Minha mãe, que nunca trabalhou fora e acha que o ser humano tem que se submeter a tudo para ter um salário (qualquer que seja), sempre acha que eu me arrependi quando visito o antigo emprego ou comento com saudade de algum bom momento. Não se trata disso. Não mesmo. E quando uma pontada de arrependimento surge, eu sei que isso tem mais a ver com uma carência minha que com um sentimento real, e logo passa.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
quinta-feira, 14 de julho de 2016
segunda-feira, 11 de julho de 2016
A teoria da prateleira (criando poeira)
Minha irmã, ser altamente pragmático, quando ainda habitava a nossa humilde residência, uma vez, saindo do banho, enquanto eu escovava os dentes, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.
(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).
Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.
(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).
Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.
Tempo de revisão
Eu tive um ano bem movimentado até o final de maio. Produção, produção, produção. Desde então, parada há pouco mais de um mês, ando agoniadíssima com o futuro, o que infelizmente vem me impedindo de aproveitar o presente como deveria, coisa que eu pretendo corrigir ainda esse mês. Sou ansiosa, admito. Mas sinto que eu não estou muito em posição de apitar no jogo da vida nesse exato momento. É tempo de espera, de trabalhar no escuro (coisa que eu odeio).
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.
Uma experiência com programa popular
Faz três meses que pedi pra sair de um programa popular, no qual fazia produção. Uma das coisas que me desagradava é que se tratava de um programa assistencialista. É tudo que mais odeio na vida (tenho horror a Gugu e até a Luciano Huck, a versão mais limpinha dele). E fazer produção não é de Deus também. Ô treco chato...
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.
Julieta
Acabei de voltar do cinema. Fui assistir "Julieta", o novo de Almodóvar. Para resumir, já vi coisas melhores dele. O diretor tenta ir na linha de "Tudo sobre minha mãe", mas não rola. Só o problema de coluna que ele teve antes de filmar explica ter escrito uma carta em vez de um roteiro, que não acrescenta quase nada à história, é dramaturgicamente fraca. Mas Almodóvar é bom mesmo quando não é supimpa, essa é que é a verdade.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos. Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos. Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Freddy
Nem sempre fui "bela, recatada e do lar". Até uns seis anos de idade, era bem wild. Vivia apaixonada e expressava meus sentimentos na maior cara de pau e sem direito a democracia. Por base nas minhas paixonites da primeira infância, entendo perfeitamente o que Tônia Carreiro quis dizer quando falou que Vinícius de Morais era capaz de qualquer baixaria para conquistar uma mulher. Eu jogava nesse time. Hehe...
Fora Rodrigo, meu vizinho "rebelde", que se escondia de mim quando eu chegava na casa dele - e eu não me abatia nem um pouco; ia tirá-lo debaixo da cama ou de dentro do armário, esconderijos batidíssimos dele, para abraçá-lo bem forte enquanto ele chorava... puro charme! -, Freddy foi minha grande paixão da infância. Só que ao contrário de Rodrigo, que era da minha idade, ele era 13 anos mais velho que eu. E morava no interior da Bahia, então só o via durante 20 dias por ano, em janeiro. Portanto, a estratégia era praticamente de guerra para chamar a atenção do moço, o mais bonito e disputado por todas as jovens, sem exagero, daquela colônia de férias. Eu, do alto dos meus cinco anos, achava que podia com elas.
É que Freddy me dava ousadia e eu achava aquilo muito natural, e ficava em busca disso o tempo todo. Mas, pensando bem, poderia não ter sido assim, né? Eu achava que ele era gente grande, mas era só um menino, um adolescente. Normal até que ele não me desse atenção. É que me achava engraçada, ria das minhas tiradas, e me considerava esperta. Também acredito que, olhando retrospectivamente, ninguém se esforçava tanto para ter ele por perto, naquela colônia, como eu, que, a despeito de ter mudado muito a partir da adolescência, quando me empolgo, equivalho a um fã-clube ambulante da pessoa. "I was born to love you, with eeeeeevery single beat of my heart...".
Eu me lembro de uma vez em que uma menina da minha idade comentava que ele era o mais bonito da colônia. Eu respondi que ele gostava de mim e ela olhou com aquela cara de "Sério?!". Eu subi de uma árvore e comecei a gritar por ele, pedindo ajuda pra descer. Ele me tirou de lá e me levou pro pátio no colo. Eu me lembro da minha cara de "Viu, bestona, como é que se faz?!" pra coleguinha. Hahaha... Ainda bem que ele me buscou, porque eu não sei como ia descer de lá.
Outra vez, eu tinha guardado a melhor roupa que havia ganho no Natal para mostrar a ele nas férias. Eu vesti a tal, passei por ele, que nem percebeu. Na minha cabeça de criança eu achava que ele tinha que ter percebido e fiquei muito chateada, fui me trancar no meu quarto. A mãe dele sacou o ocorrido e mandou ele conversar comigo. O bico só se desfez assim.
Bem, mas se eu não me dei bem naquela época - graças a Deus, porque seria pedofilia -, ganhei uma honraria que nenhuma outra gostosona daquela colônia teve: minha foto com ele, num porta-retrato, por anos figurando no quarto dele. Sei disso por causa de uma ex-namorada dele que me contou - eu já estava na faculdade.
Ê Julinha retada! Hehe...
Fora Rodrigo, meu vizinho "rebelde", que se escondia de mim quando eu chegava na casa dele - e eu não me abatia nem um pouco; ia tirá-lo debaixo da cama ou de dentro do armário, esconderijos batidíssimos dele, para abraçá-lo bem forte enquanto ele chorava... puro charme! -, Freddy foi minha grande paixão da infância. Só que ao contrário de Rodrigo, que era da minha idade, ele era 13 anos mais velho que eu. E morava no interior da Bahia, então só o via durante 20 dias por ano, em janeiro. Portanto, a estratégia era praticamente de guerra para chamar a atenção do moço, o mais bonito e disputado por todas as jovens, sem exagero, daquela colônia de férias. Eu, do alto dos meus cinco anos, achava que podia com elas.
É que Freddy me dava ousadia e eu achava aquilo muito natural, e ficava em busca disso o tempo todo. Mas, pensando bem, poderia não ter sido assim, né? Eu achava que ele era gente grande, mas era só um menino, um adolescente. Normal até que ele não me desse atenção. É que me achava engraçada, ria das minhas tiradas, e me considerava esperta. Também acredito que, olhando retrospectivamente, ninguém se esforçava tanto para ter ele por perto, naquela colônia, como eu, que, a despeito de ter mudado muito a partir da adolescência, quando me empolgo, equivalho a um fã-clube ambulante da pessoa. "I was born to love you, with eeeeeevery single beat of my heart...".
Eu me lembro de uma vez em que uma menina da minha idade comentava que ele era o mais bonito da colônia. Eu respondi que ele gostava de mim e ela olhou com aquela cara de "Sério?!". Eu subi de uma árvore e comecei a gritar por ele, pedindo ajuda pra descer. Ele me tirou de lá e me levou pro pátio no colo. Eu me lembro da minha cara de "Viu, bestona, como é que se faz?!" pra coleguinha. Hahaha... Ainda bem que ele me buscou, porque eu não sei como ia descer de lá.
Outra vez, eu tinha guardado a melhor roupa que havia ganho no Natal para mostrar a ele nas férias. Eu vesti a tal, passei por ele, que nem percebeu. Na minha cabeça de criança eu achava que ele tinha que ter percebido e fiquei muito chateada, fui me trancar no meu quarto. A mãe dele sacou o ocorrido e mandou ele conversar comigo. O bico só se desfez assim.
Bem, mas se eu não me dei bem naquela época - graças a Deus, porque seria pedofilia -, ganhei uma honraria que nenhuma outra gostosona daquela colônia teve: minha foto com ele, num porta-retrato, por anos figurando no quarto dele. Sei disso por causa de uma ex-namorada dele que me contou - eu já estava na faculdade.
Ê Julinha retada! Hehe...
