terça-feira, 27 de setembro de 2016

Olhando pelo retrovisor

Se tem algo positivo nesse momento político que estamos vivendo é a possibilidade de repensar antigas certezas e atitudes. Quanta coisa, hoje, o PT está vivendo e quis impor aos seus adversários políticos (não podemos comparar, lógico, o poder para esse tipo de manobra que direita e esquerda possuem)? Quantas atitudes equivocadas ou violentas? Mas a gente só tem noção disso vendo a coisa vindo contra o partido que a gente discorda menos ("preferir" ou "gostar" são verbos muitos fortes para os tempos atuais no país), até porque, mesmo sendo vítima de exageros da esquerda, a direita sempre foi canalha, portanto se os meios foram questionáveis, os fins, sem dúvida, eram legítimos.
Às vezes eu mesma duvido de minhas convicções sobre Lava-Jato, PT e etc. Mas uma certeza não cai, infelizmente, porque isso me gera raiva e frustração: quem está do lado CBF da força não quer um projeto de inclusão. Portanto, sinto muito, não dá pra ficar do lado dessa gente. Canalhice tem limites.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Parceria forte na vida

Estou assistindo agora, na televisão, um documentário sobre a trajetória de Hillary Clinton. Todo mundo sabe o que ela passou no casamento, sendo publicamente vista como a esposa traída do presidente, e não se separou. A biografia deixa bem claro que ali há amor: não do tipo romântico, eu acredito, e há "amor ao poder", que a gente bem sabe, mas o que existe ali é admiração mútua. Quando é assim, é difícil deixar para trás. Porque ela ganharia moral com o público se o deixasse, mas preferiu mantê-lo por perto. Rola uma certa sapiossexualidade ali, de fato. Grande encontro, sem dúvida. Invejei.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Aquarius

Ontem finalmente assisti "Aquarius". Gostei! Kleber Mendonça Filho está fazendo o que imagino que será uma trilogia interessante sobre a classe média. Diz um amigo meu que, na verdade, se trata de um movimento do cinema pernambucano esse de colocar um olhar crítico em cima da classe média, essa Blue Jasmine do Brasil.

Quem lê isso aqui já viu o filme, imagino, portanto não vale a pena resumir a história. Ao contrário do primeiro filme do diretor, "O Som ao Redor", "Aquarius" não fala da violência da classe média no trato com a classe pobre (embora pincele esse assunto, como comentarei a seguir), mas avisa à classe média que ao contrário do que ela imagina não é o pobre - a quem também maltrata - que a ameaça, mas o grande capital, personificado, na história, na empreiteira Bonfim, que foi claramente inspirada na pernambucana Moura Dubeux, autora do projeto de "requalificação" do cais da cidade de Recife. São aqueles que a classe média considera "homens de bem", que são seus modelos de sucesso, que podem realmente destruí-la. Um amigo ficou muito incomodado com essa abordagem centrada na classe média (o que faz o filme, por vezes, lembrar as novelas de Manoel Carlos, embora, claro, contenha um nível de crítica a esse estilo de vida que o homem do Leblon nunca seria capaz de ter). Mas Mendonça Filho fez filmes conectados com as urgências de suas épocas. "O Som ao Redor", como foi dito, discute a violência da classe média, em um momento do Brasil em que claramente essa esfera da sociedade se encontrava incomodada com a ascensão dos mais pobres. Mas agora o que está em jogo é a tomada do país pelo "andar de cima" sem que uma parte considerável da classe média se dê conta - pelo contrário, essa gente ainda acha que isso faz o país andar para frente e que tem algum poder de decisão quando não o tem de fato.

