Se eu disser o que eu vou escrever aqui, o povo me mata. Ivete já se tornou uma ideia, e do tipo incontestável. Não sei se ela já sacou isso e se sacou, se isso a afeta, mas ela já deixou de ser ela pra virar uma projeção nacional da pessoa gente boa, a imagem do brasileiro suingue sangue bom. Ninguém vai ler isso, mas caso leia, que fique claro: esse texto não é depreciativo. Eu gosto dela no geral, mas algumas coisas não descem redondas, não. Eu tenho uma casa 8 muito lotada pra não desconfiar do que tem debaixo das aparências...
Acho Ivete uma pessoa sensata, como pouco se vê no meio artístico. E simples. Mas não acredito nessa alegria desmedida. Por um lado, ela teve muita sorte na vida e sabe reconhecer e aproveitar isso, o que é um sinal de sabedoria. Mas não acredito nessa coisa que ela diz que não deixa a tristeza chegar perto. Acho isso impossível. Acredito mais numa vida em que a alegria nunca chega perto do que no contrário. Não tenho certeza se isso, de Ivete, é sabedoria ou se é fuga, já que todo mundo, inclusive ela, quer essa Ivete animadona, super positiva full time. O reforço externo que ela ganha pra ser essa daí há 30 anos, pelo visto, bateu internamente e ela fica nessa de ser a animadona, a super resolvida.
E uma parte de mim sempre pensa: ok, está tudo correndo bem na vida da pessoa, é até relativamente fácil manter o equilíbrio, o personagem de bem resolvida quando é assim. Mas como vai ser quando essa pessoa fracassar, quando as coisas saírem fora do planejado? Na prática, a teoria é outra. Tem cantos escuros do mundo e da nossa alma que só no movimento de ladeira a baixo pra gente descobrir se consegue lidar e o quanto eles conseguem influir em quem somos e na nossa vida. Sabe aquele slongan do Real World, reality da MTV? "Esta é a história real de sete estranhos escolhidos para viverem juntos numa casa e ver o que acontece quando as pessoas começam a perder a gentileza e a serem de verdade".
Um segredinho astrológico: toda pessoa com a lua em signo de fogo não sabe sofrer (é o caso dela e também o meu, e nós duas temos a lua em sagitário, o que é pior ainda, porque é pura negação da tristeza). A pessoa quer sair por cima, mostrar "que não doeu". Ivete tem plutão em libra cravado no ascendente em virgem. Plutão no ascendente tem dois vieses: um, negativo, é aquela pessoa que joga o pior dela logo de cara, porque daí só fica quem aguenta; outro, que tem um uso mais positivo, é aquela pessoa que tem um autocontrole espantoso. Ivete é o segundo caso e com os signos envolvidos, ela vai querer mostrar perfeição, bom senso e diplomacia. Ela se exibe muito, mas não se mostra demais - repare nisso.
Outra coisa dela que não me desce (e é tipicamente geminiana) e que eu acho que é instintiva, que ela não faz por mal, é que Ivete é amiga de todo mundo. Ou seja, não é amiga de ninguém. E isso você vê na prática. Chama todo mundo de "zamuri", mas raramente aparece fazendo um social com as amigas. Sempre vejo Ivete com a família. É uma energia gasta em ser popular e aceita por todos, mas não no aprofundando de vínculos. O famoso "só sobe na vida quem nunca se ofende", como dizia o personagem de Nelson Rodrigues.
Todos nós somos instigados a ter uma persona pública, a performar, e no caso das mulheres, a mostrar muita feminilidade, o que quer dizer doçura, submissão, fragilidade, etc. Mas eu não como esse reggae porque sou ser humano e sei como a cozinha da alma funciona, ora.
No caso dos famosos, essa interpelação é maior ainda. Afinal, a vizinhança se amplia, você está sendo observado por quem você não vê. É uma ansiedade que eu não conseguiria imaginar.
Eu acho, por exemplo, que Britney Spears e Michael Jackson são pessoas muito doces, carentes e tal (no caso dele, que já faleceu, era). É assim que o público percebe esses dois pop stars. Mas até pelo nível de sucesso e que vem desde criança, dá pra perceber que há traços de autoritarismo, que gostam que os outros façam o que eles querem e se enfurecem quando contrariados. Britney mesmo deixa vários vestígios desse comportamento, mas ninguém presta atenção nisso, pois ela está sempre performando feminilidade, doçura, fala fino, é pequena, tem ar de carente, etc.
A pessoa performa até pra se proteger, é claro, mas não sou obrigada a acreditar.