quinta-feira, 23 de julho de 2015

Não se pode servir a Deus e a mamom

Não mesmo. Como dizem agora lá no Rio de Janeiro, dá ruim.
Hoje eu vi.
Por mais que, enfim, a vida tenha mesmo dessas coisas, não dá para ser íntimo de quem é íntimo de gente que você odeia (com razão).
É como ser bissexual. Nem os heteros, nem os homos vão dar credibilidade.
É como ser Leo Messi na seleção argentina.
É como ação de responsabilidade social feita por banco.
É como produto light: nem é bom de verdade, nem é "magrinho".

Pouco amor não é amor, como dizia o outro. Não, servir a dois opostos realmente não dá.

sábado, 18 de julho de 2015

PecaD´us

Latino, que já havia se convertido evangélico, está mais apegado à fé depois da escandalosa separação da esposa. 
É, estou começando a achar que Deus mora no pecado. Judas nunca amou tanto Jesus quanto após ter lhe entregado aos seus inimigos por algumas moedas.
Talvez seja uma ofensa a Deus fazer poucas transgressões. Vai ver, mesmo, que a natureza da alma é ser imoral.

Somos todas Angel?! Quem dera!...

Continuando na pegada no post anterior, eu volto a dizer que é muito ruim ter a visão das coisas do mundo. Não recomendo a ninguém. Tem que ter sangue de barata para suportar.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.

Não acorda, não, Adormecida Bela!

Se você não nasceu "Rainha Má", jogue suas mãos para os céus. E nem pense no beijo do príncipe. Evite! É cilada acordar, Bino.
Todo mundo conhece alguém que não acorda pra vida, que acha que tudo é cor de rosa. Deve ser massa ser assim. Agora só não pode acordar. Tem que orar para permanecer assim até o final da vida.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Brancahood

Eu quero ser branca. Vou parar de tomar sol. Vou clarear as madeixas. Farei, ainda, uma plástica para afinar o nariz.
E por um único motivo: pra ter o direito de ser escrota e apenas ser classificada, quando muito, como tolinha. Serei uma inofensiva, porque eu não acreditarei no meu próprio preconceito, no fundo, apesar de cuspi-lo sem cerimônia. Eu não saberei direito o que estou dizendo, entende? Falarei tudo da boca pra fora. Serei muito branca para ser má.
Dois pesos, duas medidas. Fato.
E isso me lembra um discurso ótimo de uma negra americana. Segue.


Em 1851, Sojourner Truth, ex-escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz: “Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem - quando tinha o que comer - e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”

O filme repetido

A humanidade nunca vai mudar. A não ser que algum cientista consiga eliminar do DNA humano a ânsia por privilégios. Mudam-se as eras, mudam-se os motivos, mas é isso que continua a promover a guerra. Ver o outro como igual, além de exigir o esforço da empatia, traz a frustração da perda do privilégio de ser "melhor". O ego humano, quase nunca equilibrado, precisa disso pra se manter de pé. Igualdade, penso, é tarefa para a ciência.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Qual é o problema de casar, gente?

Tá certo que eu ando casamenteira, esperando que o guindaste de Santo Antônio me guie rumo ao altar, mas qual é o problema das pessoas em casar, gente? Bora assinar esse papel, PORRA.