Desconstruindo Clara
Mas meu amigo tem razão de estar chateado. A classe média, mesmo a mais "engajada", provavelmente sai do cinema achando que Clara é uma heroína, quando na verdade ela é uma pessoa iludida. Sim, ela se importa em agir bem, com integridade, mas o comportamento dela apresenta falhas que são as de todos nós, na verdade, e por isso acho que será difícil que a maioria dos espectadores se dê conta do que está sendo criticado ali, a hipocrisia diária da sua classe social, a ilusão dela de que apita nesse jogo produzida por uma vida desfrutada em uma redoma.
Para começar, a personagem de Sônia Braga é uma pessoa que tem direito à subjetividade, ao contrário da sua empregada, que tem a mesma idade e sofreu uma grande dor, a morte do filho, mas precisa continuar trabalhando, seguindo em frente como se nada tivesse acontecido, sem direito a banho de mar e yoga pra relaxar. Clara lida com a "solidão com vista pro mar". A empregada lida com as asperezas do dia a dia, como a violência no trânsito que vitimou seu único filho e a necessidade diária de lutar pela sobrevivência.
Clara e sua geração de amigas, todas mulheres muito bem sucedidas, têm a independência bancada por essas mulheres da classe baixa. A patroa vive uma falsa aproximação com a empregada, que só acontece segundo a vontade da primeira. Ela é, como os melhores exemplares de nós, pessoas de classe média, gentil: leva bolo pro porteiro, frequenta a festa na casa da empregada. Mas quando é, mesmo, que as duas almoçam juntas na mesa, com a família da patroa? Isso tudo que a gente faz, no máximo, traduz educação, mas nunca inclusão. Nada mais hipócrita do que dizer que os empregados são "da família".
Apesar de muito gentil, a jornalista, em determinado momento do filme, mostra rancor de uma ex-empregada, que furtou joias de sua família. É maravilhosa a intervenção da cunhada: "É, a gente explora elas e elas roubam a gente", lembrando que o abuso é bilateral. É representativo, aliás, que ao ter uma intuição de que está em perigo, isso aconteça através de um sonho com essa ex-empregada, que ao roubar as joias dela a avisa que está sangrando. A doméstica, na mente de Clara, representa sua ideia de ameaça e é justamente ela que resume o recado deixado pelo diretor. O aviso dado por ela no sonho de Clara é como se ela quisesse dizer: "Eu não sou uma ameaça para você, como imagina. A ameaça não vem "de baixo", como você pensa, "mas de cima", de gente que está te sangrando sem que você perceba".
Clara, como boa parte da sua classe, age o filme inteiro partindo do pressuposto de que "tem direitos", ignorando o porte do seu inimigo na história: a empreiteira, importante anunciante da imprensa local e detentora de um robusto departamento jurídico. A personagem age baseada numa ilusão. A meu ver, os verdadeiros heróis são os dois ex-funcionários da empreiteira, que se arriscam para fazer o que é certo - aqueles dois, sim, sabiam o que estava acontecendo.

Dinheiro e Medo
"Aquarius" fala de uma classe média que só é movida por duas coisas: medo e dinheiro. Qualquer coisa que não tenha cunho pragmático é rechaçada por essas pessoas. Quem cultiva ideais, quem pensa diferente, ganha o rótulo de louco.
Todos os personagens ao redor de Clara, da filha dela ao filho do vizinho, só sabem abordar a venda do apartamento por esses dois ângulos. Ninguém se atreve a abrir um terceiro, mais humano: é onde ela, uma senhora de meia idade, ainda se sente acolhida e construiu a vida dela. Os afetos, o eu, também importam, mas quase todo mundo ao redor da personagem parece desconhecer isso.
O conhecimento tão pouco tem valor. Durante a discussão com a filha, Clara é lembrada de que não contribuiu para o patrimônio da família, que sua atividade intelectual de jornalista e escritora não rende dinheiro. O grande legado dos pais, para a filha da protagonista, foram os cinco apartamentos. A produção cultural da mãe não lhe diz nada.

Minorias
Nessa cena, a filha também joga na cara de Clara sua ausência por dois anos (coisa que certamente ela não faria caso tivesse ocorrido com o pai), mostrando a cobrança que se tem em cima do papel da mãe. A própria filha cria o filho praticamente sozinha após a separação e evidencia, em uma de suas falas, que o pai se ausentou da vida do filho desde então. Mas nem isso a faz ser solidária à mãe, enquanto mulheres. Outro diálogo com os filhos, dessa vez com o filho gay, toca nessa questão das minorias: ela, enquanto mulher e idosa, pede a ele, que sabe o que é ser julgado por ser diferente, a compreenda, que não a considere uma louca por pensar diferente da maioria.
Clara, sua beleza, sua idade e seu mutilamento proveniente de um câncer levantam questões sobre o ser mulher em uma sociedade machista, na qual é sempre vista como objeto, como corpo. Ela é uma mulher bem cuidada e por isso ainda atrai olhares, mas mesmo quando se relaciona com um homem equivalente em idade, status social e status civil, pode ser descartada por não ter um dos seios inteiros. Ela range os dentes, em outra sequência, quando é elogiada pelo ex-trabalhador da construtora, que ressalta a sua beleza, numa mistura de incômodo pela invasão e de medo, porque afinal trata-se de um homem bêbado e qualquer mulher sabe a ameaça que isso significa.
Em diversos momentos, inclusive ao falar de tia Laura, mulher que nasceu no início do século 20, o diretor nos lembra de que idosos e idosas já tiveram uma vida sexual ativa, que já amaram e ainda pensam e querem isso. A geração de Laura não tinha acesso a "liberdades" como o sexo pago na terceira idade, coisa já possível para a geração de idosas de Clara, na qual algumas mulheres, inclusive, já lidam bem com isso, pois são, inclusive, economicamente independentes, profissionais capazes, enfim, sujeitos de fato. Por esse prisma, o filme é um bálsamo por retirar um pouco do peso da velhice, etapa dos medos (da solidão, da pobreza, da doença, do preconceito), de quem está concluindo a primeira fase da vida e se despedindo da juventude, como eu, mostrando que ainda pode haver pulso de vida em qualquer etapa dela.
Por último, mas não menos importante, uma personagem aparece amamentando o bebê dela durante uma boa parte do filme, numa evidente defesa da liberdade de exposição do seio que, ao contrário do que prega a nossa cultura, não é só um objeto erótico, mas algo que serve para nutrir e que portanto é natural.

Mas tudo isso só será visível ao entendedores, aos já integrados a esse discurso. Para a maioria, "Aquarius" vai parecer apenas o filme de uma senhora que teima em não sair de sua casa.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Meus amigos gays arruinaram minha vida amorosa

Ok, eu sou lerda, eu idealizo, eu tenho um karma amoroso, mas a culpa não é só minha. Meus amigos gays também têm culpa no cartório. Por causa deles, eu quero um homem que goste de mulher, que seja meu amigo. O que vejo, na maioria das vezes, é que os homens heteros são amigos apenas de outros homens heteros. As mulheres ficam apenas com o desejo, que deriva de uma certa ideia de inferioridade.
Perto dos meus amigos gays, os homens heteros perdem a graça. Eles são bem humorados, eles são cultos, eles nos escutam, eles são mais humanos. Se permitem com mais facilidade serem humanos. Atacados, reconhecem esse lado que é abafado na criação dos meninos heterossexuais, inegavelmente.
Os homens gays chegam mais facilmente uns nos outros. É um mundo mais carente, diz uma amiga minha, não exatamente mais apaixonado. Penso que ao menos eles se arriscam mais: se entregam, se dão mal e se curam, seguem em frente. Eles não tratam seus namorados como uma posse, como se eles estivessem sempre prontos a trair. Cenas de ciúmes são raras. Eles não têm preconceito com os filmes de Almodóvar, muito pelo contrário. Homem hétero não vai pro cinema ver Almodóvar. E os gays ainda sabem cozinhar.
Não que todos sejam assim. Há gays de baixo nível, que só sabem falar de cu e pica, aliás, como vários homens que enxergam no sexo apenas o toque das genitálias. Os que eu conheço não são assim. Queria ao menos ver um nicho hétero que também fosse assim. Até agora, não tenho tido muita sorte.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Uma questão de proporção

Primeiramente, fora Temer!!!
Segundamente, leiam esse texto da Juliana Cunha:
http://contente.vc/blog/a-internet-que-a-gente-quer-juliana-cunha/
Terceiramente, vejam essa palestra do TED Talks, "Como um tuíte pode arruinar a sua vida": https://www.youtube.com/watch?v=wAIP6fI0NAI&feature=share

Visto tudo isso, acho que podemos falar sobre as reações desproporcionais diante de postagens nas redes sociais. Hoje, Juliana Cunha (a blogueira) enfrentou toda a fúria de algumas meninas do movimento feminista negro contra um post dela em que dizia ser ridículo dar tanto peso e profundidade à traição do Usain Bolt. Não dá pra reproduzir aqui o que Juliana disse porque eu acho que a coisa foi tão longe que ela o apagou. As moças argumentaram que o que ele fez feriu sua companheira, uma mulher negra, que o homem negro maltrata a mulher negra e isso tudo é a confluência de machismo e racismo em nossa sociedade e por aí foi a discussão. 
Eu cheguei a um nível tal com essas discussões ideológicas nas redes sociais, que eu já simplifico assumindo que tá todo mundo certo - na maioria das vezes é por aí. Nesse caso mesmo, acho que as meninas têm razão quando pontuam que atitudes individuais também são políticas. Mas concordo com Juliana quando afirma que dar uma grande dimensão a uma traição beira o ridículo. Eu, do meu ponto de vista, acho que a medida certa seria problematizar o comportamento do atleta mas sem demonizá-lo. Trair a namorada não é o mesmo que estuprar criancinhas, então não reaja como se fosse a pior coisa do mundo... E é aí que eu acho que o caldo entorna: geralmente esse tipo de fúria tem mais a ver com uma catarse pessoal de quem brada do que com visões meramente políticas/ideológicas. Eu bem entendo essas dores, acredite, mas vamos combinar que o mundo não tem que pagar por danos individuais. (Eu já contei aqui do dia em que me acabei de chorar por causa de uma informação que recebi sobre uma amiga, da minha idade, que enfrentava um câncer metastático? Pois bem, eu, que não choro, me acabei em lágrimas, tanto que fiquei preocupada em como chegaria no trabalho. Por mais que eu goste dela, não foi só por ela que chorei: sofri ao constatar a minha própria vulnerabilidade e mortalidade. Se a morte está para ela, também está para mim, entende?)
Quando tudo é importante, nada se torna importante. As discussões ideológicas estão perdendo o senso de proporcionalidade. E o pior, como as reações são de galera, periga quem exagera nunca descobrir que está agindo como insano, além do que qualquer senso de justiça "autorizaria". Sim, porque o que é certo, se passar do ponto, vira errado. Torna-se uma violência ao próximo até pior. E, afinal, não é por isso que estamos brigando? Por respeito e justiça?
A palestra que indiquei mais acima fala exatamente disso, de como estamos utilizando deslizes de pessoas comuns, que poderiam ser nossos vizinhos ou inclusive nós mesmos, para despejarmos a nossa fúria. Acontece que essas pessoas têm as vidas destruídas. E são pessoas, antes de tudo e boas pessoas, em boa parte dos casos. É importante lembrar que gente legal, decente, também faz coisas idiotas, equivocadas. Vale destacar que o politicamente correto é uma meta e não uma espécie de palmatória; vai levar tempo até todo mundo internalizá-lo. É importante lembrar que a verdade tem vários lados. É crucial dar a devida proporção às coisas. Não há sustentabilidade para uma vida à flor da pele. Olho por olho e vamos acabar realmente cegos, como diz o chavão.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A vida é tão rara

Quem me conhece mais intimamente sabe que meu "medo de estimação" é da pobreza. Enfim, pelo meu histórico familiar, por ter tido um pai que nos tratava como gado, sem qualquer apoio ao nosso crescimento ou respeito às nossas subjetividades, sempre soube que dinheiro é liberdade. Não tê-lo é estar nas mãos dos outros, dependendo da bondade de estranhos, como disse Blanche, ou pior, de conhecidos que podem te humilhar muito por causa disso. Não quero. Só vou descansar em paz quando atingir a minha tão sonhada estabilidade financeira.
Mas, durante essa jornada, descobri que há um medo que devemos ter: a falta de paixão. Por trás de todas as histórias de gente excepcional há ela. Mandela não aguentou 27 anos na prisão à toa. Nossos atletas, de origem bem pobre, não chegaram às medalhas olímpicas à toa. Eu só quero que meus sobrinhos tenham ética e uma paixão, que sejam movidos por alguma coisa nessa vida, nem que seja um time de futebol ou tocar violão.
Eu, aos poucos, estou tentando aflorar as minhas.

domingo, 21 de agosto de 2016

The way you make me feel...

Não importa as qualidades de uma pessoa, importa como ela faz você se sentir. Se ela desperta o melhor em você, tá valendo. Se não, manda vazar.
Esse pensamento é da Marta, ela mesma, a cronista, que mais uma vez conseguiu resumir o que eu sentia e não conseguia entender.
É tão simples... Como não pensei isso antes? Já me torturei muito na vida temendo estar sendo injusta ao querer me sair de gente que não me fazia bem, que não me tratava bem, apesar do afeto, apesar das qualidades da pessoa. É isso: qualidades e defeitos todos terão. Temos que selecionar, pra perto, aqueles que despertam o melhor de nós. Não há tempo para perder com quem só te joga para baixo. Não mesmo. Hoje eu vejo isso.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Aleatória, ridícula e, às vezes, maravilhosa

Assim é a vida, segundo Woody Allen e Nelson Rodrigues, dois pessimistas românticos que o mundo da cultura nos apresentou.
Somos risíveis vistos de perto. E somos porque, basicamente, tentamos o tempo todo controlar o incontrolável, às vezes brincando de Deus, em outras completamente desesperados. Mas apesar de todo esse caos, de vez em quando as coisas dão certo pra gente, ainda que não faça sentido algum o caminho percorrido.
Allen e Rodrigues são donos de uma lucidez incomum. Quando se chega a esse nível de percepção da vida, só o amor - e na maioria das vezes o humor - salva.

