domingo, 9 de junho de 2024

Viver a vida

 




Viver a vida está cada dia mais caro. E não pagamos mais por isso apenas financeiramente, mas no corpo e na alma. 

Muita gente credita isso ao trabalho. De fato, no mundo de hoje não dá mais pra trabalhar 44 horas por semana, de segunda a sábado. Isso é querer matar a pessoa, porque com essa jornada é impossível cuidar da saúde, que dirá viver no sentido da alma. Você vai apenas acordar, tomar gagau, trabalhar, tomar gagau e dormir, como diz Helga de "Abafabanca". Neste modus operandi, quem vai conseguir se aposentar aos 65 anos? Morreremos ou adoeceremos seriamente antes disso.

Mas acredito que o problema transcende a questão do trabalho. Precisamos de mais tempo pra viver? Sim! Mas precisamos ter vida fora do trabalho e a maioria de nós está sendo roubado (e virando robô) pelos mil "tem que" e tecnologias. Tem que ficar sarado e bonito (o que leva muito tempo e dinheiro), tem que ter vida social (e nessa você vai até pra o que você não gosta só pra não ficar em casa e mostrar que está "vivendo"), tem que zerar as séries, tem que interagir com as pessoas no WhatsApp (incluindo o povo do trabalho) e Instagram e em meio a tantas tarefas e tempo e dinheiro escassos, há uma enorme carga mental planejando e administrando isso tudo. Multiplique por dois (três ou mais) se tiver filhos ou pais dependentes. Quem vive num esquema desse? Aquele vídeo da Luana Piovani falando que o Brasil não deixa ela postar foto de biquini é ridículo, é hilário, mas infelizmente é certeiro. Cada vez mais eu entendo os meus parentes mais velhos que decidiram se enfiar na roça. 

Eu estou tentando ao máximo cortar tarefas e necessidades, mas mesmo assim tenho muita coisa pra fazer. Tenho conseguido me salvar de me afundar, mas não de me cansar. E eu tô só nos "tem que", ainda usufruo muito pouco do meu tempo e dinheiro, pois por hora estou fazendo o que tenho que fazer, o que é prioritário para a minha manutenção neste mundo, neste País difícil pra caramba (a sociedade em que se vive precisa entrar nesta conta, pois é fator decisivo, embora ninguém se lembre disso. Tenho plena ciência que não estaria neste sufoco caso tivesse nascido no Norte global, na Suíça ou na Austrália, por exemplo). Eu não tenho condição de gerir ninguém além de mim. Caso quisesse ser mãe, seria uma tragédia, porque eu não teria condição ou traria alguém a esse mundo sob um custo altíssimo pra mim. Eu quero vida, não tá valendo a pena transmitir a outra criatura o legado da nossa miséria, como disse Machado de Assis. Aliás, ele como homem negro, teve um trampo danado pra chegar a um nível razoável de vida. Quando a gente nasce na prateleira de baixo, só a gente sabe quanto custa sobreviver! 

A luta pela sobrevivência é diretamente proporcional ao crescimento do vazio interior. E você acaba mergulhando na luta também para escapar desse vazio, pra não pensar no que está faltando e no que virá, nos seus medos. Sem ócio, como você vai sequer se (re)conhecer? Vez ou outra você se conecta através de uma paixão inesperada, mas o normal é se conectar primeiro pra se apaixonar, porque simplesmente você não vai ver fora o que não existe por dentro. 

E por isso estamos todos adoecendo. Eu não lembro na geração de meus pais de tanta gente doente. Claro, eles tinham problemas, o sofrimento humano é coisa antiga, mas as pessoas não adoeciam em bando com 40 ou menos como agora. Eu tenho pelo menos duas mãos de gente 40- que tiveram câncer ou mal súbito, gente inclusive aparentemente saudável, que malha, cuida da dieta, faz check-up, etc. Uma coisa que aprendi naquela minha experiência como terapeuta é que seguir na vida não depende de fazer força, do famoso "aguentar firme". Se você for nessa, uma hora vai faltar gasolina, você morre na beira da estrada, seu motor pifa. São o amor e o prazer que trazem impulso de vida, que nos fazem seguir adiante. Quando você está sofrendo muito, não é fazer força que vai fazer passar por isso. No máximo você vai conseguir ir no modo zumbi, que é pior que morrer. Você precisa parar, respirar, fazer algo prazeroso, que te conecte com o bom da vida, que vai fazer se reenergizar e conseguir força pra seguir em frente. Parar e respirar. Não há prazer de fato em fazer sexo com todo mundo, comer dez pizzas seguidas, se endividar pra caramba por causa de coisas que você não precisa. Isso é desespero e é justamente essa a intenção desse sistema que te mantém na corrida do ratinho: acordando, tomando gagau, trabalhando e dormindo, pra acordar de novo e repetir o ciclo. É a ansiedade, o desespero e a angústia que vão fazer a gente tomar atitudes desesperadas e depois se acabar pra arcar com as consequências delas. 

Comer, rezar e amar não é só o título de um filme, são necessidades humanas. Só quero ver quando é que a gente vai descobrir isso, coletivamente, e se rebelar contra o sistema. É pra ontem! É pra já!

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