca do marido exigente. A diretoria sabe que botão apertar, nessas horas, e leva para a chantagem emocional. Dizer a uma mulher que ela "não consegue", "não se comprometeu", enfim, que ela "não serve para nada", é a reprodução das relações abusivas dos casamentos dos anos 50 no mundo do trabalho do século 21.
Duas cenas bem simbólicas disso aconteceram na empresa onde trabalho no espaço de uma semana. A hierarquia de um jornal é assim: repórteres - editores - editores coordenadores - secretários de redação - diretor de redação - diretor geral. Guarde isso, que é para vocês sentirem, a seguir, o drama.
1) Situação: fechamento da edição de domingo, sábado, uns 20 minutos antes das 14 h - esse é o horário limite para descer a edição. O pessoal do Comercial liga para o secretário de redação dizendo que vai entrar um anúncio. Ele se recusa a fazer a inserção, afinal, além de um tremendo desrespeito à Redação, isso vai atrapalhar todo o fluxo da edição. Quando a gente atrasa, o pessoal do Industrial logo começa a dar piti. É um inferno. A pessoa do Comercial ameaça dizendo: "Você vai se responsabilizar por isso?". Ele responde que não vai ceder. Fim de papo.
2) Situação: o RH da empresa faz uma série de descontos indevidos aos funcionários que batem ponto na Redação. Alguns descontos beiram R$ 1 mil, então as pessoas ficam revoltadas, até porque vai demorar até serem ressarcidas. Alguns repórteres se pronunciam pelo bate-papo interno, reclamando dos abusos. A diretora de redação não faz nenhum pronunciamento nem toma qualquer providência em prol dos funcionários. No dia seguinte, acontece a assembleia dos jornalistas. Diretora e secretária de redação "desaparecem" da Redação, como não costumam fazer naquele horário do dia. Que "coincidência", né?. Dois dias antes, aliás, a diretora faz terrorismo com os editores coordenadores por conta de problemas nos pontos das equipes. Uma delas, aliás, repassa o terror, com todas as tintas, a uma repórter menos prestigiada, que saiu chocada com essa postura da figura. Em tempo: todo mundo dá a sua produção, certinha, sem prejuízo ao jornal - muito pelo contrário. Mas as chefes são incapazes de bater o pé, nesse ponto de vista, com o RH. Mais fácil aterrorizar - e desestimular - a equipe. Agora leve um bolo ou comidinhas para a mesa central da Redação para ver se essas duas não aparecem, no ato, para ajudar a servir e botar fotinhas fofas da equipe no Facebook. As Rainhas da Inglaterra (sou mais a Rainha Má). Vergonha alheia define.
A que preço, né, meus caros? Não basta agir da melhor forma possível, se esforçar. Tem que sangrar, descer, se encolher, ceder até a última gota de sangue.
Duas cenas bem simbólicas disso aconteceram na empresa onde trabalho no espaço de uma semana. A hierarquia de um jornal é assim: repórteres - editores - editores coordenadores - secretários de redação - diretor de redação - diretor geral. Guarde isso, que é para vocês sentirem, a seguir, o drama.
1) Situação: fechamento da edição de domingo, sábado, uns 20 minutos antes das 14 h - esse é o horário limite para descer a edição. O pessoal do Comercial liga para o secretário de redação dizendo que vai entrar um anúncio. Ele se recusa a fazer a inserção, afinal, além de um tremendo desrespeito à Redação, isso vai atrapalhar todo o fluxo da edição. Quando a gente atrasa, o pessoal do Industrial logo começa a dar piti. É um inferno. A pessoa do Comercial ameaça dizendo: "Você vai se responsabilizar por isso?". Ele responde que não vai ceder. Fim de papo.
