sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

A Paris que eu encontrei desta vez

 




Outro dia estava vendo uma matéria na tv sobre as Olimpíadas de Paris, das novidades e dificuldades, entre elas a do transporte público. Uma amiga minha que mora lá tinha se queixado disso horas antes, e tinha comentado que a cidade não está preparada pra receber os jogos. Deixa eu falar sobre isso antes que me esqueça. Sim, visitando outros posts do blog, percebi que já esqueci de muita coisa e gostei de lembrar delas através daqui. Bem, em maio de 2023 voltei a Paris após exatos dez anos. Esta experiência foi diferente não só porque muita coisa mudou, mas porque desta vez fiquei hospedada "en banlieue", ou seja, nos subúrbios da região metropolitana. Fui para Gretz-Armainvilliers, que é quase fim de linha do RER E, um dos dois piores trens que serve aquela região. Sim, não chega metrô lá. Você entra e sai de Paris de trem, que pára em algumas das grandes estações, do tamanho de shoppings centers. A coisa fica muito mais complexa neste sistema. Eu, que sabia andar tão bem de metrô, me senti burra andando de RER. Sério, eu entrei em crise. Fora que o bicho vivia de manutenção e parado por causa dos tais reparos para as Olimpíadas. Eu passei dois finais de semana fazendo malabarismo pra poder sair por causa disso. Minha amiga que me hospedou, um belo dia acordou pra trabalhar, no escuro e no frio, pra dar com a cara na porta porque o trem mais uma vez não estava funcionando e ninguém avisou, só souberam na hora. E é essa a vida de quem mora no subúrbio, que virou um depósito de imigrantes, a maioria de ex-colônias francesas. É mais barato (está impossível pagar aluguéis em Paris. Há mais de dez anos, quando fui pela primeira vez, quase todos os imigrantes que conheci moravam em Paris), é mais tranquilo, dá até pra morar em casa, mas você se lasca sem carro porque o transporte é ruim. A depender da região, é quase como morar na roça. Na boa, eu estaria melhor em Salvador, onde é mais barato chamar um uber (é uma fortuna de lá até Paris). Olha essa estação aí da foto, sem cobertura quase, sem proteção. Isso aí no inverno europeu, às 4h da matina, deve ser uma "maravilha". 
A imigração cresceu demais, demais na última década. Parece que a população cresceu umas cinco vezes. Nas plataformas de trem, você vê um mar de rostos estrangeiros, principalmente negros, árabes e orientais. Não por acaso tudo é difícil nessa zona fora de Paris. Pra quê gastar com o bem-estar de gente que limpa o seu banheiro? O turista não vai lá. Uma das promessas dos jogos era levar o metrô até o subúrbio e melhorar a mobilidade (sub)urbana, mas parece que não vai rolar. Uma pena, até porque essa turma foi muito prejudicada em nome disso. Acho que ao todo, de dias parados em um mês, eu peguei uns sete ou oito. Só em um mês! Eles colocavam uns mini bus gratuitos que davam a volta no mundo, quase um sequestro autorizado e isso ainda na chuva, porque atipicamente choveu pra caramba neste final de primavera em Paris - nunca vi isso. O transporte público da Cidade Luz mesmo agora vive lotado quando antes o perrengue era só nas horas de pico. Além disso, a cidade é ruim demais pra quem é PCD, é pura escada. O turista vai passar muita raiva nas Olimpíadas, pelo visto. E você acha que a França está preocupada com isso? Jamais!
E tem uma coisa que vem ocorrendo com o fluxo de imigrantes e que é muito mais grave porque envolve coisas além daquele espaço urbano: a violência, principalmente a sexual. Eu fiquei besta com os relatos de assédio que as brasileiras me contaram: perseguições em lugares abertos, tentativa de estupro, estupro de fato. Eu mesma desconfio que fui seguida por um árabe na estação no dia em que fui pro Senegal. Obviamente que há assediadores de todas as nacionalidades, incluindo a francesa e a brasileira, mas parece que o maior número de casos envolve os homens arábes. E isso leva a outra fobia europeia, a do islã. O islã tem problemas, mas na verdade essas religiões abraâmicas são uó de um modo geral, não é privativo dos muculmanos isso. Fora o combustível que isso dá pra xenofobia, que nunca foi pequena. Por outro lado, há algo de estranho na atmosfera da França, talvez da Europa toda, que eu já detectava das outras vezes mas agora ficou mais forte: o imigrante é até supostamente aceito, recebido, mas não acolhido, integrado. É chocante ver que até parte das crianças não se sentem pertencentes. A França usa essas pessoas, mas as repele. É estranho porque é velado. Eu sei da confusão que é ter tanta gente vinda de lugares tão distantes e até desconhecidos (e infelizmente o preconceito é uma ferramenta pra que as pessoas tenham uma suposta previsibilidade e proteção nesta Torre de Babel), mas eu adoraria esse caldeirão cultural no Brasil. Até tive um pouco disso quando morei no Farol de Itapuã, com meus vizinhos argentinos, italianos e espanhóis, e depois nunca mais. Adoro!
Bem, a seguir cenas dos próximos capítulos... Oremos pela humanidade. : /

Por falar em espiritualidade, mal paguei as prestações dessas férias e a entidade me mandou pra Machu Picchu. Eu vou mas preciso de um dinheiro caído do céu pra isso, ne? Ou será que ela me "mandou pro Peru" veladamente, e isso foi um código? Mistééério...

Nenhum comentário:

Postar um comentário