domingo, 26 de maio de 2024

Saber amar é saber deixar alguém te amar...

 


Este é Anthony Bourdain, chef americano, que se suicidou em 2018. Era uma figura célebre da tv americana, que curiosamente não chegou por aqui. Acabei de assistir "Road Runner: um filme sobre Anthony Bourdain". 

Vinte minutos de documentário foram suficientes pra achar Bourdain um gato e ficar com uma puta inveja da vida dele, da vibe dele. Mas, como disse Martha Medeiros na crônica sobre o ilustre chef, "A Fome", mesmo os bem-sucedidos têm direito a uma alma tortuosa. 

Lembrei na hora de uma conversa que tive ontem com um amigo. Se Deus tem seus preferidos - eu acredito nisso, meu amigo acha que é tudo de fato aleatório -, mesmo esses tendo tudo que querem, não estão completamente bem. Ninguém está. É da condição humana uma ponta de insatisfação, como é a do tapete persa, o mais desejado do mundo, ter um fio de imperfeição. 

A fala de uma amiga de Anthony Bourdain me partiu o coração, não só por ele, mas por ser o resumo das histórias de muitos de nós (se não da esmagadora maioria). Ela disse algo mais ou menos assim: "Ele era amado por muita gente, mas acho que ele não acreditava nisso". Como fazer alguém se sentir amado, se reconhecer amado? Eis a pergunta de um milhão de dólares, que ajuda até com a mais famosa questão, sobre qual é o sentido da vida.  

Pelo que pude captar, Bourdain era rebelde de nascença. Buscou, buscou, buscou sem de fato se sentir pertencente por mais que um bom período. Nem a paternidade foi capaz de cessar isso. Foi estrangeiro na própria pele, o pior exílio que tem. Não conseguiu preencher a mais básica necessidade humana que é a de se sentir pertencente, adequado, amado. Bourdain fala muito disso nas cenas do documentário, de se sentir normal. No fundo, mesmo quem luta pra ser especial, apenas quer se sentir adequado, visto, aceito.  

Martha terminou a bela crônica dela sobre a morte de Bourdain dizendo que se a comida, assim como a vida, é energia e sobrevivência, é fato que a fome, pra nosso espanto, às vezes acaba. Aliás, esse é um dos maiores medos que eu tenho e que qualquer ser humano pensante deveria ter: o de perder a graça na vida completamente. Sem a fome, do que adianta ter o garfo e a faca? 

Mas não acho que isso responda à questão do suicídio. Até acredito que cobre o caso de Bourdain, que deu sinais e ninguém levou a sério. Mas, se fosse assim sempre, até que seria mais fácil, porque a perda da fome é algo que é possível reconhecer enquanto acontece; dá sinais. A questão do suicídio é que ele também pode ser um impulso (frequentemente resultado de uma longa história) que em minutos produz uma condição da qual não é possível voltar. Assim como muita coisa que a gente faz na vida, só que não gostamos de nos dar conta disso. 

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