No dia em que os gays americanos ganharam o direito de se casar, acho que acabei colaborando para um "acidente diplomático" entre um casal, no Facebook.
Atenção, que vou contar o babado: dois colegas meus namoram e eles têm na faixa dos 25, 26 anos. Ela aproveitou a deixa do "Independence Day" para "brincar" com ele dizendo que agora poderiam se casar. Ele respondeu, no mesmo tom de brincadeira, que se fosse para conhecer os EUA, ele até toparia. Eu me intrometi dizendo que adorei a ideia e dei um tema: casamento em Las Vegas, com direito a sósia gordo de Elvis. Ela respondeu pra mim que iria anotar a sugestão entre as "ideias para o casamento que jamais teremos". Depois ela viu que ficou seco e editou, completando com algo mais espirituoso.
Você, que não conhece o casal, poderia me dizer, quando lhe contar que eles só têm um ano de namoro, que são novos e ainda é cedo. Vou lhe responder que aos 25 anos pensava assim, mas hoje acho isso uma besteira. A gente leva o futuro muito a ferro e fogo quando é novinho (ou faz totalmente o oposto, faltando equilíbrio nas escolhas de qualquer jeito).
Decisão séria é ter filho. Ou, pra maioria, fazer mudanças bruscas na carreira. O resto, como diz minha pragmática mamys, se der errado, dois dias de choro resolvem.
Esse tipo de racionalidade dele quebra o encanto. As pessoas levam o casamento muito a sério, quando o máximo de efeito colateral que já vi causando é o excesso de plásticas - que o digam Fábio Jr. e Gretchen. 
Mas relacionamentos, com poucas exceções, são feitos para acabar. É amargo, quando for a hora vai doer pra caramba, por algum tempo você vai se arrepender de ter entrado nessa, vai se prometer nunca mais amar ninguém, mas nada é mais recorrente que isso na vida. Tudo o que se leva de um relacionamento, via de regra, é a experiência, a mágica daquele (curto) período em que se esteve apaixonado. Como diz a assessora de Deus para assuntos aleatórios - seccional Bahia, Ingrid Campos, o amor é uma fantasia que projetamos em outra pessoa.Quem você ama não existe. Por isso gente muito racional não se apaixona. Há, por mais que a gente desdenhe, sabedoria nos arrombos de paixão das celebridades. Elas sabem que em 99% dos casos é o melhor que vão poder extrair do contato com o outro. Por isso elas casam logo, para poder deixar correr solta essa fantasia (por isso fazem o pré-nupcial, justamente por, no fundo, saberem que é algo com prazo de validade). 
Voltando ao meu amigo, ele, na tentativa de ser sensato, tá jogando água na fogueira. Se continuar nessa, apesar das suas inúmeras qualidades, corre o risco de apagá-la. Todo mundo precisa se sentir único, prestigiado, especial. Vamos fingir que estaremos juntos pelas próximas cinco encarnações. Se levada com leveza e boa fé, essa "mentira sincera" não vai custar nada; até que é do bem. E, no caso dele, que já divide apartamento com outras pessoas, qual é o problema? A não ser que ele não goste o suficiente dela; aí é outra história. 

Pra resumir essa conversa aqui, minha gente, apenas digo: vamos parar de frescura.

"Exageradooo!... Eu sou mesmo exageradoooo"

"... Adoro um pavor inventaduuuuuu..."

Adoro nada. Pior que nem é inventado assim. Como diz um fofoqueiro da tv, "eu aumento mas não invento".
E digo mais: meu coração é guerreiro. O que passei no último mês só Jesus sabe.
Comecei a ouvir histórias cabulosas de violência no México e cheguei até a cogitar trocar de destino, o que só não fiz pra manter uma certa dignidade diante dos amigos. Na mesma semana do embarque sonhei que minha mãe morria enquanto estava fora. Que uma pessoa do trabalho, de quem não gosto, armava pra me demitir. E tive absoluta certeza que morreria nessa viagem quando um ex-colega de trabalho aposentado, no dia de viajar, disse que tinha sonhado comigo. Pra que dizer isso, gente? Toda morte trágica tem que ter um diabo de um sonho premonitório. Bem, pressionada pela situação, desabafei. O coitado terminou a conversa me consolando e prometendo que ia me visitar no jornal assim que voltasse de viagem. Paguei mico, mas foi mais forte que eu. O sofrimento só acabou quando voltei e verifiquei que minha mãe também estava viva da Silva. Levá-la na rodoviária, horas antes de eu mesma embarcar para a Cidade do México, quase me matou. Parecia que a estava vendo pela última vez. Ufa, passou!

Mas fiquei arrasada com uma coisa: constatar que até o México é mais sossegado que o Brasil. Estamos no c* da cobra, minha gente!

Eu ando com paranoia de segurança. Não é pra menos: fui assaltada, meu pai quase morreu por agora em um assalto, meus colegas estão sendo assaltados pelo menos uma vez por mês. Fico em pânico diante da mínima possibilidade. Outro dia, me senti traída quando um casal, no qual ponguei para descer do Canela para a Graça em segurança, parou no meio do caminho. Parei também e olhei pra cara deles. Três segundos depois, quando me toquei que estava pagando de louca, disfarcei e segui em frente.

O difícil de se livrar da paranoia é que ela, apesar de ser um exagero, é uma possibilidade, tem a sua razão de existir. Isso já causa imenso estresse. E, no que se refere à violência urbana, são tantas as notícias de atos bizarros e cruéis, que você começa a ter certeza de que a humanidade anda bastante desumana e que tudo pode acontecer, inclusive daqui a pouco e com você (bate na madeira!).

