quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dissidentes

 Voltando ao tema da ansiedade, outro dia ouvi um especialista falando algo que já observei aqui: não é a tela que está produzindo uma geração ansiosa (afinal, televisão e cinema existem há anos), mas sim as redes sociais, que promovem a comparação (mentirosa ainda por cima). 

A comparação lasca tudo, ainda mais quando se é muito jovem. Deus me deu a graça de não ser adolescente na era das redes sociais. 

E o caso é que cada dissidência da norma pede uma competência que a compense aos olhos da sociedade. Aí é que ferra. Com a quantidade de coisas que a gente vê de errado na gente a partir dessa vizinhança do tamanho do mundo que é a rede social, forma-se uma lista enorme de competências que temos que ter pra compensar nossa incompetência existencial. Não bate essa conta e isso nunca ocorrerá. 

Na verdade, apesar de ser um condicionamento muito difícil (afinal, queremos ser amados), temos que largar os "tem que" que a sociedade joga pra cima da gente. 'Tem que" viver o melhor possível (o que pressupõe reconhecer limites e necessidades), e pronto. 

domingo, 9 de junho de 2024

Viver a vida

 




Viver a vida está cada dia mais caro. E não pagamos mais por isso apenas financeiramente, mas no corpo e na alma. 

Muita gente credita isso ao trabalho. De fato, no mundo de hoje não dá mais pra trabalhar 44 horas por semana, de segunda a sábado. Isso é querer matar a pessoa, porque com essa jornada é impossível cuidar da saúde, que dirá viver no sentido da alma. Você vai apenas acordar, tomar gagau, trabalhar, tomar gagau e dormir, como diz Helga de "Abafabanca". Neste modus operandi, quem vai conseguir se aposentar aos 65 anos? Morreremos ou adoeceremos seriamente antes disso.

Mas acredito que o problema transcende a questão do trabalho. Precisamos de mais tempo pra viver? Sim! Mas precisamos ter vida fora do trabalho e a maioria de nós está sendo roubado (e virando robô) pelos mil "tem que" e tecnologias. Tem que ficar sarado e bonito (o que leva muito tempo e dinheiro), tem que ter vida social (e nessa você vai até pra o que você não gosta só pra não ficar em casa e mostrar que está "vivendo"), tem que zerar as séries, tem que interagir com as pessoas no WhatsApp (incluindo o povo do trabalho) e Instagram e em meio a tantas tarefas e tempo e dinheiro escassos, há uma enorme carga mental planejando e administrando isso tudo. Multiplique por dois (três ou mais) se tiver filhos ou pais dependentes. Quem vive num esquema desse? Aquele vídeo da Luana Piovani falando que o Brasil não deixa ela postar foto de biquini é ridículo, é hilário, mas infelizmente é certeiro. Cada vez mais eu entendo os meus parentes mais velhos que decidiram se enfiar na roça. 

Eu estou tentando ao máximo cortar tarefas e necessidades, mas mesmo assim tenho muita coisa pra fazer. Tenho conseguido me salvar de me afundar, mas não de me cansar. E eu tô só nos "tem que", ainda usufruo muito pouco do meu tempo e dinheiro, pois por hora estou fazendo o que tenho que fazer, o que é prioritário para a minha manutenção neste mundo, neste País difícil pra caramba (a sociedade em que se vive precisa entrar nesta conta, pois é fator decisivo, embora ninguém se lembre disso. Tenho plena ciência que não estaria neste sufoco caso tivesse nascido no Norte global, na Suíça ou na Austrália, por exemplo). Eu não tenho condição de gerir ninguém além de mim. Caso quisesse ser mãe, seria uma tragédia, porque eu não teria condição ou traria alguém a esse mundo sob um custo altíssimo pra mim. Eu quero vida, não tá valendo a pena transmitir a outra criatura o legado da nossa miséria, como disse Machado de Assis. Aliás, ele como homem negro, teve um trampo danado pra chegar a um nível razoável de vida. Quando a gente nasce na prateleira de baixo, só a gente sabe quanto custa sobreviver! 

A luta pela sobrevivência é diretamente proporcional ao crescimento do vazio interior. E você acaba mergulhando na luta também para escapar desse vazio, pra não pensar no que está faltando e no que virá, nos seus medos. Sem ócio, como você vai sequer se (re)conhecer? Vez ou outra você se conecta através de uma paixão inesperada, mas o normal é se conectar primeiro pra se apaixonar, porque simplesmente você não vai ver fora o que não existe por dentro. 

E por isso estamos todos adoecendo. Eu não lembro na geração de meus pais de tanta gente doente. Claro, eles tinham problemas, o sofrimento humano é coisa antiga, mas as pessoas não adoeciam em bando com 40 ou menos como agora. Eu tenho pelo menos duas mãos de gente 40- que tiveram câncer ou mal súbito, gente inclusive aparentemente saudável, que malha, cuida da dieta, faz check-up, etc. Uma coisa que aprendi naquela minha experiência como terapeuta é que seguir na vida não depende de fazer força, do famoso "aguentar firme". Se você for nessa, uma hora vai faltar gasolina, você morre na beira da estrada, seu motor pifa. São o amor e o prazer que trazem impulso de vida, que nos fazem seguir adiante. Quando você está sofrendo muito, não é fazer força que vai fazer passar por isso. No máximo você vai conseguir ir no modo zumbi, que é pior que morrer. Você precisa parar, respirar, fazer algo prazeroso, que te conecte com o bom da vida, que vai fazer se reenergizar e conseguir força pra seguir em frente. Parar e respirar. Não há prazer de fato em fazer sexo com todo mundo, comer dez pizzas seguidas, se endividar pra caramba por causa de coisas que você não precisa. Isso é desespero e é justamente essa a intenção desse sistema que te mantém na corrida do ratinho: acordando, tomando gagau, trabalhando e dormindo, pra acordar de novo e repetir o ciclo. É a ansiedade, o desespero e a angústia que vão fazer a gente tomar atitudes desesperadas e depois se acabar pra arcar com as consequências delas. 

