segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

GINO

“Picaaaaaaaas, tchê!”. Ninguém nunca entendeu o que tão exótica saudação significava - mas também ninguém nunca se interessou em perguntar. Da figura em questão, esperava-se qualquer coisa, inclusive frases absurdas. Eu tenho a minha teoria sobre o bordão do personagem deste post, porém isso não vem ao caso... O “criativo” autor da frase acima é o vô Gino, amigo da família desde 1900 e lá vai fumaça, a quem minha irmã mais velha cresceu chamando de vô, e, por tabela, se tornou meu avô e de minha outra irmã, também.

Ginobaldo Simões dos Santos nasceu em Ilhéus, a 28 de abril de 1928. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo. Queria trabalhar com aviões e em não muito tempo, conseguiu realizar o seu sonho: virou mecânico de aeronaves. Casou-se, teve duas filhas. Separou-se e foi para Brasília levado por uma nova namorada. E depois arranjou, por lá, outra, que pra azar de tia Marinalva era ela, a própria.

Aqui vai minha primeira alfinetada em Gino – o Baldo: não o desejaria a minha pior inimiga. No duro! Com vô Gino e Tia Marinalva percebi, 15 anos antes de seu Marquinhos, pai de Julia, nos dizer que mulher namora qualquer um, “e só não investe na cobra porque não dá pra saber o sexo do animal”, que a falta de critério no amor é uma falha do cromossomo X.

Minha tia, que era uma mulher risonha, bem-sucedida e elegante, nos anos seguintes, com Gino, perdeu tudo... menos o bom-humor, graças a Deus! Mas todo mundo dizia, pelas costas: “Gino acabou com a Marinalva! Coitada!...”.

Um dia, já adolescente, e cansada de saber dos casinhos de dr. Gino, perguntei a minha mãe como é que um sujeito velho, barrigudo, chato, bruto, pobre, etc, etc, conseguia ter esposa e ainda amante. Minha mãe ficou muda. Realmente, era um afronto à lógica.

É. Não adianta querer discutir o sexo dos anjos. O caso é que, com o tempo, a gente entende que mulher ama diferente de homem, e no fim são eles que se dão bem: o cara pode ser um traste e a mulher o quer porque ele desperta nela “aquele sentimento”; o homem pode não sentir nada pela mulher, mas ele a quer porque “ela é conveniente na vida dele”... e só enquanto não surge outra melhor. Que diabos o Gino despertava na Marinalva, eu nunca entendi. Carma? Amarração para o amor? Autoflagelação? Falta do que fazer? Vá saber...

Baldo, o Gino, é a cara do Natal. Todos os de minha infância me trazem a lembrança dele. Uma vez, me perguntou o que queria ganhar. Tentei exercitar a minha humildade goiana, e num ato de hipocrisia pura, disse: “Ah, vô, qualquer coisa. O que você quiser me dar!”. E ele obedeceu, sem a menor cerimônia: me deu uns papéis de carta, que eu odiei, mas sorri, agradeci a lembrancinha, enquanto dizia, em pensamento, pra mim mesma: “Otááária! Toooma pra aprender!”. No ano seguinte, entretanto, me vinguei: pedi o LP do Bozo – e ele que se virasse pra achar essa “raridade” pelas lojas de Brasília. Pra minha surpresa, ele comprou.

Foi surpresa mesmo, porque Gino era conhecido pela sovinice crônica. Era padrinho de minha irmã do meio. Quase nunca dava presente. No seu aniversário de quatorze anos, lhe deu um cheque que deveria equivaler a uns R$ 20, hoje. Minha irmã nunca conseguiu descontá-lo. Quando chegava perto do dia combinado, ligava Gino [nessa época, já residindo no Rio de Janeiro]: “Ó, não desconta, não! Segura aí!”. Minha irmã passou várias semanas “segurando aí”. Um dia, mandou um recado via meu pai: “Diga ao vô que o que ele gastou de interurbano me mandando não descontar o cheque, já dá o dobro do valor”.

Suas férias, depois que a gente se mudou pra Bahia, passaram a ser total free. Olha que moleza: A Vasp dava direito às passagens, e ele ficava aqui em casa, de boa, sem fazer nada. Se fosse só isso...

Gino passava dois meses aqui – de março a maio – e eu demorava mais dois meses pra me recuperar psicologicamente disso. Primeiro, que ele grudava no banco da frente do carro de meu pai. Segundo, que o sujeito acordava às cinco da manhã e tomava uma chuveirada – que por vezes nos acordava -, de uns 40 minutos. Depois, pegava todas as verduras da geladeira, metia na centrífuga pra fazer um único copo de vitamina. Não é exagero, não: era uma cacetada de coisas pra render um misero copinho! E se a gente desse o azar de cruzar com ele na cozinha, nessa hora, ele sacava uma tabela com as “propriedades” de sua receita matutina e dava uma “aula” de nutrição.

