Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Lady Bird
"Lady Bird" é uma graça! Fui ver porque o filme se passa numa época em que eu também fui jovem. Sou um pouco mais velha que a personagem, mas ela passou, no ensino médio, pelas coisas que passei na universidade. Algumas, eu continuo passando, hehe. O filme acontece entre 2002 e 2003, e eu tenho imenso carinho por esse período de cinco anos da minha vida, de 1998 a 2003. Muita coisa aconteceu, eu comecei a ser eu mesma, foi quando eu saí de Itapuã pra cidade, pro mundo dos adultos, que, apesar de todos os perrengues, é infinitamente melhor que a adolescência. Ah, sim, e eu adoro a atriz que faz a protagonista!...
O filme fala daquela época em que nos damos conta de que não temos mais nada a ver com as pessoas do nosso entorno, que o espaço conhecido já ficou estreito e que, por mais duro que seja romper, vamos ter que fazer isso, nos "parir", processo esse, aliás, que para pessoas saudáveis, "atentas e fortes", vai durar a vida inteira. Achei muito sagaz o filme ter terminado com o estranhamento dela de Nova York. É o "parto" de decidir ir embora, depois vem esse outro "parto", que é construir seu pertencimento dentro do novo lugar. Nunca para. É cansativo, sim. Dá medo. Mas a boa notícia é que dura, no máximo, cem anos.
Vamos lá, algumas notas sobre "Lady Bird":
1- Incompreensão. A personagem é um ET não só na escola, mas dentro de casa. Todo mundo gosta dela, mas, com exceção do pai, a família não perde a chance de implicar com ela - um jeito de descontar a frustração individual, mas também um meio torto de "educar". Isso me lembrou meu professor de Ética, Renatinho da Silveira, cuja aula não me ensinou nada sobre Jornalismo, mas uma frase dita por ele eu nunca esqueci: "Frequentemente a nossa família até nos ama, mas não nos compreende. E só o amor não é suficiente".
2- Sonhos x Realidade. A família sempre teve pouco dinheiro, está passando por vários problemas neste sentido, e a personagem, além de nunca ter tido grande coisa além do básico, está conhecendo gente rica (vendo que o mundo pode oferecer mais) e sendo podada de sonhar com mais para o próprio futuro. Mas, enfim, ela é a heroína, então acaba tudo bem. Na vida real, é foda esse tipo de atmosfera. As pessoas ficam amarguradas e jogam isso em cima das outras, especialmente na família, diante da certeza de que parente vai sempre perdoar. Mesmo com boa intenção e ainda que tenham feito um esforço para mantê-la em colégio particular (mas não pelo motivo correto, que é a educação, mas mais uma vez movidos pelo medo), eles poderiam ter arruinado o futuro da menina.
3 - Generosidade. Gostei da madre superiora do colégio que, diante das rebeldias de Lady Bird, tentava interpretá-las e não puni-las. Tem senso de humor, é debochada, enfim, uma pessoa que, apesar da autoridade, é generosa. LB também é generosa e, ao contrário do que se espera pra idade, é acolhedora mesmo depois de descobrir que foi traída - se bem que não foi por mal. Lady é generosa principalmente consigo mesma: ela não poderia, mas tenta; se decepciona, mas vai em frente; erra, mas percebe e volta atrás.
4 - O que não é feito ou dito também significa. LB nunca precisou dizer que tinha vergonha da pobreza da família porque o pai podia perceber isso apenas pela resistência dela em ser vista chegando com ele. Sempre tem um mais sensível na família, a pessoa mais generosa em cima de quem todo o azar teima em cair.
5- Ela sabe contracenar. Lady Bird é ótima em dialogar com as pessoas, em perceber o que elas querem e fazer algo para agradar. Eu invejei! Essa nunca vai ficar sem emprego ou namorado, hehe. Figura!...
6 - Expectativa x realidade. Bichinha teve umas quebras de expectativa com o primeiro namorado, com a primeira vez e com a ida a Nova Iorque. Faz parte. Quem nunca? O bom é que ela não se traumatiza. Isso é muito importante.
7 - "Um espacinho para o Espírito Santo!"
Eu achei tão gracinha e sagaz da freira dizer isso para fazer o casal dançar um pouco mais afastado!... Vou arranjar um jeito de usar essa frase um dia. hehe...
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