sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A Amiga Genial


Semana passada terminei de assistir as duas primeiras temporadas da quadrilogia italiana, escrita por Elena Ferrante, na HBO. Confesso que, apesar de toda a raiva que passei com Lenu e Lila, fiquei com saudades. 

As meninas são gente como a gente e me causou pavor ver o que era a condição da mulher num tempo pertinho daqui. Lenu e Lila passam longe de serem obedientes, apesar de Lenu ser retraída, e, mesmo assim, a sociedade da época, principalmente a parte masculina, é cruel com elas. Isso torna o quadro mais desesperador ainda, porque dá a sensação de jogo que nunca vai ser vencido. 

Lila e Lenu se conheceram crianças num bairro muito pobre de Napoles, no pós guerra - aliás, nunca pensei de ver o Cabula VI na HBO. Lenu queria muito ser a melhor aluna, era competitiva, mas como boa virginiana, na linha boa menina (ela é de 25 de agosto e Lila, leonina de 11 de agosto). Lila era aquela menina que ninguém chegava perto até virar amiga de Lenu. A meu ver, essa foi a desgraça da filha do contínuo. Dali por diante, especialmente quando elas se separaram na escola, Lenu se ejetou do próprio corpo e viveu em função de Lila, ao ponto de escrever sobre ela - a origem da quadrilogia - mesmo idosa e já consagrada. Passou uma vida se achando menos que a outra que, a qualquer oportunidade, a sacaneava, especialmente nas situações em que Lenu, excepcionalmente, conseguia alguma coisa. Na boa, por mais que vínculos de infância sejam fortes, eu teria dado o toco nela ali mesmo, depois do exame da escola, quando ela se mostrou perversa pela primeira vez, atitude que duraria pelo resto da vida. Definitivamente, nunca mais iria atrás dela depois do que houve em Ischia.

Mas o legal de "A Amiga Genial" é a dualidade das protagonistas. Eu sou team Lenu, mas ela também incomoda pela passividade e por essa postura maluca de se botar numa posição inferior em relação a Lila, de uma submissão ridícula, de uma inveja envergonhada que nunca passa e que, no fundo, não tem razão de ser. Ela nunca seria Lila, até porque ambas são muito diferentes. E, pelo visto, a criatura envelhece nessa maluquice. Um dos livros deveria se chamar "Procura-se Lenu desesperadamente", porque a figura se perdeu legal de si mesma por causa desse apego. Antes ela nunca tivesse conhecido Lila e Nino. Lenu era uma criança ativa, que começou a se apagar quando começou a se comparar com Lila. 

Eu terminei a segunda temporada com verdadeiro ranço de Lila, mas algumas coisas a gente tem que admitir sobre a personagem. A primeira delas é que, se Lenu é melhor pessoa, é Lila quem carrega a história nas costas e movimenta esse negócio. A segunda coisa é que apesar de ter inveja de Lenu, Lila não se limita por causa dela, como a outra faz em relação a ela. Lila joga a bola pra frente, perde, ganha, mas se arrisca e segue como dá. Apesar disso, é muito triste ver que toda vez que a pobre da criatura tenta mudar de vida, fazer algo grandioso, alguém joga areia na tentativa dela e das formas mais mesquinhas. Rino foi uma das piores desilusões dessa história. Do pai dela, de Stefano e do embuste-mor do Nino a gente já esperava. 

Aliás, só tem homem ruim nessa história, impressionante. O único que presta, Franco Mari, primeiro namorado de Lenu na universidade, não dura um episódio. E, na boa, pouca coisa mudou nos dias de hoje. É triste também ver que a "amizade" de Lenu e Lila é o tom de muitas amizades, onde tem até afeto, mas também rancor ou menosprezo; a pessoa até quer que o outro se dê bem, mas não melhor que ele/a; há compartilhamento da vida, mas não da intimidade, com medo daquilo ser usado contra. A violência sobrepõe-se ao amor. É como disse Jung: amor e poder não ocupam o mesmo espaço; onde entra um, sai o outro.     

Na minha interpretação, vejo as duas como representantes de dois mundos que se encontram e se chocam no pós-guerra: Lenu é o espírito de conservação, da tradição, do elitismo, da coerência, enfim, é o resgaste de um mundo asséptico que foi interrompido pela guerra; Lila é a destruição do status quo, representa o olhar para o futuro, a aventura, a mudança de um modelo que já não serve mais, que não responde mais a algumas demandas. Lenu é impulsionada pelo medo; Lila é pela raiva.

sábado, 17 de julho de 2021

O que a vida nos roubou

 



O melhor das novelas mexicanas são os títulos (ou, quem sabe, a tradução do SBT). 

Mas não vim falar disso, não. Vim falar das coisas que a vida nos tira, à revelia da nossa vontade. 

Quem não esteve em coma durante esses 17 meses de pandemia sabe muito bem do que estou falando. No entanto, a pandemia apenas deixou mais intenso um processo que é da vida. Tudo que ela quer da gente é coragem, como disse Guimarães Rosa. Eu gosto de uma outra palavra, e que neste contexto tem quase o mesmo sentido: flexibilidade. 

Flexibilidade para aceitar que é isso mesmo e não tem muito o que fazer. Parar de achar que há "perdedores", porque todo mundo perde ao longo do caminho. Aliás, sem perder não se abre lugar para o novo entrar. Largar mão, também, de tapar o sol com a peneira e dizer que tudo vira ganho. Às vezes, não há ganho que console a perda. Como disse um meme sobre relacionamentos, que ficou popular por esses dias, não há aprendizado que cubra a frustração de quem queria um relacionamento e saiu com o saldo de um workshop.

Flexibilidade para não se afundar na lista de perdas e ir atrás de outros ganhos. 