2) Situação: o RH da empresa faz uma série de descontos indevidos aos funcionários que batem ponto na Redação. Alguns descontos beiram R$ 1 mil, então as pessoas ficam revoltadas, até porque vai demorar até serem ressarcidas. Alguns repórteres se pronunciam pelo bate-papo interno, reclamando dos abusos. A diretora de redação não faz nenhum pronunciamento nem toma qualquer providência em prol dos funcionários. No dia seguinte, acontece a assembleia dos jornalistas. Diretora e secretária de redação "desaparecem" da Redação, como não costumam fazer naquele horário do dia. Que "coincidência", né?. Dois dias antes, aliás, a diretora faz terrorismo com os editores coordenadores por conta de problemas nos pontos das equipes. Uma delas, aliás, repassa o terror, com todas as tintas, a uma repórter menos prestigiada, que saiu chocada com essa postura da figura. Em tempo: todo mundo dá a sua produção, certinha, sem prejuízo ao jornal - muito pelo contrário. Mas as chefes são incapazes de bater o pé, nesse ponto de vista, com o RH. Mais fácil aterrorizar - e desestimular - a equipe. Agora leve um bolo ou comidinhas para a mesa central da Redação para ver se essas duas não aparecem, no ato, para ajudar a servir e botar fotinhas fofas da equipe no Facebook. As Rainhas da Inglaterra (sou mais a Rainha Má). Vergonha alheia define.
A que preço, né, meus caros? Não basta agir da melhor forma possível, se esforçar. Tem que sangrar, descer, se encolher, ceder até a última gota de sangue.
E elas se submetem porque não suportam desagradar. Mulher não é criada, ainda hoje, para se autoafirmar, mas para agradar. Meu viva às insurgentes! Se der, ainda nessa vida, vou escrever sobre vocês.
É muita filosofia e arte na catraca
Por problemas da própria cidade, não ando fazendo segredo que desejo muito parar de andar de ônibus. É demora, é perigo de roubo, é lotação, leva uma vida para chegar até o destino, enfim, um inferno. Fora isso, para quem pega no mínimo 12 vezes por semana, como eu, cansa, às vezes, a convivência. Há de todos os tipos e, a depender do seu nível de cansaço, a paciência fica curta com gente que berra, que empurra, que toma descaradamente o lugar dos idosos, etc.
Mas coisas engraçadas também acontecem nesse espaço. É inegável que uma das formas de saber o que se passa em Salvador é através do transporte público (mas, na boa, só vou voltar a curtir quando for metrô).
Outro dia, o cobrador batia boca com uma velhinha que, mesmo com a frente, destinada aos idosos, lotada, queria ficar lá, em pé. Ele forçou a barra e ela passou a catraca. Depois, como que prevendo a crítica de alguns passageiros, falou: "Na hora em que ela caísse, a população ia querer linchar o motorista, o cobrador. Em Salvador é assim".
Mas o sujeito gostava mesmo era de pirraçar. Minutos depois, ele estava falando com o motorista que sogra é uma criatura que não nasceu pra ser boa. A mesma velhinha, ainda injuriada por ter sido contrariada, começou a rebater a crítica, dizendo que muitas sogras faziam pelos netos o que "os homens safados" não faziam por seus filhos. E ele continuou pirraçando a criatura até ela descer do coletivo.
Artistas
Há algumas relações menos belicosas, mais artísticas. Outro dia, enquanto ia para o médico, duas garotas, com as caras pintadas e um caixote cada uma, entraram pela porta do meio. Elas começaram a cantar. Pareciam os bichinhos daquele filme "Alvim e os Esquilos". Brincadeira. Elas eram afinadinhas. Cantaram, cantaram, a galera aplaudiu. Elas contaram que vieram de Córdoba, Argentina, e estão rodando a América Latina há dois anos. Por fim, agradeceram muito, sentindo-se sinceramente consagradas dentro daquele coletivo. Não deixaram o motorista de fora, foram super gratas a ele, que retribuiu: "Voltem sempre, minhas lindas!".
O povo é doido, definitivamente.
terça-feira, 28 de julho de 2015
O drama de (não) pertencer
Arranjei problema pra mim. Mais precisamente há quatro horas atrás, quando, por acaso, passava na televisão "Divergente", filme inspirado no primeiro livro da trilogia da americana Veronica Roth - a miserável só tem 27 anos.
Já tinha ouvido falar do filme, mas deixei pra lá achando que se tratava de mais um "Jogos Vorazes", que eu vi e achei mó sem graça.