Enfim, gente, que as feministas não me ouçam, mas acho que estou precisando casar.
Eu possuía uma lista de três familiares/amigas que tinha a convicção de que precisavam casar bem - duas já foram e com sucesso -, mas além de tê-la ampliado com outras amigas, agora eu quero me incluir nela.
Não tá dando certo pirar sozinha. Mas será que pirar a dois presta? Bom, pelo menos se entrar ladrão em casa à noite, não passarei por esse susto all by myself.



quinta-feira, 25 de junho de 2015

A bolha

Ontem rolou, na internet, um bafáfá por conta da declaração da mãe do protagonista de "I love Paraisópolis" de que ela estava adorando ser sogra de Marquezine. Eu penso que onde há fumaça, há fogo, mas sei também que mãe é um bicho muito sem noção, que atira pra depois mirar. Half, half, concluí. Hoje a história já foi desmentida pelo pai do rapaz.
Nosso primeiro reflexo é achar que artista não tem mais o que fazer do que ficar mentindo pra todo mundo, mas, pensando bem, no lugar deles, também sairia com um "Somos apenas bons amigos". Porque, vamos combinar, a coisa é muito delicada para a gente ficar arrastando o sari na medina desse jeito. Todo mundo adora dar pitaco na vida dos outros, mas, quando se trata da vida íntima, parece que isso arranha a nossa carne mais profundamente, é muito mais irritante a intromissão. Sou da opinião de que relações íntimas deveriam ser vividas dentro de uma bolha ou pelo menos usando aquela capa que dá invisibilidade que Scheila, de "Caverna do Dragão", possuía.
As pessoas não fazem isso necessariamente por mal. É um instinto (mas você sempre pode escolher entre ser grosseiro ou não). Reparamos, especulamos sobre a vida alheia inclusive para nos entender. A gente se emociona ou se enerva em causa própria, no final das contas. Até porque esses repertórios são quase tão batidos quando a humanidade.
Mas que essa chacrinha tem poder de produzir caos, ah, isso tem. Sem resolver o problema, vale destacar. Porque ninguém sabe o que se passa dentro dos outros, simplesmente. As pessoas deveriam assistir a esse vídeo da Jout Jout a respeito dessa verdade universal (https://www.youtube.com/watch?v=dVi92F1SIto). Não ia resolver muita coisa, mas pelo menos garantiria, quem sabe?, alguma ressaca moral dos "universitários", o que já seria um indicativo de simpatia, que por sua vez, segundo dizem, é quase amor.
E tenho a impressão que quanto mais se mexe, mais porcaria se produz. Tiro pelos meus ex-empregos. Eu só trabalhei, até agora, em empresa-bomba, pré-falida. Em determinado momento, as pessoas começam a se desesperar com o futuro e só se fala nisso. Nesse meio tempo, elas começam a criar paranoias. Nada disso ajuda, mas é quase impossível parar. Isso piora o ambiente, faz o peru ir pro abate antes da hora, mas as pessoas ainda assim precisam prever, desabafar. É algo que acaba ficando maior que o bom senso delas.
Sim, de fato é melhor mesmo insistir na lorota do "não é nada disso".
E, por falar em paranoia, fica a dica de leitura do meu próximo post.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem tem medo da mulher solteira?

Eu acho que um monte de gente tem, infelizmente.
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O corpo

Quem tem um não precisa ir a Guantánamo. Sério.
É muita interdição na vida do ser humano por causa dele.
Você não "pode" usar certas roupas para não dar ideia errada aos outros.
Você não pode ser carinhosa ou assídua de uma companhia do seu mesmo sexo porque vão dizer que você é homossexual.
Se o mesmo acontece com alguém do sexo oposto, tá rolando algo.
Mas se você não é muito de toque, é frio.
O corpo ainda cumpre uma pena que não é dele. Na verdade, é da mente.
O crime perfeito.

*****
Cada vez mais confirmo que a mente humana não ultrapassa o nível de crianças da quinta série, não importando quão velho/a a figura seja.
Só isso explica não evoluirmos em coisas tão simples.
Um amigo recebeu uma confissão de uma amiga de que ela gosta dele. Ele não quis admitir, mas pesquei que ele está fugindo dela. Disse a ele que pode estar magoando alguém à toa (mas sei que não é essa a intenção). Ela provavelmente está tentando fingir que nada aconteceu e ser a mesma de antes, para não perder a amizade, e ele está cauteloso à beça com ela achando que qualquer atenção pode alimentar os sentimentos da tal figura.
Não tenho ampla experiência nisso, mas já me aconteceu - uma vez o papo foi até bem direto, me pegando de surpresa. Eu fiquei constrangida - normal porque além da situação, entra em jogo a minha timidez -, mas não demorei a ser a mesma com o cara. Era meu amigo e eu não levei isso como ofensa; ficamos de boa logo. Aliás, como pode ser ofensivo alguém encher o seu ego? Isso só não aconteceu com quem fechou a porta na minha cara. Afinal, para os que provaram não serem amigos, a lei - como dizia o outro. Para os que são, falsidade seria eu me afastar. Na boa, moças, nada a ver ficar chocada porque o seu amigo - de verdade, não do tipo que finge com segundas intenções - confessou que sente vontade de transar com você. Vai fazer com o inimigo? Você pode até não gostar da ideia, mas ela está longe de ser indigna.
Eu penso o seguinte: as pessoas têm o direito de propor, você de negar ou aceitar. Dá um certo constrangimento mesmo quando as vontades não se casam, mas cada um é responsável por si, certo?
Ficar nessa cautela pode até ter uma boa intenção por trás, mas, na prática, só fere a dignidade do outro, que sente que a pessoa tomou pânico dela. E quem tem carinho a ponto de se declarar não merece isso, né mesmo? Eu até entendo, mas, na boa, pense bem, é chutar cachorro morto. A pessoa já tá ali, rejeitada pelo "não" e ainda vem essa?! Dose.
Enfim, gente, é todo mundo adulto. Ou deveria ser, sei lá.

domingo, 31 de maio de 2015

Tudo D´Eles, nada nOSSO

Quando frequento o Itaigara, onde minha irmã mora, fico muito constrangida com as relações patrões e funcionárias domésticas (sim, são elas, negras, da periferia, 99% das vezes). 
Eu entendo que quem contrata, no Brasil, sofre com a má formação da mão de obra. Às vezes, a galera é sem noção mesmo. Mas esse não é fator que prepondera nessa relação laboral.
Frequentemente, percebo que os ricos cometem um erro fatal: achar que quem precisa de emprego e dinheiro por causa disso não tem direito a ser humano (leia-se, alguém com dignidade e que também deseja).
Acho que o mundo só vai para frente, mesmo, quando "gente de bem" se der conta que todos querem a mesma coisa, independentemente de sua origem social.
Essa ignorância sobre o poder do desejo, brilhantemente abordada por Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/05/1631415-desejo-e-necessidade.shtml), nos faz cometer equívocos, por exemplo, ao pensar sobre a violência no nosso país.
Invisibilidade
Os coxinhas e a militância erram pelo mesmo motivo: ignorar que essa gente é igual e não bicho ou personagem de pesquisa de Ciências Sociais.
Não é à toa que a igreja evangélica, e sua promessa de prosperidade, avançam tanto. Ela trabalha em cima daquilo que a sociedade prefere ignorar: pobre também sonha com bens materiais e em ter uma vida menos sacrificada.
Aos coxinhas:
Nosso direito de escolher é afetado pelas circunstâncias das quais dispomos. Não venha dizer que "é só querer e amanhã assim será". O buraco é bem mais embaixo, a pessoa tem que ter muita vontade e persistência. Subir na vida, no Brasil, é para os excepcionais; não há muitas oportunidades.
À militância:
Mas não se enfia a faca em alguém para roubá-lo por necessidade e falta de formação familiar. Outras coisas preponderam aí. Primeiro, a pessoa tem que ter uma agressividade dentro dela. Segundo, nesses casos mais impera o desejo de se dar bem que a necessidade. Porque dá para matar a necessidade (a mais básica, primária) de outros modos não-violentos. Já o desejo é mais complicado...

Eu acho que, de fato, a invisibilidade dá mais deixa para os amigos do "baixo clero" entrarem no crime do que a necessidade. Aliás, a invisibilidade provocada tanto pela pobreza quanto pela riqueza liberam as pessoas para a transgressão. Se eu sou sempre visto pela minha condição financeira, que compromisso preciso ter com as regras, com a sociedade? Ninguém chama Thor Batista de assassino, lembrando o crime e o descaso que cometeu no trânsito; ele será sempre o rapaz loiro e rico, o filho de Eike Batista. É o que define ele socialmente. E o crime tem um grande "quê" de vaidade, não percamos isso de vista. Aliás, na nossa "amada" classe média tem gente que só não libera esse lado negro da força por mera pressão social. Eu conheço alguns elementos (do sexo feminino também) que só não deram para marginais porque o entorno está de olho, pronto para julgar e discriminar. Mas se não fosse isso, hum...