O que é roubado nunca nos pertenceu (não há solução) ou o que não está em nossa posse está adormecido e pode ser resgatado (está nas nossas mãos). 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Questões de comunicação

 Problemas do ano 2021: metade das pessoas têm um discurso ruim, insuportável, a outra metade é insuportável porque quer que você pense exatamente como eles. 

sábado, 19 de junho de 2021

The awful truth

 É triste quando você constata que vai melhor sem 90% das pessoas de que você gosta. A gente se faz a pergunta "para quê?", a gente sabe que isso demanda da gente uma mudança de postura, mas não é uma constatação boa, não. Mas, enfim, sigamos.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

You live, you learn...

 Engraçado, eu passo o dia todo em raivas que Bolsonaro e cia me fazem, mas na hora de refletir, até esqueço dele, que é esquecível realmente.

Outro dia, vendo uma palestra espírita, me dei conta de que a espiritualidade não está nem aí pra se somos felizes ou tristes, simplesmente porque o nosso objetivo aqui é aprender, e fazemos isso tanto no sofrimento quanto na felicidade. Para o objetivo da existência, tanto faz. O que eles podem fazer por nós é nos inspirar soluções e nos confortar. 

E o erro só serve para isso. Culpa é algo inútil, inútil, só serve para criar complexo para atrapalhar a vida. Vamos entrar então o erro como erro, como um dado, não como uma âncora? Ninguém se importa se a gente sofre, quem arrasta a corrente é só a gente. 


sexta-feira, 28 de maio de 2021

A culpa é de quem?

 Outro dia li algo na internet que faz todo sentido e vou deixar registrado aqui pra nunca mais esquecer:

Toda vez que você não souber por que alguém agiu assim com você, o problema não está em você. Quando está com a gente, sabemos muito bem os motivos, porque aconteceu.


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Uma comorbidade chamada Brasil

Estou com um pé e meio numa crise de ansiedade. Sério mesmo. É uma mistura das coisas que eu tenho de fazer (e não alivia nunca) e que me aconteceram ultimamente, mas especialmente da pandemia e de: 1) um governo que não providencia vacina, estimula o caos e dá de ombros à desgraça nacional; 2) a situação de impotência que a impunidade a tudo isso me dá; 3) a raiva de gente aglomerando, tratando quem se cuida como otário e aumentando o risco para todos nós; 4) a ansiedade sobre quando vou me vacinar toda vez que vejo alguém se vacinando; 5) a falta de sensibilidade dos vacinados curtindo e postando no Instagram enquanto há tanta gente sem vacina, temendo sair de casa; 6) ter que trabalhar presencialmente e num lugar cheio de gente; 7) o ódio de gente que ainda apoia o promotor dessa carnificina. Não necessariamente nessa ordem, mas é isso aí. Ou a gente se vacina logo ou eu saio logo do Brasil, ou não vou aguentar o tranco. É muita ansiedade, muita adrenalina. Não tem corpo humano que suporte. Acho que vou ter que entrar com medicação, mas pire aí: tomar remédio por causa do seu país!  

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Eu sou praticamente uma ONU (saiu o resultado do meu teste de ancestralidade!)

 




Depois de assistir a uma live, que me levou a pesquisar o assunto, fiz um teste do Genera, cujo resultado chegou hoje (nove dias depois de ter enviado a amostra. Super rápido!). Gente, adorei! Eu só não tenho ascendência da Oceania, mas eu venho do restante do mundo. Sou uma Onu ambulante (risos). Meu resultado saiu dentro do que eu esperava, mas tive algumas surpresas. Dizem que a composição ancestral do brasileiro médio, portanto mestiço, é essa aqui: 60% de Europa, 20% de África, 10% de América (Indígena) e o restante de outras coisinhas. Eu esperava até 55% de Europa, de 17 a 25% de África e de 10% a 15% de indígena. Meu resultado deu o seguinte (vou conferir em outras calculadoras depois): 62% de Europa, 21% de África, 10% de América, 5% de Oriente Médio e Magrebe e 2% de Ásia. 

Fiquei chocada pra esse percentual de Ásia (já que não temos nenhum antepassado asiático conhecido, portanto é uma porcentagem expressiva), mas, calma, pois acho que tenho a explicação: essa genética asiática vem das Filipinas, país com 300 anos de colonização espanhola. Esses 2% devem estar dentro da herança ibérica, acho. Ou, segundo eu vi num estudo, pode vir de indígenas do sertão nordestino, que são geneticamente semelhantes ao pessoal do leste da Ásia.

Outra coisa que me chocou foi o resultado da Europa. Eu achava que só ia dar Ibérico (Portugal e Espanha). Deu só 28% para essa região. Fiquei surpresa com 8% de italiano, mas, enfim, faz parte da brasilidade essa herança, no entanto fiquei de queixo caído com 21% de ancestralidade da Europa Ocidental (França, Alemanha, Áustria, Suíça, Bélgica, Holanda, Irlanda, Reino Unido, Liechtenstein e Luxemburg). Também caí para trás com 5% de ascendência basca (região ali entre a Espanha e a França). Como é que interpreto isso? Invasões holandesas e francesas no Nordeste. Minhas famílias, dos bisavôs pra trás, são nordestinas, do Maranhão por parte de pai e da Bahia, por parte de mãe. Esse sangue basco ou veio desse parentesco francês ou a gente tem algum parente argentino ou uruguaio, de origem basca, que veio para o Brasil. A Argentina foi o principal destino dos bascos nas Américas. Geralmente esse povo vai para a região Sul, mas eu tenho registro da família em todas as regiões, menos nessa. Se bem que só conheço três gerações atrás de mim...

