Minha geração de mulheres é uma geração de transição. Foi a gente que inaugurou o ficar de modo massivo, no início dos anos 1990, e naturalizou o ser mais livre nas relações amorosas. Mas a gente também foi criada com uma visão bem tradicional sobre os relacionamentos. O resultado é que crescemos e vivemos com "mixed emotions".
A gente ainda tem na mente os modelos de "mulher para casar" e do "bom rapaz". Eu, por exemplo, demorei à beça para perceber a esparrela contida nesses tipos e algumas de nós nem vislumbra que se trata de uma armadilha. Conheço várias mulheres esclarecidas que botam fé na boa mocice delas e na cara falsa de bom rapaz deles. Oh, coitadas!...
A tal mulher pra casar e os homens. Na juventude, aquele olhar comedor, que olha e examina de cima a baixo, que também admira a conduta, mas, sabe como é, "na volta a gente compra", não é hora pra isso. A boa moça é aquela com quem não se esculhamba, pois com essas o sujeito não se casa, só curte a vida. A boa moça é aquela que, depois do cara se lambuzar com tudo que a liberdade sexual tem para oferecer a um macho alfa, se ela ainda estiver por aí, ele casa. Ou isso, ou o cara já quer casar com ela com 20, para garantir... E ela vai cuidar dele e dos filhos, afinal, as boas mulheres são para isso; é a recompensa pelo favor do casamento, esse sacrifício feito pelo homem.
Eu passei muito tempo achando que isso era bom, que ser a "mulher pra curtir" era ser desumanizada pelos homens, mas percebi que, quando se trata do cara errado, não existe respeito seja lá o que faça uma mulher.
O bom rapaz que procura a mulher para casar não vê nela um outro ser humano igual a ele - quiça porque nem ele se vê como ser humano -, mas uma aquisição. Ele é incapaz de amá-la, pois, justamente, não consegue reconhecer a humanidade dela. Sabe cão de estimação? Pois é, a mulher é isso: um ser fofinho, amável, mas a serviço do dono sempre. É como um carro: atende uma expectativa do dono, significa um status social e é, sobretudo, uma posse. Não é lisonjeiro ser a mulher pra casar ou qualquer mulher de homem machista. É bem triste.
Agradeço às deusas nunca ter ido adiante com nenhum bom rapaz. :)
PS.: A boa moça também não existe, é deformação cultural, tipo pé de bailarina esmagado pela sapatilha apertada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário