Esse texto, de Ivan Martins, foi um divisor de águas na minha compreensão sobre a vida. O que for pra ser da gente pode até nos exigir energia e coragem, mas nunca insistência, humilhação. Vai chegar quando tiver que chegar.
E por falar nesta coluna, revendo alguns textos dela - ele acaba de lançar um blog -, me deparei com um que me rendeu outra epifania: se por um lado as pessoas não me enxergam por uma ilusão de que estão fazendo isso, criada pelo egoísmo, eu também não as enxergo, sempre as vejo melhores do que são (para a minha conveniência), pela lente deformada da generosidade. Dr. Gikovate tinha razão: as duas características são farinha do mesmo saco. Segue o link: https://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2016/07/que-tal-olhar-para-o-outro.html
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
sábado, 19 de maio de 2018
Casamento e separações
2018: o ano em que todo mundo resolveu se separar, menos o Harry e a Meghan, que não estão no Canadá, mas casaram na capital do ex-império hoje.
Tomara que dure, mas, mesmo que não, o importante é que seja bom. E que aprendam com o que não foi.
A vida é assim: início, meio e fim. Pena que as pessoas achem que um casal é fusão de dois em um. Acho que é isso que estraga tudo. Não deveríamos desumanizar quem dizemos amar. Por mais tentador que seja, especialmente se você adora comédias românticas, não seja essa pessoa, senão você vai ter dois problemas ao se separar.
Tomara que dure, mas, mesmo que não, o importante é que seja bom. E que aprendam com o que não foi.
A vida é assim: início, meio e fim. Pena que as pessoas achem que um casal é fusão de dois em um. Acho que é isso que estraga tudo. Não deveríamos desumanizar quem dizemos amar. Por mais tentador que seja, especialmente se você adora comédias românticas, não seja essa pessoa, senão você vai ter dois problemas ao se separar.
domingo, 13 de maio de 2018
... Ainda exista amor pra recomeçar!
Para Felipe, Luísa e Beatriz, a quem eu desejo alegria e resiliência para atravessar essa vida.
A vida bate forte.
Às vezes, bate muito forte, tanto que a gente nem acha que vai aguentar. Vez ou outra, a gente beija a lona e nem dá vontade de levantar pra poupar uma nova viagem de volta ao chão. Eu não poderia falar sobre como parar de doer, mas acho que posso falar de como aguentar. Ô!... Só eu e Deus sabemos.
Para aguentar e atravessar o desespero, é preciso se gostar, achar que você vale a pena. A gente só luta por algo que tem relevância, valor. O caso é que a maioria de nós depende muito, excessivamente do retorno externo. Não somos estimulados ao fortalecimento interno, não vemos graça nas vitórias ocultas, sem plateia. É a senha para a baixa autoestima, para o cinismo, para a descrença em si, para a vontade de desistir e até para maldade em alguns casos.
Somos seres sociais, eu também sou, mas, desde criancinha, a última palavra, a que realmente conta é a minha. Mesmo quando eu era elogiada, se aquele elogio não passasse pelo meu próprio crivo, entrava por um ouvido e saia pelo outro. Passei por muitas provações, sofri muitas decepções, passei fases duríssimas sem uma viva alma para me dar suporte - pelo contrário, nessas horas ainda descobri a indiferença de quem eu mais esperava acolhimento. Poderia ter feito muita coisa ruim, com os outros ou comigo, a partir disso, mas resisti. Resisti e persisti porque produzi uma relação de admiração comigo mesma, eu acho que valho a pena e sinto que, um dia, o que eu plantei, vou colher - e plantei coisas bonitas, eu sei. Eu ainda não tenho "resultados", mas eu tenho valores e uma coleção de boas atitudes para me orgulhar - e um diferencial: eu cuido das pessoas. Quem me tiver na vida, tem sorte. Pena que pouquíssima gente se toca disso - justamente porque as pessoas vão atrás de quem vai "agregar ao camarote", do externo, do status -, mas hoje sei que isso é problema delas, não meu (confesso que também demorei). Bato a cabeça no travesseiro e sei que ser humano eu sou, e basta por hora.
Admirar a pessoa que eu me tornei não tem a ver com perfeição. Não preciso ser só qualidades para ser digna da minha própria estima ou do amor de qualquer pessoa. Tentar de verdade, ter boa intenção e buscar o aprendizado, enfim, estar na direção da positividade já dá lastro para isso. O ótimo não pode ser inimigo do bom, sacou?
Se admirar também não tem a ver com o que os outros acham de você, porque muitas vezes isso é reflexo deles e não o resultado de uma atenção de fato a quem você é. Quantas pessoas do seu entorno realmente tem olhos pra você? Digo, gente que sabe ver sua luz e sua sombra? Pouca gente mesmo vai ter condição de te dar um feedback. Saiba filtrar, não se impressione com qualquer opinião, boa ou ruim.
Se admirar também não tem a ver com o que os outros acham de você, porque muitas vezes isso é reflexo deles e não o resultado de uma atenção de fato a quem você é. Quantas pessoas do seu entorno realmente tem olhos pra você? Digo, gente que sabe ver sua luz e sua sombra? Pouca gente mesmo vai ter condição de te dar um feedback. Saiba filtrar, não se impressione com qualquer opinião, boa ou ruim.
Mas ter a consciência de si não é algo rápido nem fácil. É o investimento de uma vida inteira, é a construção de uma relação de respeito, amor e paciência para consigo mesmo, a única pessoa que não rende elogios nas redes sociais nem testemunho da nossa grandeza. Integridade, nesta sociedade de hoje, não rende plateia. E é difícil ver luz interna especialmente nos momentos de dificuldade, quando tudo parece ruim, inclusive a gente. Bem, não vai ter tapinhas nas costas, mas na hora do aperto, quando você lembrar quem é você, vai sentir que um histórico assim não é de se jogar fora, muito menos no lixo. Vai ter fé em um final feliz pra essa heroína do dia a dia. Vai ter orgulho de ser você até nos piores dias.
sexta-feira, 11 de maio de 2018
A falácia do bom rapaz (a máscara que esconde um machistão)
Minha geração de mulheres é uma geração de transição. Foi a gente que inaugurou o ficar de modo massivo, no início dos anos 1990, e naturalizou o ser mais livre nas relações amorosas. Mas a gente também foi criada com uma visão bem tradicional sobre os relacionamentos. O resultado é que crescemos e vivemos com "mixed emotions".
A gente ainda tem na mente os modelos de "mulher para casar" e do "bom rapaz". Eu, por exemplo, demorei à beça para perceber a esparrela contida nesses tipos e algumas de nós nem vislumbra que se trata de uma armadilha. Conheço várias mulheres esclarecidas que botam fé na boa mocice delas e na cara falsa de bom rapaz deles. Oh, coitadas!...