Na parte americana, leia-se indígena, também tive surpresa. Metade da herança indígena vindo da Amazônia faz total sentido porque, de novo, a família do meu pai está há muitos anos em Tocantins, depois que saíram do Maranhão, e esse estado, que antes era o norte de Goiás, hoje é região Norte e tá colado com o Pará. Herança indígena andina (3%) e da patagônia (1%) não me surpreenderam porque são regiões vizinhas. Agora herança indígena norte-americana (1%) me impressionou. Se bem que já li que quando os espanhóis chegaram no México e os ingleses na área dos EUA e Canadá, muitos desses povos originários da América do Norte desceram para a América do Sul. Meus ancestrais gastaram sola do pé, viu, bicho...

A única parte que não me surpreendeu foi a africana. Meus antepassados de lá foram realmente de regiões de africanos escravizados: 8% do oeste da África, que é ali Congo, Angola e Namíbia (Sudeste brasileiro), 8% costa da mina, que é ali a Nigéria, Gana (Bahia) e 4% do leste da África, onde está Moçambique e Zimbabue (Sudeste). Repare que eu tenho genética de todas as rotas da escravidão, do século XVI ao XIX. Esses 4% aí devem ter vindo, inclusive, de um antepassado recente (suspeito que de minha avó materna), já que essa migração do leste da África, especialmente de Moçambique, veio da última rota de escravizados, do século XIX, quando a Inglaterra começou a dificultar esse comércio pelas rotas tradicionais. Há 1% aí que é do Chifre da África, uma região ali pela Etiópia colada com o Oriente Médio, que eu acho que deve estar dentro da minha herança árabe. Porque eu acho isso? Porque esse 1% está muito mais distante das outras regiões da África que eu tenho ascendência. Mais provável que tenham migrado para a península arábica. 

Tenho ainda 5% de Oriente Médio e Magrebe, 3% da Arábia mesmo, que eu subiria para 4% com esse 1% do Chifre da África, região praticamente colada a Península Arábica. 2% são de Magrebe, norte da África, que todo mundo diz, nos fóruns, que é pra contar como Ibéria, porque os mouros de Magrebe dominaram essa região por anos. 

Então como acho que é realmente esse meu resultado:

10% indígena, metade disso de linhagens do Norte e da América do Sul;

20% africana, das rotas de escravizados que vieram para o Brasil: Angola, Nigéria e Moçambique;

70% europeia, englobando 2% de Magrebe, 4% de Oriente Médio e 2% de Ásia. Daí talvez seria 10% italiana, adicionando 2% de Magrebe, já que houve uma grande migração desse povo pra a Itália. Ou esse Magrebe pode ter vindo da Ibéria (Portugal ou Espanha), que com esses 2% somaria 30%. A mesma dúvida tenho quanto à herança árabe, que eu acho que deve vir dessa parte ibérica. De qualquer forma, tenho por baixo 40% de ascendência dessa parte do sul da Europa. 

É isso aí, minha gente. Só ficou faltando Oceania pra eu ser um mapa mundi genético, hehe. Ameeei...

Uma coisa que me emociona nisso tudo: o clamor da ancestralidade africana para que seja vista. Observe bem: na maioria dos brasileiros, não ultrapassa 25% da herança genética, mas está bem marcada no fenótipo de 53% da população. É um pedido por inclusão, e falo isso bem dentro da perspectiva da Constelação Familiar. Precisamos fazer essa reparação, Brasil. 

***

Coloquei no Gedmatch. Deu bem próximo. Vejamos:

Europa deu 62,7%, com mais ênfase no Norte.

África deu 17,11%

América deu 8,32%

Magrebe e norte da África 4,83%

Oriente Médio ou Mar Vermelho como eles chamam 4,6¨% (viu como eu tinha razão em puxar 1% do Chifre da África para Arábia?)

Ásia 2,45% (0,81% de Oceania)

Bem parecido com o resultado do Genera, alterando pouquinha coisa (lembrando que o Genera não dá percentuais quebrados, portanto isso pode explicar a pouca diferença, por exemplo, entre indígena nessa calculadora e no Gedmatch). A grande diferença é que uma parte de África, quase 3%, o Ged identificou como Norte da África, que é árabe e engloba também o Magrebe, e isso quase dobrou a porcentagem de Oriente Médio e Magrebe de 5% para 9,43%. Ah, sim, a herança basca desapareceu e apareceu uma báltica. É tudo Europa, no frigir dos ovos.  


sexta-feira, 26 de março de 2021

#FreeJuly


Essa discussão do Free Britney me trouxe memórias. Boas, por sinal, de um tempo feliz. Eu adorava Britney porque eu sempre amei o pop. E também porque ela tem uma mistura de animação com melancolia de quem poderia ser feliz se não fossem as circunstâncias da vida. É aquela coisa do lado mais fraco que puxa a nossa empatia. Ficava nítido que ela só tinha a mãe e a irmã e que a fama era demais pra ela. Beyonce é excelente artista, mas perfeitinha demais. Christina forçava a barra. 

Cara, eu amo esse período de 1998 a 2003. Sério. Eu fui feliz. Tirando o ecossistema, que sempre foi uma merda, eu gostava de explorar a cidade, aprender coisas novas, ir ao cinema e amava assistir MTV e séries. Eu era feliz só com isso. Pena que uma hora você tem que sair da ilusão, porque não dá pra sustentar uma encarnação só de MTV e audiovisual. Eu era mais feliz ainda sozinha. Minha melhor fase foi quando tínhamos um quarto enorme em Amaralina e Renata dormia na casa do namorado e eu ficava com ele só pra mim, e depois quando ocupei o mezanino no duplex do Farol. Devo admitir: eu sou feliz sozinha. Me dê uma boa casa/apartamento e uma renda pra viver com dignidade e eu te garanto que sou feliz sozinha toda a vida, assistindo meus trecos, lendo, fazendo meus cursos, passeando, viajando, comprando minhas bugigangas... Universo, por favor, free July, vai!

sábado, 20 de fevereiro de 2021

"Só é seu aquilo que você dá"


Se tem uma coisa que apequena uma pessoa é ficar jogando as coisas que fez por você na cara. Eu já tive momentos desses também, mas tomei vergonha na cara. Por trás disso, está carência e barganha e não generosidade, e é por isso que a pessoa fica com raiva quando o que pensou ganhar em troca não veio. Uma vez, uma pessoa desabafou comigo, quase chorando: "Eu faço o que todo mundo quer. Por que ninguém faz o que eu quero?". Não era verdade nem uma coisa nem outra. Ninguém é esse alecrim dourado todo. E mais: a errada nessa história era a própria pessoa queixosa, que estava sendo falsa. Os outros de fato recebiam mais do que davam, mas estavam sendo ao menos eles mesmos. Gente que faz tudo pelos outros não é generosa, é controladora. Experimenta contrariar a criatura pra ver a ira dela entrando em cena. 