Mixed emotions


"Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba."
Hermann Hesse


Ontem fui para mais um "O Terapeuta Responde" no teatro. Pelo visto, o programa de rádio babou, mas as falas de Jordan, pra mim, ontem, foram super úteis, como não haviam sido antes. Quem quiser saber o que ele disse, que me tocou tanto, que me pergunte; não vou contar. :P
Jordan tem um timing muito bom, um carisma indiscutível, mas uma coisa que me irrita - e todo mundo faz igual - é a mania de responder uma perguntar de fundo emocional com algo muito intelectual, racional. Se eu pergunto como esquecer o meu ex, mesmo sabendo que ele me sacaneou, eu não quero ouvir chavões do tipo "tenha amor próprio", porque isso eu já sei. Eu quero saber como trabalhar meu sentimento, ora.
Ele chamou as alunas do seu curso de formação de terapeutas para responder a algumas questões da plateia. Uma delas pedia orientação para lidar com a dor. Por coincidência, a aluna incumbida de responder isso estava lidando com uma dor profunda, proveniente da perda da mãe. Não conseguiu responder bem, disse aquele clichê de que "isso faz parte da vida". Sim, é metade da resposta. Todo mundo sofre, realmente, embora uma vida de Instagram e Facebook faça parecer que não (outro dia, olhando minha conta no Insta, senti inveja de mim mesma e amei meu ano!). Primeiro passo: dá pra fazer algo a respeito? Se sim, mãos à obra, ainda que devagar, porém posicionando-se naquela direção desejada. Se não houver o que fazer, é (chorar) aceitar e aprender. A morte é uma coisa mais complicada de lidar. É o máximo exercício da aceitação; é tentar enfiar na cabeça que tudo tem um início, meio e fim, inclusive a gente mesmo, e nada pode durar para sempre, só o que nunca foi vivo. De resto, é tentar se alegrar com as pequenas felicidades que a vida nos dá e tentar honrar o legado de quem se foi. 
Às vezes é isso mesmo, é preciso se vergar para não quebrar, esperando que um dia as faltas diminuam de intensidade, te deixem respirar, viver melhor.
A perda de um emprego ou o término de uma relação amorosa às vezes demanda um mergulho mais profundo e sincero na própria alma. Tudo bem que a gente passa mais tempo no trabalho que em casa, a depender do job, e que namorar é "morar na...", mas se, passado o "tempo regulamentar", a gente não consegue superar, é porque essa perda ativou algum complexo. Tá vendo a frase lá em cima, do Hesse? Pois é, é hora de se perguntar como essa dor, como esse outro que a "provocou", faz parte da gente. O ex não te considera e mesmo assim você continua parada na dele? Será que vocês não estão unidos pelo ato comum de te desprezar e dar pouco valor? Será que o chefe autoritário te desperta ódio porque lembra, por exemplo, o seu pai? Enfim, o outro é uma oportunidade de revisão de como nos colocamos no mundo e de que assuntos precisamos cuidar para seguir bem. 
Portanto, saber que precisa se amar pode ser altamente insuficiente para responder a quem sofre uma rejeição, uma perda. É preciso investigar a origem desse desamor, entender o que você vê na atitude do outro que tem a ver com o que você faz a si mesma, elaborar uma listinha das próprias qualidades e, então, se ver com uma lente mais realista, mais amorosa. A gente nunca vai saber o que se passa na cabeça dos outros, mas podemos ver o que anda circulando sorrateiramente na nossa... Enfim, acho que não se resolve um imbróglio desse por decreto, né, gente? "Vá pra casa e acorde se amando". Ah, para. Meu conselho seria: "Vá para casa e investigue suas crenças erradas e os traumas que as sustentam, quais situações precisava enfrentar, mas não enfrentou, te fazendo carregar uma caveira de burro vida afora".
Uma amiga minha não é linda de morrer, mas é bonita e muito articulada - simpática, inteligente, engraçada. Uma figura certamente apaixonante, eu diria. Pois bem, ela não consegue parar com homem nenhum, apesar de nunca estar sozinha. Aparentemente ela leva isso com bom humor, mas, claro, a pulga fica atrás da orelha. Um dia, em consulta com o guia espiritual, descobriu que ainda não havia superado o trauma da adolescência, quando foi trocada, pelo primeiro namoradinho, pela prima, a quem ela o apresentou em um São João na casa de um parente. Como se tratava de família e a sociedade manda a gente manter o orgulho nessas horas, ela não pôs pra fora. Resultado: isso ainda reverbera dentro dela e, somado a uma mãe que toma vários cornos do marido, fez ela acreditar que homem não é ser confiável. Ela está sempre na defensiva, esperando mais uma decepção. E não é que ela seja fria, até porque a personalidade dela não dá pano pra isso, mas, inconscientemente, se porta como se gostasse menos do rapaz do que realmente gosta, como se tanto fizesse pra ela estar com ele ou não. Resultado: todos eles acabam se picando, mesmo gostando muito dela, temendo levar um toco a qualquer hora (sabe como é: homem que é homem não arrisca, se antecipa, hehe). 
Jordan diz que quando isso acontece, uma parte de você fica para trás, e é essa parte que precisa ser resgatada e curada, para a vida, naquela determinada área, voltar a andar. No caso específico das relações afetivas, ele aconselha que a gente trabalhe o ódio - pois isso liga as pessoas, tanto quanto o amor - e aceite que aquela pessoa difícil teve a função de ensinar algo importante para a gente. Eu concordo. É difícil chegar lá, mas é possível e necessário. 