A tal mulher pra casar e os homens. Na juventude, aquele olhar comedor, que olha e examina de cima a baixo, que também admira a conduta, mas, sabe como é, "na volta a gente compra", não é hora pra isso. A boa moça é aquela com quem não se esculhamba, pois com essas o sujeito não se casa, só curte a vida. A boa moça é aquela que, depois do cara se lambuzar com tudo que a liberdade sexual tem para oferecer a um macho alfa, se ela ainda estiver por aí, ele casa. Ou isso, ou o cara já quer casar com ela com 20, para garantir... E ela vai cuidar dele e dos filhos, afinal, as boas mulheres são para isso; é a recompensa pelo favor do casamento, esse sacrifício feito pelo homem.
Eu passei muito tempo achando que isso era bom, que ser a "mulher pra curtir" era ser desumanizada pelos homens, mas percebi que, quando se trata do cara errado, não existe respeito seja lá o que faça uma mulher.
O bom rapaz que procura a mulher para casar não vê nela um outro ser humano igual a ele - quiça porque nem ele se vê como ser humano -, mas uma aquisição. Ele é incapaz de amá-la, pois, justamente, não consegue reconhecer a humanidade dela. Sabe cão de estimação? Pois é, a mulher é isso: um ser fofinho, amável, mas a serviço do dono sempre. É como um carro: atende uma expectativa do dono, significa um status social e é, sobretudo, uma posse. Não é lisonjeiro ser a mulher pra casar ou qualquer mulher de homem machista. É bem triste.
Agradeço às deusas nunca ter ido adiante com nenhum bom rapaz. :)
PS.: A boa moça também não existe, é deformação cultural, tipo pé de bailarina esmagado pela sapatilha apertada.
A gente ainda tem na mente os modelos de "mulher para casar" e do "bom rapaz". Eu, por exemplo, demorei à beça para perceber a esparrela contida nesses tipos e algumas de nós nem vislumbra que se trata de uma armadilha. Conheço várias mulheres esclarecidas que botam fé na boa mocice delas e na cara falsa de bom rapaz deles. Oh, coitadas!...
A tal mulher pra casar e os homens. Na juventude, aquele olhar comedor, que olha e examina de cima a baixo, que também admira a conduta, mas, sabe como é, "na volta a gente compra", não é hora pra isso. A boa moça é aquela com quem não se esculhamba, pois com essas o sujeito não se casa, só curte a vida. A boa moça é aquela que, depois do cara se lambuzar com tudo que a liberdade sexual tem para oferecer a um macho alfa, se ela ainda estiver por aí, ele casa. Ou isso, ou o cara já quer casar com ela com 20, para garantir... E ela vai cuidar dele e dos filhos, afinal, as boas mulheres são para isso; é a recompensa pelo favor do casamento, esse sacrifício feito pelo homem.
Eu passei muito tempo achando que isso era bom, que ser a "mulher pra curtir" era ser desumanizada pelos homens, mas percebi que, quando se trata do cara errado, não existe respeito seja lá o que faça uma mulher.
O bom rapaz que procura a mulher para casar não vê nela um outro ser humano igual a ele - quiça porque nem ele se vê como ser humano -, mas uma aquisição. Ele é incapaz de amá-la, pois, justamente, não consegue reconhecer a humanidade dela. Sabe cão de estimação? Pois é, a mulher é isso: um ser fofinho, amável, mas a serviço do dono sempre. É como um carro: atende uma expectativa do dono, significa um status social e é, sobretudo, uma posse. Não é lisonjeiro ser a mulher pra casar ou qualquer mulher de homem machista. É bem triste.
Agradeço às deusas nunca ter ido adiante com nenhum bom rapaz. :)
PS.: A boa moça também não existe, é deformação cultural, tipo pé de bailarina esmagado pela sapatilha apertada.
quarta-feira, 9 de maio de 2018
Eu ainda gosto de Daniel Cleaver
Eu sempre torci por Darcy, mas continuo me encantando com Daniel Cleaver - quem conhece Bridget Jones me entenderá.
Não amadureci tanto assim, pelo visto. Mas cafas, como Daniel, não são tão ruins como parece. Eles dão algo à mulher pelo menos: um pouco de romance, charme, fantasia, enfim, mentiras sinceras. Reclamava-se deles, mas hoje os homens igualmente não prestam, porém nem dão nada.
Sempre pode piorar.
terça-feira, 1 de maio de 2018
Antipatia aos dois extremos
Percebi que tenho antipatia a dois tipos de pessoas:
1) As que acham que todo mundo tem que dar conta, sem direito a fraquejar de vez em quando ou desistir. No c* é refresco, né, santa?!
2) Gente autoindulgente que não sabe se dizer "Não". Desculpa, você é um mimado e vai se lascar se continuar assim, porque a vida exige, em alguns momentos, disciplina e resiliência.
1) As que acham que todo mundo tem que dar conta, sem direito a fraquejar de vez em quando ou desistir. No c* é refresco, né, santa?!
2) Gente autoindulgente que não sabe se dizer "Não". Desculpa, você é um mimado e vai se lascar se continuar assim, porque a vida exige, em alguns momentos, disciplina e resiliência.
sábado, 31 de março de 2018
I´m not dog, no...
... Pra viver nesse meio jornalístico onde só tem tapado!
Deus me defenda e me livre desse povo e ligeiro!
Eu NÃO aguento mais:
- Ir pras reuniões e o povo ficar se gabando, num estilo quase American Pie, de umas trepadas meia boca e de umas cachaças decadentes não sei onde e com não sei quem, quando não ficam comentando das trepadas e cachaças dos outros. O papo é só isso, sem quase variação.
- Os discursos politizados de quem não consegue nem ser generoso com quem tá do lado, nem com os próprios "amigos" e companheiros. Mas a pessoa jura que é consciente e vai salvar o mundo.
- Gente que trabalha em condições horrorosas, quando muito ganha 3 mil reais, mas finge que está no melhor emprego do mundo. Finge porque, longe das redes sociais, abre o verbo e admite que é uma desgraça, que só não sai porque não tem outra coisa.
- Todo mundo bancando o digital influencer nas redes sociais, pra ver se ganha de graça. Affff!...
- Todo mundo só ler, ouvir e assistir as mesmas coisas validadas pelos pares. É impressionante esta "coincidência"...
- As piadas altamente sem graça dos machos dessa profissão. Gente, quando é que vocês vão aprender que chamar o outro de "viado" não é engraçado, que substituir o "u" pelo "ivis" é sem graça de chorar e que ninguém mais suporta comentários do tipo, quando aparece uma foto dos "ômi" reunidos: "Isso é formação de quadrilha". Um bocado de menino amarelo e é formação de quadrilha?! Se compreendam! Tá mais pra Clube Cremogema!...