Obviamente, viver em sociedade implica em ceder e se dar em alguma medida. Faz parte do pacto. Gente que não sai de si é tão ruim quanto os controladores que fazem tudo. Mas há três regras do dar: 1) saber se o outro quer aquilo (afinal o erro clássico é oferecer o que o outro nem tem interesse de receber), 2) é importante respeitar desejos e limites, para depois não se sentir usurpado e 3) o equilíbrio entre dar e receber (por incrível que pareça, às vezes dá mais certo dois egoístas juntos que um generoso com um egoísta; receber demais é bom até certo ponto, pois gera rancor e inveja no "devedor"). 

Quando você faz porque você quer, nunca vai pagar o mico de fazer essa cena do "Eu fiz muito por você", pois fez porque te deu prazer, porque você quis, porque não te fez falta, porque subjetivamente você  também ganhou com aquilo, enfim,  não foi um peso. Pessoas realmente generosas nem notam que são de fato assim. Se você sente que só o outro está aproveitando, está tudo errado, a começar pela motivação para agir. Olha, tem gente que se auto abandona e depois reclama das faltas dos outros. Não se começa uma casa pelo teto, né? 

No final das contas, a gente não faz nada aos outros, mas para a gente mesmo, nos bons e nos maus atos. Nunca esqueço de quando atrasei uma vez numa sessão de terapia, e entrei pedindo desculpas à terapeuta, que me deu uma resposta ótima: "Peça desculpas a você mesma, que perdeu tempo da sua sessão". O bem que a gente faz também é nosso. Quem já fez trabalho voluntário sabe o que estou dizendo. Na verdade, como diz a canção: "Só é seu aquilo que você dá". 

Inveja


Se tem um papo que me dá tédio é esse de: "Ai, meu Deus, estão me invejando". Não que eu não acredite em inveja. Vivemos em uma época em que as pessoas vivem para serem invejadas e invejar - o Instagram está aí pra provar. Mas 1) há um certo gozo mal disfarçado em quem publiciza isso, um pouco de egotrip e 2) a não ser que essa inveja venha acompanhada de puxada de tapete, é problema do invejoso. Pessoalmente, me preocupo com as minhas invejas, com o que isso quer me comunicar: uma base da minha autoestima que anda ruim ou um desejo que eu ainda não tinha muito claro para mim. 

Sim, todo mundo sente inveja (por isso não engulo esse falso pudor de quem se diz invejado). Ninguém progride na vida sem ter invejado primeiro. E todo mundo é invejado por alguém. Como diz um trecho do poema "Desiderata", se a gente se compara, vai ficar vaidoso ou amargo, porque sempre haverá gente em pior e em melhor condição. 

E digo mais: inveja só penetra com força em terreno mal cuidado. Você se intoxica menos pela potência do outro e mais pela sua própria vulnerabilidade.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

"Só os egoístas sobrevivem"

 Ouvi essa frase da psicóloga do Barcelona. Claro, fiquei chocada. Hoje em dia acho que a mulher entende dos paranauês. 

Se você não se prioriza, não foca nos seus projetos, vai viver uma vida paupérrima. Os outros, mais egoístas, vão te cooptar para os problemas deles, sem dar nada em troca e sem nunca mudar (e é pra isso que a gente ajuda, né? Esperamos por mudanças que nunca vêm). Não vale a pena. Mas toda a ladainha social diz o contrário. Olha, quem vai nessa é coelho!...

Quando a gente se volta pra gente, não no sentido de se isolar, mas de centrar na gente mesma, as coisas melhoram. Os Três Porquinhos philosophy: casa bem construída Lobo Mau não derruba.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Clint e a psicanálise

 


Clint Eastwood - Entrevista onde fala sobre sua experiência de análise com Bion.