Comer, rezar e amar não é só o título de um filme, são necessidades humanas. Só quero ver quando é que a gente vai descobrir isso, coletivamente, e se rebelar contra o sistema. É pra ontem! É pra já!

sábado, 1 de junho de 2024

O vínculo fantasma


A psicanalista junguiana Tatiana Paranaguá está lançando um livro sobre o vínculo fantasma, uma prática que ela vem observando na clínica dela. As pessoas, imaturas e muito focadas nelas mesmas, se relacionam com as outras pra satisfazer suas carências momentâneas, e quando a relação pede mais, essa pessoa, já abastecida, vai embora. Tatiana observa que as pessoas estão se relacionando com os outros se esquecendo que o outro não é um objeto e é um ser humano com sentimentos iguais. O outro, nos dias de hoje, é simplesmente uma experiência, como uma série de televisão. 

(e eu não usei tanto "pessoas" no parágrafo anterior à toa...)

Essa é a tônica do nosso tempo em tudo, mas é mais dramático quanto aos laços sentimentais porque, afinal, a pertença e o vínculo, como já disse aqui mil vezes, são as necessidades mais básicas. Discordo de Maslow. Já vi gente jogar a sobrevivência pro alto pra correr atrás de um sonho ou de um laço. Todo mundo quer ser independente pra mostrar força, mas ninguém que está sob esse sol pode prescindir dos outros, do vínculo. A gente definha, morre, não dá.

E eu acho que isso tem a ver com o uso excessivo das tecnologias, porque muita coisa a gente não diria cara a cara, justamente porque o olho no olho faz a gente ter a dimensão da humanidade do outro. Digo isso com o respaldo de quem viveu o início do uso da internet, em que acontecia absolutamente o contrário: sentíamos o contato à distância como se fosse próximo, porque a nossa maior experiência até então era a do cara a cara. Sabe aquela conversa das mães de que o hábito de casa vai pra rua? Pois é, o outro virou um totem de autoatendimento, onde você escolhe, paga, pega e vai embora.  

Mas eu tenho que dizer que se a coisa é geral, independente do gênero, sexualidade ou modalidade de relacionamento entre dois seres humanos - e estou falando de todas: amor, amizade, trabalho, aluguel, etc -, é mais aguda quando se trata dos relacionamentos amorosos com os homens (heteros ou gays). Eu acho que esse tipo de prática virou arma de guerra contra o feminismo e as queixas das mulheres. Sério, eles querem nos enfraquecer através do abandono e da solidão, porque eles sabem que a gente foi criada pro vínculo. Lembra muito a dinâmica da tourada, tão perverso quanto (você "vence" o touro não por ser melhor ou mais forte que ele, mas por ser desleal, atraindo, apunhalando e sangrando ele até que perca a força). Eles são programados pra esse individualismo exacerbado, pra suprimir as emoções, pra pensar a relação em termos sexuais e são super beneficiados, neste sentido, pela internet e novas tecnologias. Quem quiser jogar esse jogo estéril no século 21 tem recursos pra dar e vender. 

Por mais que a gente tenha se liberado, a mulher foi criada pro extremo oposto disso. Acredito que até de uma forma muito doentia, que leva à dependência emocional e à repressão. Mas se os dois lados são criados muito mal, acho que as mulheres pelo menos estão na pista certa, do vínculo, da parceria, do cuidado, etc. Mas, por agora, a gente está tomando muiiita porrada, no corpo e na alma. Eles se acham vencedores, coitados, de uma competição que existe na cabeça deles. Mulher não quer vencer o homem, mas ter o lugar dela também, ser respeitada, mas isso é interpretado, por quem não quer abandonar privilégios de poder, como tentativa de superioridade... Os homens são doentes que não percebem os próprios sintomas. A maioria acha que está arrasando, mas está só se desumanizando e machucando as pessoas. As mulheres sabem que estão sendo lesadas, que foram antes e mesmo reclamando, ainda são agora. E o mais triste disso é que essas situações geram traumas que te impedem de viver a oportunidade de bons vínculos quando eles aparecem. Essa é a nossa lesão de guerra. Amar homem anda muito insalubre, somos um exército de veteranas com deficiências adquiridas nesta guerra. Muita gente tá parando de lutar. Que bom, mas é triste, porque poderia ser outra coisa e bem melhor. 

Quero só saber até quando o ser humano vai aguentar isso? Eu acho que o ponto de virada está próximo. Uma hora, de tanta dor, vamos ter que amadurecer. Essa, alias, é a única coisa para a qual o sofrimento serve.

domingo, 26 de maio de 2024

Saber amar é saber deixar alguém te amar...

 


Este é Anthony Bourdain, chef americano, que se suicidou em 2018. Era uma figura célebre da tv americana, que curiosamente não chegou por aqui. Acabei de assistir "Road Runner: um filme sobre Anthony Bourdain". 

Vinte minutos de documentário foram suficientes pra achar Bourdain um gato e ficar com uma puta inveja da vida dele, da vibe dele. Mas, como disse Martha Medeiros na crônica sobre o ilustre chef, "A Fome", mesmo os bem-sucedidos têm direito a uma alma tortuosa. 

Lembrei na hora de uma conversa que tive ontem com um amigo. Se Deus tem seus preferidos - eu acredito nisso, meu amigo acha que é tudo de fato aleatório -, mesmo esses tendo tudo que querem, não estão completamente bem. Ninguém está. É da condição humana uma ponta de insatisfação, como é a do tapete persa, o mais desejado do mundo, ter um fio de imperfeição. 

A fala de uma amiga de Anthony Bourdain me partiu o coração, não só por ele, mas por ser o resumo das histórias de muitos de nós (se não da esmagadora maioria). Ela disse algo mais ou menos assim: "Ele era amado por muita gente, mas acho que ele não acreditava nisso". Como fazer alguém se sentir amado, se reconhecer amado? Eis a pergunta de um milhão de dólares, que ajuda até com a mais famosa questão, sobre qual é o sentido da vida.  

Pelo que pude captar, Bourdain era rebelde de nascença. Buscou, buscou, buscou sem de fato se sentir pertencente por mais que um bom período. Nem a paternidade foi capaz de cessar isso. Foi estrangeiro na própria pele, o pior exílio que tem. Não conseguiu preencher a mais básica necessidade humana que é a de se sentir pertencente, adequado, amado. Bourdain fala muito disso nas cenas do documentário, de se sentir normal. No fundo, mesmo quem luta pra ser especial, apenas quer se sentir adequado, visto, aceito.  

Martha terminou a bela crônica dela sobre a morte de Bourdain dizendo que se a comida, assim como a vida, é energia e sobrevivência, é fato que a fome, pra nosso espanto, às vezes acaba. Aliás, esse é um dos maiores medos que eu tenho e que qualquer ser humano pensante deveria ter: o de perder a graça na vida completamente. Sem a fome, do que adianta ter o garfo e a faca? 

Mas não acho que isso responda à questão do suicídio. Até acredito que cobre o caso de Bourdain, que deu sinais e ninguém levou a sério. Mas, se fosse assim sempre, até que seria mais fácil, porque a perda da fome é algo que é possível reconhecer enquanto acontece; dá sinais. A questão do suicídio é que ele também pode ser um impulso (frequentemente resultado de uma longa história) que em minutos produz uma condição da qual não é possível voltar. Assim como muita coisa que a gente faz na vida, só que não gostamos de nos dar conta disso. 

domingo, 5 de maio de 2024

Alinhando os chakras com Madonna

 


O show de Madonna no Rio foi emocionante demais, tanto que demorei a dormir depois disso. Não só porque foi ela revisitando 40 anos de carreira e estava feliz como há muito não via, como também foi uma volta no tempo pro público... e pra mim. 

Eu realmente me senti muito feliz, ontem, de ter nascido nos anos 80 e ter vivido a cultura pop que vivi. As músicas de Madonna foram trilha sonora da minha vida. Lembro desde as canções de True Blue, que tocava lá em casa no vinil, ao clipe de Rain, que eu achava a coisa mais linda. Muitas lembranças boas!...

Também foi poderoso politicamente. Ver a comunidade gay, depois de tanto ter sido humilhada, tendo um dia de catarse foi lindo. A semana inteira foi espetacular com todo mundo feliz, rindo, brincando, num carnaval fora de época. Esse é o Brasil que gosto. E Madonna sendo carinhosa com a Pablo? Ela não dá ousadia pra ninguém, mas dela gostou e era visível.

Madonna fez algo quase espiritual usando a nossa bandeira e aquela maldita camisa da seleção, botando as fotos de um monte de gente foda no telão, que foi difamada pelo bolsonarismo... botou gay, botou preto, estava todo mundo que foi massacrado pela extrema direita lá em cima, sendo exaltado. Que me desculpem as baianas, mas nem um banho de pipoca limparia as energias assim. 

Foi massa também vê-la se emocionando com o carinho do público. É super importante dar flores em vida. Ela estava se divertindo, feliz no palco... Uma senhora de quase 66 anos pulando que nem menina. Dói pensar, não vou mentir, que essa turma não vai estar aqui daqui a pouco. E foi um pouco melancólico lembrar que ela é a única que viveu para contar 40 anos de carreira entre os grandes pioneiros do pop (a parte de Michael Jackson deu um pouco de tristeza por causa disso). 



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Quando Madonna sorria

 


Alguma página de fãs publicou essa foto do início dos anos 90, de Madonna com Almodóvar. Alguém comentou que nessa época a cantora sorria. 

A juventude não é fácil, mas eu acho que o corpo ajuda e a gente ainda espera, acredita. Acho que isso ajuda a sorrir. Há uns cinco anos, como disse aqui outras vezes, eu tenho a sensação de que tudo se repete. Pelo que "pesco" em Madonna, somente os filhos a motivam. E olha que estamos falando de um ser humano bem sucedido em vários nichos da vida. 

E no fundo, a proximidade com o fim deve influir. 

Fora que a vida é mais difícil pra quem é inteligente. O povo pensa que é o contrário, mas não. Você percebe mais que a média, não é tão otimista. 

É, Madonna, eu te entendo. Ainda mais com o calor que está fazendo no Brasil. 

sábado, 27 de abril de 2024

Ana Suy e Winnicott

 



Uma vez, quando eu era repórter de Economia, fiz uma matéria que saiu na edição do domingo e fez sucesso; as pessoas do jornal me pararam pra elogiar na segunda-feira. A pauta era trivial, mas o enfoque não, e eu acho que isso conectou os leitores. Era uma matéria sobre como recuperar as finanças, só que, graças a Deus, conversei com um economista que não repetiu o mesmo lenga lenga de sempre e enfatizou que o essencial é aquilo que você elege como indispensável, que pode ser desde pagar a escola particular para os filhos até fazer uma boa academia. Muito simples, né? Ele respeitou que cada um tem um desejo, uma necessidade e não ficou cuspindo receita de bolo, impondo o que deve ser prioritário ou não, não foi moralista nem austero e deu dicas possíveis. Veja como um economista que lembra que o leitor é gente já faz a diferença.

