Hoje finalmente terminei Mad Men. Na moral, não achei isso tudo. É uma boa série, tem uma ambientação impecável, mas as duas primeiras temporadas e as duas últimas são chatas. Pra mim, só prestou o miolo. A sétima temporada, então!... Merece uma sapatada na cara quem elogia o final de Mad Men.Os melhores personagens da série pra mim: Don e Sally. O troféu desperdício vai pra Peggy, que começou bem e virou coadjuvante de luxo a partir da quinta temporada. Os simpáticos: Megan e Roger. O troféu mala sem alça: Pete. Personagem que entrou e saiu sem função e nunca deveria ter existido: Michael.
Don é um cara que teve o maior azar do mundo: o de ter tudo que todo mundo poderia sonhar, mas nada ter significado pra ele. Além do vazio e da frustração ainda há culpa. "Eu deveria ser feliz, mas não sou". Já dizia um coisinho que os dois maiores azares é ter tudo ou não ter nada. Don passou pelas duas situações.
A série fica interessante na segunda metade da terceira temporada, que é quando a gente tem uns flashes do passado do protagonista - ou seria a agência a protagonista? - e daí muita coisa faz sentido. Até então, Draper é um entediado, mimado, mas dali em diante você entende o buraco, o dano que o passado dele causou na vida adulta dele.
A infância dele foi bem pesada. Filho fora do casamento de uma prostituta que morreu no parto (só aí já tem muitas coisas punks). O pai morreu quando ele era criança (o que na leitura da criança é lido como abandono). Foi morar com duas pessoas que não eram seus pais e que o viam como um estorvo, num ambiente ruim pra uma criança. Quando ficou doente, foi isolado e a única pessoa que tratou dele cometeu abuso.
Don viveu o pior pesadelo da infância: estar sem os pais. Toda criança quer ser aceita, protegida e amada. Quando você tem o contrário disso, tem que suspender o contato com os próprios sentimentos para sobreviver. A questão é que ele se tornou adulto sem conseguir desfazer isso. E por ser alguém mental, aí é que os sentimentos ficaram no porão mesmo. Don procurava ser amável e generoso - especialmente depois de ver que deu bola fora com as pessoas que gostavam dele -, mas sempre dava um jeito de afastar essas pessoas. Sally passou a infância mendigando qualquer atenção dele, que só foi procurar a filha depois que ela passou a não querer mais estar perto.
Gente assim é furada. Quando a pessoa é traumatizada e dorme abraçada com a autossabotagem, só Jesus na causa - e se a criatura quiser se ajudar. Mas apesar disso, do cigarro e da bebedeira, eu toparia um relacionamento abusivo com Don (risos). Aliás, 99% da série concordaria comigo.
Eu só não gostava dele quando era rude com Sally ou com Peggy. Interessante a relação dele com Peggy. Ele nunca considerou ela amorosamente; era como se fosse um homem (aliás, ele é o tipo de homem que não se interessa sexualmente pelas mulheres que ele realmente considera, a exemplo de Anna), mas era a pessoa a quem ele buscava quando a coisa apertava. E ela também era leal a ele. Uma grande homenagem mútua.
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