Já tinha ouvido falar do filme, mas deixei pra lá achando que se tratava de mais um "Jogos Vorazes", que eu vi e achei mó sem graça.
O que me pegou no filme foi o lado filosófico do seu argumento. Take a look:
Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto.A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é.E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.
Eu fiquei refletindo, claro, sobre qual facção seria a minha. Definitivamente, não seria vizinha de Beatrice na Audácia, apesar de detestar certo tipo de covardia. Sabe como é, sou que nem aquela música do Belchior, quando morre um medo, vou buscar outro lá no Piauí. (Meu medo se chama bom senso e, por ser tão benéfico muitas vezes, tá difícil de abandonar o lado B disso.)
A Abnegação ficaria em quarto. Eu até sou boa em dar, mas também quero receber. A Erudição viria em terceiro - na verdade, estou confusa porque a Abnegação também poderia estar nessa posição. Gosto de aprender, mas geralmente muita cultura tem a ver com uma certa perversidade e egoísmo. E, no fundo, não acredito que isso faça alguém melhor do que os demais. Adoraria a Amizade e tenho aptidão para isso, mas um quê de agressividade em mim talvez me fizesse inadequada. Não estaria disposta a me anular em prol do grupo. Teria que checar o "ponto de corte" dessa turma. Acabaria, acho, me ajustando melhor à Franqueza.
O drama inicial de Beatrice é o drama de todos nós ao entramos na vida adulta: deixar coisas que amamos para trás em prol do cumprimento da nossa jornada. Ser diferente do nosso grupo de origem cria uma distância insuperável mesmo, que o amor não é suficiente para derrubar. Aliás, ao contrário do que cantam por aí, o amor não é suficiente para um monte de coisas na vida, ele sozinho.
Depois, existe ainda o problema de pertencer a dois mundos e não ser reconhecido por nenhum deles direito. De fato, o problema dela é mais profundo: como divergente, ela poderia estar em qualquer facção; não é naturalmente pertencente a nenhuma. Beatrice apenas escolheu a Audácia por ser o oposto do que vivenciou na Abnegação, acredito. É um drama bem contemporâneo o dela, e nisso a autora foi muito feliz. Num mundo globalizado, como o atual, transitar sobre diversas identidades é confuso e angustiante, sem dúvida. As pessoas têm medo de você quando não é possível te encaixar numa definição.
E, há, ao final de tudo isso, a pergunta para a qual não há resposta 100% satisfatória: Por que o mundo é tão problemático assim? Acho que a autora, provavelmente, concordaria que o problema é a falta de respeito pela diferença, por aquilo que, por conta da nossa própria natureza, não conseguiremos nunca apreender e aceitar, de fato, e, portanto, conviver. Frequentemente achamos que a dignidade está no nosso jeito de viver, apenas.
Mas o mundo divergente cansa muito, viu? Não me agradou a ideia de rivalidade entre as facções, mas penso que adoraria viver num distrito de gente com a mesma índole que a minha, onde o ladrão não pudesse me encontrar (risos).
Enfim, vou ter que ler essa série. Já vi tudo.
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