Ana Suy, psicanalista, em uma live disse que não é a favor de terapia para todos, até porque é preciso escolher bem com quem vai fazer terapia. Entendi o que ela quis dizer. Realmente, há quem consiga se encontrar na vida com coisas terapeuticas e que não são terapia. Sobretudo, cair nas mãos de um terapeuta chinfrin às vezes pode fazer mais mal do que ficar sofrendo no próprio canto. Mesmo bons terapeutas podem fazer merda. Eu já fiz uma vez e não porque era novata, mas porque tem duas coisas que são muito difíceis na atividade de terapeuta: não julgar o paciente e seguir a linha de raciocínio dele e não a nossa própria. Por isso é preciso estudar muito e fazer supervisão. Muito, muito. Só sensibilidade e inteligência não resolvem, você tem que saber separar o seu do dos outros. É fundamental.

Eu tive boas terapeutas (no plural, porque foi mais de uma), mas elas sempre escorregaram nisso: sinto que analisam segundo os valores delas, a cabeça delas e não seguindo a minha linha de raciocínio e que, como as questões que eu coloco não são fáceis de resolver, acabam me dando sugestões óbvias, que é claro que eu já tentei e não deu certo ou, em outros casos, eu não consigo fazer, e o que é bloqueio brabo você não vai resolver na tora; tem que ir por outros caminhos, bolar outras estratégias personalizadas. Mas elas não conseguem pensar comigo outros jeitos. E o pior, não dizem "Eu não sei", ficam nervosas e jogam pra mim a culpa da não solução. Ora, se eu soubesse o caminho pra resolver, não estaria pedindo ajuda na terapia. Me sinto completamente só e desamparada de novo nessas horas. É foda. 

Não digo que vou desistir da terapia, mas a minha última sessão me jogou em desalento.  Já vinha perdendo a crença de que isso funciona pra mim e a última sessão foi uma pá de cal. Antes de continuar, vale abrir uns parênteses. Não vou dizer nada de novo, mas é oportuno relembrar antes de continuar.  

Minha vida não foi fácil. Eu sei que a de ninguém é, que a esmagadora maioria das pessoas se sentassem aqui e começassem a falar da própria vida sinceramente, iam lamentar e chorar (e quem não, desconfio que está alienado). Mas no meu caso, eu tô por conta própria (emocionalmente nem se fala...) desde que me entendo por gente, cresci e tenho vivido em um ambiente que me fragilizou muito e sou cobrada, apesar das pessoas ao meu redor me darem muito pouco ou nada. Ninguém nunca me perguntou de verdade como eu me sinto, ou tentou entender o meu lado ou pegou na minha mão pra me ajudar nos momentos de crise (se eu não pedir, ninguém me oferece ajuda); nunca recebi flores; e há 25 anos ganhei meu último bolo de aniversário. Eu prefiro cactos a flores e escolho e compro minha própria fatia de bolo, mas isso aí é pra descrever o nível de delicadeza, atenção e carinho que as pessoas ao meu redor têm tido comigo durante a vida. Sempre tive a sensação de que recebo menos do que dou. E não acho mesquinho falar em dar e receber, porque ninguém é saco furado e o nome da coisa é "relação", o que pressupõe bilateralidade e não um só doando. Teria dado um braço pra ter tido, ao longo da vida, alguém que fosse um suporte afetivo seguro, perene, teria sido muito agradecida por essa pessoa na minha vida (só pra olhar pra cara e saber que tem alguém por mim), mas isso não veio. Pelo menos, em fases mais agudas, sempre apareceu gente (pessoas que não eram próximas, geralmente) pra dar um socorro, e eu agradeço a elas, mas não foram pessoas com quem desenvolvi um laço forte; elas chegaram e foram embora. As que eram mais próximas, eu nunca fui prioridade delas. Sabe aquela coisa meio BBB, de não estar no podium de ninguém?... Em momentos críticos, a sensação que eu tinha é que a vida me mandava a ajuda necessária pra me manter viva fisicamente, mas nunca mandou o que eu precisava pra viver de fato. Tem sido foda.  

E claro que isso jogou um peso enorme nas minhas costas e me deixou desconfiada dos laços humanos. Muito da confiança que desenvolvemos na gente vem da valorização e do apoio do entorno. Não existe autoestima sem a participação dos outros, sem reconhecimento externo, pois somos seres relacionais. De tempos em tempos, falta combustível, o carro não quer andar de jeito nenhum e eu faço uma força hercúlea pra empurrar o dito cujo e seguir em frente. Sabe aquela brincadeira de "Estou fazendo o mínimo, mas este é meu máximo"? Esse "seguir em frente" vai todo capenga, esse carro tá todo barreado já, mas ele segue indo como dá. E não tem um cristão pra me dar o devido crédito, pelo contrário, é como se a minha luta fosse invisível. Se dão, fazem em silêncio e isso pra mim não serve de nada. Só eu sei. As pessoas não têm ideia do quanto me custou chegar relativamente sã e salva até aqui. Acho que elas pensam que é fácil demais pra mim, que tudo me cai do céu, que eu não me preocupo ou sou acomodada com as coisas. E apesar disso eu sou uma boa pessoa, ética, solidária, afetuosa, esforçada. Pelo que eu recebi da vida, não era nem pra ser. É porque é da minha natureza mesmo, mas por outro lado, não tenho muito mais pra dar porque não tenho de onde me alimentar. Inclusive, de tanto dar aos outros na esperança de receber, acabei gastando uma energia vital que já era pouca e hoje faz falta pra mim. Infelizmente, não conheço uma versão descansada minha desde os meus 13 anos. Sou sempre essa versão estressada aqui, em hipervigilância, preocupadíssima em sobreviver e com medo que isso não aconteça em algum momento. Neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo.

Desde a eleição de Bolsonaro e da pandemia, que coincidiram com o meu processo de envelhecimento, isso ficou pior. Vem me custando mais achar graça nas coisas, fazer esse exercício de criatividade que é viver a vida, como eu sempre fiz. É como se eu já tivesse visto de tudo e as coisas ficassem repetidas, sem atrativo, sem vínculo. É como se eu estivesse mesmo perdendo o combustível e isso, óbvio, me deixa abalada. Lembrando: neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo. E se eu não puder dar mais meus pulos, como é que vai ficar? 

E num desses períodos de fragilidade extrema, que vem e vai, eu gastei um dinheiro que não tinha pra chamar a terapeuta. Mas foi uma sessão desastrosa. Eu precisava de uma coisa e veio tudo ao contrário. Eu queria acolhimento, veio culpabilização e bronca; eu queria uma luz, veio clichê, senso comum... Ana Suy falou e disse. Mas onde estão essa meia dúzia de pessoas que entendem os outros? Winnicott tinha razão: É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado. Quem me ajuda a me procurar?

sexta-feira, 19 de abril de 2024

É possível mesmo crescer e superar os traumas de infância?

Acho que já contei isso aqui, mas uma vez, durante uma viagem, papo vai, papo vem e uma médica venezuelana, que tinha feito um trabalho na comunidade, disse que acreditava que autoestima é uma coisa que ou é trabalhada na infância ou já era.

Será? É uma dúvida sincera minha. 

Eu sempre acho que a gente pode fazer alguma coisa, mas estou considerando que podemos menos do que pensamos, ou melhor, do que a sociedade da produtividade prega. Eu vejo tantos adultos machucados, sem conseguir se desvencilhar dos traumas passados, dos traumas de origem, do início da vida... Existe vida após uma infância de traumas?

domingo, 7 de abril de 2024

Pais e filhos

Ontem, pela milésima vez, estava com amigos (sem filhos), numa mesa do shopping e nos demos conta de como não é fácil ser pai e mãe. Tem que desejar muito mesmo. Estamos em um mundo que impõe tantas tarefas que uma vida só já gera B.O. demais, que dirá ser responsável por outra vida.

Da minha parte, além de estar nessa corrida do ratinho aí, eu já gastei energia psíquica demais com os outros, e de um modo improdutivo, com todas as pessoas erradas que eu podia eleger pra isso (péssima filha de Oxossi), sem falar nas que desde que nasci brotaram no meu caminho, e agora sinto que essa energia tem que se voltar pra mim, porque eu estou me devendo. Me devendo tanto que estou esgotada, quebrando a cabeça pra descobrir como essa energia pode voltar pra mim... Mas isso é outro papo. 

Lamento bastante que muita gente (leia-se mulheres, que são a maioria com esse perfil) não faça qualquer autoanálise antes de ter filho. Vejo muita gente, bem intencionada inclusive, jogando suas carências nas crianças. Essa ideia de educação respeitosa - que eu acho boa - camufla muita gente traumatizada e não tratada que acha que educar é nunca causar frustração ou desconfoto ao filho. Ô, Deus... Eu conto ou você conta? Como diz uma amiga, a coisa que a vida mais nos impõe é limite e frustração. Melhor aprender a lidar com isso desde casa, de forma amorosa, do que com estranhos e rispidamente. Numa coisa eu concordo 1000%: a infância é a base. Cada vez ando mais cética quanto a reverter totalmente os efeitos de uma infância ruim ou capenga. 

Mas essa falta de segurança e maturidade dos pais não tá boa, não. Chega a ser triste de ver. De outro modo, produziremos mais uma geração com problemas de base pro resto da vida. 

Troca-se a geração, mudam-se os métodos e o problema continua o mesmo: adultos que não olham pra dentro e jogam seu lixo emocional nas pobres das crianças. Estou curiosa pra saber no que vai dar isso no futuro. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Parece cocaína, mas é só tristeza

Há algum tempo, quando vejo todo mundo postando sobre o mesmo evento, me pergunto quantos deles estariam ali se não fossem as redes sociais, o olhar do outro sobre isso. Ontem mesmo, no Festival de Verão, 90% dos meus conhecidos estiveram lá, e registraram o fato em cliques felizes - assim "dizem" eles. Observo este movimento em tudo: na compra de roupas, na participação em cursos, na ida à academia, na realização de viagens, etc. Há uma ansiedade generalizada, e eu não sei como as pessoas estão aguentando isso - eu já estou jogando a minha toalha faz algum tempo. Estava até com saudades do Festival e tinha convite pra ir, mas preferi o meu descanso. Era o que eu realmente necessitava ontem de noite. Já fui vezes demais ao Festival e a esse tipo de evento de verão, e não vai ser neste ano, ao que me consta, que vai acabar. Numa próxima eu vou, e eu não vou morrer por causa disso.

O pessoal está maníaco nisso de "bater o ponto" em toda a agenda do verão, ou do contrário, parece que não viveu. Acho estranho, estranhíssimo, embora esteja cada vez mais comum esta atitude. Tudo tem que ser muito pra parecer intenso, a felicidade suprema. E se tudo é urgente, intenso e necessário, nada é no fundo. E o que de fato é? Não existe intensidade, contentamento e alegria no mundo de dentro também? ... Eu não preciso ser animada e ativa 100% do meu tempo. Aliás, isso é anti-humano. Há descanso, alegria, tristeza, melancolia, reflexão, preguiça, sonho, ação e muito mais neste caldeirão do cotidiano, incluindo aí os dias de folga, em que todo mundo parece que sai desesperado "pra ser feliz", o que inclui ser produtivo e bancar o "rico do instagram". 

FOMO é uma sigla em inglês que, na tradução, quer dizer medo de estar perdendo algo. Estamos todos estressados, querendo fazer tudo, o tempo todo, em todo lugar e ao mesmo tempo. Com a ampliação das "janelas para a vizinhança", nossa sensação de não estar aproveitando a vida é grande, talvez a maior da história. Feliz era o cara do campo que não via nem escutava o vizinho e se concentrava na própria vida. E em um país de extrovertidos como o Brasil, tal pensamento vira um imperativo: você pre-ci-sa curtir a vida até o talo. Bote isso ao cubo se o sujeito mora em uma região litorânea. 

É uma alegria muito gêmea da tristeza. A sensação que eu tenho é que se aproveita bem menos e se foge muito da realidade. É quase como se a gente pedisse desculpas a nós mesmos por não viver o que desejamos, ou melhor, o que nos disseram nos comerciais e no Instagram que a gente deveria viver. "Tô solteira sim, mas sozinha nunca", "Odeio meu trabalho, mas enfim sextou", e por aí vai.  Parece cocaína, mas é só tristeza... 

Além de produzir cansaço generalizado (e em alguns casos endividamento), isso também gera baixa autoestima. Primeiro porque é impossível fazer tudo que está disponível pra gente fazer e, por isso mesmo e em segundo lugar, sempre haverá alguém melhor que você. Frustação x frustração. 

Não é à toa que estamos todos cansados e vivendo sem sentido. Gastamos energia demais pra viver uma vida acelerada e que no fundo não elegemos; cumprimos uma agenda social "pra inglês ver", pro vizinho nos invejar. Consumimos o mundo e a nossa própria vida como quem consome a roupa da moda. Queremos controle sobre a nossa felicidade e não criamos conexão com a nossa vida. Essa conta não tem mesmo como fechar.   

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Admiração rocks

Ontem uma amiga publicou uma foto com três outras colegas de faculdade nossas. Com duas delas não falo mais e com uma outra, não tenho paciência pra constante performance. Eu só paro de falar com as pessoas em duas situações: se começo a achar que se trata de uma pessoa ruim ou se chego à conclusão de que não gosta de mim. Nenhuma delas é gente ruim (são mais pobres de espírito), mas hoje as acho brochantes. Ou seja, não admiro, se é que um dia eu admirei. Suspeito que me juntei por carência e baixa autoestima mesmo. E é engraçado ver, hoje, como elas projetavam os problemas delas em mim, as coisas que não conseguiam reconhecer nelas mesmas. Como diz meu mapa astral, as pessoas se veem refletidas em mim. Eu atraio essas projeções, que eu aproveito para observar nos outros o que têm de oculto e ainda refletir sobre mim mesma. Não sou um alecrim dourado e por isso mesmo sou interessada em me melhorar e não ser pega de surpresa, o que já é um plus em se tratando de seres humanos.  

sábado, 20 de janeiro de 2024

Estresse em cadeia

Existem muitas ideias legais, porém mal interpretadas e usadas, hoje em dia. E por causa disso, estabelece-se um estresse em cadeia, porque um lado manda bala e o outro aguenta. Uma delas é sobre flexibilidade e leveza. Precisamos tê-las e eu sou uma das que está nessa luta. Porém, as pessoas confundem isso com a permissão pra serem descuidadas. A gente pode e deve ter tolerância pra coisas pontuais, mas não para um hábito ruim dos outros que nos prejudica. Como diz uma amiga, até que me seja apresentado um atestado, eu não vou me lenhar por causa dos outros não. Uma coisa é você atrasar e deixar a pessoa plantada uma vez, outra coisa é o costume de fazer isso. Daí, você que tem cuidado com as coisas, quando perde a paciência - afinal nem todo dia é dia santo... -, ainda sai de ruim e fica com ressaca moral, afinal não foi "flexível" e "leve".

Descontrole

Estava hoje ouvindo uma palestra do psiquiatra baiano Marcelo Veras e ele falou que demorou pra se acostumar com os loucos, com o manicômio. Nunca gostei de lidar com gente louca, sempre me senti incômoda. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Casa de ferreiro, espeto de pau

Uma das coisas que a gente faz no atendimento psicoterapêutico é uma espécie de reparentalização. Ou seja, quando certas coisas que deveriam ter sido orientadas pelos pais na primeira infância não foram feitas, o terapeuta tem que ensinar o paciente a ser esse pai/ mãe pra si mesmo, pra derrubar modelos de resposta que são danosos. 

Meus pacientes foram pessoas muito mal tratadas pela vida, pelo entorno, então chegaram à terapia com baixíssima autoestima, o que inclusive resulta em total cegueira para os próprios feitos. E olha que foi cada coisa difícil de sobreviver e superar que em certas horas eu tive vontade de bater palmas. 

Daí eu fico fazendo sermão pra pessoa olhar pra isso, pra aquilo, pras próprias capacidades e conquistas, dou vários exemplos, mas falando cá com os meus botões: "Que falsa!... Você não faz nada disso...". hehe

O paciente é um ótimo espelho. Enquanto vemos os dramas dos outros, pontuamos várias questões nossas também. Acho que vou levar isso pra vida. 

Ja contei essa?

 Acho que não, mas essa história é boa. 

Eu sempre tive dúvidas com essa carreira de jornalista, desde a faculdade. Um dia, soube através de amigos de uma mulher que jogava búzios e acertava tudo. Por uma coincidência, uns cinco anos depois, em 2008, soube dela de novo e desta vez consegui o contato. Aliás, antes de qualquer coisa, conversa vai, conversa vem e ela fez um desabafo sobre a afilhada dela, uma certa dançarina muito famosa, que deixou de falar com ela depois que virou celebridade e neo evangélica. Puro suco de Bahia: você vai pra saber da sua vida e sai sabendo mais do que intencionava sobre a de quelé. 

Fui lá e entre outras coisas perguntei da profissão. Ela olhou assim assim, com cara de quem tá vendo algo meia boca - uma das marcas dela era a grande expressividade -, fez "hummm...", e me disse que o Jornalismo era só pra comprar os meus alfinetes mesmo, mas que não ia me dar futuro. Deu match com a minha "bola de cristal" interna. 

Naquela época, eu já flertava com a Psicologia. Na verdade, desde quando eu peguei Impresso e fui cobrir um congresso de Psicologia. Perguntei a ela. "Hummmm..." e a cara de coisa meia boca de novo. "Isso vai servir pra você se entender, mas não é seu caminho, não". Pausa e uma esticada de olho pra conferir se é isso mesmo. "Eu lhe vejo de toga!" (ouça com aquela exclamação ao estilo "Eureca!", que foi o tom que ela usou). 

"É o quê?!"

Eu achei absurdo. Até poderia ter feito Direito, minha nota dava pra ingressar no segundo semestre, mas eu achava tão chato. Fui lá mais algumas vezes depois disso e ela repetia a previsão. 

Um ano depois, eu comecei a trabalhar num curso para concurso, e fiz um curso de noite com várias disciplinas de Direito. Pensei que talvez ela tivesse confundido. 

Em 2015, eu já estava enchendo o saco de trabalhar em jornal e queria outra coisa. Fiz o Enem pensando em Psicologia, mas não obtive índice. Mas sem entender até hoje, no meio do ano a nota serviu pra Uneb, pro curso de Direito. Fui e gostei, mas era muito longe. Decidi que só continuaria se passasse na UFba, que fica no pé de casa. Sem estudar, passei. E tô aí, com as coisas fluindo. Até umas disciplinas que eu achava que não ia conseguir aproveitar, aproveitei. E ela acertou: a Psicologia serviu mesmo pra eu me entender, mas não quero seguir não. Só não sei se vou usar toga, mas se for da vontade de Deus eu ganhar o que esse povo ganha, Senhor, sua serva está pronta! hahaha

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O calor estragou meus planos de vida

Eu não sei como as pessoas conseguem articular metas e ambições com o calor ininterrupto que faz em Salvador. Eu vou ali e volto morta e derretida. O mundo acima de 24 graus é difícil pra caramba. Por isso que gente rica só vem aqui nas férias.

Não que eu ache a essa altura importante ter metas e ambições. Tenho elas infinitamente em menor quantidade que há 20 anos. Mas também naquela época eu queria muita coisa porque achava que deveria querê-las; hoje tô ligada que não sei o que quero, à exceção de umas três ou quatro coisas triviais. 

Mas eu vim aqui pra reclamar e não pra divagar.  

O corpo importa, minha gente. A alma não empreende carreira solo de jeito nenhum. E no desconforto térmico fica difícil. O que a Bahia tem contra as quatro estações? Eu adoro a animação do verão na mesma proporção que eu odeio o calor. 


domingo, 7 de janeiro de 2024

We gave to "trauma" a bad name

Hoje estava comentando sobre os traumas de uma amiga. Acho que se ela me ouvisse, se sentiria ofendida. Não por minha culpa, mas porque a tal palavra pegou uma conotação negativa, como se alguém traumatizado fosse maluco, fraco ou problemático. Alguém traumatizado apenas está em dor, o que na verdade não é "apenas", mas não é defeito de fábrica da pessoa. Acontece a todos.  

Tudo tem seu preço mesmo

Manter relacionamentos próximos e de longo prazo exige muita paciência e perdão. Inclusive consigo mesmo. Tem que gostar muito do outro pra valer se empenhar. Tem que haver um ótimo motivo/ mandiga pra nos fazer ainda querer. Definitivamente, nada vem de graça mesmo nessa vida. 

Devido ao alto preço e ao pouco que as pessoas estão dispostas hoje a dar, a esmagadora maioria delas pelo menos, cada vez mais vejo que eu era iludida e que na verdade não perco nada estando quieta no meu cantinho. Se relacionar com o outro é bom, mas custa. Tem que valer a pena. 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Terceiromundização do primeiro mundo (ou "todo mundo vai descer")

Esqueci de dizer sobre as Olimpíadas de Paris que minha amiga que mora lá me contou que estão tirando os estudantes estrangeiros dos alojamentos para dar lugar às delegações, em troca de míseros cem euros. Pire aí!.. Naquela cidade caríssima?!...

Outro problema do evento é que a vila olímpica foi construída numa cidade pobre e a população está com medo de que haja gentrificação. E essa é uma praga mundial, né? A seguir cenas dos próximos capítulos...

Moradia tem sido um problema geral. Criamos um sistema econômico que beneficia meia dúzia de pessoas e o resto trabalha pra pôr algo no estômago e ter um canto pra se encostar. Ultimamente, esse canto está ficando cada vez mais precário e indigno. Temos chat GPT, mas uma humanidade voltando às condições do século 19. Um oferecimento dos mais ricos que adoram investir (e lavar) dinheiro em imóveis, aumentando o valor do metro quadrado e tornando indisponíveis, ou melhor, inacessíveis as unidades pra quem realmente precisa morar naquele lugar. 

Estava comentando com uma amiga, outro dia, como a humanidade se engana ao achar que o progresso é uma coisa linear. Achávamos que estaríamos melhores que nossos pais, e isso não ocorreu. Achávamos que o chamado terceiro mundo ia progredir até o primeiro, mas o que vemos é o tal primeiro mundo descendo às condições do terceirão. A diferença é que, como já foram muito ricos (ainda são, mas falo da prosperidade da população), eles ainda tem gordura pra gastar e nós não. 