- As selfies diárias de uma certa turma nas redes sociais.
- As histórias sem graça de uma mulherada que trata os filhos como a coisa mais interessante da galáxia, sendo que são crianças absolutamente comuns, sem nada de especial.
- Gente superficial, que não tá nem aí pra você, que provavelmente vai descer a madeira em você assim que virar as costas e, pior, que ainda acha que está te enganando ao se fingir de legal, de amigo. Ô, gente!... Além de chatos, pretensiosos. Pior raça.
Não está sendo fácil. Preciso passar em um concurso urgentemente.
Deus me defenda e me livre desse povo e ligeiro!
Eu NÃO aguento mais:
- Ir pras reuniões e o povo ficar se gabando, num estilo quase American Pie, de umas trepadas meia boca e de umas cachaças decadentes não sei onde e com não sei quem, quando não ficam comentando das trepadas e cachaças dos outros. O papo é só isso, sem quase variação.
- Os discursos politizados de quem não consegue nem ser generoso com quem tá do lado, nem com os próprios "amigos" e companheiros. Mas a pessoa jura que é consciente e vai salvar o mundo.
- Gente que trabalha em condições horrorosas, quando muito ganha 3 mil reais, mas finge que está no melhor emprego do mundo. Finge porque, longe das redes sociais, abre o verbo e admite que é uma desgraça, que só não sai porque não tem outra coisa.
- Todo mundo bancando o digital influencer nas redes sociais, pra ver se ganha de graça. Affff!...
- Todo mundo só ler, ouvir e assistir as mesmas coisas validadas pelos pares. É impressionante esta "coincidência"...
- As piadas altamente sem graça dos machos dessa profissão. Gente, quando é que vocês vão aprender que chamar o outro de "viado" não é engraçado, que substituir o "u" pelo "ivis" é sem graça de chorar e que ninguém mais suporta comentários do tipo, quando aparece uma foto dos "ômi" reunidos: "Isso é formação de quadrilha". Um bocado de menino amarelo e é formação de quadrilha?! Se compreendam! Tá mais pra Clube Cremogema!...
- As selfies diárias de uma certa turma nas redes sociais.
- As histórias sem graça de uma mulherada que trata os filhos como a coisa mais interessante da galáxia, sendo que são crianças absolutamente comuns, sem nada de especial.
- Gente superficial, que não tá nem aí pra você, que provavelmente vai descer a madeira em você assim que virar as costas e, pior, que ainda acha que está te enganando ao se fingir de legal, de amigo. Ô, gente!... Além de chatos, pretensiosos. Pior raça.
Não está sendo fácil. Preciso passar em um concurso urgentemente.
quinta-feira, 29 de março de 2018
Nem tudo é sobre você
Ok, lendo as colunas antigas de Ivan Martins, caiu a minha ficha de que o egoísmo é a regra nas relações sociais e que nós, brasileiros, como ele bem disse no texto "Brutalidade afetiva", agimos movidos por sentimentos, não por valores (frase perfeita! tô quase tatuando...). Mas uma expressão quase nunca percebida desse egoísmo me dá uma agonia secreta, que é achar que é tudo sempre sobre si mesmo, o famoso egocentrismo.
Exemplo: todo mundo acha que está sendo o tempo todo invejado, agredido, sabotado pelos outros. Partindo do pressuposto que é verdade, mesmo assim, nem sempre o sofrimento do próximo tem a ver com você. Às vezes você é apenas o fio condutor de outra coisa, um mero catalizador, na verdade, não passa de um coadjuvante nessa história.
Desde a adolescência, eu sei quando minha mãe quer realmente me atingir ou quando ela faz isso por uma questão de oportunidade, ou seja, não poder descontar no alvo e acaba descontando em mim, a pessoa mais próxima. Mas esse não é bem o exemplo do que eu quero falar...
Vejamos um exemplo melhor: quando fiz vestibular pra Jornalismo, minha melhor amiga na época e uma outra amiga em comum fizeram também. De nós três, a minha melhor amiga era a mais a fim da carreira, pois o pai era jornalista, e foi justo ela que não passou nem na primeira fase da UFBA. Fiquei sabendo que ela ligou pra outra amiga pra desejar os parabéns, mas para mim não disse nada. Pelo contrário, ainda fingiu não ter me visto numa festa três dias depois do resultado só pra não ter que me dar os parabéns. Eu forcei ela a me ver, hehe. Lógico que essa situação revelou algo sobre a nossa "amizade": ela não me considerava nem o suficiente para disfarçar o orgulho ferido e fazer o que tinha que ser feito, que era me cumprimentar. Ou seja, a amizade era unilateral, era minha, a afeição dela era bem fraca. Mas, ali, o sofrimento principal era ela se achar burra, era ela mais uma vez ficando para trás de mim academicamente, só que agora valia algo que ela queria muito. Era o complexo dela, iniciado com os pais, que sempre compararam ela com a irmã, que ela achava mais inteligente (mas só passava colando), bonita, e etc. Era ela se confirmando burra, coisa que ela sempre pensou de si mesma.
Agora vai: sabe aquela pessoa que toda vida foi gorda e que, com perseverança, perde 25 kg e a galera mais próxima começa a detonar, dizendo que a pessoa tá exagerando, que isso e aquilo? É isso, as pessoas não estão exatamente bravas com você, mas com o que o seu exemplo fez elas verem sobre elas mesmas. O azedume não é com você, é interno, com a própria falta de decisão, de força de vontade. Isso, claro, mostra a falta de generosidade delas com você, mas, aceite, não é sobre você. Não se dê tanta importância. É igualmente feio e egoísta.
Exemplo: todo mundo acha que está sendo o tempo todo invejado, agredido, sabotado pelos outros. Partindo do pressuposto que é verdade, mesmo assim, nem sempre o sofrimento do próximo tem a ver com você. Às vezes você é apenas o fio condutor de outra coisa, um mero catalizador, na verdade, não passa de um coadjuvante nessa história.
Desde a adolescência, eu sei quando minha mãe quer realmente me atingir ou quando ela faz isso por uma questão de oportunidade, ou seja, não poder descontar no alvo e acaba descontando em mim, a pessoa mais próxima. Mas esse não é bem o exemplo do que eu quero falar...
