Na festa de Ronaldo: anões, cachaça, Monique Evans
Claudio Leal
"Fora de campo são palavras, muitas palavras..."
Ronaldo, o Fenômeno, rege a TV do Parque São Jorge. O discurso maneiro, pausado, concentra os torcedores do Corinthians. "Olha a feira!" - clamam o silêncio das crianças, para ouvir o mantra do atacante: "Sou mais um louco num bando de loucos".
Nos jardins, fora do auditório em que ele se apresenta à sanha dos jornalistas, os corintianos aguardam a saída do louco recém-contratado. Na rua, centenas são impedidos de entrar; desde o dia anterior os ingressos se esgotaram. Ainda assim, gritam, apóiam: "Ronaldo chegou-ô-ô...".
"Festa igual a essa, só a do Quarto Centenário, em 1954", diz o papai noel Rodrigo Pereira. "Achei que a vinda dele foi uma boa. Seje campeão ou não seje". Em seu saco natalino há apenas sacos e mais sacos plásticos. De Natal.
Adiante, a hora e a vez da Miss Fiel - ela, Ana Paula Minerato, 18 anos, loira, olhos azuis, baixinha que só. Diante da câmera, sente-se obrigada a responder qual é o jogador mais bonito do Corinthias. A Miss embatuca, mas a mãe ajuda:
- Paulinha, ô, Paulinha, é o Ronaldo, o Ronaldo!
- O Ronaldo - escolhe, a fórceps, "a" Paulinha.
A mãe pisca o olho: "Ela sempre esquece... Mas tem que dizer: o Ronaldo."
Salve o Corinthians... E a Miss, outra vez acuada pelo humorista do programa Pânico e seus dois anões. "Filha, se cuide, pra não ficar igual à mamãe!", berra o bolinho humano.
Nestor Bertolini, o anão que interpreta o goleiro Felipe, prefere não condenar Ronaldo pelo recente confronto com travestis, no Rio de Janeiro. "Penso tanta coisa... Nem sei o que dizer. Quer tirar uma foto de mim?".
De cedo, os bordões da Gaviões da Fiel invadem os recintos e os jardins do clube:
"Nunca vou te abandonar! Te amo!".
"Sou maloqueiro, corintiano sofredor!"
"Ronaldo é mais um louco que chegou no Coringão!"
Outros gritos de guerra, nada elegantes com o Flamengo - ultrapassado pelo Corinthians na contratação -, também ecoam no Parque São Jorge.
Um instante, maestro. O Ômega CD que transporta Ronaldo costura a imprensa e a fiel torcida. Atravessa o portão do estádio. Os perseguidores comem poeira. Vidro fumê, o craque é apenas uma sombra.
O gramado fervilha para recebê-lo. Uma passarela preta em contraste com o verde. Crianças seguram balões. Costeando o alambrado - dá licença, Brizola? -, em blusa de oncinha, a modelo e apresentadora Monique Evans. Mas os seguranças não respeitam suas capas na Manchete. Barradinha da silva, se indigna à brinca e mostra a pulseira de jornalista: "Eu tenho a coisa roxa!".
A direção do Corinthians barrou o acesso dos repórteres ao gramado; somente os cinegrafistas podem arrancar fatias de Ronaldo. Monique Evans apalpa as nádegas do seu câmera: "Você pode entrar! Eu narro em off".
Às 12h, o ídolo corintiano cruza a passarela, ladeado pelo presidente Andrés Sanchez, em plena campanha para continuar à frente do clube. Estouram confetes. Ronaldo acena, timidamente, assustado com as bombas. Público estimado: seis mil. Loucos.
Discursos protocolares, até mesmo frios. Sanchez declara à torcida e aos eventuais eleitores:
- Eu vim daí! (aponta para a Fiel) Não sou, estou de passagem. Este é um sonho realizado da grande Nação corintiana!
Ronaldo, sorridente, retribui a aclamação. Preserva o tom seco, calculado:
- ... Sou mais um louco...
A festa não dura dez minutos. O atacante põe-se a chutar bolas para os corintianos. "Dá a volta olímpica!", pedem. Um molequinho ironiza a "boa forma" do jogador: "Ainda não dá não, né gente?".
Agarrada ao alambrado, Monique Evans se encontra naquele estado em que a deixamos, parágrafos atrás. Tenta furar o bloqueio para beijar e entrevistar o ídolo. Maldade dos seguranças: não dá. Vem a polícia. A "titia" exige: "Me prende! Prende! Prende!". Monique, La Pasionaria, conta com o apoio dos fãs.
- Vai, Monique! Entra, Monique!
Qual nada. Ronaldo tira fotos longe da musa. E some no túnel. Monique vai embora, quase aos prantos. Discute com a produtora:
- Você não viu a polícia me batendo? (pega nos pés, certamente maltratados) É meu trabalho me fazer de palhaça...
Um bando de loucos ainda zanza na entrada. O torcedor Washington - preferiu não dizer o sobrenome - discursa para a polícia: "Safados, não me deixaram entrar!". Bêbado, ergue uma bengala africana. Algumas palavras para a reportagem.
- Levei duas horas do Grajaú até aqui. Você tá me filmando? Não me filma. Não me deixaram entrar. O que era pra fazer? Trazer um quilo de alimento. Eu trouxe. Sou da periferia. Sou cachaceiro.
Para confirmar a veracidade de seu relato, tira da virilha (epa!) uma cachaça Cocote.
- Não quero fazer propaganda. Mas é boa. Paguei dois contos. Vim ver Ronaldo e não me deixaram! Fumo, cheiro e bebo. Só não roubo. Para voltar, levarei mais tempo. Porque vou passar ainda na Cracolândia. Eu não fumo uma pedra há muito tempo...
Enquanto Washington prega no deserto, as torcidas organizadas improvisam um sambão na Rua São Jorge. Ronaldo, o redentor, está oculto.
Terra Magazine
Essa ida do Ronaldo tá me cheirando a fraude.
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