domingo, 7 de agosto de 2016

Onde os fracos não têm vez

Esse lugar é no meu coração.
Eu queria ser que nem Paula, a amiga de uma amiga, que se relaciona com um cara que é quase um filho para ela, nada de mais, muito pelo contrário, mas ela acha que ele é a melhor coisa do mundo.
Talvez eu esteja idealizando demais, mas para que serve o amor senão para nos iludir, para nos inspirar? Só que eu dei azar. Peguei uma geração de homens fracos, que, pra começar, se educaram via Tiazinha e pornografia na internet, que não sabem quem são, o que querem e não lutam por nada. O que vier é lucro. Ficam que nem Romário na boca do gol. Esse tipo de homem, para mim, é o que há de mais broxante. Uma falta de querer, de ganhar e de perder... Ah, essa minha maldita mania de expectativa! Por que eu não crio unicórnios em vez disso, né?

Tempo Rei

"Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos"


Uma colega me colocou em uma comunidade do Facebook destinada a criar "laços entre as manas". Eu fiz umas coisas para duas meninas, fiquei feliz com o resultado, mas, na moral, não quero ser mana de ninguém. Não assim, na base da obrigação por ideologia, do "decreto". Ainda teimo que as coisas aconteçam no meu próprio tempo, não na base do "tem que", por melhor que seja o motivo. 
Na verdade, eu sou pessimista em relação a grandes transformações, de verdade, entre gente que nasceu nas décadas de 80 e 90, aqueles que, a priori, ainda não estão velhos o bastante para serem "casos perdidos". Eu acho que estamos. Penso que já fomos contaminados por, no mínimo, duas décadas de educação preconceituosa. Por isso, não acredito em homem "feministo" - na prática, eles muito raramente não decepcionam, por melhor que seja o discurso e, digo até, a intenção -, não acredito em igualdade racial e equiparação de direitos entre os sexos. As hierarquias ainda estão aqui dentro de nós, esperando qualquer distração para pular da nossa boca e fazer aquele estrago - aliás, tenho muito medo de quem não consegue perceber isso e acha que pode resolver as diferenças por decreto. O que de melhor podemos fazer é vigiar os monstros que abrigamos, sermos solidários aos que sofrem mais que nós e, principalmente, orientar a nova geração para que sejam melhores. Eles, sim, têm condições de serem diferentes, mas ainda assim, acredito que civilizados, no melhor sentido da palavra, serão os filhos deles. Esse é um trabalho de formiguinha, botem fé.
A essa altura, eu tenho 30 anos de histórias de maus-tratos sofridos nas mãos de outras mulheres. Não tem como apagar isso e dar as mãos a todas, transformando-as automaticamente em "manas", como se eu não soubesse o que uma mulher é capaz de fazer com a outra quando decide que essa "merece" ou simplesmente quando percebe que "pode". Desculpem os fãs, mas não levo muito jeito para hipocrisias, mesmo as mais bem intencionadas. Mas, por isso mesmo, acho que posso adocicar meu olhar e ser solidária a qualquer uma que esteja, de alguma forma, sendo oprimida por ser mulher. Isso eu posso fazer de boa. Não só posso como pratico há muito tempo. 

Perder para ganhar

É ruim se sentir rebaixado, humilhado, mendigando. Qualquer ser humano normal evita isso, claro. Mas existem situações em que não tem jeito: é perder para ganhar. Nessa hora, a pessoa tem que ter muita lucidez para ver o que está em jogo e ser humildade.
Quando tinha uns 18, 19 anos, para terminar o curso de inglês em uma boa escola de Salvador, passei maus bocados com o meu pai. Se eu não tivesse um objetivo maior, poderia ter ficado mal com aquilo, mas estava determinada. Minha irmã mais velha, que dividia quarto comigo, um dia me falou: "Eu, no seu lugar, jamais me prestaria a isso". É que ela nunca teve sede de saber. Hoje eu falo, por baixo, duas línguas estrangeiras e ainda arranho em outras duas, e ela nunca sequer conseguiu aprender inglês, mesmo ganhando cinco vezes o que eu ganhava. É que certas coisas, além de vontade, tendem a acontecer com mais facilidade em determinada época da vida. Eu sabia disso, me sujeitei, obtive... E se alguém tem que lamentar é meu pai, não eu. Hoje, só lembro dessa história quando surge um gancho para contá-la.
Essa semana, percebi que uma amiga está desperdiçando algo grande por pirraça, por orgulho. Também estava fazendo isso em uma situação específica.
Por isso, é preciso estar atento e forte, para não desperdiçarmos oportunidades por causa de besteiras.

Robocop Days

Uma amiga está sofrendo muito com uma separação. Ela não é direta, mas dá para perceber. Apesar de discreta, há quem a critique, mesmo ela sentindo uma dor dilacerante (cá pra nós, a outra pessoa foi sacana). Compartilhar é uma das formas de se livrar. Quem escreve sabe muito bem disso, do alívio em entregar uma emoção a outro, da busca por compreensão, por cumplicidade.
Mas é que vivemos em uma era de cyborgs, os "robocop days", em que nada pode nos afetar. Há de sair por cima, sempre. No entanto, até pouco tempo atrás, a gente tinha licença para duelar em caso de ofensa. Ok, com menos sangue é mais legal, mas o caso é que as violências, físicas e sentimentais, mexem com a gente. Por que negá-las, como se fôssemos de aço e não de carne?
Eu não ando passando por uma fase fácil. É um momento de parada forçada, de reflexões sobre o passado (colocando ponto final em certas pendências, que só existem porque quis bancar a racional, a controlada, abafando sentimentos) e questionar o futuro. Me pego entre o impulso de contar (porque o que é guardado cresce e pode até nos engolir) e o medo de ser julgada, da minha confissão ser usada contra mim. É horrível.
Quando foi que ter sentimentos virou algo indecente?

domingo, 17 de julho de 2016

As escolhas te definem?

Outro dia estava andando na orla, quando encontrei Catarina. Gosto muito de Cat, de graça. Ela é novinha, tem 20, 21 anos, mas já está às voltas com as primeiras grandes escolhas. Ela tem um amigo mais velho, também mentor espiritual dela, que foi contra as duas decisões que tomou recentemente, uma amorosa e outra profissional. Mas a menina teimou, mesmo com todo mundo enchendo o saco dela, simplesmente porque não queria bancar aqueles sacrifícios.
Pois bem, encontrei Cat feliz da vida, com um novo emprego, segundo ela - e eu acho que sim - muito melhor do que aquele que recusou, que o guru insistia pra que ela aceitasse.
A gente sempre pode se surpreender com coisas que não dávamos nada à primeira vista. Isso, no meu caso, se deu mais com pessoas do que com situações. Todas as vezes em que fui pra algo achando que não ia render muito, não rendeu mesmo. Já o contrário aconteceu algumas vezes.
Mas eu penso que mesmo que tenhamos "perdido" algo ao recusar uma situação, aquilo não era para a gente naquele momento. Porque nem sempre temos musculatura para lidar com certas situações e mesmo aquelas que, ao final, são positivas exigem da gente.
Enfim, acho que as escolhas podem nos definir, mas não definimos tanto assim as escolhas. Apenas, nas melhores situações, procuramos fazer as melhores que conseguimos.

All by myself (don´t wanna live)

Uma vez li que quem tem Nodo Norte apontado para o signo de Leão, como eu, vai passar a vida inteira se frustrando toda vez que depositar esperanças em parcerias, que a meta é aprender a ser como Leão é, independente e confiante. Não sei se a Astrologia realmente tem fundamento, mas se não tem, foi muita coincidência porque tem sido assim desde o início da minha vida. Se eu quero que algo aconteça, tenho que fazer sozinha.
Mas cansei disso. Eu quero parcerias.

Autistas? Até quando?

