sábado, 1 de agosto de 2015

É muita filosofia e arte na catraca

Por problemas da própria cidade, não ando fazendo segredo que desejo muito parar de andar de ônibus. É demora, é perigo de roubo, é lotação, leva uma vida para chegar até o destino, enfim, um inferno. Fora isso, para quem pega no mínimo 12 vezes por semana, como eu, cansa, às vezes, a convivência. Há de todos os tipos e, a depender do seu nível de cansaço, a paciência fica curta com gente que berra, que empurra, que toma descaradamente o lugar dos idosos, etc.
Mas coisas engraçadas também acontecem nesse espaço. É inegável que uma das formas de saber o que se passa em Salvador é através do transporte público (mas, na boa, só vou voltar a curtir quando for metrô).
Outro dia, o cobrador batia boca com uma velhinha que, mesmo com a frente, destinada aos idosos, lotada, queria ficar lá, em pé. Ele forçou a barra e ela passou a catraca. Depois, como que prevendo a crítica de alguns passageiros, falou: "Na hora em que ela caísse, a população ia querer linchar o motorista, o cobrador. Em Salvador é assim". 
Mas o sujeito gostava mesmo era de pirraçar. Minutos depois, ele estava falando com o motorista que sogra é uma criatura que não nasceu pra ser boa. A mesma velhinha, ainda injuriada por ter sido contrariada, começou a rebater a crítica, dizendo que muitas sogras faziam pelos netos o que "os homens safados" não faziam por seus filhos. E ele continuou pirraçando a criatura até ela descer do coletivo.
Artistas
Há algumas relações menos belicosas, mais artísticas. Outro dia, enquanto ia para o médico, duas garotas, com as caras pintadas e um caixote cada uma, entraram pela porta do meio. Elas começaram a cantar. Pareciam os bichinhos daquele filme "Alvim e os Esquilos". Brincadeira. Elas eram afinadinhas. Cantaram, cantaram, a galera aplaudiu. Elas contaram que vieram de Córdoba, Argentina, e estão rodando a América Latina há dois anos. Por fim, agradeceram muito, sentindo-se sinceramente consagradas dentro daquele coletivo. Não deixaram o motorista de fora, foram super gratas a ele, que retribuiu: "Voltem sempre, minhas lindas!".
O povo é doido, definitivamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário