Há algum tempo, quando vejo todo mundo postando sobre o mesmo evento, me pergunto quantos deles estariam ali se não fossem as redes sociais, o olhar do outro sobre isso. Ontem mesmo, no Festival de Verão, 90% dos meus conhecidos estiveram lá, e registraram o fato em cliques felizes - assim "dizem" eles. Observo este movimento em tudo: na compra de roupas, na participação em cursos, na ida à academia, na realização de viagens, etc. Há uma ansiedade generalizada, e eu não sei como as pessoas estão aguentando isso - eu já estou jogando a minha toalha faz algum tempo. Estava até com saudades do Festival e tinha convite pra ir, mas preferi o meu descanso. Era o que eu realmente necessitava ontem de noite. Já fui vezes demais ao Festival e a esse tipo de evento de verão, e não vai ser neste ano, ao que me consta, que vai acabar. Numa próxima eu vou, e eu não vou morrer por causa disso.
O pessoal está maníaco nisso de "bater o ponto" em toda a agenda do verão, ou do contrário, parece que não viveu. Acho estranho, estranhíssimo, embora esteja cada vez mais comum esta atitude. Tudo tem que ser muito pra parecer intenso, a felicidade suprema. E se tudo é urgente, intenso e necessário, nada é no fundo. E o que de fato é? Não existe intensidade, contentamento e alegria no mundo de dentro também? ... Eu não preciso ser animada e ativa 100% do meu tempo. Aliás, isso é anti-humano. Há descanso, alegria, tristeza, melancolia, reflexão, preguiça, sonho, ação e muito mais neste caldeirão do cotidiano, incluindo aí os dias de folga, em que todo mundo parece que sai desesperado "pra ser feliz", o que inclui ser produtivo e bancar o "rico do instagram".
FOMO é uma sigla em inglês que, na tradução, quer dizer medo de estar perdendo algo. Estamos todos estressados, querendo fazer tudo, o tempo todo, em todo lugar e ao mesmo tempo. Com a ampliação das "janelas para a vizinhança", nossa sensação de não estar aproveitando a vida é grande, talvez a maior da história. Feliz era o cara do campo que não via nem escutava o vizinho e se concentrava na própria vida. E em um país de extrovertidos como o Brasil, tal pensamento vira um imperativo: você pre-ci-sa curtir a vida até o talo. Bote isso ao cubo se o sujeito mora em uma região litorânea.
É uma alegria muito gêmea da tristeza. A sensação que eu tenho é que se aproveita bem menos e se foge muito da realidade. É quase como se a gente pedisse desculpas a nós mesmos por não viver o que desejamos, ou melhor, o que nos disseram nos comerciais e no Instagram que a gente deveria viver. "Tô solteira sim, mas sozinha nunca", "Odeio meu trabalho, mas enfim sextou", e por aí vai. Parece cocaína, mas é só tristeza...
Além de produzir cansaço generalizado (e em alguns casos endividamento), isso também gera baixa autoestima. Primeiro porque é impossível fazer tudo que está disponível pra gente fazer e, por isso mesmo e em segundo lugar, sempre haverá alguém melhor que você. Frustação x frustração.
Não é à toa que estamos todos cansados e vivendo sem sentido. Gastamos energia demais pra viver uma vida acelerada e que no fundo não elegemos; cumprimos uma agenda social "pra inglês ver", pro vizinho nos invejar. Consumimos o mundo e a nossa própria vida como quem consome a roupa da moda. Queremos controle sobre a nossa felicidade e não criamos conexão com a nossa vida. Essa conta não tem mesmo como fechar.
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