
Depois do almoço, desço com a minha bicicleta Caloi vermelha que havia ganhado no meu 5º aniversário, na véspera. Debaixo do bloco, ele me espera. Olhos grandes e pretos, cabelo castanho e liso, magro, uma pele clarinha, clarinha. “Vamos, monte na minha garupa” - eu o convido e ele aceita, com o sorriso de orelha a orelha. Trocamos de lugares, depois de algum tempo. Um menino, desconhecido e um pouco mais velho, nos aborda. Pede para “dar uma voltinha” na bicicleta. Eu hesito, por ciúmes, mas ele olha para mim. Entendo, de pronto, o significado daquele olhar: ele, menino pobre, queria apenas que aquele outro menino, visivelmente mais pobre ainda que ele, tivesse a mesma satisfação de dar uma voltinha numa bicicleta. Cedi. E nunca mais vi a minha bicicleta vermelha...
Na calçada do nosso prédio, ele viu a noite chegando, esperando que estivéssemos enganados. As horas se passaram, um monte de gente saiu pelas redondezas atrás do tal menino, mas nenhuma notícia da minha bike. O veredito final: fomos roubados por um dos moleques da invasão próxima da quadra. Eu queria xingá-lo porque, afinal, era a frustração de algo pelo qual havia esperado por meses (e isso, aos cinco anos, é muita coisa!).
Mas Leonardo era Leonardo. Eu devia ter levado isso em consideração antes de emprestar. Ademais, como gritar, se a cara abatida da criatura já era “desarmadora” por si só? Por fim, reconheci que seria uma crueldade culpá-lo porque ele estava visivelmente mais arrasado que eu. Ele também sonhara com aquela bicicleta (eis uma coisa bela da infância: o que é de um, é de todos).
Vejo, nesse episódio, minha “expulsão do Paraíso”.
Não foi o caso de Leonardo. Ele seria enganado muitas e muitas vezes mais. Era uma criatura absurdamente inocente e boa. Você pode argumentar que as crianças geralmente são assim. Sim, mas Leonardo ia um pouco mais além da média. Ele era bom, acho, como só os animais podem chegar a ser. Sabe aquela coisa boa do cachorro, de você brigar com ele e daqui a dois minutos, se fizer festinha, ele vem?... Se me perguntarem qual o melhor ser humano que já conheci, sem pestanejar, direi que foi Léo, meu amigo de infância.
Nos conhecíamos desde as fraldas, suponho, porque não consigo lembrar do início de minha vida sem ele e sem outro amigo nosso, o Cebolinha (vulgo Leandro), o filho temporão de um radialista consideravelmente famoso em Brasília.
Léo era o filho do zelador do meu prédio, seu Antônio, homem quieto, ordeiro e trabalhador. Da mãe, dona Berê (de Berenice), não se podia dizer o mesmo. Mulher esquisita, dura, grossa, que depois descobriríamos ser também uma adúltera. No prédio, apenas a suportávamos em consideração a seu Antônio. Para completar o quadro, Léo tinha um irmão caçula, um bebê, de quem não lembro o rosto nem o nome. Vivia num quarto escuro no térreo, sem janelas, que só tinha um banheiro. Passava as noites lá, amontoado naquela espécie de caverna com os outros membros da família, porta aberta, vendo novela numa tv preto e branco.
Quando li “Vidas Secas” não precisei fazer esforço para sentir aquela família. Guardadas as devidas proporções, já tinha visto antes similar abandono e despersonalização com o meu amigo de infância, cuja família havia migrado do Norte (ou Nordeste, não lembro) para tentar a vida em Brasília. Era estranho perceber isso, mas Leonardo era mais gente na minha casa, onde passava de relance, que para seus próprios pais. Foi minha mãe quem o ensinou algumas das coisas básicas da infância, enquanto as ensinava para mim. Minto: seu pai era amoroso. O problema é que trabalhava demais (de dia, no prédio e à noite, freelava de vigia) e quase nunca estava em casa.
Mas, como se vivesse numa bolha, Léo conseguia existir alheio a tudo isso. A única ocasião em que vi a sua realidade lhe afetando foi uma vez em que Cebolinha e eu fomos buscá-lo para brincar. Estava sentado na cama, quieto, cabisbaixo. Olhamos, de repente, para as suas pernas: estavam vermelhas, marcadas. Nunca tinha mirado algo parecido; não parecia com nenhum castigo físico que já havia visto. Perguntamos o que havia ocorrido. Dupla humilhação: o pobre teve o azar de pegar a mãe no flagra da infidelidade e recebeu, pela sua “inconveniência”, uma surra de toalha. Cebolinha e eu pegamos uma toalha, molhamos, demos umas batidinhas em nossas próprias pernas, para produzir marcas similares. Parece que a “igualdade” apaziguou-lhe um pouco mais o coração. Suas pernas marcadas já não mais chamariam tanta atenção na rua. Sorriu. Violência aparentemente esquecida, fomos brincar.