Vejamos um exemplo melhor: quando fiz vestibular pra Jornalismo, minha melhor amiga na época e uma outra amiga em comum fizeram também. De nós três, a minha melhor amiga era a mais a fim da carreira, pois o pai era jornalista, e foi justo ela que não passou nem na primeira fase da UFBA. Fiquei sabendo que ela ligou pra outra amiga pra desejar os parabéns, mas para mim não disse nada. Pelo contrário, ainda fingiu não ter me visto numa festa três dias depois do resultado só pra não ter que me dar os parabéns. Eu forcei ela a me ver, hehe. Lógico que essa situação revelou algo sobre a nossa "amizade": ela não me considerava nem o suficiente para disfarçar o orgulho ferido e fazer o que tinha que ser feito, que era me cumprimentar. Ou seja, a amizade era unilateral, era minha, a afeição dela era bem fraca. Mas, ali, o sofrimento principal era ela se achar burra, era ela mais uma vez ficando para trás de mim academicamente, só que agora valia algo que ela queria muito. Era o complexo dela, iniciado com os pais, que sempre compararam ela com a irmã, que ela achava mais inteligente (mas só passava colando), bonita, e etc. Era ela se confirmando burra, coisa que ela sempre pensou de si mesma.
Agora vai: sabe aquela pessoa que toda vida foi gorda e que, com perseverança, perde 25 kg e a galera mais próxima começa a detonar, dizendo que a pessoa tá exagerando, que isso e aquilo? É isso, as pessoas não estão exatamente bravas com você, mas com o que o seu exemplo fez elas verem sobre elas mesmas. O azedume não é com você, é interno, com a própria falta de decisão, de força de vontade. Isso, claro, mostra a falta de generosidade delas com você, mas, aceite, não é sobre você. Não se dê tanta importância. É igualmente feio e egoísta.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Cultura brasileira de descaso
Brutalidade afetiva
Não estamos acostumados a tratar o outro com o cuidado com que queremos ser tratados
Ivan Martins
Vistos de perto, somos uma gente descuidada e bruta no trato íntimo. Há pessoas preocupadas com os sentimentos dos outros, mas são minoria. No atacado, oferecemos um show coletivo de descaso e grosserias. A regra principal, que parece única, é assim: se eu estiver interessado, apaixonado ou com tesão, corro atrás e me desvelo. Se não estiver, ou se não estiver mais, azar. O outro será ignorado ou destratado.
Não estou fazendo uma queixa, embora pudesse. É mais uma autocrítica, inspirada pelas conversas com gente que vive fora do Brasil ou se relaciona com estrangeiros. As histórias que me contam fazem notar que temos por aqui pouca atenção e pouco respeito pelo outro – mesmo por pessoas que dividem seu corpo, seu tempo e seus sentimentos conosco. Achamos que a atenção e o carinho que recebemos são uma espécie de direito natural. Logo, não precisam ser retribuídos. Isso torna as delicadezas supérfluas.
Uma amiga que mora na Holanda foi transar com um cara de uns 40 anos – depois de saírem duas vezes – e, quando a noite se aproximava do desfecho, ele perguntou, delicadamente, se estaria bem para ela que fosse apenas sexo casual. Ele vinha de um relacionamento, ainda estava ligado a outra mulher e, embora muito atraído pela minha amiga, não queria magoá-la ou criar expectativas falsas. Um fofo, me disse ela. Transaram.
A parte cômica da história é que ela mesma não tinha vontade alguma de namorar, mas nem lhe passou pela cabeça dar o mesmo aviso. Na mentalidade brasileira, é cada um por si. A gente não diz coisas que possam atrapalhar nossos planos imediatos. Pegamos o que precisamos e o outro que se vire com os sentimentos dele. Se o holandês de minha amiga estivesse apaixonado e cheio de boas intenções, azar dele. Descobriria no dia seguinte que ela tinha outros planos.
Acho que isso revela um traço da cultura do país. Somos movidos por sentimentos, não por valores. Se eu gosto de alguém, se estiver apaixonado, faço por ele ou por ela o que estrangeiros não fariam. Sempre como um ato emocional. Mas, se os sentimentos não se manifestam, achamos não ter obrigação alguma para com o outro. eja amante, vizinho ou transeunte. Nossa famosa cordialidade é interessada, interesseira. Aparece quando queremos algo do outro. Sexo ou amor, frequentemente.
Esse modo de agir torna a brutalidade afetiva uma moeda corrente. Se saímos com alguém e não nos apaixonamos, o padrão de tratamento desaba. Antes, um príncipe. Depois, um desaparecido. Ou uma ogra de unhas vermelhas. A gente diz que vai telefonar e não telefona. A gente ignora mensagens diretas nas redes sociais. A gente cancela encontros na última hora. A gente trata mal, enfim. Tem gente que aparece com uma pessoa nova na frente daquela com quem estava até ontem, numa demonstração espantosa de descaso. Se alguém reclama, é mimimi. A coisa só fica séria quando fazem tudo isso com a gente. Então é intolerável.
Não estou dizendo – vejam bem – que a gente nunca vai desapontar ninguém e que toda transa deve terminar em relacionamento ou namoro. Isso seria impossível. O que estou dizendo é que as pessoas merecem nossa atenção e nosso cuidado mesmo quando não as desejamos mais, ou não estamos apaixonados por elas. O que estou dizendo, além disso, é que os sentimentos que são claros deveriam ser comunicados ao outro, sobretudo quando são contrários aos sentimentos que ele ou ela manifesta. Se a moça está ficando paixonada e você não, avise. Do contrário é sacanagem.
Na selvageria relacional em que vivemos, a sinceridade tem valor baixo. O que passa entre nós por gentileza é muitas vezes uma forma de enganar o outro. Na hora de seduzir, você não diz que está emocionalmente indisponível, apaixonado por outra mulher. Na hora de ficar com o cara gato, que é meio ingênuo mas tem bom coração, você finge que ele é o homem mais interessante do mundo. A verdade não faz parte cotidiana de nossa existência sexual e afetiva. Coisas que não são lisonjeiras (e podem afastar o outro da gente) são mencionadas apenas em momentos de crise. A gente só diz a verdade sob pressão.
Queremos tanto que gostem da gente que não nos importamos em iludir para sermos amados. Depois, quando o afeto dele ou dela não importa mais, nos tornamos francos. Quer dizer, insensíveis e até grosseiros.
Como toda cultura afetiva, a nossa deve ter vantagens e desvantagens. Talvez europeus e americanos sejam menos apaixonados do que nós. Talvez nossa intimidade seja mais rica. Não sei. Mas parece que eles têm códigos de conduta mais claros, que valem para todos os estados emocionais.
Lembro de uma amiga brasileira que vive na Itália contando que levou broncas em seus primeiros anos por lá. Dizia que telefonaria e não telefonava. Dizia que apareceria e não aparecia. Agia como apaixonada, sem estar. As pessoas ficavam bravas com ela. Não estão acostumadas a isso.