Essa semana tive a minha primeira experiência pela internet. Não aconteceu nada de muito ruim, mas foi decepcionante. Sabe, ninguém quer ir conquistando os outros aos poucos, é uma pressa, uma falta de sentir o outro que vou te contar. As pessoas estão desesperadas, carentes, afobadas. Desisti. Quero outra coisa, ou melhor, outro tipo de sujeito, eu percebi.
Coincidentemente, algumas histórias negativas - uma delas estarrecedora - chegaram aos meus ouvidos. A galera tá franco atiradora, tentando extrair prazer o máximo que puder, e que cada um aprenda a defender o seu para não tomar bolada nas costas. É isso: as interações entre as pessoas virou um grande jogo de baleado.
Nada contra querer extrair o máximo de prazer, até porque a gente só vive uma vez. Mas acho que as coisas têm que ser de comum acordo. Se todo mundo tá sabendo e tá de acordo, beleza. Fora disso, sorry, não há fair play.
E é com decepção que eu vejo que alguns maus hábitos/equívocos masculinos contaminaram mulheres e gays.
Tenho muita curiosidade pra ver o que vai ser desses trintões daqui a dez anos. No que essa gente "lost in translation" vai dar.
Uma amiga minha aposta que os homens heterossexuais são os que mais vão se surpreender. Isso porque, na percepção dela, eles apostaram que são "mercadoria rara" mediante o número de homens gays, mas não contaram com o aumento do número de mulheres homossexuais. E realmente isso já está acontecendo, pelo menos nos meios mais intelectualizados é o que mais a gente vê. Ela acrescenta que essa onda feminista é, inclusive, uma reação a esse machismo que transformou mulheres em "carne barata" no "mercado amoroso". Realmente, é insuportável o nível de exigência que uma mulher tem que cumprir se quiser "vencer" as demais "concorrentes". Tendo a concordar com ela... Na verdade, os homens heterossexuais ainda são basicamente homoafetivos, por mais contraditório que isso posso soar. No dia em que eles gostarem da amizade de suas mulheres como gostam dos "bróders" a coisa pode começar a ficar boa (e talvez as mulheres menos nervosas, porque eu acho que muita coisa é consequência de não serem ouvidas).
Enfim, folks, a seguir cenas. Isso vai ser interessante de ver. Ou não.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O passado silenciado

Minha mãe, que nunca trabalhou fora e acha que o ser humano tem que se submeter a tudo para ter um salário (qualquer que seja), sempre acha que eu me arrependi quando visito o antigo emprego ou comento com saudade de algum bom momento. Não se trata disso. Não mesmo. E quando uma pontada de arrependimento surge, eu sei que isso tem mais a ver com uma carência minha que com um sentimento real, e logo passa.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A teoria da prateleira (criando poeira)

Minha irmã, ser altamente pragmático, quando ainda habitava a nossa humilde residência, uma vez, saindo do banho, enquanto eu escovava os dentes, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.

(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).

Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.



Tempo de revisão

Eu tive um ano bem movimentado até o final de maio. Produção, produção, produção. Desde então, parada há pouco mais de um mês, ando agoniadíssima com o futuro, o que infelizmente vem me impedindo de aproveitar o presente como deveria, coisa que eu pretendo corrigir ainda esse mês. Sou ansiosa, admito. Mas sinto que eu não estou muito em posição de apitar no jogo da vida nesse exato momento. É tempo de espera, de trabalhar no escuro (coisa que eu odeio).
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.

Uma experiência com programa popular

Faz três meses que pedi pra sair de um programa popular, no qual fazia produção. Uma das coisas que me desagradava é que se tratava de um programa assistencialista. É tudo que mais odeio na vida (tenho horror a Gugu e até a Luciano Huck, a versão mais limpinha dele). E fazer produção não é de Deus também. Ô treco chato...
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.

Julieta

Acabei de voltar do cinema. Fui assistir "Julieta", o novo de Almodóvar. Para resumir, já vi coisas melhores dele. O diretor tenta ir na linha de "Tudo sobre minha mãe", mas não rola. Só o problema de coluna que ele teve antes de filmar explica ter escrito uma carta em vez de um roteiro, que não acrescenta quase nada à história, é dramaturgicamente fraca. Mas Almodóvar é bom mesmo quando não é supimpa, essa é que é a verdade.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos.  Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Freddy

