"Eu levei 47 anos para parar de chamar de 'apaixonadas por mim' pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente."
Quem disse isso foi a atriz Uma Thurman. Se uma estrela de Hollywood leva quase 50 anos, que dirá dona Mariazinha, que depende do dinheiro do marido? Que dirá a pobre coitada que tá começando a fazer a vida, com uma lista de "tem que..." da mulher perfeita na mão. Baixa autoestima não é privilégio de um sexo, de uma raça, de uma posição geográfica; estamos todos passíveis disso. Mas, velho, o que fazem com a mulher não é de Deus, não. Se é necessária muita humilhação para produzir "um homem de verdade", para as mulheres essa humilhação não tem fim, não tem redenção no final, não há possibilidade de ocupar, um dia desses, uma posição hegemônica.
Não se enganem, há muito silêncio aqui também. Mulheres falam muito, mas não dizem 1% do que acontece, do que realmente importa. Somos ensinadas a calar a boca. E há muita contenção da raiva, que não existe só em quem tem a testosterona alta. Temos sangue nas veias! Homens, pelo menos, podem xingar, meter a porrada na porta, enfim, exteriorizar. Com a gente, não. Estão te massacrando, mas continue sorrindo e compreendendo. "Boa menina!"... Isso é tão perverso!... Quando a gente vai poder chorar, mas chorar de verdade, não como sub-humano que não dá conta das coisas, mas como alguém que tem dores e merece tê-las reconhecidas? Quem nos dá colo? Quem ouve a gente? Quando a sociedade vai nos respeitar?
Eu, como feminista, só peço uma coisa: minha humanidade reconhecida, nossa humanidade vista. Fazer maldade a uma mulher é como chutar um cachorro vira-lata: ninguém liga. É isso que me enche de raiva.
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O que não é amor: botar pra baixo; não ver o outro além das aparências; não auxiliá-lo quando precisa; não estimular capacidades; manipular para fazê-lo se sentir culpado; silenciar para agredí-lo; não se compadecer de suas dificuldades; não ser solidário quando alguém lhe ataca; não ter mais vontade, mas se sentir obrigado; etc. A lista é longa. Eu demorei 37 anos para parar de achar que eu tinha que compreender quem, nem por um segundo, sente remorso pelo mal que me causa, que não tá nem aí pro que me acontece ou para revisar seus atos. Por que temos que aturar? Qual é o sentido? Por que só um é obrigado a suportar e consertar todo o azedume e perversidade do outro, que, quando muito, joga umas migalhas?
É impressionante a dificuldade de nós, mulheres, com o "não": com o não te ama; com o não devo ficar perto de gente assim; com o não gosto mais dessa pessoa. Isso vem da culpa. A gente acha que tem que salvar todas as pessoas e relacionamentos: o casamento, a família, o filho, a empregada, os amigos, os pais, inclusive os pais dele, enquanto os homens passam como um trator, sem sequer olhar pra trás.
A gente faz o que pode, quando pode e quer! Eu tenho vontade de tatuar isso na testa, pra lembrar não só a mim - que tenho tendência à culpa -, como a outros abestalhados como eu.
Não somos vítimas, somos é muito bestas, isso sim! Tá na hora da gente largar esse papel e começar a escrever a própria e genuína história.

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