O que me pegou no filme foi o lado filosófico do seu argumento. Take a look:
Eu fiquei refletindo, claro, sobre qual facção seria a minha. Definitivamente, não seria vizinha de Beatrice na Audácia, apesar de detestar certo tipo de covardia. Sabe como é, sou que nem aquela música do Belchior, quando morre um medo, vou buscar outro lá no Piauí. (Meu medo se chama bom senso e, por ser tão benéfico muitas vezes, tá difícil de abandonar o lado B disso.)
A Abnegação ficaria em quarto. Eu até sou boa em dar, mas também quero receber. A Erudição viria em terceiro - na verdade, estou confusa porque a Abnegação também poderia estar nessa posição. Gosto de aprender, mas geralmente muita cultura tem a ver com uma certa perversidade e egoísmo. E, no fundo, não acredito que isso faça alguém melhor do que os demais. Adoraria a Amizade e tenho aptidão para isso, mas um quê de agressividade em mim talvez me fizesse inadequada. Não estaria disposta a me anular em prol do grupo. Teria que checar o "ponto de corte" dessa turma. Acabaria, acho, me ajustando melhor à Franqueza.
O drama inicial de Beatrice é o drama de todos nós ao entramos na vida adulta: deixar coisas que amamos para trás em prol do cumprimento da nossa jornada. Ser diferente do nosso grupo de origem cria uma distância insuperável mesmo, que o amor não é suficiente para derrubar. Aliás, ao contrário do que cantam por aí, o amor não é suficiente para um monte de coisas na vida, ele sozinho.
Depois, existe ainda o problema de pertencer a dois mundos e não ser reconhecido por nenhum deles direito. De fato, o problema dela é mais profundo: como divergente, ela poderia estar em qualquer facção; não é naturalmente pertencente a nenhuma. Beatrice apenas escolheu a Audácia por ser o oposto do que vivenciou na Abnegação, acredito. É um drama bem contemporâneo o dela, e nisso a autora foi muito feliz. Num mundo globalizado, como o atual, transitar sobre diversas identidades é confuso e angustiante, sem dúvida. As pessoas têm medo de você quando não é possível te encaixar numa definição.
E, há, ao final de tudo isso, a pergunta para a qual não há resposta 100% satisfatória: Por que o mundo é tão problemático assim? Acho que a autora, provavelmente, concordaria que o problema é a falta de respeito pela diferença, por aquilo que, por conta da nossa própria natureza, não conseguiremos nunca apreender e aceitar, de fato, e, portanto, conviver. Frequentemente achamos que a dignidade está no nosso jeito de viver, apenas.
Mas o mundo divergente cansa muito, viu? Não me agradou a ideia de rivalidade entre as facções, mas penso que adoraria viver num distrito de gente com a mesma índole que a minha, onde o ladrão não pudesse me encontrar (risos).
Enfim, vou ter que ler essa série. Já vi tudo.
Já tinha ouvido falar do filme, mas deixei pra lá achando que se tratava de mais um "Jogos Vorazes", que eu vi e achei mó sem graça.
O que me pegou no filme foi o lado filosófico do seu argumento. Take a look:
Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto.A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é.E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.
Eu fiquei refletindo, claro, sobre qual facção seria a minha. Definitivamente, não seria vizinha de Beatrice na Audácia, apesar de detestar certo tipo de covardia. Sabe como é, sou que nem aquela música do Belchior, quando morre um medo, vou buscar outro lá no Piauí. (Meu medo se chama bom senso e, por ser tão benéfico muitas vezes, tá difícil de abandonar o lado B disso.)
A Abnegação ficaria em quarto. Eu até sou boa em dar, mas também quero receber. A Erudição viria em terceiro - na verdade, estou confusa porque a Abnegação também poderia estar nessa posição. Gosto de aprender, mas geralmente muita cultura tem a ver com uma certa perversidade e egoísmo. E, no fundo, não acredito que isso faça alguém melhor do que os demais. Adoraria a Amizade e tenho aptidão para isso, mas um quê de agressividade em mim talvez me fizesse inadequada. Não estaria disposta a me anular em prol do grupo. Teria que checar o "ponto de corte" dessa turma. Acabaria, acho, me ajustando melhor à Franqueza.
O drama inicial de Beatrice é o drama de todos nós ao entramos na vida adulta: deixar coisas que amamos para trás em prol do cumprimento da nossa jornada. Ser diferente do nosso grupo de origem cria uma distância insuperável mesmo, que o amor não é suficiente para derrubar. Aliás, ao contrário do que cantam por aí, o amor não é suficiente para um monte de coisas na vida, ele sozinho.
