Bem antes da invasão faconiana à capital argentina, ele esteve lá - ou não!* Pousar em Buenos Aires não provoca a sensação de ter encontrado a Europa, como espalham os argentinos. O desembarque nos causa, isto sim, decepção. No aeroporto, taxistas barbaças, grosseiros e implicantes, tentam agarrar sua mala à força. Disputam o cliente como aquelas moças da nossa rua da Ajuda.
* No avião, faltou-me sorte. Como fiz escala em SP, entrou no meu vôo a torcida do River Plate, que não sabe cantar Mi Buenos Aires Querido. Músicas impublicáveis, até lembram o repertório de minha amiga Ingrid Campos na festa do Divino. A aeromoça, uma paulista de Diadema, era chamada aos gritos de brasileña putona, causando a revolta dos passageiros. Sinceramente, dormi. Xiitas de qualquer área, esporte a política, causam-me aquele estranhamento de Montesquieu diante dos persas.
* É possível ser argentino?
* Comentadíssima a compra de deputados no Brasil. No "argentinês", é chamado de mensalón e, segundo li, o diário francês Le Figaro chamou-o de "pot-de-vin", o que revela, mais uma vez, a superioridade política dos franceses.
* Fui a três restaurantes e me senti furtado em todos eles. Las Violetas, especializado em comida mediterrânea, serve umas pastas ordinárias, que mais parecem vômito de navegador do mar Cáspio. El Mirasol de la Recova tem preço e comida mais palatáveis, é frequentado por estudantes, executivos e brasileiros fodidos em matéria de dinheiro. Gostei mais do Anima Bantu, na rua Armenia, num bairro antes ocupado por prostitutas e hoje muito bem aproveitado, com casas de shows. Serve comida típica argentina: carne de boi, saladas e atum. Não comi nada, detesto comida típica.
* Durante a noite, Buenos Aires se despe. Há poucos argentinos na rua, o que amplia a sua beleza. Recomendo um passeio pelo bairro Boca, onde, por acaso, vi Menem passar de carro. Num bar que estava aberto, dois velhinhos me perguntaram como o ex-presidente era visto no Brasil. "Ladrão e contrabandista", resumi. Os dois concordaram. Mas não quis perguntar o que achavam de Lula e Fernando Henrique.
* Jorge Luís Borges goza de boa fama literária, mas o argentino médio, como o brasileiro e americano médios, são aquilo que H.L. Menken qualificou de boobies. Uns bobões, jecas, ignorantes. Do Brasil, conhecem bem Paulo Coelho, Pelé e Xuxa, popularíssima por lá - cheguei a vê-la num programa de televisão, cercada de anões.
* Visitei a Biblioteca Nacional de Buenos Aires, onde Borges trabalhou. Ganhava quetiliquê, quase nada, trabalhava apenas para dar leite à mãe. Um dia, recebeu de presente uma garrafa de vinho, oferecida pelo governo argentino aos funcionários públicos. Saiu do trabalho humilhado - sonhava com Dante, Melville, Shakespeare, e se via perdido numa estrutura burocrática. Preferiu ser enterrado na Suíça. Se eu tivesse nascido em Feira de Santana, também preferiria um enterro justo em Genebra.
* Na Biblioteca Nacional, há de tudo sobre a cultura brasileira. Impressionante. Vi exposta a primeira edição de Braz Cubas, autografada para Nabuco. Não sei como foi parar lá. Sociologia, história e literatura são as áreas mais contempladas. Dá para fazer uma tese sobre Lima Barreto sem recorrer ao correio aéreo.
* Não se pode perder: a Plaza de Mayo, no cair da noite; a Recoleta, pela manhã; o bosque de Palermo, pela tarde; o Centro, à noite. Quase fui assaltado no bosque. Na Argentina, ao contrário da Bósnia, não é possível dizer "Sou da terra de Pelé". São capazes de levar a nossa cueca.
* Bomba! Perguntei a um jovem torcedor do Boca a impressão que lhe passava Maradona. "Quase não vem por aqui, está de caso com Fidel. Tenho um amigo que o conhece. Ele garante que Maradona e Fidel já...".
Depois eu conto.
Abraços,
Claudio.(04/07/2005)
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