Feliz aniversário, meu amor!!! Parece que foi ontem que você nasceu, chorou quando se viu de repente fora da barriga da sua mãe e num quarto escuro de hospital, só parando manhosamente quando eu te dei meu dedo para segurar. Mas, veja só, agora até já sabe ler e escrever, fala inglês e é o irmão mais velho da Luísa. Que lindo você se tornou, por dentro e por fora.
Hoje você faz oito anos, então eu acho que já posso falar de certas coisas com você. Não ando conversando com você ultimamente, é verdade, mas sua vó me conta sempre de vocês, que sempre estão em pensamento comigo. Não sei, infelizmente, como andam as coisas a essa altura: se você já se decepcionou feio com um amiguinho do qual gostava muito, se já tem um melhor amigo, se ainda se reta com Luísa (ou já entregou o caso a Jesus) ou se ainda pensa mesmo em ser jogador de futebol ou agrônomo, como andaram me dizendo que você queria por causa do sítio do seu tio avô (eu acho ótimo; eu mesma, se mais 20 anos de juventude tivesse, estudaria Agronomia).
É estranho falar para alguém tão jovem que a juventude acaba, mas acaba. Mas tudo bem se você não acreditar nisso antes dos 35 anos, quando o seu joelho começar a doer. Tudo na vida começa e acaba. A partida de futebol, o final de semana, o jardim de infância, seus sete anos que agora são oito e os ciclos da vida. A sua infância, mesmo, daqui a pouco acaba e você vai virar adolescente que nem Leka e Drica. O fim geralmente também é um começo e isso é muito bom.
Em algum momento você vai estranhar esse entra e sai de pessoas, de situações e de obrigações e vai se perguntar o sentido da vida. Bem, eu tenho cinco vezes a sua idade e eu acho, até agora, que o sentido da vida é gostar dela, da vida. E se um dia você estiver cansado e achar isso difícil, lembre que na verdade é muito fácil, os adultos é que complicam. Mas você, como criança, sabe: a vida é boa quando a gente acorda e come um pão quentinho com café; quando estamos brincando com os amigos; quando damos risada com um filme; quando podemos correr à vontade porque temos um bom corpo e saúde; quando temos família que nos cuide. Tudo é questão de sintonia e eu te aconselho a sempre a buscar a alegria que está aí nas coisas boas do dia-a-dia.
A vida é boa sempre, mas muitas vezes não é simples nem fácil. Não é fácil quando a gente tem que acordar de manhã para ir à escola, mas não quer. Não é fácil quando a professora manda um monte de tarefas e a gente não se empolga e nem entende muito bem por quê. Não é simples quando as pessoas agem de um jeito que a gente não concorda ou entende. Isso faz parte da vida, não adianta se zangar. Nem sempre se ganha, aliás, poucas vezes se ganha. Ou melhor, tem um jeito de ganhar sempre sim, porém não aos olhos dos outros, mas da gente mesmo: sendo boa pessoa e fazendo tudo a que a gente se propõe com todo o nosso empenho e coração. Vamos pensar numa partida de futebol. Você treinou, jogou pra caramba, mas perdeu. O motivo pode ser qualquer um: o adversário jogou muito bem, o juiz te roubou, etc. Mas se você fez o seu melhor, vai ficar chateado naquela hora, mas vai saber que, embora não tenha ganho, se superou, avançou como jogador sendo melhor que antes daquele treino, daquela partida. Quando a gente não se dedica, quando fazemos de qualquer jeito, repare como a gente passa dias remoendo, pensando no que poderia ter feito melhor. Enfim, não existe pior coisa do que perder para si mesmo. Quem faz o seu melhor sempre sai vencedor. Faça por você, porque a gente está nesse mundo para ser melhor do que era ontem, para se desenvolver como pessoa.
Aliás, estou sabendo que o senhor não anda estudando direito. Fiquei triste. O colégio é uma das coisas que você não pode escolher. É preciso ter estudo para uma série de coisas da vida adulta. Mas eu não quero que você estude só para não repetir de ano, só porque seus pais cobram isso de você. Aprender é uma das coisas mais legais da vida. O conhecimento é uma coisa bacana, a única que ninguém pode tirar de você. Eu amo aprender coisas novas e eu te garanto que é divertido, basta você saber olhar pelo ângulo certo e trocar que isso é uma "obrigação" pelo fato de que isso é um "recurso" a mais. Quase um super poder. Pode parecer chato estudar inglês agora, mas pense em quanta coisa você poderá ler sobre futebol e que só está escrito em inglês. Já pensou em encontrar o David Beckham na rua e poder pedir a ele um autógrafo em inglês? Olha que legal poder falar com gente do mundo todo e as pessoas te compreenderem. E Geografia? Eu adorava saber onde ficavam os países já imaginando para onde eu queria ir quando fosse adulta. E é muito interessante saber como outras pessoas vivem. Se você for mesmo jogador, como você vai decidir se quer jogar em um time sem aprender mais sobre o país, sobre a cultura dele? Do que adianta ganhar muito dinheiro se a cidade na qual o clube está é ruim? Como vai saber se o contrato é bom mesmo sem falar língua estrangeira e sem saber fazer cálculo de matemática? Aprender é bonito, estudar é legal, mas como tudo na vida precisa de tempo e esforço. Então deixe de preguiça, que rapadura é doce, mas não é mole, seu menino! E por falar em preguiça, tô sabendo que o senhor anda pedindo até pros outros (Elen) calçarem a sua chuteira. Me poupe, viu, seu Felipe? hehe...
Feliz vida, Coração, hoje e sempre!
Um beijo da sua tia que te ama muiiito.
PS.: Meu filho, já que estamos falando da vida, vou te dar um conselho de coração: troque de time, não fique sofrendo pelo Vitória, não. Se pique desses times baianos, vá torcer pelo Flamengo, que é rubro negro e foi onde seu avô Luiz também jogou. Tô lhe dizendo, se ficar torcendo pro Vitória não vai ser campeão brasileiro nunca... Depois não diga que eu não lhe avisei, hehe.