Eu, particularmente, me choco é com o fato de gente tão jovem não se dar nem a chance de tentar, antes de, frustrado, cair no crime. Sim, porque o que vemos é uma geração sem persistência, sem paciência para ao menos tentar antes de sucumbir. Meninos de dez anos cheirando cola. Por mais que tenha sofrido em casa, é demasiado cedo para desistir, convenhamos. Fico pensando que se meu pai e outras pessoas que tiveram uma infância de violência e fome, como ele, vivessem a infância hoje, eu não teria existido. Seriam meninos como esses que enfiam facas para ter um celular ou trocá-lo por cola. Mas é que naquela época não havia internet, televisão em massa, nos fazendo acreditar que o quintal de todo mundo é mais verde.

E acho, também, que do rico ao miserável, carregamos, como povo, o ranço do oportunismo.  Um exemplo pequeno do que estou dizendo: semana passada fui cobrir o Dia sem Impostos. Fila quilométrica de gente em frente a um posto de gasolina. Sabe pra quê? Pra comprar 17 litros a metade do preço. Gente na fila desde as 3h. Faz sentido esse sacrifício? Claro que não. É o desejo de levar vantagem. Isso permeia a nossa vida privada e pública. Quando vamos encarar esse fato de frente?

A smile like yours

Eu vou viver e nunca vou entender certas nuances do comportamento masculino.
Por exemplo: a obsessão que eles têm pelo nosso sorriso.
Long time ago, percebia que um colega me olhava constantemente. Confesso que eu, do alto do meu "autismo", achava ele ok e só. Aquela minha característica de os outros só existirem quando crio laços afetivos. Hoje acho ele bonitão, tenho outro olhar, embora sejamos só amigos.
Naquela época, como não estava fazendo nada da vida mesmo, resolvi me distrair dando bola pro fulano. Qual a primeira coisa que ele me disse? Adivinha! "Por que você é tão séria?".
O que é ser séria? É não sorrir fácil? Eu não tenho riso frouxo, é verdade, mas sou uma pessoa geralmente pacata. Digo, não acho que tenho uma expressão que bota os outros para correr.
Mas os homens têm uma fixação nisso. Repare na cara deles quando fazem uma mulher sorrir. Isso sim me faz ter vontade de dar risada.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Esse tal de bonde da vida

Outro dia falava com uma amiga sobre um amigo em comum.
Ok, isso não é nada nobre, mas, minha gente, vamos aceitar o fato de que a vida dos outros e reclamar é o que rende.
Bem, ela comentava que o fulano em questão estava demorando muito para tomar certas decisões.
Uma outra amiga diz que tudo pode acontecer a qualquer hora. E eu concordo com ela.
Mas eu sou da turma que acha que o seguro morreu de velho. Leia-se, uma ansiosa crônica.
Tenho uma tendência realista que beira ao pessimismo, eu sei.
E a minha experiência, aos 35 anos, diz que se para Deus nada é impossível, para o corpo as possibilidades vão diminuindo com o passar dos anos.
Contra algumas coisas não há muito como lutar. Meu prazo de validade, para ser mãe, por exemplo, vai até 2017. Não adianta, não me vejo com 60 anos levando gente de quinze ao show de rock.
Eu não quero me atropelar, não quero mais correr, mas sei perfeitamente que não é tempo de parar. Sabe aquele período que passei "giboiando" entre os 24 e os 28 anos, inerte, praticamente, porque perdida da Silva? Não rola mais não, gatos e gatas. "Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos". Sinto que haverá uma diferença grande entre quem eu sou agora e daqui a dez anos em termos de possibilidades biológicas e sociais.
2
Eu reparo que somos uma geração que espera demais da vida. Esperamos a onda perfeita, como se fôssemos eternos. Corremos o sério risco de envelhecermos amargurados. O ser humano tem necessidade de realizar. O que estamos realizando, afinal? Eu não estou satisfeita, mas se não estivesse em movimento, já teria me enforcado. Juro. Não dá mais para bancar esse tipo de ócio. Mexendo aqui e acolá, me ocupando até com o que não me agrada muito, vou movimentando minha energia, pelo menos, se não tenho direção, sinto alguma ação.
Botem fé, amigos, navegar é, sim, preciso. Quem não faz isso corre o sério risco de ficar encalhado na praia.