"No início da década de 70 estava muito insatisfeito com minha performance no Cinema. Em 1969, eu havia trabalhado em um filme musical, chamado Paint Your Wagon. O filme deu grande prejuízo para o estúdio na época, e só lucrou após ser vendido em VHS e DVD. Muita gente me criticava e até diziam que eu deveria parar. Aquilo foi como um alerta para mim, estava muito triste achando que não conseguiria escapar dos filmes de violência com os quais as pessoas me identificavam. Eu era visto somente como uma espécie de bad boy, um machista, e outras coisas ruins.
Conversando sobre isso com minha amiga Jane Fonda, ela me confidenciou que pelas mesmas razões tinha iniciado um processo psicanalítico, e que sua vida parecia estar dando uma guinada. Perguntei-lhe quem era esse psicanalista, pois duvidava que aqui na Califórnia pudesse encontrar algum analista bom. Ela me disse que ele se chamava Wilfred Bion, que era um analista inglês, muito famoso no meio psicanalítico, recém-chegado em nossa terra.
Prontamente me interessei em marcar uma entrevista com ele.
Curiosamente, quando liguei para o número que Jane me havia dado, ele me atendeu e pediu para que escrevesse uma carta expondo os motivos pelos quais desejava fazer análise. Achei muito curioso e me ocorreu a estranha ideia de que ele poderia desejar analisar minha caligrafia. Escrevi a carta na máquina de escrever, com poucas linhas e motivos sucintos. Não demorou dois dias para que eu recebesse um telefonema marcando uma hora.
Cheguei pontualmente e fui recebido por um homem muito sério, que imaginei ter seus setenta anos, com a mesma altura minha (1,93 cm). Ele se vestia britanicamente com uma jaqueta bege claro, camisa branca, com gravata borboleta azul. Ele me apontou uma cadeira enquanto se sentava na sua poltrona com um divã de cor marrom claro ao seu lado direito. Olhei para ele e notei suas sobrancelhas grossas, que se elevaram como que me perguntando: o que diabos está fazendo aqui?
Achei adequado me identificar novamente. “Eu sou Clint Eastwood Jr. Sou ator, diretor e produtor de Hollywood”. Ele me respondeu com um tom que pareceu sarcástico: Onde mais alguém poderia ser tudo isso? Fiquei um momento em silêncio tentando decidir por onde seguir e ele cortou o silêncio me perguntando: E você já pensou em fazer alguma outra coisa na vida?
Confesso que aquela pergunta me deixou assustado e alegre ao mesmo tempo. Eu não havia mencionado esse motivo em minha carta. Respondi, “bem é por isso mesmo que estou aqui. Tenho pensado nos conflitos_ que não sei quais são_ e que me fazem levantar essa questão”. Mas não resisti diante do que me pareceu uma adivinhação e mencionei que me havia vindo à mente a imagem da inspeção que se faz nos aeroportos através de um detector de metais.
Ele disse subindo de novo as sobrancelhas; é muito importante para a análise que tivestes uma imagem. Ela tem a ver com liberdade e segurança. Eu vou deixar você passar por minha inspeção para fazer análise comigo, mas será que você vai deixar passar pela sua. Não podemos saber, somente a experiência nos dirá.
Seja lá o que ele tenha dito senti que naquele momento meu processo de análise havia começado. Estava diante de uma pessoa que eu sentia ser sensível e pensante, e para quem eu podia dizer o que quisesse.
Respondi, “Dr. Bion muito obrigado por me receber. Eu sempre achei que o cinema me conferia liberdade porque eu lido com imagens visuais, e música. Farei o que for preciso para ajudar o senhor a me analisar”.
Ele disse; continue então sendo sincero e dizendo tudo que vier a sua mente. Não se importe com minha sensibilidade ou outra característica minha. Vamos nos dedicar a nos encontrar com Clint Eastwood. Fez uma pausa e completou: Jr.
Eu prossegui muito impressionado, pois ele assinalou a sensibilidade dele, e que eu havia pensado havia instantes. Eu disse, “o senhor lê pensamentos? ... Caso leia pode saber que eu pensei que além de sensível, o senhor é um pensador”.
Veja bem, Mr. Clint... posso lhe chamar apenas de Clint? ... estamos ambos pensando e analisando um ao outro com liberdade. Existe um ponto entre nós que é impossível decidir a quem pertence. Esse ponto sobre o qual nada sabemos é onde se pode evoluir.
Fiquei em silêncio pensando; é isso... preciso suportar que não sei o que vou fazer para conseguir tomar as decisões certas em minha vida. Preciso tolerar esse encontro com minhas incertezas.
Mas o nosso horário havia terminado, ele disse isso apontando para o seu relógio. Como gosto de relógios identifiquei a marca de relógios inglesa Burberry. Olhei no meu relógio e tinham transcorrido 45 minutos. Ele pegou a agenda numa mesinha ao seu lado e me perguntou se eu poderia voltar na segunda-feira as 13:00 horas. Respondi que o horário era ótimo, mas saí de lá muito inquieto. Algum tempo depois ao comentar com ele sobre isso, escutei algo muito curioso; isso é uma tempestade emocional resultante do contato entre nós dois. Ocorre com qualquer pessoa que se permita expor sua personalidade, sua mente, sua alma, ou seja lá que nome dermos. Não há atividade que faça mais isso do que a psicanálise. Trata-se de um mau negócio que nos desafia a tirar proveito dele.
Foi um ponto absurdamente fundamental da minha análise. Tirar proveito dos maus negócios envolvia decisões nas quais eu tinha que incluir certas coisas e excluir outras para continuar criando.
Eu acabei me interessando por algum tempo pela política e assumi o cargo executivo de prefeito da cidade de Carmel. Minhas atividades foram se sofisticando ao longo dos anos, fui me aprimorando e assumindo o risco dos maus negócios, mas eles deram resultado. Descobri o que era a felicidade podendo encarar minhas tristezas. Descobri o que é ter sabedoria encarando a minha ignorância. Descobri a minha delicadeza encarando a minha violência.
Eu hoje posso resumir isso tudo numa conversa recente que tive com Toby Keith, meu amigo e compositor, com quem jogo golfe. Eu comentei que ia fazer 88 anos na semana seguinte, e ele me perguntou o que eu ia fazer? Respondi, vou começar a fazer um filme. Mas como você consegue isso ele retrucou como que me criticando por estar nessa idade realizando projetos desgastantes. Eu respondi: não deixo o velho entrar....
Parece que minha resposta gerou um desses tumultos que o Dr. Bion falava.
Toby compôs a música do meu filme A Mula.
Sinto muitas saudades do Dr. Bion.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Você está entregando o jogo?


Eu nem gosto de esportes, mas, por algum motivo que nem lembro, parei no documentário "The Playbook", da Netflix. Acho que fui para ver quem era esse tal de Mourinho, mas gostei mesmo foi do depoimento de Patrick Mouratoglou. Trata-se de um francês que treina as maiores estrelas do tênis, entre elas Serena Williams. 

