quinta-feira, 29 de março de 2018

Nem tudo é sobre você

Ok, lendo as colunas antigas de Ivan Martins, caiu a minha ficha de que o egoísmo é a regra nas relações sociais e que nós, brasileiros, como ele bem disse no texto "Brutalidade afetiva", agimos movidos por sentimentos, não por valores (frase perfeita! tô quase tatuando...). Mas uma expressão quase nunca percebida desse egoísmo me dá uma agonia secreta, que é achar que é tudo sempre sobre si mesmo, o famoso egocentrismo.
Exemplo: todo mundo acha que está sendo o tempo todo invejado, agredido, sabotado pelos outros. Partindo do pressuposto que é verdade, mesmo assim, nem sempre o sofrimento do próximo tem a ver com você. Às vezes você é apenas o fio condutor de outra coisa, um mero catalizador, na verdade, não passa de um coadjuvante nessa história.
Desde a adolescência, eu sei quando minha mãe quer realmente me atingir ou quando ela faz isso por uma questão de oportunidade, ou seja, não poder descontar no alvo e acaba descontando em mim, a pessoa mais próxima. Mas esse não é bem o exemplo do que eu quero falar...
Vejamos um exemplo melhor: quando fiz vestibular pra Jornalismo, minha melhor amiga na época e uma outra amiga em comum fizeram também. De nós três, a minha melhor amiga era a mais a fim da carreira, pois o pai era jornalista, e foi justo ela que não passou nem na primeira fase da UFBA. Fiquei sabendo que ela ligou pra outra amiga pra desejar os parabéns, mas para mim não disse nada. Pelo contrário, ainda fingiu não ter me visto numa festa três dias depois do resultado só pra não ter que me dar os parabéns. Eu forcei ela a me ver, hehe. Lógico que essa situação revelou algo sobre a nossa "amizade": ela não me considerava nem o suficiente para disfarçar o orgulho ferido e fazer o que tinha que ser feito, que era me cumprimentar. Ou seja, a amizade era unilateral, era minha, a afeição dela era bem fraca. Mas, ali, o sofrimento principal era ela se achar burra, era ela mais uma vez ficando para trás de mim academicamente, só que agora valia algo que ela queria muito. Era o complexo dela, iniciado com os pais, que sempre compararam ela com a irmã, que ela achava mais inteligente (mas só passava colando), bonita, e etc. Era ela se confirmando burra, coisa que ela sempre pensou de si mesma.
Agora vai: sabe aquela pessoa que toda vida foi gorda e que, com perseverança, perde 25 kg e a galera mais próxima começa a detonar, dizendo que a pessoa tá exagerando, que isso e aquilo? É isso, as pessoas não estão exatamente bravas com você, mas com o que o seu exemplo fez elas verem sobre elas mesmas. O azedume não é com você, é interno, com a própria falta de decisão, de força de vontade. Isso, claro, mostra a falta de generosidade delas com você, mas, aceite, não é sobre você. Não se dê tanta importância. É igualmente feio e egoísta.

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