sábado, 2 de maio de 2015

The Way We Were

Ou, em português, "O nosso amor de ontem".
É um filme da década de 70, dirigido por Sidney Pollack e estrelado por Robert Redford (!!!) e Babra Streisand.
Descobri esse filme em 2006, se não me engano, e fiquei melancólica ao final dele.
A história é assim, segundo eu lembro: Babra é uma judia pobre, que com muito esforço, ralando o abdômen no balcão, consegue estudar e aos poucos se desenvolver na vida. Desde a faculdade, ela cobiça Robert.
Ele é aquele cara lindo e bem nascido, que tem tudo fácil na vida. É boa gente, nada afetado.
Ela acha que ele nunca vai sequer olhar pra ela. Mas um dia até que rola e eles começam a se relacionar.
Só que ela é muito à flor da pele e ele, por azar, personifica tudo aquilo que ela detesta no mundo - ela é militante e ele frequenta "azelite" -; enfim, os mundos não se encaixam. Mas o problema é que eles se amam pra caramba. Eles tentam, sofrem, o amor cresce, tentam e, finalmente, se cansam de ficar tentando, tentando e tentando. Ainda se amando, resolvem se separar. A essa altura, ela está grávida dele. Eles combinam de ficarem juntos até o bebê nascer.

Moral da história: não se deixa uma mulher grávida.

Submoral da história: militante é um bicho chato da peste. Nem com um Redford na mão a mulé sossega, gente!

domingo, 26 de abril de 2015

Nós, os viajantes solitários

Einsten, assim como eu, tinha ascendente em câncer e lua em sagitário. Era ariano, raça que eu adoro! Só não era negão, para ficar 100% perfeito. Acho que já disse aqui que a fórmula infalível pra ganhar meu coração é ser negão e de signo de fogo, né? :P
Essa frase abaixo é simplesmente a cara de uma lua sagitariana. O centauro ama liberdade, nasceu para ganhar mundo, ver e aprender.

 “Meu apaixonado senso de responsabilidade social sempre contrastou com minha pronunciada ausência de necessidade de contato direto com outros humanos. Eu sou realmente um ‘viajante solitário’ e nunca pertenci a meu país, meu lar, meus amigos ou mesmo à minha família com todo meu coração. Mesmo com todos estes laços, nunca perdi a necessidade de estar sozinho”. (The World as I See: An Essay by Albert Einstein)

Respeito, por favor: revolta não é ressentimento!

Olha, eu sou a primeira a admitir que não gosto do barulho que a militância, por exemplo, provoca. Detesto barulho, qualquer que seja. Às vezes, quando os ânimos estão muito exaltados nesses grupos, se fala besteira, perde-se a cabeça. Ossos do ofício.
Mas a revolta é necessária à mudança. E num país hipócrita, pseudocristão, como o nosso, as pessoas tomam a revolta (ativa) por ressentimento (passivo). É mais prático rebaixá-la, né?
Os movimentos de minorias são revoltados, sim, senhor. Porque verbalizam, jogam merda no ventilador, querem mudança, lutam por políticas públicas. Não ficam falando por trás, chorando no travesseiro à noite.
Revolta é tentativa de reequilíbrio de poder. Ressentimento é o gozo secreto do lugar de vítima.
Qual é o nosso problema com isso?
É que a coragem alheia nos incomoda. Olhar para os nossos defeitos nos dá pânico. Mudar dói pra caralho.
Já a covardia é total free. Vide os comentários nas notícias dos veículos online.
Apesar de toda a violência sofrida, espíritos livres não se dobram e vão.
Podem continuar a fazer barulho. Eu engulo meu incômodo com isso enquanto morro de admiração. <3 nbsp="">

terça-feira, 21 de abril de 2015

Being Erica (or anyone else)

E se de repente te fosse dada uma oportunidade de voltar ao passado e refazer tudo que você acha que deu errado por culpa sua?
É sobre isso que se trata o seriado canadense "Being Erica", apresentado há pouco tempo aqui pelo GNT, diariamente. Comecei a assisti-lo por indicação de Ingrid.
Erica é uma mulher de 30 e poucos anos, canadense de metrópole e de classe média, solteira, cuja vida anda tão fracassada que até gente mais íntima dela fica constrangida de lhe perguntar como está.
Erica é bonitona, criativa e inteligente. Por que, então, deu tão errado?
Bem, numa dessas aventuras da protagonista que acabam em vexame, ela vai parar no hospital e conhece um terapeuta, Dr. Tom, que lhe oferece os serviços dele. Ela hesita, mas o procura. E descobre que a tal terapia é beeem inusitada: de porte de uma lista de arrependimentos da sua paciente, o tal doutor a envia para as situações de seu passado que ela lamenta para que possa fazer diferente. Legal, né?
A primeira temporada da série, para mim, é a melhor. É quando ela volta para várias situações do passado que tem a ver com ela (em outras temporadas se mistura mais com as vidas dos outros personagens).
O surpreendente é que Erica, apesar de conseguir fazer diferente, não consegue mudar os resultados das histórias.
Dá o que pensar.
A gente acha que tem muito controle das coisas quando não tem. Podemos fazer a nossa parte, mas quem garante o resultado? Você pode estudar para a prova e passar, mas se aplicar não garante um dez. Há uma conjunção de fatores para que coisas boas (e ruins) aconteçam.
Eu não sei, não. Acabo achando que o sentido de fazer bem feito é a paz interior, realmente. É o que acontece com Erica: mesmo sem ter mudado os resultados, ela sai satisfeita das viagens ao passado só por ter modificado a própria atitude. É que o real arrependimento, quase sempre, foi não ter sido honesta consigo mesma.
Aliás, uma liçãozinha oportuna de lembrar, by doctor Tom“You can’t go back to fix other people’s mistake. It’s about you. Your list. Your regrets. You" (Você não pode voltar para consertar os erros dos outros. Isso é sobre você. Sua lista. Seus arrependimentos. Você). 
Essa pós-modernidade em que todo mundo quer o máximo da vida é super bacana por um lado, mas a pressão por resultados, por "produtividade", nos tira a solidariedade e a autocompaixão. Há sempre um culpado. Não deveria ser assim. Temos que aprender a aceitar a nossa própria humanidade.

