Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
sábado, 21 de setembro de 2019
Sempre dependi da bondade de estranhos (e todo mundo deveria também)
Outro dia, na terapia, tive um insight que sinceramente nunca havia me ocorrido: minha infância foi boa porque eu tinha, eu era parte de uma comunidade. Eu era a criança cuidada por todo mundo. Uma amiga minha dizia que o que me fazia falta era ter uma família. Sim e não. Minha família é ausente desde lá e eu era feliz. Família é bom até a segunda linha. Claro, nascemos precisando da família e essa nos dá o senso de segurança. Mas gente que fica muito dentro do próprio núcleo não se desenvolve, eu tenho observado. Na melhor das hipóteses, vai explorar o lado bom da família, mas não vai acrescentar nada a si nem ao clã, que fica girando em volta do taco.
Ter uma comunidade é importante para um ser humano. Pobre da criança que só tem a sua família. Quando criança, nesse prédio da foto, eu ia e voltava da escola com os filhos dos vizinhos, entrava e saía dos apartamentos com crianças, fui criada nos comércios da quadra, era meio sobrinha dos colegas de trabalho do meu pai, já que todos frequentávamos o mesmo clube aos finais de semana e viajávamos juntos aos feriados. Aprendi sobre religião com a filha do Pernambuco, que morava no final do bloco; as estreias das novelas das sete, as melhores, eram vistas com os vizinhos do 201; aprendi sobre bebês ajudando a cuidar das gêmeas do 206; matava minha vontade de ter cachorro com Suzuki, a pequenês do meu vizinho de porta, seu Haroldo, que, aliás, além dos presentes dos netos, incluía o meu também no Dia das Crianças. Seu Crispim, o nordestino do bar que eu frequentei desde que era bebê como na foto, me tratava melhor que os netos. Nunca esqueci dele me dando um refrigerante e o meu chocolate preferido quando eu voltei da Bahia, nas férias, pra visitar a quadra. Ele, que cobrava até dos netos, deu, ali, uma demonstração da alegria de me ver.
Quando eu larguei a chupeta, foi Tia Marinalva (apesar do "tia", não era parente de sangue) que teve a paciência pra me convencer. Quando um menino da invasão roubou minha bicicleta ou quando eu quis fugir de casa, quem percebeu e cuidou de mim foram os adolescentes da quadra. Eu não sei se os pais se dão conta do tanto de gente, que, sem vínculo nenhum, no dia a dia tem um carinho de família com o seu filho. Por isso eu digo e repito que todo pequeno deveria ter uma comunidade que lhe trate como sua criança.
Minha amiga estava redondamente errada. Fome de família eu mato de vez em quando, com os meus sobrinhos e com as famílias de meus amigos. Comunidade eu só tive na minha infância em Brasília e nunca mais encontrei uma, nem na ensolarada e supostamente acolhedora Salvador.
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