Não sei se já falei aqui, mas eu adorei um livro que eu não dava nada, de uma jornalista americana Anne Helen Petersen, chamado "Não aguento mais não aguentar mais". Ela fala da geração millenium e como nós nos afundamos no burn out, mas como pano de fundo de tudo isso está a crise neoliberal. É angustiante, porque você lê algo que se passa na meca do capitalismo e parece que ela está falando de Brasil. A sensação é que não tem pra onde fugir, não existe nem mais essa tal terra da esperança. 

Olha, se nada for feito, todo mundo vai descer. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

A Paris que eu encontrei desta vez

 




Outro dia estava vendo uma matéria na tv sobre as Olimpíadas de Paris, das novidades e dificuldades, entre elas a do transporte público. Uma amiga minha que mora lá tinha se queixado disso horas antes, e tinha comentado que a cidade não está preparada pra receber os jogos. Deixa eu falar sobre isso antes que me esqueça. Sim, visitando outros posts do blog, percebi que já esqueci de muita coisa e gostei de lembrar delas através daqui. Bem, em maio de 2023 voltei a Paris após exatos dez anos. Esta experiência foi diferente não só porque muita coisa mudou, mas porque desta vez fiquei hospedada "en banlieue", ou seja, nos subúrbios da região metropolitana. Fui para Gretz-Armainvilliers, que é quase fim de linha do RER E, um dos dois piores trens que serve aquela região. Sim, não chega metrô lá. Você entra e sai de Paris de trem, que pára em algumas das grandes estações, do tamanho de shoppings centers. A coisa fica muito mais complexa neste sistema. Eu, que sabia andar tão bem de metrô, me senti burra andando de RER. Sério, eu entrei em crise. Fora que o bicho vivia de manutenção e parado por causa dos tais reparos para as Olimpíadas. Eu passei dois finais de semana fazendo malabarismo pra poder sair por causa disso. Minha amiga que me hospedou, um belo dia acordou pra trabalhar, no escuro e no frio, pra dar com a cara na porta porque o trem mais uma vez não estava funcionando e ninguém avisou, só souberam na hora. E é essa a vida de quem mora no subúrbio, que virou um depósito de imigrantes, a maioria de ex-colônias francesas. É mais barato (está impossível pagar aluguéis em Paris. Há mais de dez anos, quando fui pela primeira vez, quase todos os imigrantes que conheci moravam em Paris), é mais tranquilo, dá até pra morar em casa, mas você se lasca sem carro porque o transporte é ruim. A depender da região, é quase como morar na roça. Na boa, eu estaria melhor em Salvador, onde é mais barato chamar um uber (é uma fortuna de lá até Paris). Olha essa estação aí da foto, sem cobertura quase, sem proteção. Isso aí no inverno europeu, às 4h da matina, deve ser uma "maravilha". 
A imigração cresceu demais, demais na última década. Parece que a população cresceu umas cinco vezes. Nas plataformas de trem, você vê um mar de rostos estrangeiros, principalmente negros, árabes e orientais. Não por acaso tudo é difícil nessa zona fora de Paris. Pra quê gastar com o bem-estar de gente que limpa o seu banheiro? O turista não vai lá. Uma das promessas dos jogos era levar o metrô até o subúrbio e melhorar a mobilidade (sub)urbana, mas parece que não vai rolar. Uma pena, até porque essa turma foi muito prejudicada em nome disso. Acho que ao todo, de dias parados em um mês, eu peguei uns sete ou oito. Só em um mês! Eles colocavam uns mini bus gratuitos que davam a volta no mundo, quase um sequestro autorizado e isso ainda na chuva, porque atipicamente choveu pra caramba neste final de primavera em Paris - nunca vi isso. O transporte público da Cidade Luz mesmo agora vive lotado quando antes o perrengue era só nas horas de pico. Além disso, a cidade é ruim demais pra quem é PCD, é pura escada. O turista vai passar muita raiva nas Olimpíadas, pelo visto. E você acha que a França está preocupada com isso? Jamais!
E tem uma coisa que vem ocorrendo com o fluxo de imigrantes e que é muito mais grave porque envolve coisas além daquele espaço urbano: a violência, principalmente a sexual. Eu fiquei besta com os relatos de assédio que as brasileiras me contaram: perseguições em lugares abertos, tentativa de estupro, estupro de fato. Eu mesma desconfio que fui seguida por um árabe na estação no dia em que fui pro Senegal. Obviamente que há assediadores de todas as nacionalidades, incluindo a francesa e a brasileira, mas parece que o maior número de casos envolve os homens arábes. E isso leva a outra fobia europeia, a do islã. O islã tem problemas, mas na verdade essas religiões abraâmicas são uó de um modo geral, não é privativo dos muculmanos isso. Fora o combustível que isso dá pra xenofobia, que nunca foi pequena. Por outro lado, há algo de estranho na atmosfera da França, talvez da Europa toda, que eu já detectava das outras vezes mas agora ficou mais forte: o imigrante é até supostamente aceito, recebido, mas não acolhido, integrado. É chocante ver que até parte das crianças não se sentem pertencentes. A França usa essas pessoas, mas as repele. É estranho porque é velado. Eu sei da confusão que é ter tanta gente vinda de lugares tão distantes e até desconhecidos (e infelizmente o preconceito é uma ferramenta pra que as pessoas tenham uma suposta previsibilidade e proteção nesta Torre de Babel), mas eu adoraria esse caldeirão cultural no Brasil. Até tive um pouco disso quando morei no Farol de Itapuã, com meus vizinhos argentinos, italianos e espanhóis, e depois nunca mais. Adoro!
Bem, a seguir cenas dos próximos capítulos... Oremos pela humanidade. : /

Por falar em espiritualidade, mal paguei as prestações dessas férias e a entidade me mandou pra Machu Picchu. Eu vou mas preciso de um dinheiro caído do céu pra isso, ne? Ou será que ela me "mandou pro Peru" veladamente, e isso foi um código? Mistééério...