domingo, 7 de agosto de 2016

Onde os fracos não têm vez

Esse lugar é no meu coração.
Eu queria ser que nem Paula, a amiga de uma amiga, que se relaciona com um cara que é quase um filho para ela, nada de mais, muito pelo contrário, mas ela acha que ele é a melhor coisa do mundo.
Talvez eu esteja idealizando demais, mas para que serve o amor senão para nos iludir, para nos inspirar? Só que eu dei azar. Peguei uma geração de homens fracos, que, pra começar, se educaram via Tiazinha e pornografia na internet, que não sabem quem são, o que querem e não lutam por nada. O que vier é lucro. Ficam que nem Romário na boca do gol. Esse tipo de homem, para mim, é o que há de mais broxante. Uma falta de querer, de ganhar e de perder... Ah, essa minha maldita mania de expectativa! Por que eu não crio unicórnios em vez disso, né?

Tempo Rei

"Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos"


Uma colega me colocou em uma comunidade do Facebook destinada a criar "laços entre as manas". Eu fiz umas coisas para duas meninas, fiquei feliz com o resultado, mas, na moral, não quero ser mana de ninguém. Não assim, na base da obrigação por ideologia, do "decreto". Ainda teimo que as coisas aconteçam no meu próprio tempo, não na base do "tem que", por melhor que seja o motivo. 
Na verdade, eu sou pessimista em relação a grandes transformações, de verdade, entre gente que nasceu nas décadas de 80 e 90, aqueles que, a priori, ainda não estão velhos o bastante para serem "casos perdidos". Eu acho que estamos. Penso que já fomos contaminados por, no mínimo, duas décadas de educação preconceituosa. Por isso, não acredito em homem "feministo" - na prática, eles muito raramente não decepcionam, por melhor que seja o discurso e, digo até, a intenção -, não acredito em igualdade racial e equiparação de direitos entre os sexos. As hierarquias ainda estão aqui dentro de nós, esperando qualquer distração para pular da nossa boca e fazer aquele estrago - aliás, tenho muito medo de quem não consegue perceber isso e acha que pode resolver as diferenças por decreto. O que de melhor podemos fazer é vigiar os monstros que abrigamos, sermos solidários aos que sofrem mais que nós e, principalmente, orientar a nova geração para que sejam melhores. Eles, sim, têm condições de serem diferentes, mas ainda assim, acredito que civilizados, no melhor sentido da palavra, serão os filhos deles. Esse é um trabalho de formiguinha, botem fé.
A essa altura, eu tenho 30 anos de histórias de maus-tratos sofridos nas mãos de outras mulheres. Não tem como apagar isso e dar as mãos a todas, transformando-as automaticamente em "manas", como se eu não soubesse o que uma mulher é capaz de fazer com a outra quando decide que essa "merece" ou simplesmente quando percebe que "pode". Desculpem os fãs, mas não levo muito jeito para hipocrisias, mesmo as mais bem intencionadas. Mas, por isso mesmo, acho que posso adocicar meu olhar e ser solidária a qualquer uma que esteja, de alguma forma, sendo oprimida por ser mulher. Isso eu posso fazer de boa. Não só posso como pratico há muito tempo. 

Perder para ganhar

É ruim se sentir rebaixado, humilhado, mendigando. Qualquer ser humano normal evita isso, claro. Mas existem situações em que não tem jeito: é perder para ganhar. Nessa hora, a pessoa tem que ter muita lucidez para ver o que está em jogo e ser humildade.
Quando tinha uns 18, 19 anos, para terminar o curso de inglês em uma boa escola de Salvador, passei maus bocados com o meu pai. Se eu não tivesse um objetivo maior, poderia ter ficado mal com aquilo, mas estava determinada. Minha irmã mais velha, que dividia quarto comigo, um dia me falou: "Eu, no seu lugar, jamais me prestaria a isso". É que ela nunca teve sede de saber. Hoje eu falo, por baixo, duas línguas estrangeiras e ainda arranho em outras duas, e ela nunca sequer conseguiu aprender inglês, mesmo ganhando cinco vezes o que eu ganhava. É que certas coisas, além de vontade, tendem a acontecer com mais facilidade em determinada época da vida. Eu sabia disso, me sujeitei, obtive... E se alguém tem que lamentar é meu pai, não eu. Hoje, só lembro dessa história quando surge um gancho para contá-la.
Essa semana, percebi que uma amiga está desperdiçando algo grande por pirraça, por orgulho. Também estava fazendo isso em uma situação específica.
Por isso, é preciso estar atento e forte, para não desperdiçarmos oportunidades por causa de besteiras.

Robocop Days

Uma amiga está sofrendo muito com uma separação. Ela não é direta, mas dá para perceber. Apesar de discreta, há quem a critique, mesmo ela sentindo uma dor dilacerante (cá pra nós, a outra pessoa foi sacana). Compartilhar é uma das formas de se livrar. Quem escreve sabe muito bem disso, do alívio em entregar uma emoção a outro, da busca por compreensão, por cumplicidade.
Mas é que vivemos em uma era de cyborgs, os "robocop days", em que nada pode nos afetar. Há de sair por cima, sempre. No entanto, até pouco tempo atrás, a gente tinha licença para duelar em caso de ofensa. Ok, com menos sangue é mais legal, mas o caso é que as violências, físicas e sentimentais, mexem com a gente. Por que negá-las, como se fôssemos de aço e não de carne?
Eu não ando passando por uma fase fácil. É um momento de parada forçada, de reflexões sobre o passado (colocando ponto final em certas pendências, que só existem porque quis bancar a racional, a controlada, abafando sentimentos) e questionar o futuro. Me pego entre o impulso de contar (porque o que é guardado cresce e pode até nos engolir) e o medo de ser julgada, da minha confissão ser usada contra mim. É horrível.
Quando foi que ter sentimentos virou algo indecente?

domingo, 17 de julho de 2016

As escolhas te definem?

Outro dia estava andando na orla, quando encontrei Catarina. Gosto muito de Cat, de graça. Ela é novinha, tem 20, 21 anos, mas já está às voltas com as primeiras grandes escolhas. Ela tem um amigo mais velho, também mentor espiritual dela, que foi contra as duas decisões que tomou recentemente, uma amorosa e outra profissional. Mas a menina teimou, mesmo com todo mundo enchendo o saco dela, simplesmente porque não queria bancar aqueles sacrifícios.
Pois bem, encontrei Cat feliz da vida, com um novo emprego, segundo ela - e eu acho que sim - muito melhor do que aquele que recusou, que o guru insistia pra que ela aceitasse.
A gente sempre pode se surpreender com coisas que não dávamos nada à primeira vista. Isso, no meu caso, se deu mais com pessoas do que com situações. Todas as vezes em que fui pra algo achando que não ia render muito, não rendeu mesmo. Já o contrário aconteceu algumas vezes.
Mas eu penso que mesmo que tenhamos "perdido" algo ao recusar uma situação, aquilo não era para a gente naquele momento. Porque nem sempre temos musculatura para lidar com certas situações e mesmo aquelas que, ao final, são positivas exigem da gente.
Enfim, acho que as escolhas podem nos definir, mas não definimos tanto assim as escolhas. Apenas, nas melhores situações, procuramos fazer as melhores que conseguimos.