Depois, existe ainda o problema de pertencer a dois mundos e não ser reconhecido por nenhum deles direito. De fato, o problema dela é mais profundo: como divergente, ela poderia estar em qualquer facção; não é naturalmente pertencente a nenhuma. Beatrice apenas escolheu a Audácia por ser o oposto do que vivenciou na Abnegação, acredito. É um drama bem contemporâneo o dela, e nisso a autora foi muito feliz. Num mundo globalizado, como o atual, transitar sobre diversas identidades é confuso e angustiante, sem dúvida. As pessoas têm medo de você quando não é possível te encaixar numa definição.
E, há, ao final de tudo isso, a pergunta para a qual não há resposta 100% satisfatória: Por que o mundo é tão problemático assim? Acho que a autora, provavelmente, concordaria que o problema é a falta de respeito pela diferença, por aquilo que, por conta da nossa própria natureza, não conseguiremos nunca apreender e aceitar, de fato, e, portanto, conviver. Frequentemente achamos que a dignidade está no nosso jeito de viver, apenas.
Mas o mundo divergente cansa muito, viu? Não me agradou a ideia de rivalidade entre as facções, mas penso que adoraria viver num distrito de gente com a mesma índole que a minha, onde o ladrão não pudesse me encontrar (risos).
Enfim, vou ter que ler essa série. Já vi tudo.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
O sentimentalismo nosso de cada dia
Há umas duas semanas, o professor Albergaria faleceu. Tudo indica que foi suicídio. Uma amiga em comum ficou p. da vida com a versão do Correio da Bahia de que ele era depressivo. Amigos negam isso veementemente. Ele apenas quis dar fim a um sofrimento para o qual não via saída - embora a tivesse buscado bastante.
A morte é uma merda, mais para quem fica do que para quem vai, eu suspeito. Mas é perfeitamente compreensível que alguém que sofre e não vê sentido em levar uma vida indigna, dê fim ao seu sofrimento. Continuar só por continuar? É masoquismo. Mas, como disse uma amiga em comum, só gente muito inteligente entende esse tipo de decisão; o mundo, hipocritamente sentimental, não está preparado ainda.
A morte é uma merda, mais para quem fica do que para quem vai, eu suspeito. Mas é perfeitamente compreensível que alguém que sofre e não vê sentido em levar uma vida indigna, dê fim ao seu sofrimento. Continuar só por continuar? É masoquismo. Mas, como disse uma amiga em comum, só gente muito inteligente entende esse tipo de decisão; o mundo, hipocritamente sentimental, não está preparado ainda.
Não se pode servir a Deus e a mamom
Não mesmo. Como dizem agora lá no Rio de Janeiro, dá ruim.
Hoje eu vi.
Por mais que, enfim, a vida tenha mesmo dessas coisas, não dá para ser íntimo de quem é íntimo de gente que você odeia (com razão).
É como ser bissexual. Nem os heteros, nem os homos vão dar credibilidade.
É como ser Leo Messi na seleção argentina.
É como ação de responsabilidade social feita por banco.
É como produto light: nem é bom de verdade, nem é "magrinho".
Pouco amor não é amor, como dizia o outro. Não, servir a dois opostos realmente não dá.
Hoje eu vi.
Por mais que, enfim, a vida tenha mesmo dessas coisas, não dá para ser íntimo de quem é íntimo de gente que você odeia (com razão).
É como ser bissexual. Nem os heteros, nem os homos vão dar credibilidade.
É como ser Leo Messi na seleção argentina.
É como ação de responsabilidade social feita por banco.
É como produto light: nem é bom de verdade, nem é "magrinho".
Pouco amor não é amor, como dizia o outro. Não, servir a dois opostos realmente não dá.
sábado, 18 de julho de 2015
PecaD´us
Latino, que já havia se convertido evangélico, está mais apegado à fé depois da escandalosa separação da esposa.
É, estou começando a achar que Deus mora no pecado. Judas nunca amou tanto Jesus quanto após ter lhe entregado aos seus inimigos por algumas moedas.
