quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Meia boca

 Eu já gostei mais de gente. Não sei se digo isso com pesar ou indiferença. Não sei. 

Inclusive minha vontade de fazer Psicologia, de ser terapeuta, vinha muito disso. Eu me interessava pelas pessoas, gostava de ouvir mesmo quando ninguém mais tinha paciência. Gostava de ajudar, de aconselhar. Não quero mais. É, se a minha primeira vida é uma morta viva, a minha segunda vida nasceu natimorta. Acho todos os meus (poucos) pacientes chatos. As neuroses são nada interessantes (risos). Descobri que eu gostava de mim nas minhas próprias sessões, conversando com um terapeuta sagaz (sim, é como uma dança, não adianta só um lado botar pra quebrar). Modéstia à parte, eu sei desenvolver a conversa. Descobri que um bocado de gente é péssima nisso, mesmo quando o assunto é a própria vida. Eu me interesso por quem sabe conversar. Ponto. Aliás, eu tenho mil coisas pra falar mal do povo da Comunicação, mas, neste quesito do papo, é um meio que te acostuma mal, pois geralmente as pessoas sabem conversar (o nível anda caindo, mas ainda é superior à média da sociedade). A única coisa que salva é conhecer as histórias de vida, isso é sempre interessante de fato. 

Eu antes não era assim.

Acho que foi a pandemia. Explico: a gente foi mais pra dentro, não necessariamente num sentido mais profundo, mas a gente teve que se dar mais relevo, já que os outros estavam longe. Fizemos isso através das redes sociais, o que tornou esse show do eu mais agudo. 

E eu acho que também tomei uns vááários baculejos sucessivos da vida, que me fizeram ficar mais amiga de mim mesma e menos disponível pros outros. Mais interessada em resolver as minhas coisas, até porque hoje tenho mais passado que futuro. Até porque não tem ninguém me dando contrapartida, interessado assim em mim. E eu tenho feito muita coisa e tô andando muito ocupada com isso, porque preciso agilizar certas áreas da vida, e então não tem sobrado muito tempo e o que tem, eu quero gastar com qualidade. Preciso inclusive desacelerar, descansar... 

Influi nisso meu desgaste com Salvador (na verdade, com o Brasil). Definitivamente esse não é meu lugar no mundo, embora eu tenha afeição pela cidade. Mas aqui nada frutifica pra mim (há lugares, pessoas e situações que definitivamente não são pra gente). Eu não curto os tipos da cidade, acho todo mundo meio personagem, até gente boa, mas quase todo mundo faz tipo, uma coisa meio falsa, todo mundo fingindo que está sendo super espontâneo mas jogando na retranca, uns tipos meio batidos, até porque o povo não é nada criativo (eu poderia separá-los em gavetas de acordo com o tema do personagem). Eu não consigo me desenvolver nessas bases. Eu gosto de intimidade e aqui é o antilugar pra essas coisas. Salvador e seus códigos dúbios me fizeram uma sujeita desconfiada das pessoas. Eu não era assim. Cheguei aqui criança, levando bolo de aniversario pra vizinha que mal conhecia, mas hoje não quero mais conhecer ninguém nessa cidade. Não tem novidade, é como se eu sempre estivesse lidando com o mesmo tipo de pessoa que eu já conheço à exaustão e não tenho muita admiração, não. 

E o mais triste pra mim é que eu sou meio Tom Cruise. Se animada, eu sou do time de quem sobe no sofá de Oprah. E eu sou reativa, esse lado só aparece se acionado por outra pessoa com quem consigo desenvolver uma ligação, assim como também acontece com o meu pior lado. Mas a realidade foi e tem sido tão meia boca, que eu me sinto uma bola murcha quase todo o tempo. Tô vendo umas paradas aí pra ver se melhora a coisa, mesmo que parcialmente, mas não depende só de mim. Gostaria muito de encontrar quem jogue comigo antes de sair desse jogo da vida. Qualquer um, pode ser até um cachorro. All I want is a little reaction... 

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