All by myself (don´t wanna live)

Uma vez li que quem tem Nodo Norte apontado para o signo de Leão, como eu, vai passar a vida inteira se frustrando toda vez que depositar esperanças em parcerias, que a meta é aprender a ser como Leão é, independente e confiante. Não sei se a Astrologia realmente tem fundamento, mas se não tem, foi muita coincidência porque tem sido assim desde o início da minha vida. Se eu quero que algo aconteça, tenho que fazer sozinha.
Mas cansei disso. Eu quero parcerias.

Autistas? Até quando?

Essa semana tive a minha primeira experiência pela internet. Não aconteceu nada de muito ruim, mas foi decepcionante. Sabe, ninguém quer ir conquistando os outros aos poucos, é uma pressa, uma falta de sentir o outro que vou te contar. As pessoas estão desesperadas, carentes, afobadas. Desisti. Quero outra coisa, ou melhor, outro tipo de sujeito, eu percebi.
Coincidentemente, algumas histórias negativas - uma delas estarrecedora - chegaram aos meus ouvidos. A galera tá franco atiradora, tentando extrair prazer o máximo que puder, e que cada um aprenda a defender o seu para não tomar bolada nas costas. É isso: as interações entre as pessoas virou um grande jogo de baleado.
Nada contra querer extrair o máximo de prazer, até porque a gente só vive uma vez. Mas acho que as coisas têm que ser de comum acordo. Se todo mundo tá sabendo e tá de acordo, beleza. Fora disso, sorry, não há fair play.
E é com decepção que eu vejo que alguns maus hábitos/equívocos masculinos contaminaram mulheres e gays.
Tenho muita curiosidade pra ver o que vai ser desses trintões daqui a dez anos. No que essa gente "lost in translation" vai dar.
Uma amiga minha aposta que os homens heterossexuais são os que mais vão se surpreender. Isso porque, na percepção dela, eles apostaram que são "mercadoria rara" mediante o número de homens gays, mas não contaram com o aumento do número de mulheres homossexuais. E realmente isso já está acontecendo, pelo menos nos meios mais intelectualizados é o que mais a gente vê. Ela acrescenta que essa onda feminista é, inclusive, uma reação a esse machismo que transformou mulheres em "carne barata" no "mercado amoroso". Realmente, é insuportável o nível de exigência que uma mulher tem que cumprir se quiser "vencer" as demais "concorrentes". Tendo a concordar com ela... Na verdade, os homens heterossexuais ainda são basicamente homoafetivos, por mais contraditório que isso posso soar. No dia em que eles gostarem da amizade de suas mulheres como gostam dos "bróders" a coisa pode começar a ficar boa (e talvez as mulheres menos nervosas, porque eu acho que muita coisa é consequência de não serem ouvidas).
Enfim, folks, a seguir cenas. Isso vai ser interessante de ver. Ou não.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O passado silenciado

Minha mãe, que nunca trabalhou fora e acha que o ser humano tem que se submeter a tudo para ter um salário (qualquer que seja), sempre acha que eu me arrependi quando visito o antigo emprego ou comento com saudade de algum bom momento. Não se trata disso. Não mesmo. E quando uma pontada de arrependimento surge, eu sei que isso tem mais a ver com uma carência minha que com um sentimento real, e logo passa.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A teoria da prateleira (criando poeira)

Minha irmã, ser altamente pragmático, quando ainda habitava a nossa humilde residência, uma vez, saindo do banho, enquanto eu escovava os dentes, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.

(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).

Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.



Tempo de revisão

Eu tive um ano bem movimentado até o final de maio. Produção, produção, produção. Desde então, parada há pouco mais de um mês, ando agoniadíssima com o futuro, o que infelizmente vem me impedindo de aproveitar o presente como deveria, coisa que eu pretendo corrigir ainda esse mês. Sou ansiosa, admito. Mas sinto que eu não estou muito em posição de apitar no jogo da vida nesse exato momento. É tempo de espera, de trabalhar no escuro (coisa que eu odeio).
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.

Uma experiência com programa popular

Faz três meses que pedi pra sair de um programa popular, no qual fazia produção. Uma das coisas que me desagradava é que se tratava de um programa assistencialista. É tudo que mais odeio na vida (tenho horror a Gugu e até a Luciano Huck, a versão mais limpinha dele). E fazer produção não é de Deus também. Ô treco chato...
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.