Talvez seja uma ofensa a Deus fazer poucas transgressões. Vai ver, mesmo, que a natureza da alma é ser imoral.
Somos todas Angel?! Quem dera!...
Continuando na pegada no post anterior, eu volto a dizer que é muito ruim ter a visão das coisas do mundo. Não recomendo a ninguém. Tem que ter sangue de barata para suportar.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.
Não acorda, não, Adormecida Bela!
Se você não nasceu "Rainha Má", jogue suas mãos para os céus. E nem pense no beijo do príncipe. Evite! É cilada acordar, Bino.
Todo mundo conhece alguém que não acorda pra vida, que acha que tudo é cor de rosa. Deve ser massa ser assim. Agora só não pode acordar. Tem que orar para permanecer assim até o final da vida.
Todo mundo conhece alguém que não acorda pra vida, que acha que tudo é cor de rosa. Deve ser massa ser assim. Agora só não pode acordar. Tem que orar para permanecer assim até o final da vida.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Brancahood
Eu quero ser branca. Vou parar de tomar sol. Vou clarear as madeixas. Farei, ainda, uma plástica para afinar o nariz.
E por um único motivo: pra ter o direito de ser escrota e apenas ser classificada, quando muito, como tolinha. Serei uma inofensiva, porque eu não acreditarei no meu próprio preconceito, no fundo, apesar de cuspi-lo sem cerimônia. Eu não saberei direito o que estou dizendo, entende? Falarei tudo da boca pra fora. Serei muito branca para ser má.
Dois pesos, duas medidas. Fato.
E isso me lembra um discurso ótimo de uma negra americana. Segue.
E por um único motivo: pra ter o direito de ser escrota e apenas ser classificada, quando muito, como tolinha. Serei uma inofensiva, porque eu não acreditarei no meu próprio preconceito, no fundo, apesar de cuspi-lo sem cerimônia. Eu não saberei direito o que estou dizendo, entende? Falarei tudo da boca pra fora. Serei muito branca para ser má.
Dois pesos, duas medidas. Fato.
E isso me lembra um discurso ótimo de uma negra americana. Segue.
Em 1851, Sojourner Truth, ex-escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz: “Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem - quando tinha o que comer - e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”
O filme repetido
A humanidade nunca vai mudar. A não ser que algum cientista consiga eliminar do DNA humano a ânsia por privilégios. Mudam-se as eras, mudam-se os motivos, mas é isso que continua a promover a guerra. Ver o outro como igual, além de exigir o esforço da empatia, traz a frustração da perda do privilégio de ser "melhor". O ego humano, quase nunca equilibrado, precisa disso pra se manter de pé. Igualdade, penso, é tarefa para a ciência.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Qual é o problema de casar, gente?
Tá certo que eu ando casamenteira, esperando que o guindaste de Santo Antônio me guie rumo ao altar, mas qual é o problema das pessoas em casar, gente? Bora assinar esse papel, PORRA.
No dia em que os gays americanos ganharam o direito de se casar, acho que acabei colaborando para um "acidente diplomático" entre um casal, no Facebook.
Atenção, que vou contar o babado: dois colegas meus namoram e eles têm na faixa dos 25, 26 anos. Ela aproveitou a deixa do "Independence Day" para "brincar" com ele dizendo que agora poderiam se casar. Ele respondeu, no mesmo tom de brincadeira, que se fosse para conhecer os EUA, ele até toparia. Eu me intrometi dizendo que adorei a ideia e dei um tema: casamento em Las Vegas, com direito a sósia gordo de Elvis. Ela respondeu pra mim que iria anotar a sugestão entre as "ideias para o casamento que jamais teremos". Depois ela viu que ficou seco e editou, completando com algo mais espirituoso.
Você, que não conhece o casal, poderia me dizer, quando lhe contar que eles só têm um ano de namoro, que são novos e ainda é cedo. Vou lhe responder que aos 25 anos pensava assim, mas hoje acho isso uma besteira. A gente leva o futuro muito a ferro e fogo quando é novinho (ou faz totalmente o oposto, faltando equilíbrio nas escolhas de qualquer jeito).
Decisão séria é ter filho. Ou, pra maioria, fazer mudanças bruscas na carreira. O resto, como diz minha pragmática mamys, se der errado, dois dias de choro resolvem.
Esse tipo de racionalidade dele quebra o encanto. As pessoas levam o casamento muito a sério, quando o máximo de efeito colateral que já vi causando é o excesso de plásticas - que o digam Fábio Jr. e Gretchen.
Mas relacionamentos, com poucas exceções, são feitos para acabar. É amargo, quando for a hora vai doer pra caramba, por algum tempo você vai se arrepender de ter entrado nessa, vai se prometer nunca mais amar ninguém, mas nada é mais recorrente que isso na vida. Tudo o que se leva de um relacionamento, via de regra, é a experiência, a mágica daquele (curto) período em que se esteve apaixonado. Como diz a assessora de Deus para assuntos aleatórios - seccional Bahia, Ingrid Campos, o amor é uma fantasia que projetamos em outra pessoa.Quem você ama não existe. Por isso gente muito racional não se apaixona. Há, por mais que a gente desdenhe, sabedoria nos arrombos de paixão das celebridades. Elas sabem que em 99% dos casos é o melhor que vão poder extrair do contato com o outro. Por isso elas casam logo, para poder deixar correr solta essa fantasia (por isso fazem o pré-nupcial, justamente por, no fundo, saberem que é algo com prazo de validade).
Voltando ao meu amigo, ele, na tentativa de ser sensato, tá jogando água na fogueira. Se continuar nessa, apesar das suas inúmeras qualidades, corre o risco de apagá-la. Todo mundo precisa se sentir único, prestigiado, especial. Vamos fingir que estaremos juntos pelas próximas cinco encarnações. Se levada com leveza e boa fé, essa "mentira sincera" não vai custar nada; até que é do bem. E, no caso dele, que já divide apartamento com outras pessoas, qual é o problema? A não ser que ele não goste o suficiente dela; aí é outra história.
Pra resumir essa conversa aqui, minha gente, apenas digo: vamos parar de frescura.
"Exageradooo!... Eu sou mesmo exageradoooo"
"... Adoro um pavor inventaduuuuuu..."
Adoro nada. Pior que nem é inventado assim. Como diz um fofoqueiro da tv, "eu aumento mas não invento".
E digo mais: meu coração é guerreiro. O que passei no último mês só Jesus sabe.
Comecei a ouvir histórias cabulosas de violência no México e cheguei até a cogitar trocar de destino, o que só não fiz pra manter uma certa dignidade diante dos amigos. Na mesma semana do embarque sonhei que minha mãe morria enquanto estava fora. Que uma pessoa do trabalho, de quem não gosto, armava pra me demitir. E tive absoluta certeza que morreria nessa viagem quando um ex-colega de trabalho aposentado, no dia de viajar, disse que tinha sonhado comigo. Pra que dizer isso, gente? Toda morte trágica tem que ter um diabo de um sonho premonitório. Bem, pressionada pela situação, desabafei. O coitado terminou a conversa me consolando e prometendo que ia me visitar no jornal assim que voltasse de viagem. Paguei mico, mas foi mais forte que eu. O sofrimento só acabou quando voltei e verifiquei que minha mãe também estava viva da Silva. Levá-la na rodoviária, horas antes de eu mesma embarcar para a Cidade do México, quase me matou. Parecia que a estava vendo pela última vez. Ufa, passou!
Mas fiquei arrasada com uma coisa: constatar que até o México é mais sossegado que o Brasil. Estamos no c* da cobra, minha gente!
Eu ando com paranoia de segurança. Não é pra menos: fui assaltada, meu pai quase morreu por agora em um assalto, meus colegas estão sendo assaltados pelo menos uma vez por mês. Fico em pânico diante da mínima possibilidade. Outro dia, me senti traída quando um casal, no qual ponguei para descer do Canela para a Graça em segurança, parou no meio do caminho. Parei também e olhei pra cara deles. Três segundos depois, quando me toquei que estava pagando de louca, disfarcei e segui em frente.
O difícil de se livrar da paranoia é que ela, apesar de ser um exagero, é uma possibilidade, tem a sua razão de existir. Isso já causa imenso estresse. E, no que se refere à violência urbana, são tantas as notícias de atos bizarros e cruéis, que você começa a ter certeza de que a humanidade anda bastante desumana e que tudo pode acontecer, inclusive daqui a pouco e com você (bate na madeira!).
Enfim, gente, que as feministas não me ouçam, mas acho que estou precisando casar.
Eu possuía uma lista de três familiares/amigas que tinha a convicção de que precisavam casar bem - duas já foram e com sucesso -, mas além de tê-la ampliado com outras amigas, agora eu quero me incluir nela.
Não tá dando certo pirar sozinha. Mas será que pirar a dois presta? Bom, pelo menos se entrar ladrão em casa à noite, não passarei por esse susto all by myself.
Adoro nada. Pior que nem é inventado assim. Como diz um fofoqueiro da tv, "eu aumento mas não invento".
E digo mais: meu coração é guerreiro. O que passei no último mês só Jesus sabe.
Comecei a ouvir histórias cabulosas de violência no México e cheguei até a cogitar trocar de destino, o que só não fiz pra manter uma certa dignidade diante dos amigos. Na mesma semana do embarque sonhei que minha mãe morria enquanto estava fora. Que uma pessoa do trabalho, de quem não gosto, armava pra me demitir. E tive absoluta certeza que morreria nessa viagem quando um ex-colega de trabalho aposentado, no dia de viajar, disse que tinha sonhado comigo. Pra que dizer isso, gente? Toda morte trágica tem que ter um diabo de um sonho premonitório. Bem, pressionada pela situação, desabafei. O coitado terminou a conversa me consolando e prometendo que ia me visitar no jornal assim que voltasse de viagem. Paguei mico, mas foi mais forte que eu. O sofrimento só acabou quando voltei e verifiquei que minha mãe também estava viva da Silva. Levá-la na rodoviária, horas antes de eu mesma embarcar para a Cidade do México, quase me matou. Parecia que a estava vendo pela última vez. Ufa, passou!
Mas fiquei arrasada com uma coisa: constatar que até o México é mais sossegado que o Brasil. Estamos no c* da cobra, minha gente!
Eu ando com paranoia de segurança. Não é pra menos: fui assaltada, meu pai quase morreu por agora em um assalto, meus colegas estão sendo assaltados pelo menos uma vez por mês. Fico em pânico diante da mínima possibilidade. Outro dia, me senti traída quando um casal, no qual ponguei para descer do Canela para a Graça em segurança, parou no meio do caminho. Parei também e olhei pra cara deles. Três segundos depois, quando me toquei que estava pagando de louca, disfarcei e segui em frente.
O difícil de se livrar da paranoia é que ela, apesar de ser um exagero, é uma possibilidade, tem a sua razão de existir. Isso já causa imenso estresse. E, no que se refere à violência urbana, são tantas as notícias de atos bizarros e cruéis, que você começa a ter certeza de que a humanidade anda bastante desumana e que tudo pode acontecer, inclusive daqui a pouco e com você (bate na madeira!).
Enfim, gente, que as feministas não me ouçam, mas acho que estou precisando casar.
Eu possuía uma lista de três familiares/amigas que tinha a convicção de que precisavam casar bem - duas já foram e com sucesso -, mas além de tê-la ampliado com outras amigas, agora eu quero me incluir nela.
Não tá dando certo pirar sozinha. Mas será que pirar a dois presta? Bom, pelo menos se entrar ladrão em casa à noite, não passarei por esse susto all by myself.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
A bolha
Ontem rolou, na internet, um bafáfá por conta da declaração da mãe do protagonista de "I love Paraisópolis" de que ela estava adorando ser sogra de Marquezine. Eu penso que onde há fumaça, há fogo, mas sei também que mãe é um bicho muito sem noção, que atira pra depois mirar. Half, half, concluí. Hoje a história já foi desmentida pelo pai do rapaz.
Nosso primeiro reflexo é achar que artista não tem mais o que fazer do que ficar mentindo pra todo mundo, mas, pensando bem, no lugar deles, também sairia com um "Somos apenas bons amigos". Porque, vamos combinar, a coisa é muito delicada para a gente ficar arrastando o sari na medina desse jeito. Todo mundo adora dar pitaco na vida dos outros, mas, quando se trata da vida íntima, parece que isso arranha a nossa carne mais profundamente, é muito mais irritante a intromissão. Sou da opinião de que relações íntimas deveriam ser vividas dentro de uma bolha ou pelo menos usando aquela capa que dá invisibilidade que Scheila, de "Caverna do Dragão", possuía.