Aqui, é o contrário. Sofremos e praticamos todo tipo de desatenção. Na verdade, não estamos acostumados a tratar o outro com o cuidado com que desejamos ser tratados.
Que meda!
Um amigo meu foi demitido do A TARDE. Profissional bom, vai fazer falta, mas quem demitiu tá zero preocupada com isso. Foi aquela choradeira. Quando eu saí, não chorei. Acho que não desenvolvi uma conexão emocional com os meus empregos no jornalismo até então. Sei que quando a gente fala isso, parece que é "o" maduro, "o" foda, mas não é o caso. Se a pessoa analisar direitinho o que eu disse, vai ver que é falta de conexão com a profissão. As pessoas choram porque estão deixando o sonho pra trás. Quando eu saí do jornal, já não era mais meu sonho. Na verdade, eu temia ter que sobreviver do jornalismo, medo que persiste até hoje. Deus me ajude a encontrar solução pra isso.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Angústia
Tenho uma amiga que é terapeuta. Nós estávamos conversando sobre o caso da mãe de um amigo meu, sobre o equívoco de certas mulheres de se ferirem pra atingir o ex parceiro, quando, na verdade, faz-se uma grande homenagem ao traste. Concordamos que a melhor resposta é ser feliz. Quer deixar um ex puto? Viva feliz sem ele. Mata qualquer pessoa de recalque. Só cuidado porque ele pode querer voltar. Nesta hora, é bom apelar à lucidez pra não se iludir que isso é amor (spoiler: é posse, egoísmo puro). Quem ama, faz por onde... antes, não depois.
Minha amiga, que, claro, também atende homens, afirma que é outra cabeça, bem mais objetiva e pragmática. E isso às vezes dá angústia nela, pois a mulher é criada pra ficar super interpretando, perdoando (Quem nunca? Caí numa dessa para nunca mais. O pior é ver que se, na época, tivesse autoestima, isso nunca teria acontecido. Amor próprio salva a gente de tanta coisa ruim...). Contou o caso de uma paciente super apaixonada pelo namorado, já comprando tudo pra ir morar com a criatura, se gabando que ele cuidava dela e minha amiga, em conversa com ele, descobriu que o fulano não tá nem aí pra namorada. O cara disse, com todas as letras, que só é namorado dela, que não tem a ver com os problemas da criatura. O pai da mulher já sacou e briga com ela por causa do namorado furada, mas quem diz que ela quer acreditar? E minha amiga, que é a terapeuta, não pode contar, daí a angústia.
Eu conheço essa angústia. Quantas amigas, tias, primas, irmãs já caíram numa dessa, e não por falta de aviso, mas por falta de amor próprio mesmo? É angustiante você ver a criatura se diminuindo, sumindo pra caber na falta de grandeza do cara, comemorando migalha que o sujeito joga de vez em quando, se iludindo que é amor, que um dia vai mudar... Você quer até alertar, mas vai ser inútil. Temos, urgentemente, que aprender a usar a inteligência e a objetividade neste tipo de situação. Isso só gera dor, perda de tempo e a aniquilamento da autoestima. Temos que ter responsabilidade afetiva com os outros, mas principalmente com a gente. Quando as mulheres vão acordar, meu Deus? Espero estar viva pra ver esse dia.
Minha amiga, que, claro, também atende homens, afirma que é outra cabeça, bem mais objetiva e pragmática. E isso às vezes dá angústia nela, pois a mulher é criada pra ficar super interpretando, perdoando (Quem nunca? Caí numa dessa para nunca mais. O pior é ver que se, na época, tivesse autoestima, isso nunca teria acontecido. Amor próprio salva a gente de tanta coisa ruim...). Contou o caso de uma paciente super apaixonada pelo namorado, já comprando tudo pra ir morar com a criatura, se gabando que ele cuidava dela e minha amiga, em conversa com ele, descobriu que o fulano não tá nem aí pra namorada. O cara disse, com todas as letras, que só é namorado dela, que não tem a ver com os problemas da criatura. O pai da mulher já sacou e briga com ela por causa do namorado furada, mas quem diz que ela quer acreditar? E minha amiga, que é a terapeuta, não pode contar, daí a angústia.
Eu conheço essa angústia. Quantas amigas, tias, primas, irmãs já caíram numa dessa, e não por falta de aviso, mas por falta de amor próprio mesmo? É angustiante você ver a criatura se diminuindo, sumindo pra caber na falta de grandeza do cara, comemorando migalha que o sujeito joga de vez em quando, se iludindo que é amor, que um dia vai mudar... Você quer até alertar, mas vai ser inútil. Temos, urgentemente, que aprender a usar a inteligência e a objetividade neste tipo de situação. Isso só gera dor, perda de tempo e a aniquilamento da autoestima. Temos que ter responsabilidade afetiva com os outros, mas principalmente com a gente. Quando as mulheres vão acordar, meu Deus? Espero estar viva pra ver esse dia.
quarta-feira, 21 de março de 2018
Não sei opinar
Mais ou menos.
Eu tenho tido menos certezas, mas ainda tenho opinião, claro. Mas cada vez mais, acho que não devo externa-la. Primeiro, que as pessoas não ouvem quando se trata das vidas delas. Segundo, elas não têm empatia, quando não se trata das vidas delas, do que acontece com elas. Estão cada vez mais autocentradas, incapazes de trocar. E já percebi que eu não funciono bem em situações assim. Eu só me animo na troca. Sentir que é de mão única me dá um efeito kriptonita.
Eu tenho tido menos certezas, mas ainda tenho opinião, claro. Mas cada vez mais, acho que não devo externa-la. Primeiro, que as pessoas não ouvem quando se trata das vidas delas. Segundo, elas não têm empatia, quando não se trata das vidas delas, do que acontece com elas. Estão cada vez mais autocentradas, incapazes de trocar. E já percebi que eu não funciono bem em situações assim. Eu só me animo na troca. Sentir que é de mão única me dá um efeito kriptonita.
domingo, 18 de março de 2018
Pensamento político
Cada vez mais direita e esquerda se alinham em desonestidade e autoritarismo, mas eu ainda pendo à esquerda, pois ainda vejo um projeto coletivo. Na direita a mensagem é: salve-se quem puder. Como não acredito em meritocracia nem em uma sociedade só feita de gente excepcional, fico à esquerda mesmo.
Mas, no reino das fakes news, ando perdendo a esperança de que as pessoas tenham interesse na verdade. Meta: deixar esse tipo de discussão pra lá, não adianta tentar, insistir. Ou, como diz dona Jô, não adianta sentar cachorro em banco. Precisamos mesmo abraçar o fundo do poço. Eu agora tô pra jogo. Ah, chega!...