Nem sempre fui "bela, recatada e do lar". Até uns seis anos de idade, era bem wild. Vivia apaixonada e expressava meus sentimentos na maior cara de pau e sem direito a democracia. Por base nas minhas paixonites da primeira infância, entendo perfeitamente o que Tônia Carreiro quis dizer quando falou que Vinícius de Morais era capaz de qualquer baixaria para conquistar uma mulher. Eu jogava nesse time. Hehe...
Fora Rodrigo, meu vizinho "rebelde", que se escondia de mim quando eu chegava na casa dele - e eu não me abatia nem um pouco; ia tirá-lo debaixo da cama ou de dentro do armário, esconderijos batidíssimos dele, para abraçá-lo bem forte enquanto ele chorava... puro charme! -, Freddy foi minha grande paixão da infância. Só que ao contrário de Rodrigo, que era da minha idade, ele era 13 anos mais velho que eu. E morava no interior da Bahia, então só o via durante 20 dias por ano, em janeiro. Portanto, a estratégia era praticamente de guerra para chamar a atenção do moço, o mais bonito e disputado por todas as jovens, sem exagero, daquela colônia de férias. Eu, do alto dos meus cinco anos, achava que podia com elas.
É que Freddy me dava ousadia e eu achava aquilo muito natural, e ficava em busca disso o tempo todo. Mas, pensando bem, poderia não ter sido assim, né? Eu achava que ele era gente grande, mas era só um menino, um adolescente. Normal até que ele não me desse atenção. É que me achava engraçada, ria das minhas tiradas, e me considerava esperta. Também acredito que, olhando retrospectivamente, ninguém se esforçava tanto para ter ele por perto, naquela colônia, como eu, que, a despeito de ter mudado muito a partir da adolescência, quando me empolgo, equivalho a um fã-clube ambulante da pessoa.  "I was born to love you, with eeeeeevery single beat of my heart...".
Eu me lembro de uma vez em que uma menina da minha idade comentava que ele era o mais bonito da colônia. Eu respondi que ele gostava de mim e ela olhou com aquela cara de "Sério?!". Eu subi de uma árvore e comecei a gritar por ele, pedindo ajuda pra descer. Ele me tirou de lá e me levou pro pátio no colo. Eu me lembro da minha cara de "Viu, bestona, como é que se faz?!" pra coleguinha. Hahaha... Ainda bem que ele me buscou, porque eu não sei como ia descer de lá.
Outra vez, eu tinha guardado a melhor roupa que havia ganho no Natal para mostrar a ele nas férias. Eu vesti a tal, passei por ele, que nem percebeu. Na minha cabeça de criança eu achava que ele tinha que ter percebido e fiquei muito chateada, fui me trancar no meu quarto. A mãe dele sacou o ocorrido e mandou ele conversar comigo. O bico só se desfez assim.
Bem, mas se eu não me dei bem naquela época - graças a Deus, porque seria pedofilia -, ganhei uma honraria que nenhuma outra gostosona daquela colônia teve: minha foto com ele, num porta-retrato, por anos figurando no quarto dele. Sei disso por causa de uma ex-namorada dele que me contou - eu já estava na faculdade.
Ê Julinha retada! Hehe...


O reggae e o mar

Estava arrastando minha mala pelas escadas, após quatro horas de viagem, quando Isaac - um espevitado de quase seis anos, cabelos encaracolados e olhos verdes, meu vizinho - me perguntou sobre o meu São João. Disse que fui bem e ele contou que foi pra Ilha. Então, disse a ele que estava chegando de Cruz das Almas.
Ele fez cara de desdém, e disparou:

- Cruz das Almas, tia? Tem que ir para o mar, para a natureza! - sentenciou.

Eu olhei para ele com espanto. Ia perguntar se sabia onde era Cruz das Almas, mas, na verdade, estava intrigada com o bom conselho que o pequeno, de repente, assim, tirou da cartola. Como acredito que Deus fala comigo por vias estranhas, tô achando melhor anotar essa sugestão, aterrar os pés na areia e respirar a brisa do mar.

Sim, vou "dançar esse reggae" de Isaac. "E eu adoro o reggae como adoro o mar". :P

domingo, 19 de junho de 2016

Tá todo mundo mal

É culpa das rancheras que meu pai tocava em casa na minha infância. Certeza que é.
Meu pai passava horas, com cara de cachorro que caiu da mudança, bebericando a cerveja e sorvendo cada palavra de lamentação daquelas canções que falavam de traições, decepções e amores maiores que a vida.
Meu pai se sentia traído pelo destino. So do I. E o corno existencial dói, viu, bicho!... Ô se dói.

Ontem, numa reunião de (queridos) amigos, depois de todo mundo ter cheirado um pouco de rapé paricá, o povo soltou as emoções que estavam presas (o pó produz esse efeito). Eu, que cheguei cheia de carga emocional, precisando desabafar, tive uma epifânia de que talvez seja muito difícil encontrar escuta em 2016 porque simplesmente está todo mundo mal, como diz o título do livro da Jout Jout.

Numa determinada altura da noite, uma confissão duríssima, que fez todo mundo ficar paralisado nas cadeiras: de um estupro ocorrido há mais de 20 anos e como isso foi doloroso, porque inclusive implicou em um silenciamento da vítima por medo de ser julgada. A história dela só não terminou em suicídio porque foi salva pela irmã, que morava na Europa, e a levou para lá para fazer um aborto. 