Sim, ainda tinha essa: era metido a sabichão. Quando Renata e eu começamos no inglês, um dia foi nos buscar com meu pai. Tirou a maior onda:

- Porque quando eu estudava inglês, a gente não conversava em português nem no intervalo! Quero ver se vocês sabem: I am, you are, he is...

Não passava disso. Um dia, minha irmã não se agüentou e me puxou pela gola, no banco de trás:

- Ele sabe inglês coisa nenhuma! Já reparou que ele não sai nunca do verbo To Be?!

Era todo cheio dos apetrechos semi-inúteis. A primeira vez que vi uma mão de plástico [pra coçar as costas] foi na casa dele. Uma vez, nos presenteou com um “mexedor de bebidas”. Coisa “utilíssima”, afinal é uma tarefa e tanto mexer o café com leite, o toddy... Mas o pior é que o treco era viciante. Ganhei por volta de 96 e ele se foi mais ou menos em 2000. Gastei pilhas e pilhas só pra ver aquele trequinho mexendo os líquidos. Confesso: até que era massa! hehe

Ninguém merecia aquela criatura... Que, acima de tudo, nos fazia passar vergonha. A barriga de Gino podia ser vista a 10 km. Minhas colegas, na saída da escola - quando mais uma vez ele estava grudado no banco da frente -, ao ver tão extensa pança, me perguntavam, com um risinho de canto de boca:

- Aquele lá é o seu avô, é?

Eu só balançava a cabeça afirmativamente.

Durante uma temporada, a barriga tava tão grande que a turma da praia o apelidou de “Ginossauro”. Ainda assim, Gino se achava “o delícia”...

Ainda por cima, o figura era sonâmbulo. Morávamos em prédio, e havia uma italianada chata pra burro, dona de restaurante, que chegava muito tarde – coincidentemente, quando nosso agregado resolvia dar umas “voltinhas” debaixo do bloco, durante o sono. Perdi as contas de quantas vezes fomos “caçá-lo” pra que o povo não desse de cara com ele zanzando por aí [sabe-se lá em que traje!]...

Um dia, o mico foi dentro de casa mesmo.

Feira das Nações, sabem como é: vários detalhes para resolver de véspera. Minha irmã convidou a amiga para dormir lá em casa. Conversa vai, conversa vem, e eu vou no quarto. Quem eu encontro lá, no colchão onde ia dormir a menina? Gino, chutando o Baldo das boas maneiras: roncando pra caramba, deitado de bruços [quase uma gangorra humana, porque a pança, tocando o chão, criava um desequilíbrio tremendo entre as partes do corpo]. Chocada com a cena dantesca, chamei as meninas. Minha irmã caiu na risada. A amiga ficou toda sem graça. Eu fiquei refletindo sobre as implicações da posição gangorra de “seu” Gino – acordo ou não acordo ele pra se ajeitar nessa zorra?

Digo e repito: ninguém merecia aquela criatura de hóspede! Por isso, após anos comendo o pão que o diabo amassou, de março a maio, resolvi apelar a Deus, nosso Senhor. Rezei, rezei e rezei muito, dois meses antes da data fatídica. Um dia, toca o telefone. Era Gino avisando que não ia poder vir, que FHC havia tirado o direito a passagem, e blábláblá... Nossa, aquilo pra mim foi final de Liga Mundial! Desculpem-me os politicamente corretos, mas eu sambei no meu quarto, de felicidade! Dididipá!...

No ano seguinte, minha fé foi um pouco longe demais: Gino novamente não poderia vir, mas porque faleceu. Fiquei um pouco desconfiada. “Será que foi por que rezei pra ele não vir?” Minha mãe, impressionadíssima com a coincidência, ficou dizendo “Ta vendo! Ta vendo! Olha só o que você foi arranjar com essa sua brincadeira!...”. Meu melhor amigo, “chocado”, apenas perguntou: “Juliana, mas que porra foi essa que você fez?!”. Mas, claro, sarros à parte, Gino partiu dessa para a melhor porque abusou demais de seu organismo em vida – “prefiro não comentar”. O estrago que os maus hábitos fizeram em seu organismo foi tão grande, que nem “as propriedades” de sua "santa" vitamina matinal puderam evitar.

Anos mais tarde, eu que não sou nem um pouco de sonhar, sonhei com ele. O mesmo físico, mas uma expressão relaxada, feliz, que não batia muito com o Gino da vida real – um cínico de carteirinha. Ele estava muito bem. Fiquei feliz por ele e por mim - pelo visto, já liberada da maldição [rs]. E que ele não me escute, mas até que faz um pouquinho de falta sim - muiiito de vez em quando, mas faz. Só um pouquinho.

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