Mas, no reino das fakes news, ando perdendo a esperança de que as pessoas tenham interesse na verdade. Meta: deixar esse tipo de discussão pra lá, não adianta tentar, insistir. Ou, como diz dona Jô, não adianta sentar cachorro em banco. Precisamos mesmo abraçar o fundo do poço. Eu agora tô pra jogo. Ah, chega!...
sábado, 17 de março de 2018
Zen ni mim
Eu tenho um amigo que diz que, em Salvador, das duas, uma: ou você surta ou vira zen.
(Ele também adora repetir uma frase de Edifício Master: "A gente tenta ir de Piaget, mas, se não der, vamos de Pinochet". hehehe... Maravilhoso!)
Eu acho que tô ficando zen. Mentira, não é bem assim. Mas acho que estou ficando mais calma. Eu tive um bom teste essa semana e acho que me sai legal. Acontece tanta merda ao mesmo tempo que você acaba reagindo, como aqueles bonequinhos num videogame, mas eu tô conseguindo reagir com mais serenidade. Tô feliz com isso. Uma coisa que me frustrava muito era ser reativa e nervosa. Eu tô reativa e calma, falando num tom bom, mas continuo levando papo reto, o que não acho que é defeito; eu acho é que as pessoas se infantilizaram demais e não conseguem lidar mais com coisas que não sejam agradáveis. Nunca achei que tenho a obrigação de mentir para agradar (claro, nem todo contexto pede sinceridade), apenas de ser educada. Parto do pressuposto de que estou lidando com gente adulta, capaz de ouvir, processar e fazer autocrítica. Uma coisa que tô largando de mão aos poucos é de interferir quando acho que a pessoa está entrando numa roubada, mas não abro mão de me posicionar se esse algo está interferindo na minha vida. É meu direito. Quem não quer ser criticado, não faça merda (porque às vezes as pessoas estão conscientes de que estão sendo folgadas, mas esperam que você não aponte isso nelas, que seja educada. Ah, vá!...).
Meu próximo passo será jogar pra cima. Uma boa parte de eu ser reativa é porque me cobro uma resposta, uma eficiência, embora as pessoas façam solicitações às vezes difíceis, desgastantes e sem necessidade disso. Eu quero aprender a deixar essas pessoas na mão, pois acho que só assim elas aprendem e eu me poupo. Quero apertar o foda-se. Um dia meu eu superior chega lá, hehe.
terça-feira, 13 de março de 2018
25 teses sobre afeto
1 - Se você precisa insistir, talvez não seja para ser. O que é genuíno geralmente acontece espontaneamente.
2 - Mas deixar acontecer não é ser negligente. Quem não escolhe, será escolhido, ou seja, quem não toma decisões ficará ao exclusivo sabor do destino, que pode ser amargo.
3 - Apostar não é o mesmo que insistir. É ainda continuar achando que o outro vale a pena.
4 - Se você precisa cobrar, é porque não está havendo reciprocidade. Parece bastante óbvio, mas as coisas óbvias são as últimas que a gente enxerga quando queremos manter as pessoas das quais gostamos por perto.
5 - Se não está sendo recíproco, tudo bem. Mas também está tudo bem quem dá mais e não está recebendo querer ajustar sua conduta à realidade.
6 - Não perca tempo com gente sem amor próprio. Gente assim só valoriza justamente quem não tá nem aí para ela.
7 - Relacionamento não é feito para durar; raro é quando dura. As pessoas se juntam para ciclos.
8 - Para alguém se realizar muito, outro alguém geralmente tá pagando essa conta. A energia que se emprega em um setor da vida vai fazer falta em outro.
9 - Salvo exceções, besta é quem paga o preço no lugar do outro. Virtude nunca convenceu ninguém a ficar com ninguém. Em algumas circunstâncias, isso é até chantagem. Depois, quando ouvir um "Fez porque quis, ninguém te pediu nada", não vai poder nem questionar.
10 - Uma pessoa pode ser ótima em sociedade e escrota em seus relacionamentos. Uma coisa não exclui a outra.
11 - Tem homem que gosta de comer mulher, não de mulher.
12 - Tem mulher que gosta de estar em um relacionamento, não do homem que está nele.
13 - As crianças deveriam ser criadas em uma colônia gerida pelos 5% de pessoas equilibradas que existem no mundo.
14 - Aliás, ser criança só é bom se estiver cercada dos adultos certos.
15 - O pior tipo de gente é aquele que não se vincula a ninguém. Corra, Lola, corra!...
16 - O segundo pior tipo é o indiferente, que não repara, que não contribui em nada, que não lhe enxerga simplesmente.
17 - O terceiro é gente que vive para o que os outros vão dizer, que vive a vida para se aparecer pros outros, pra ficar bem na fita a qualquer custo. Fuja de quem não sabe o quer quer, de gente sem personalidade!
18 - Acredite menos no que as pessoas falam e mais no que elas fazem.
19 - Aliás, no fundo, ninguém engana ninguém. A gente é que quer desesperadamente acreditar no que convém.
20 - Todo mundo que já foi próximo de alguém sabe detectar aquele momento em que a pessoa muda a forma de te tratar. Não finja que você não viu; sente para conversar. Tenha timing. São a hipocrisia e o medo da mudança que fazem as pessoas chegarem às últimas consequências, terminando a história da pior forma possível, sendo expulsas do "paraíso" de qualquer jeito. Desamor é que nem fogo: se contido a tempo, produz menos danos.
21 - Se não dá pra ir de Piaget, o jeito é ir de Pinochet. Às vezes ser democrata demais lasca com a situação.
22 - Aprenda que o sofrimento também é pedagógico, pode ser produtivo. Deixar sofrer às vezes é o caminho pra pessoa melhorar, crescer. Ninguém evita os percalços na vida do outro, o que dá pra fazer é acolher, orientar.
23 - No que realmente importa, a gente é sempre só.
24 - A gente dá muito poder aos outros e pouco a si mesmo.
25 - As pessoas têm as suas limitações, mas ninguém é coitado. Antigamente, eu ficava jogando panos quentes quando a pessoa era sacana ou negligente comigo. Hoje em dia, quem fez a merda que dê jeito nela - isto é, quando achar que é importante consertar as coisas, pois nem todo mundo tem essa mesma opinião.