Nessa hora, tive a impressão que uma outra amiga queria fazer uma confissão e não teve coragem.

Enfim, folks, se balançar, cai trauma, dor e insatisfação dessa árvore da vida. Tá todo mundo mal e, pior, guardando isso em segredo.

Meteóro, vem nim nós, que o treco aqui embaixo tá pesado, viu, Bê?

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mente pra mim, me ajuda a viver

(Esse post tem a benção de José Augusto)

Certas cenas da vida cotidiana se encaixam naquela história do só rindo pra não chorar. Tipo, as instruções da aeromoça antes da decolagem. Fala sério  que alguém acredita que aquilo vai funcionar em caso de queda? Também não acredito em quem diz que Jesus tá na direção . Só acredito na condução devidamente habilitada.
Mas o caso é que se a gente não acredita, pira.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Santo Antônio, me traga um Antônio!



Há um ano estava no México, em companhia de um monte de idosos simpaticíssimos. Bellos recuerdos!
Havia um casal bonito em particular, Lola e Antonio. Gente linda, que deve ter parado o trânsito quando mais jovem, um amor de vida inteira, delicado, cheio de admiração de ambas as partes... Eu queria uma máquina do tempo para vê-los se conhecendo e namorando. Antonio é um cavalheiro na acepção mesmo da palavra. Precisava ver ele contando como fez para protegê-la quando houve um problema durante uma viagem ao Egito. Ay, que amorrrrr!
E o México é um lugar que exala isso. Fica a dica. ;)

Ouro de tolo

Uma coisa que me desilude, quanto ao amor, é que hoje em dia pouquíssimos amam ou sabem amar (não sei ainda direito essa diferença). Ninguém quer ficar "por baixo", todo mundo só quer levar vantagem, e assim poucos casais perseveram, as relações não vão pra frente. É triste. Somos tantos, tão precisados de afeto, e então poderíamos ser muito mais amados se fôssemos mais espontâneos.
As mulheres são carentes demais e os homens, alheios demais: não falam de si mesmos e nem escutam a companheira.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sobre mulheres e feminismo

Eu questiono as opressões desde criancinha. Cresci rasgando meias-calças (que só serviam para esquentar as pernas em meio ao calor), questionando os "mulher tem que...". Enfim, tô pensando sobre isso faz muito tempo, muito antes do feminismo entrar para o hit parade.
Ontem, teve palestra de Marcia Tiburi sobre esse tema. Ela tocou em temas importantes, como gratidão às feministas do passado e a importância de termos representantes na política. Mas eu tenho algumas críticas a fazer ao feminismo. Para dizer a verdade, não consigo me denominar feminista porque:

- "Quem vigia o vigia?" 
Meu ponto é: a militância traz muitas falas e questionamentos super válidos, quem sofre o preconceito e a agressão sabe melhor falar sobre isso, mas é também tentador ser raivoso quando há essa possibilidade (e até descontar, a pretexto disso, raivas produzidas a partir de outras situações). Então quem "vigia" os limites da militância, ainda mais quando ela reage com violência a qualquer tentativa de contradiscurso, como se isso sempre significasse incompreensão ou censura do que foi dito? Claro, muita gente fala merda, gente que não sabe do que está falando, gente que não quer admitir um problema, mas não é possível que nunca ninguém diga nada ao mesmo tempo contrário e sensato.
Minha esperança é que seja apenas uma fase, uma consequência da descoberta da opressão. 

- Ainda não é um caminho feminino.
Como sabiamente diz uma amiga, o melhor jeito de ser "feminista" é resgatando um feminino sagrado.
Eu concordo. Em muitas atitudes, a mulher "moderna" é uma cópia do homem. Ou seja, estamos copiando um modelo fracassado e ainda nos achando por isso. Acordem! Leiam "As brumas de Avalon", hehe. Somos poderosas quando seguimos os nossos instintos, a nossa natureza.

- E por último, mas não menos, eu acho essa palavra ruim. Rima com "machista". Esse "ista"... Tem que pensar em outra coisa.


domingo, 1 de maio de 2016

Sobre a dor

Qualquer ser humano com um par de neurônios e algumas décadas de existência já é capaz de entender que a vida não é justa.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.