As pessoas não fazem isso necessariamente por mal. É um instinto (mas você sempre pode escolher entre ser grosseiro ou não). Reparamos, especulamos sobre a vida alheia inclusive para nos entender. A gente se emociona ou se enerva em causa própria, no final das contas. Até porque esses repertórios são quase tão batidos quando a humanidade.
Mas que essa chacrinha tem poder de produzir caos, ah, isso tem. Sem resolver o problema, vale destacar. Porque ninguém sabe o que se passa dentro dos outros, simplesmente. As pessoas deveriam assistir a esse vídeo da Jout Jout a respeito dessa verdade universal (https://www.youtube.com/watch?v=dVi92F1SIto). Não ia resolver muita coisa, mas pelo menos garantiria, quem sabe?, alguma ressaca moral dos "universitários", o que já seria um indicativo de simpatia, que por sua vez, segundo dizem, é quase amor.
E tenho a impressão que quanto mais se mexe, mais porcaria se produz. Tiro pelos meus ex-empregos. Eu só trabalhei, até agora, em empresa-bomba, pré-falida. Em determinado momento, as pessoas começam a se desesperar com o futuro e só se fala nisso. Nesse meio tempo, elas começam a criar paranoias. Nada disso ajuda, mas é quase impossível parar. Isso piora o ambiente, faz o peru ir pro abate antes da hora, mas as pessoas ainda assim precisam prever, desabafar. É algo que acaba ficando maior que o bom senso delas.
Sim, de fato é melhor mesmo insistir na lorota do "não é nada disso".
E, por falar em paranoia, fica a dica de leitura do meu próximo post.
Nosso primeiro reflexo é achar que artista não tem mais o que fazer do que ficar mentindo pra todo mundo, mas, pensando bem, no lugar deles, também sairia com um "Somos apenas bons amigos". Porque, vamos combinar, a coisa é muito delicada para a gente ficar arrastando o sari na medina desse jeito. Todo mundo adora dar pitaco na vida dos outros, mas, quando se trata da vida íntima, parece que isso arranha a nossa carne mais profundamente, é muito mais irritante a intromissão. Sou da opinião de que relações íntimas deveriam ser vividas dentro de uma bolha ou pelo menos usando aquela capa que dá invisibilidade que Scheila, de "Caverna do Dragão", possuía.
As pessoas não fazem isso necessariamente por mal. É um instinto (mas você sempre pode escolher entre ser grosseiro ou não). Reparamos, especulamos sobre a vida alheia inclusive para nos entender. A gente se emociona ou se enerva em causa própria, no final das contas. Até porque esses repertórios são quase tão batidos quando a humanidade.
Mas que essa chacrinha tem poder de produzir caos, ah, isso tem. Sem resolver o problema, vale destacar. Porque ninguém sabe o que se passa dentro dos outros, simplesmente. As pessoas deveriam assistir a esse vídeo da Jout Jout a respeito dessa verdade universal (https://www.youtube.com/watch?v=dVi92F1SIto). Não ia resolver muita coisa, mas pelo menos garantiria, quem sabe?, alguma ressaca moral dos "universitários", o que já seria um indicativo de simpatia, que por sua vez, segundo dizem, é quase amor.
E tenho a impressão que quanto mais se mexe, mais porcaria se produz. Tiro pelos meus ex-empregos. Eu só trabalhei, até agora, em empresa-bomba, pré-falida. Em determinado momento, as pessoas começam a se desesperar com o futuro e só se fala nisso. Nesse meio tempo, elas começam a criar paranoias. Nada disso ajuda, mas é quase impossível parar. Isso piora o ambiente, faz o peru ir pro abate antes da hora, mas as pessoas ainda assim precisam prever, desabafar. É algo que acaba ficando maior que o bom senso delas.
Sim, de fato é melhor mesmo insistir na lorota do "não é nada disso".
E, por falar em paranoia, fica a dica de leitura do meu próximo post.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Quem tem medo da mulher solteira?
Eu acho que um monte de gente tem, infelizmente.
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?
Assinar:
Postagens (Atom)