Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
domingo, 4 de agosto de 2019
Insecure - a flexibilidade para sobreviver na vida adulta
Bem, uma bela surpresa no mundo das séries foi "Insecure", da HBO. Andei recomendando a meio mundo. Um amigo meu me deu essa boa dica, então apenas dei continuidade a corrente do bem.
Essa moça da foto acima é Issa Rae, até onde sei uma influenciadora digital que foi "pescada" pela HBO para fazer essa série. Issa também é o nome da protagonista, uma moça de 29 anos que vive na Califórnia e tenta, como jovem adulta, achar seu lugar no mundo, especialmente seu lugar profissional (🙋). Sua melhor amiga é Molly (figura 1), uma advogada bem sucedida mas que enfrenta dificuldades na vida amorosa. As outras duas meninas são Tiffany (a de amarelo) e Kelli (a de casaco), que formam o quarteto de amigas (figura 2). Tiff é a mestiça em busca de ascensão social, o que inclui um processo de embranquecimento; Kelli é sua melhor amiga, aquela pessoa reativa que sempre tem uma resposta na ponta da língua (eu acho ela hilária, ainda mais na última temporada).
"Insecure" é sobre estar na boca dos 30, metade adolescente ainda, metade adulto e a importância da amizade em todo esse processo. Homens e mulheres da turma (e não há muita diferença entre eles em termos de caos existencial. Aliás, essa é uma das poucas séries que aborda a depressão masculina) ainda alimentam fantasias adolescentes sobre o que faz uma vida perfeita. Por outro lado, já administram suas necessidades e conflitos sozinhos como qualquer bom adulto, caindo e, "com a ajuda dos amigos", se reerguendo dos vários baques no ego que vão surgindo ao longo dos episódios.
Eu acho Issa um ser humano bonito, o que é um feito e tanto porque, sob muitos aspectos, aos olhos da competitiva sociedade americana ela é uma fracassada. Issa trabalha em algo que não faz sentido pra ela, mas não se deixa amargurar por causa disso e nem é tóxica quanto ao sucesso profissional de sua melhor amiga, Molly. Eu acho que ela até gostaria de estar naquele nível também, mas entende que cada um tem suas dores e alegrias e consegue ficar genuinamente feliz pela amiga. E apesar de estar perdida em sua vida amorosa, Issa sustenta mais relacionamentos do que Molly, por exemplo. É que Molly é muito inflexível com os homens que surgem em sua vida. Na verdade, ela tem padrões muito altos para tudo. Eu amo uma cena dela na terapia, em que a terapeuta lhe diz algo mais ou menos assim: "Se a sua vida não ocorrer como você planejou, você está preparada para fazer outros planos?". Bingo!...
O que a série mostra e de uma forma cativante e leve como poucas vezes vi na vida é que, ao contrário do que dizem, não é o mais forte que sobrevive, mas o mais flexível. Crescer é foda, mas com jogo de cintura e com as companhias certas dá pra seguir em frente com razoável dose de felicidade.
Outra coisa genial em "Insecure" é o jeito com que aborda questões raciais. Isso está o tempo todo presente nos episódios, mas de um modo que permite duas possibilidades de fruição: você pode apenas rir e não refletir ou rir e refletir. O discurso antirracista não é panfletário, simplesmente flui pelas situações apresentadas na série.
"Insecure" é muita ginga pra uma série só!
Ah, sim: a trilha sonora é ma-ra-vi-lho-sa!
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