Eu nunca engoli bem hierarquias. Não essas impostas. Ou eu respeito ou não respeito. Por exemplo, sempre fugi de pedir benção aos mais velhos. No meu caso, não havia sentido, não havia transferência com os mais velhos da minha família.
Família. Pode ser que eu forme uma e eu penso às vezes se eu quero ou não. Se eu fosse homem, não haveria dúvida, mas como sou mulher... Até agora, a resposta é não. Minha ficha caiu depois que eu assisti a um documentário na Netflix, chamado "Paris is burning".
Basicamente, o filme fala de um concurso de drags na periferia nova iorquina no final dos anos 80. Você fica mal com todas as histórias de rejeição e exclusão dos personagens e com tudo que eles sonham e que nunca serão (mas mesmo assim eles não deixam de sonhar). Mas há muita beleza também entre eles e um dos exemplos é como se acolhem, como acabam formando uma família. Sim, como é linda e potente a resistência!
E foi então que finalmente me deu o clique de que eu não preciso de sangue para ter uma família. Eu sempre formei famílias fora, famílias que toda hora mudam de personagens (alguns poucos fazem parte do elenco fixo), é verdade, mas eu sempre pude contar com a bondade dos que não são meu sangue, os "estranhos".

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