A própria história de autossuperação de Mouratoglou já é por si interessante, mas o melhor da meia hora de conversa com esse técnico são os depoimentos sobre como superou problemas com os seus atletas. O cara aparentemente tem uma inteligência emocional de dar inveja a muito guru da autoajuda (e a origem disso está justamente na história de autossuperação dele, ocorrida na infância). 

A história que eu mais gosto é a de Irena, uma adolescente que era a grande promessa do tênis francês quando ele se tornou o treinador dela. A tenista, primeira do ranking, estava com a autoconfiança abalada após ter perdido algumas partidas e, a partir daí, quando ela via que as coisas não estavam indo bem no jogo, passou a entregá-lo. "Ela nem tentava", resumiu Mouratoglou.

Um dia, após ter visto Irena entregando o jogo de forma impressionante, o técnico resolveu entender a razão de alguém jogar a toalha depois de ter trabalhado tanto por aquele objetivo. "Racionalmente não faz sentido", disse. Foi então que, refletindo sobre o assunto, chegou à seguinte conclusão:

"A maioria dos tenistas que entrega é talentosa. Mas a maioria não confia em si mesmo. Não sabem se conseguem, têm dúvidas. Mas há uma coisa de que têm certeza: eles têm talento. E isso é muito bom. É como se lhe dissessem o dia todo: ´Você está bonito. É lindo.' É bom ouvir isso. E se tem uma coisa que eles não querem perder é isso. E o que acontece quando você é um tenista talentoso jogando contra um não tão talentoso assim e começa a perder? Será que você é tão talentoso assim? Não vai se arriscar, vai preferir desistir. Depois vai poder dizer: ´Foi porque eu entreguei´." E então Mouratoglou conclui: "É o medo de perder a única coisa que conta para você, o seu talento." Bingo!...

O técnico conta que foi tirar a limpo o que houve com Irena. Mas, ao invés de culpá-la, resolveu se responsabilizar pelo ocorrido (para espanto total da atleta). Disse estar com ela, ressaltou que ela não estava só. Ele afirma que, dali em diante, Irena nunca mais entregou uma partida. 

Eu não sei você, mas essa história me tocou muito. Entregar o jogo por medo de perder o pouco de autoestima que a gente tem é a coisa mais frequente na vida, ainda mais agora que vemos semi-deuses por todos os cantos da internet o tempo inteiro. E isso é muito comum de ocorrer com gente mais emotiva, como era o caso dessa tenista. Em muitas ocasiões, como essa, faz muita diferença que a pessoa não se perceba só. Aliás, há duas ocasiões extremamente propícias a que o ser humano faça besteira: estando completamente só ou no meio de muita gente, seguindo a manada. Quantas pessoas você conhece que por si não fazem muito, mas, em grupo, por causa de terceiros a pessoa cresce e vai à luta? Pois bem: não foi necessário ameaças, castigos ou algo do tipo, apenas um "Estou com você", e essa tenista nunca mais quis entregar o jogo porque ela não queria desapontar alguém que lhe deu tanta confiança e acolhimento (estrategicamente, mas, enfim, deu). 

De agora em diante, reflita sempre que você sentir que está perdendo a partida: de fato não está rolando ou estou entregando o jogo para defender o meu orgulho? Orai e vigiai a autossabotagem nossa de cada dia, irmãos! 

 


Encontrar a sua essência é como quase tudo na vida: uns já vêm com isso pronto, outros vão trabalhar e chegar lá e outros nunca vão se encontrar com ela. O mundo, a cultura nos encaminha para essa última opção com as suas dezenas de "Tem que...". Mas, como dizia mainha, você não é todo mundo e nem tudo lhe convém. Um dos pulos do gato nesta vida é justamente ficar atento para perceber o que realmente faz sentido (e afastar o medo, principal sabotador disso).
Lembro de uma colega de trabalho que tinha uma aparência toda moderna, alternativa. As pessoas elogiavam o cabelo, as roupas e eu também gostava das escolhas dela. O caso é que aquilo não colava com a personalidade dela. O visual era como ela queria ser vista, mas não transmitia a personalidade dela de jeito algum. Eu também já caí muito nesse conto do vigário - e olha que nem de longe sou alguém que poderia ser classificada de "Maria Vai Com as Outras". 
Por trás disso, acho, está querer ganhar o que tem o outro no qual você espelha. Às vezes isso funciona e você pratica o que a PNL chama de "modelagem". Mas haverá vezes em que você simplesmente vai estar perdendo tempo buscando algo que não é seu, percorrendo um caminho que não é o seu. Um sinal poderoso disso é nada ir muito para frente ou, mesmo indo para frente, haver uma constante sensação de deslocamento, de não pertencimento. 
Não vou dizer que não tem gente que consegue as coisas vivendo o personagem. Tem. Mas imagino que deve ser um negócio pesado, não desejaria isso nem a meu pior inimigo.
Acontece que às vezes seguir o seu caminho significa romper com grupos, alguns que nos são até muito caros. Bem, primeiro que isso pode ser feito respeitosamente. Segundo, sugiro a qualquer um que se agrade primeiramente, pois, obviamente, está no reflexo do espelho a única pessoa que vai ser sua companhia eterna. Além do mais, quem ama a gente entende. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Soul

 


"Soul" é o lançamento da Disney/Pixar. Dessa vez, o estúdio resolveu mexer com as emoções do espectador discutindo questões como propósito de vida (Joe Gardner) e sentido da vida (22). (contém spoilers daqui por diante)


Joe é um músico de jazz que acredita que tudo na vida dele vai mudar quando ficar famoso. Mas ele morre antes da sua grande chance. Do outro lado da vida, no "grande além", ele conhece 22, uma alma que faz qualquer negócio para não viver na Terra, na sua interpretação um lugar horroroso. Algumas das grandes almas que no planeta viveram, inclusive, já tentaram fazer 22 mudar de ideia, mas sem sucesso. A alminha fujona alega que onde ela está já tem uma rotina, é tudo conhecido, e apesar dela nunca ter pisado na Terra, ela não quer nem tentar. 