Não é ficção
Outro dia debatia com uma amiga sobre um meme que usava máximas ditas pelas mulheres, mas reforçando o estereótipo da chata, paranoica. Ela falou aquelas coisas: é construção social, é machismo, etc. Eu concordo, não tem como discordar. Mas eu vejo uma falha nesse discurso, que eu acho que (pra variar) não consegui explicar: o fato de ser uma construção social não implica em ser uma ficção. É até óbvio, pois se fosse ficção, não pegava tão forte assim. O preconceito sempre trabalha com uma meia verdade, fora de contexto, que unifica vários grupos em um só.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Lembrete pra mim nº 1209308093902
Juli, sei que você é obcecada em entender as coisas que aconteceram na sua vida, das mais insignificantes às mais complexas, mas, lembre-se disso, até porque o tempo está correndo: algumas coisas não são pra entender, mas para aprender e superar. Grata pela atenção.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Paris is burning (ou "Sempre dependi da bondade de estranhos")!
Eu nunca engoli bem hierarquias. Não essas impostas. Ou eu respeito ou não respeito. Por exemplo, sempre fugi de pedir benção aos mais velhos. No meu caso, não havia sentido, não havia transferência com os mais velhos da minha família.
Família. Pode ser que eu forme uma e eu penso às vezes se eu quero ou não. Se eu fosse homem, não haveria dúvida, mas como sou mulher... Até agora, a resposta é não. Minha ficha caiu depois que eu assisti a um documentário na Netflix, chamado "Paris is burning".
Basicamente, o filme fala de um concurso de drags na periferia nova iorquina no final dos anos 80. Você fica mal com todas as histórias de rejeição e exclusão dos personagens e com tudo que eles sonham e que nunca serão (mas mesmo assim eles não deixam de sonhar). Mas há muita beleza também entre eles e um dos exemplos é como se acolhem, como acabam formando uma família. Sim, como é linda e potente a resistência!
E foi então que finalmente me deu o clique de que eu não preciso de sangue para ter uma família. Eu sempre formei famílias fora, famílias que toda hora mudam de personagens (alguns poucos fazem parte do elenco fixo), é verdade, mas eu sempre pude contar com a bondade dos que não são meu sangue, os "estranhos".
Família. Pode ser que eu forme uma e eu penso às vezes se eu quero ou não. Se eu fosse homem, não haveria dúvida, mas como sou mulher... Até agora, a resposta é não. Minha ficha caiu depois que eu assisti a um documentário na Netflix, chamado "Paris is burning".
Basicamente, o filme fala de um concurso de drags na periferia nova iorquina no final dos anos 80. Você fica mal com todas as histórias de rejeição e exclusão dos personagens e com tudo que eles sonham e que nunca serão (mas mesmo assim eles não deixam de sonhar). Mas há muita beleza também entre eles e um dos exemplos é como se acolhem, como acabam formando uma família. Sim, como é linda e potente a resistência!
E foi então que finalmente me deu o clique de que eu não preciso de sangue para ter uma família. Eu sempre formei famílias fora, famílias que toda hora mudam de personagens (alguns poucos fazem parte do elenco fixo), é verdade, mas eu sempre pude contar com a bondade dos que não são meu sangue, os "estranhos".
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Lady Bird
"Lady Bird" é uma graça! Fui ver porque o filme se passa numa época em que eu também fui jovem. Sou um pouco mais velha que a personagem, mas ela passou, no ensino médio, pelas coisas que passei na universidade. Algumas, eu continuo passando, hehe. O filme acontece entre 2002 e 2003, e eu tenho imenso carinho por esse período de cinco anos da minha vida, de 1998 a 2003. Muita coisa aconteceu, eu comecei a ser eu mesma, foi quando eu saí de Itapuã pra cidade, pro mundo dos adultos, que, apesar de todos os perrengues, é infinitamente melhor que a adolescência. Ah, sim, e eu adoro a atriz que faz a protagonista!...
O filme fala daquela época em que nos damos conta de que não temos mais nada a ver com as pessoas do nosso entorno, que o espaço conhecido já ficou estreito e que, por mais duro que seja romper, vamos ter que fazer isso, nos "parir", processo esse, aliás, que para pessoas saudáveis, "atentas e fortes", vai durar a vida inteira. Achei muito sagaz o filme ter terminado com o estranhamento dela de Nova York. É o "parto" de decidir ir embora, depois vem esse outro "parto", que é construir seu pertencimento dentro do novo lugar. Nunca para. É cansativo, sim. Dá medo. Mas a boa notícia é que dura, no máximo, cem anos.
Vamos lá, algumas notas sobre "Lady Bird":
1- Incompreensão. A personagem é um ET não só na escola, mas dentro de casa. Todo mundo gosta dela, mas, com exceção do pai, a família não perde a chance de implicar com ela - um jeito de descontar a frustração individual, mas também um meio torto de "educar". Isso me lembrou meu professor de Ética, Renatinho da Silveira, cuja aula não me ensinou nada sobre Jornalismo, mas uma frase dita por ele eu nunca esqueci: "Frequentemente a nossa família até nos ama, mas não nos compreende. E só o amor não é suficiente".
2- Sonhos x Realidade. A família sempre teve pouco dinheiro, está passando por vários problemas neste sentido, e a personagem, além de nunca ter tido grande coisa além do básico, está conhecendo gente rica (vendo que o mundo pode oferecer mais) e sendo podada de sonhar com mais para o próprio futuro. Mas, enfim, ela é a heroína, então acaba tudo bem. Na vida real, é foda esse tipo de atmosfera. As pessoas ficam amarguradas e jogam isso em cima das outras, especialmente na família, diante da certeza de que parente vai sempre perdoar. Mesmo com boa intenção e ainda que tenham feito um esforço para mantê-la em colégio particular (mas não pelo motivo correto, que é a educação, mas mais uma vez movidos pelo medo), eles poderiam ter arruinado o futuro da menina.
3 - Generosidade. Gostei da madre superiora do colégio que, diante das rebeldias de Lady Bird, tentava interpretá-las e não puni-las. Tem senso de humor, é debochada, enfim, uma pessoa que, apesar da autoridade, é generosa. LB também é generosa e, ao contrário do que se espera pra idade, é acolhedora mesmo depois de descobrir que foi traída - se bem que não foi por mal. Lady é generosa principalmente consigo mesma: ela não poderia, mas tenta; se decepciona, mas vai em frente; erra, mas percebe e volta atrás.
4 - O que não é feito ou dito também significa. LB nunca precisou dizer que tinha vergonha da pobreza da família porque o pai podia perceber isso apenas pela resistência dela em ser vista chegando com ele. Sempre tem um mais sensível na família, a pessoa mais generosa em cima de quem todo o azar teima em cair.
5- Ela sabe contracenar. Lady Bird é ótima em dialogar com as pessoas, em perceber o que elas querem e fazer algo para agradar. Eu invejei! Essa nunca vai ficar sem emprego ou namorado, hehe. Figura!...
6 - Expectativa x realidade. Bichinha teve umas quebras de expectativa com o primeiro namorado, com a primeira vez e com a ida a Nova Iorque. Faz parte. Quem nunca? O bom é que ela não se traumatiza. Isso é muito importante.