“Choices. Look close enough, and you can see them everywhere. But what do you do when you see your life as a series of bad choices? When you would give anything to have made different ones? The question is, ‘If you could go back and do it all differently, would you still be you?’

(Escolhas. Olhe perto o suficiente e as verá por toda a parte. Mas o que fazer quando se vê a própria vida como uma série de escolhas erradas? Quando você daria qualquer coisa para fazê-las diferentes? A pergunta é: Se você pudesse voltar e fazer tudo diferente, ainda seria você?)

Pois é, nada como uma boa terapia!

domingo, 19 de abril de 2015

Patrulhamento feminino

Gente, que ninguém me ouça, mas apesar de ter muito homem insuportável nesse mundo, as mulheres chegam junto nesse sentido. Se fosse homem, virava gay, na boa.
Eu já comentei aqui que há uma nova geração de mães que idolatram as crianças e acham que qualquer comportamento longe disso é de uma mãe indigna. Sinceramente, só posso ler isso como muito agradecimento e deslumbramento com o fato de se tornar mãe, algo não tão garantido para as mulheres de hoje.
Pois é, não lembro dos nossos pais agirem assim com a gente. Naquela época, se dizia até que pé de galinha não mata pinto. Concordo. Acho que muito da ansiedade e da mal criação das crianças de hoje vem do fato de seus pais serem inseguros para desagradar. Filho não é amigo. Filho é alguém que precisa da sua tutela. Como ele vai confiar nos pais se nem eles confiam em si para fazer o que tem que ser feitoE eu agradeço muito por ter sido criada sem frescura.
Olha, eu reclamo da minha família, mas deixa eu explicar uma coisa. Eles foram ótimos comigo e minhas irmãs na infância. Tive uma infância de cuidados e diversões, se duvidar, melhor do que a da maioria dos meus amigos. Meus sobrinhos adoram os avós.
O problema deles foi quando deixamos de ser crianças, quando as filhas saíram daquela fase em que pai e mãe decidem tudo. Meus pais não sabem lidar com opiniões, rebeldias, vontades, enfim, com gente grande. Aliás, esse é um mal geral da família, que eu tento entender pelo prisma do abandono, já que eles foram criados por outras pessoas e logo ficaram responsáveis por si mesmos.
A nossa geração é que está desenvolvendo essa habilidade de lidar com filhos crescidos. Minhas primas dez, 15 anos mais velhas que eu, têm outra relação com a prole, mais de parceria e suporte. Graças a Deus...
Essas mães das quais falei mais acima são amorosas, não tenho dúvida, mas são quase umas fascistas quando tentam impor seu método de criação a outras que não pensam igual. Engraçado, soam muito como a patrulha antiaborto que a maioria delas, feministas, criticam.
É isso que eu não entendo.
Vamos por partes.
Todos nós fomos criados numa sociedade racista, machista e homofóbica. Esses valores tortos vivem dentro da gente. Não espero perfeição de ninguém. Mas espero desejo de melhorar. É assim que separo quem vale a pena e quem não vale ficar na minha vida.
Portanto, por mais que eu queira me "atualizar" e alcançar o nível de consciência dos meus amigos militantes por várias minorias, eu ainda me pego criticando uma mulher que faz o que não faço ou temendo um negro, com uma expressão nada amigável, perto de mim na rua. Mas eu me policio pra não levar esses reflexos do passado para o âmbito da ação.
O problema é que numa cultura passional como a nossa, "por amor", tudo é válido. Então quando se trata dos filhos, por exemplo, a porteira da intolerância fica aberta.
Gente, me corrija se eu não estiver correta, mas o feminismo não é sobre o direito de escolher? Então por que sendo eu uma pessoa em boas condições mentais, não posso criar o meu filho de acordo com as minhas possibilidades e visão de mundo? Daqui a pouco vão começar a culpar as mães da periferia por deixarem os filhos com outras mulheres para trabalhar.
A emancipação feminina, pelo visto, parece estar muito distante.
Caso 1 - Muita mulher, apesar de lutar por independência na sua própria vida, morre de medo de ser chamada de feminista. Acha que automaticamente será rotulada de "sapatão" ou "mulher que tem raiva dos homens". Feminismo não é odiar os homens, mas denunciar as condutas violentas. O machismo faz mal ao homem e à mulher. Precisa desenhar?
Caso 2 - A mulherada, que se diz feminista, fica patrulhando as outras se viram donas de casa ou se criam os filhos fora da cartilha do politicamente correto. Pode isso, Arnaldo?

