Continuando na pegada no post anterior, eu volto a dizer que é muito ruim ter a visão das coisas do mundo. Não recomendo a ninguém. Tem que ter sangue de barata para suportar.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.
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