7 - "Um espacinho para o Espírito Santo!"
Eu achei tão gracinha e sagaz da freira dizer isso para fazer o casal dançar um pouco mais afastado!... Vou arranjar um jeito de usar essa frase um dia. hehe...
Crueldade e amor não estão interligados
"Eu levei 47 anos para parar de chamar de 'apaixonadas por mim' pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente."
Quem disse isso foi a atriz Uma Thurman. Se uma estrela de Hollywood leva quase 50 anos, que dirá dona Mariazinha, que depende do dinheiro do marido? Que dirá a pobre coitada que tá começando a fazer a vida, com uma lista de "tem que..." da mulher perfeita na mão. Baixa autoestima não é privilégio de um sexo, de uma raça, de uma posição geográfica; estamos todos passíveis disso. Mas, velho, o que fazem com a mulher não é de Deus, não. Se é necessária muita humilhação para produzir "um homem de verdade", para as mulheres essa humilhação não tem fim, não tem redenção no final, não há possibilidade de ocupar, um dia desses, uma posição hegemônica.
Não se enganem, há muito silêncio aqui também. Mulheres falam muito, mas não dizem 1% do que acontece, do que realmente importa. Somos ensinadas a calar a boca. E há muita contenção da raiva, que não existe só em quem tem a testosterona alta. Temos sangue nas veias! Homens, pelo menos, podem xingar, meter a porrada na porta, enfim, exteriorizar. Com a gente, não. Estão te massacrando, mas continue sorrindo e compreendendo. "Boa menina!"... Isso é tão perverso!... Quando a gente vai poder chorar, mas chorar de verdade, não como sub-humano que não dá conta das coisas, mas como alguém que tem dores e merece tê-las reconhecidas? Quem nos dá colo? Quem ouve a gente? Quando a sociedade vai nos respeitar?
Eu, como feminista, só peço uma coisa: minha humanidade reconhecida, nossa humanidade vista. Fazer maldade a uma mulher é como chutar um cachorro vira-lata: ninguém liga. É isso que me enche de raiva.
***
O que não é amor: botar pra baixo; não ver o outro além das aparências; não auxiliá-lo quando precisa; não estimular capacidades; manipular para fazê-lo se sentir culpado; silenciar para agredí-lo; não se compadecer de suas dificuldades; não ser solidário quando alguém lhe ataca; não ter mais vontade, mas se sentir obrigado; etc. A lista é longa. Eu demorei 37 anos para parar de achar que eu tinha que compreender quem, nem por um segundo, sente remorso pelo mal que me causa, que não tá nem aí pro que me acontece ou para revisar seus atos. Por que temos que aturar? Qual é o sentido? Por que só um é obrigado a suportar e consertar todo o azedume e perversidade do outro, que, quando muito, joga umas migalhas?
É impressionante a dificuldade de nós, mulheres, com o "não": com o não te ama; com o não devo ficar perto de gente assim; com o não gosto mais dessa pessoa. Isso vem da culpa. A gente acha que tem que salvar todas as pessoas e relacionamentos: o casamento, a família, o filho, a empregada, os amigos, os pais, inclusive os pais dele, enquanto os homens passam como um trator, sem sequer olhar pra trás.
A gente faz o que pode, quando pode e quer! Eu tenho vontade de tatuar isso na testa, pra lembrar não só a mim - que tenho tendência à culpa -, como a outros abestalhados como eu.
Não somos vítimas, somos é muito bestas, isso sim! Tá na hora da gente largar esse papel e começar a escrever a própria e genuína história.
Quem disse isso foi a atriz Uma Thurman. Se uma estrela de Hollywood leva quase 50 anos, que dirá dona Mariazinha, que depende do dinheiro do marido? Que dirá a pobre coitada que tá começando a fazer a vida, com uma lista de "tem que..." da mulher perfeita na mão. Baixa autoestima não é privilégio de um sexo, de uma raça, de uma posição geográfica; estamos todos passíveis disso. Mas, velho, o que fazem com a mulher não é de Deus, não. Se é necessária muita humilhação para produzir "um homem de verdade", para as mulheres essa humilhação não tem fim, não tem redenção no final, não há possibilidade de ocupar, um dia desses, uma posição hegemônica.
Não se enganem, há muito silêncio aqui também. Mulheres falam muito, mas não dizem 1% do que acontece, do que realmente importa. Somos ensinadas a calar a boca. E há muita contenção da raiva, que não existe só em quem tem a testosterona alta. Temos sangue nas veias! Homens, pelo menos, podem xingar, meter a porrada na porta, enfim, exteriorizar. Com a gente, não. Estão te massacrando, mas continue sorrindo e compreendendo. "Boa menina!"... Isso é tão perverso!... Quando a gente vai poder chorar, mas chorar de verdade, não como sub-humano que não dá conta das coisas, mas como alguém que tem dores e merece tê-las reconhecidas? Quem nos dá colo? Quem ouve a gente? Quando a sociedade vai nos respeitar?
Eu, como feminista, só peço uma coisa: minha humanidade reconhecida, nossa humanidade vista. Fazer maldade a uma mulher é como chutar um cachorro vira-lata: ninguém liga. É isso que me enche de raiva.
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O que não é amor: botar pra baixo; não ver o outro além das aparências; não auxiliá-lo quando precisa; não estimular capacidades; manipular para fazê-lo se sentir culpado; silenciar para agredí-lo; não se compadecer de suas dificuldades; não ser solidário quando alguém lhe ataca; não ter mais vontade, mas se sentir obrigado; etc. A lista é longa. Eu demorei 37 anos para parar de achar que eu tinha que compreender quem, nem por um segundo, sente remorso pelo mal que me causa, que não tá nem aí pro que me acontece ou para revisar seus atos. Por que temos que aturar? Qual é o sentido? Por que só um é obrigado a suportar e consertar todo o azedume e perversidade do outro, que, quando muito, joga umas migalhas?
É impressionante a dificuldade de nós, mulheres, com o "não": com o não te ama; com o não devo ficar perto de gente assim; com o não gosto mais dessa pessoa. Isso vem da culpa. A gente acha que tem que salvar todas as pessoas e relacionamentos: o casamento, a família, o filho, a empregada, os amigos, os pais, inclusive os pais dele, enquanto os homens passam como um trator, sem sequer olhar pra trás.
A gente faz o que pode, quando pode e quer! Eu tenho vontade de tatuar isso na testa, pra lembrar não só a mim - que tenho tendência à culpa -, como a outros abestalhados como eu.
Não somos vítimas, somos é muito bestas, isso sim! Tá na hora da gente largar esse papel e começar a escrever a própria e genuína história.
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