Tá foda, viu, minha gente? Pelo visto, séculos de desunião não serão superados tão cedo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Os integrantes da Academia

Tenho um amigo de infância que é até gente boa, mas um completo idiota quando se trata de política. É aquele tipo de gente que acha que tudo é uma questão de querer. Explico: a mãe dele conseguiu montar o próprio negócio, que por sinal não a deixou rica - não chega nem a classe média alta -, mas proporcionou uma vida com direito à Disney e à faculdade particular aos filhos, e por isso sempre se achou no direito de falar mal do governo e se queixar dos sofrimentos que um empresário no Brasil enfrenta para sustentar o seu negócio.
(Olha, minha mãe tem toda razão quando diz que o mal dos outros é achar que podem discursar assim que sobem no tijolo. Não preciso explicar a ironia contida na frase, ok?)
O lado privilegiado precisa aprender urgentemente a diferença entre revolta (ativo) e ressentimento (passivo). O cristianismo nos incutiu essa moral escrava que diz que devemos dar a outra face e, nessa, o mesmo grupo vai se perpetuando no poder. Nada mais legítimo do que quem sustenta essa pirâmide querer o seu pedaço também.
Quem milita não se queixa enquanto fica sentado na pedra esperando ela criar lodo. Muito pelo contrário. Um estudante cotista tem um centímetro de privilégio na entrada, mas rala o dobro pra sair da universidade.
Ninguém deve se sentir mal, claro, por ter tido oportunidades, mas, faça o favor, reconheça os seus privilégios e as léguas de frente que isso deu em relação a maioria desprivilegiada. Demonstre empatia.
Outro dia, fui cobrir o aniversário do Colégio Antônio Vieira. Descobri que lá eles têm a Academia Vieirense de Letras e Artes. Fiquei pasma. Imagine o que ser parte de uma academia e ser "vieirense" fazem pela autoestima de uma criança! É claro que ela só vai querer pensar alto. Nessas pequenas coisas a gente já vai projetando o nosso lugar na sociedade. Agora pense no menino da escola pública municipal. Ele não recebe nem a merenda. Não tem professor. A família não faz muito gosto, muitas vezes, nos estudos, que é coisa de gente preguiçosa na visão deles. Quantas vezes não ouvi insinuações desse tipo na minha própria família? Meu pai me respondia, quando eu queria um livro, que era desperdício porque livro só tem graça ler a primeira vez. Minha sorte é que sempre gostei de ler e dava um jeito. Mesmo assim, quando cheguei na Facom, ficou visível a minha defasagem em relação aos coleguinhas.
Daí vem um bufado desse dizer que não faz diferença!? Ele mesmo, pelo comportamento que tinha quando menino, não tivesse caído num ambiente protegido, provavelmente não teria sido o que preste.

Como escreveu uma figura que eu sigo no Facebook:
"Estudei num dos melhores colégios de Salvador (o Antônio Vieira), e sempre lamentei que nem todo mundo tenha as oportunidades que eu tive na vida. Sim, porque não há talento que resista se não houver a oportunidade. Semente boa não vinga em solo ruim."

Precisa desenhar? No fundo, sabe qual eu acho que é o "trauma" dessa gente? É saber que no lugar dessas pessoas que batalham, não teriam a mesma competência para tocar em frente. Fora a culpa, lá no fundo, em explorar o próximo. Geralmente quem vem com esse discursinho babaca, adora tirar vantagem de quem pode menos economicamente.

Cada vez mais tenho preguiça dessa gente, na moral...