Léo era o meu parceiro de planos “infalíveis”. Um tremendo pé frio, vale dizer, e um tanto graças a sua total falta de esperteza. Aliás, foi com ele que comecei a suspeitar que a inteligência pode ser um empecilho ao desenvolvimento da bondade. Jamais saberei dizer se Léo era bom porque era burro, se era burro porque era bom, ou se era um menino bom com o azar de ser burro. Tanto faz. O caso é que nunca dei, mesmo, grandes bolas para essa tal de genialidade. Que venham os burros! - contanto que sejam de coração puro.
Só isso me fazia, no final das contas, perdoar Leonardo: o consolo de que não havia sido por mal. Mas se resolvesse brigar, também, não me guardaria o mínimo rancor. Difícil, na verdade, seria me perdoar por ferir alguém já tão indefeso e sem maldade.
Missão “Fugir de Casa”, edição XXV. Já fracassei outras vezes, e nessa não posso falhar (na vez anterior, apesar de ter jogado duro no pedal de meu triciclo, fui traída e pega na ladeira por minha irmã do meio). Dessa vez não!
Atravesso o bloco com a minha mochilinha vermelha dos Gremilins nas costas, com o andar apressado. Ele pergunta e eu conto o que vou fazer. Ele está de bobeira embaixo do bloco e, como não há nada mais interessante, resolve fugir de casa comigo.
No ponto da 11, ficamos esperando o tal “ônibus para fugir de casa” por minutos a fio. O caso é que se esse ônibus realmente existisse, entretanto, não faria diferença, afinal não éramos ainda alfabetizados.
Amauri, um dos amigos de minha irmã adolescente, passa e estranha nossa presença na parada de ônibus, sem adultos, com os rostos ansiosos e de mochila. Faz a pergunta óbvia e é igualmente óbvio que Leonardo não segurou a língua na boca e nos entregou. Fomos “escoltados” de volta para casa. Saldo da missão: projeto novamente fracassado e uma vontade enorme de dar um belo de um chute na besta do Leonardo! Grrr...
Mas a lerdeza de Léo não me fez só passar raiva na infância, não. Às vezes – sinto muito! -, ríamos disso também.
Uma vez, queríamos jogar bets. Daniel, nosso amigo, tinha uns blocos de madeira, tipo LEGO, que seriam perfeitos como casinha. Gritamos. Ele apareceu na janela. Com preguiça de descer três andares, avisa para nos afastarmos, que ele vai jogar os blocos dali mesmo. Leonardo ouve, vê o bloco caindo, continua no mesmo lugar e leva um deles na testa, que começa a sangrar. Ele chora copiosamente, põe a mão no machucado e olha o dedo sujo de sangue. Ninguém consegue ajudá-lo direito, pois a cena, de comédia B americana, foi tão incrível que só nos restou cair na gargalhada. Naquele dia, ficou zangado, e acho que não foi muito por causa da nossa reação, não. Suspeito que tenha se convencido, finalmente, de que era realmente um burro e não gostou nada nada dessa epifania![risos]
Um dia, quando a gente devia ter por volta de sete anos, Leonardo foi embora. O pai finalmente descobrira a infidelidade da esposa e resolveu se separar dela. Leonardo seguiria com um dos pais, o que duplicou o nosso nó na garganta: não só seria o nosso primeiro adeus a alguém, na vida, como aquilo significaria um destino incerto para o nosso amigo.
Nunca mais soube dele. Meses após a sua partida, Cebolinha se mudou e, meses depois disso, eu também me mudei. Por algum tempo, perguntei por ele a conhecidos do bloco, mas já sabendo que ninguém saberia me dizer algo a respeito. Sinceramente, das pessoas que já passaram e não deixaram rastro, é o único de quem gostaria de ter notícias (dos outros, não é que não queira mas tanto faz). Uma meia dúzia de vezes, desde então, pensei nele. Espero que tenha crescido bem, que venha tendo uma boa vida, que tenha conservado a boa índole e tido boas oportunidades para sair da pobreza. Se o menino é realmente o pai do homem, Léo deve ter se tornado um sujeito ultra do bem – apenas espero que um pouco mais esperto, porque do jeito que era, pô!, seria de lascar continuar! hahaha
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