Até que um dia, ela e Joe, que não aceita ter morrido, voltam à Terra por acidente. Nessa passagem pela vida de Joe, ao retornar para "o grande além", os dois estão com as suas expectativas positivamente quebradas: Joe aprende que o sucesso não o define e que mais do que "chegar lá", bacana era o caminho; 22 aprende que há sabores, sons, toques e sentimentos que só estando na Terra para experimentar - e apenas isso faz a vida por lá valer a pena. 


Na minha perspectiva, "Soul" é um filme sobre o poder da experiência e o valor das pequenas coisas da vida. Joe precisou "chegar lá" para ver que nada mudou, que não há momento mágico, mas que encantadora pode ser a vida. 22 só foi capaz de gostar da vida quando foi para a vida de fato. Não houve simulação, testemunho ou mentoria capaz de fazê-la sentir o que ela se maravilhou de viver na prática. 


Definitivamente não é um filme para crianças. Aliás, sou curiosa para saber como uma criança vê esse tipo de discussão suscitada pelo filme.




Pra que serve a culpa?

 


Depois do texto de ontem, fiquei pensando em como não cumprir as metas traçadas nos gera culpa e baixa a nossa autoestima. Por isso ressaltei que é importante estabelecer metas reais, ter paciência e aceitar quando não deu para fazer tudo, valorizando que o que foi feito também foi bom - é melhor fazer algo do que nada. Ou, no caso de desistência, aceitar que não foi possível cumprir com aquilo naquele momento. Às vezes a gente não está preparado para sustentar uma ação, mesmo sabendo que ela é necessária, e tudo bem. Fica para depois. Mais importante que a velocidade é a direção.

A gente vive numa sociedade que adora atribuir culpas. O problema da culpa é que ela não serve para nada e ainda acorrenta a pessoa ao passado, dificultando bastante o seu caminhar - que energia há em quem se consome de dor? É ilusão achar que voltando ao passado faria diferente. Seu eu de lá não é o de agora; é desleal essa comparação. Sua escolha seria a mesma porque era o que você sabia fazer naquela época. Fora que a culpa funciona como uma gangorra, com alguém por cima e outro alguém por baixo. Não é à toa que as pessoas tendem a lidar com isso de forma tão radical: ou se atribuindo culpa demais ou negando todas. 

Acredito que o melhor caminho é trocar a culpa pela responsabilidade. Nessa última, você é chamado a tomar o seu quinhão na história, mas aprendendo com o erro e sem perder a dignidade como acontece na culpa. 

Bert Hellinger, o organizador da Constelação Familiar, afirma uma coisa muito interessante sobre o adultério, caso clássico de vítimas e culpados. Ele observa que o desabafo/revelação do adúltero seguido de um pedido de perdão faz o traído se sentir abusado, porque ao fazer isso, quem traiu fica passivo esperando que o traído resolva a situação. Ou seja, aquele que nada tem a ver com a coisa recebe, de uma hora para a outra, a responsabilidade de que tudo fique bem. Hellinger diz: 

"Seria melhor se ele dissesse: ´Fui injusto com você. Eu arco com as consequências. Sinto muito pela dor que lhe causei". Por meio dessas afirmações ele fica equilibrado em si mesmo e pode agir imediatamente. E o companheiro é respeitado". 

Perfeito! O problema é que nós temos problemas com situações como essa justamente, suspeito, porque foram mal administradas lá atrás, na infância. É a nossa criança ferida que aparece nessas circunstâncias, tanto de um lado como de outro. Raramente é o adulto quem toma a frente. Mas isso é assunto para um outro post.   

PS.: texto número 1000 deste blog! 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A hora da virada


Tem pouco tempo que aprendi a viver no tripé objetivos-planos-prioridades. E que o bom muitas vezes é melhor que o ótimo. Em um ano como 2020, foi difícil viver de acordo com esse tripé, mas foi essencial exercitar esse lema. Estamos a poucas horas de 2021 e, apesar do tempo ser uma convenção, muita gente gosta de usar a mudança de calendário para refazer os planos. Eu já fiz os meus. Bem enxutos, de acordo com o que eu realmente acredito que sou capaz de tocar dadas as condições limitadas da pandemia. Sim, é preciso aceitar que esse período, por melhor que alguém o administre, vem produzindo prejuízos físicos e psicológicos e que precisamos nos ajustar a isso e, principalmente, nos acolher; não é hora de puxar a corda demais sob o risco de arrebenta-la.

Mudar não é fácil, e isso não é novidade para ninguém - quem já fez a tal lista de Ano Novo e depois checou o que foi feito sabe disso bem. Isso porque o cérebro não entende contextos, mas considera os resultados, e se ele entende que você chegou vivo fazendo o que você faz, ele vai tentar te sabotar na mudança de hábito ao melhor estilo "não se mexe em time que está ganhando".

A meu ver, o grande problema é que quando a gente consegue finalmente força para mudar, já está tão esgotado com a situação que quer se livrar dela quase que por decreto. E minha experiência, não só pessoal, mas observando amigos nesse movimento, me diz uma coisa: metas mais humildes e uma boa dose de paciência são recursos preciosos. Afinal, não foi da noite para o dia que a situação que você quer finalizar se estabeleceu, não é? Outro pulo do gato é pensar no agora, resolver o dia. Se você focar lá na frente, vai ficar ansioso e provavelmente desanimará. É preciso também respeitar os limites - o lance do bom ser melhor que o ótimo, lembra? Se só é possível, pelo motivo que for, poupar 50 reais por mês, isso já é melhor que nada.

E você, já fez o seu planejamento? Planejar faz a gente pensar mais claramente em como atingir os nossos objetivos. Mas lembre-se também que não tem coisa mais previsível que o imprevisto. É preciso ser flexível quanto às mudanças de rota. Está aí uma boa meta para 2021 e qualquer outro ano.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro

É natural do ser humano achar que "o inferno são os outros". E há quem diga que é difícil se curar estando no mesmo ecossistema que te adoeceu. Mas gente adulta sabe que nem sempre querer é poder (não a curto prazo pelo menos) e, enquanto isso, o jeito é aprender a jogar o jogo. E quando não é possível mudar o que existe lá fora, o melhor a fazer é aperfeiçoar e ajustar o que está dentro. 

Lembro de uma colega que uma vez postou um texto chateada com uma criança, no ringue de patinação, que corrigiu a filha dela no modo de patinar, o que fez a garotinha se chatear e desistir. Eu argumentei com ela, no inbox, que talvez fosse mais eficiente trabalhar esse tipo de fato junto à filha do que culpar a outra garota. Gente assim aparecerá na vida dela o tempo todo, aparece na de todos nós.

Primeira coisa a ser considerada: nem sempre o outro é vilão. Às vezes a pessoa está apenas operando tomando ela mesma como parâmetro, ainda mais uma criança que não tem essa sofisticação toda. Aconteceu algo semelhante comigo e com minha irmã na infância. Ela sempre foi bastante competitiva e eu bem menos. Quando comecei a dançar na academia que ela dançava há anos, ela ficava no meu pé, me corrigindo pra eu fazer o movimento perfeitamente. Mas eu não queria estar na primeira fila como ela, eu só queria dançar. Ela me tirou por ela. Na cabeça dela, estava me fazendo um bem. As pessoas só reconhecem o que conhecem, o que está no repertório delas.  

A segunda coisa é que resolve mais aprender a lidar com os nossos sentimentos e mundo interno do que ficar chorando toda vez que as pessoas ferem as nossas expectativas. A intensidade desse incômodo vai variar conforme a nossa autoestima. Quem sabe o que é e o que quer dificilmente se abalará com as opiniões de terceiros a ponto de se desequilibrar, se descompor. Até porque é raro a pessoa estar realmente falando da gente num mundo em que ninguém presta sequer atenção em si mesmo, que dirá nos outros. Quase sempre são projeções. Em suma, se alguém fala algo de você e aquilo não bate com a sua verdade interna, problema dele/a, a projeção é dele/a; se aquilo te abala as estruturas, o problema é seu, é porque há alguma coisa desajustada aí dentro que a crítica da pessoa foi em cheio, e neste caso vale mais se ocupar disso do que da maledicência do/a outro/a. 

Autoconhecimento ajuda muito nesse sentido. Aprender a separar o que é seu do que é dos outros é o pulo do gato, o início do fim dessa espécie de sofrimento, que, claro, nunca vai ser zerado já que somos seres sociais, mas pode ser bastante minimizado, de modo que o protagonismo da sua vida seja seu. Parece pouco, mas esse é o passo fundamental na vida de um ser humano, na minha opinião: identificar quais são seus reais valores e desejos e separar isso da projeção que as pessoas fazem sobre ele/a. Como isso não é fácil nem rápido e frequentemente anda junto com tomar consciência de lados nossos que preferiríamos abafar, torna-se mais fácil jogar a culpa no que está fora do que se ver e se autorresponsabilizar. Eu concordo com a cantora (Leila Pinheiro): viver é afinar o instrumento DE DENTRO PRA FORA, de fora pra dentro.  

sábado, 12 de dezembro de 2020

Deve ser ruim ser um homem velho (no Brasil)

 


Essa é a história clássica em muitas famílias brasileiras: na falta de um companheiro (às vezes há até um homem de corpo presente, mas que emocionalmente ou energeticamente não está lá), uma mulher idosa retira a energia para manter-se viva de seus filhos e netos. Como não é um movimento natural, mas uma busca tentando compensar uma falta, dá merda, e por mais que a amem, os filhos se sentem sobrecarregados. 

Mas não vim falar disso. Vim falar da diferença com a qual geralmente homens e mulheres chegam à velhice. Elas chegam muito mais espertas que eles. E eu tenho uma hipótese para isso: ao envelhecer, as mulheres perdem muito menos do que os homens. De cara, velhice implica na perda de poder, físico e social, já que com ela vem a queda da potência sexual e a aposentadoria. Trabalho e sexo definem muito a identidade masculina. As mulheres se definem pelas relações pessoais. Como mesmo as mulheres que trabalham geralmente cultivam laços familiares, afetivos, elas têm esse apoio mesmo perdendo potência física.

Descobri isso com seu Jajá, o dono de uma das empresas em que eu trabalhei. Eu tinha 26 anos e estava com ele na biblioteca da empresa, e ele me confidenciou que envelhecer era ruim, que esse negócio de "melhor idade" é balela. Imagine o que foi para um homem que criou uma empresa que empregava mais de cem pessoas, de repente, ser deixado de lado e passar a ser tratado como café com leite. As pessoas fingiam que se importavam com a opinião dele, mas ele sentia que era carta fora do baralho. Para quem construiu a autoestima em cima do poder, deve doer e muito. 

Quando não perde a vitalidade, o homem velho perde a noção. E não digo nem de querer namorar, se divertir, etc, que isso é saudável em qualquer idade. Mas muitos regridem à época da vida em que foram mais felizes (e poderosos), se envolvendo com garotinhas nada a ver, na vã tentativa de se sentirem mais longe da morte. 

Além de todas as vantagens econômicas e sociais, deve ser bacana envelhecer em um país em que você é estimulado a se ver como gente e não como objeto de consumo que também vive a consumir o outro, com prazo de validade. No Brasil a gente descobre que é ser humano acima de tudo tarde demais (quando descobre). A favor desse país, só clima, pelo visto.