O reggae e o mar
Estava arrastando minha mala pelas escadas, após quatro horas de viagem, quando Isaac - um espevitado de quase seis anos, cabelos encaracolados e olhos verdes, meu vizinho - me perguntou sobre o meu São João. Disse que fui bem e ele contou que foi pra Ilha. Então, disse a ele que estava chegando de Cruz das Almas.
Ele fez cara de desdém, e disparou:
- Cruz das Almas, tia? Tem que ir para o mar, para a natureza! - sentenciou.
Eu olhei para ele com espanto. Ia perguntar se sabia onde era Cruz das Almas, mas, na verdade, estava intrigada com o bom conselho que o pequeno, de repente, assim, tirou da cartola. Como acredito que Deus fala comigo por vias estranhas, tô achando melhor anotar essa sugestão, aterrar os pés na areia e respirar a brisa do mar.
Sim, vou "dançar esse reggae" de Isaac. "E eu adoro o reggae como adoro o mar". :P
Ele fez cara de desdém, e disparou:
- Cruz das Almas, tia? Tem que ir para o mar, para a natureza! - sentenciou.
Eu olhei para ele com espanto. Ia perguntar se sabia onde era Cruz das Almas, mas, na verdade, estava intrigada com o bom conselho que o pequeno, de repente, assim, tirou da cartola. Como acredito que Deus fala comigo por vias estranhas, tô achando melhor anotar essa sugestão, aterrar os pés na areia e respirar a brisa do mar.
Sim, vou "dançar esse reggae" de Isaac. "E eu adoro o reggae como adoro o mar". :P
domingo, 19 de junho de 2016
Tá todo mundo mal
É culpa das rancheras que meu pai tocava em casa na minha infância. Certeza que é.
Meu pai passava horas, com cara de cachorro que caiu da mudança, bebericando a cerveja e sorvendo cada palavra de lamentação daquelas canções que falavam de traições, decepções e amores maiores que a vida.
Meu pai se sentia traído pelo destino. So do I. E o corno existencial dói, viu, bicho!... Ô se dói.
Ontem, numa reunião de (queridos) amigos, depois de todo mundo ter cheirado um pouco de rapé paricá, o povo soltou as emoções que estavam presas (o pó produz esse efeito). Eu, que cheguei cheia de carga emocional, precisando desabafar, tive uma epifânia de que talvez seja muito difícil encontrar escuta em 2016 porque simplesmente está todo mundo mal, como diz o título do livro da Jout Jout.
Numa determinada altura da noite, uma confissão duríssima, que fez todo mundo ficar paralisado nas cadeiras: de um estupro ocorrido há mais de 20 anos e como isso foi doloroso, porque inclusive implicou em um silenciamento da vítima por medo de ser julgada. A história dela só não terminou em suicídio porque foi salva pela irmã, que morava na Europa, e a levou para lá para fazer um aborto.
Nessa hora, tive a impressão que uma outra amiga queria fazer uma confissão e não teve coragem.
Enfim, folks, se balançar, cai trauma, dor e insatisfação dessa árvore da vida. Tá todo mundo mal e, pior, guardando isso em segredo.
Meteóro, vem nim nós, que o treco aqui embaixo tá pesado, viu, Bê?
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Mente pra mim, me ajuda a viver
(Esse post tem a benção de José Augusto)
Certas cenas da vida cotidiana se encaixam naquela história do só rindo pra não chorar. Tipo, as instruções da aeromoça antes da decolagem. Fala sério que alguém acredita que aquilo vai funcionar em caso de queda? Também não acredito em quem diz que Jesus tá na direção . Só acredito na condução devidamente habilitada.
Mas o caso é que se a gente não acredita, pira.
Certas cenas da vida cotidiana se encaixam naquela história do só rindo pra não chorar. Tipo, as instruções da aeromoça antes da decolagem. Fala sério que alguém acredita que aquilo vai funcionar em caso de queda? Também não acredito em quem diz que Jesus tá na direção . Só acredito na condução devidamente habilitada.
Mas o caso é que se a gente não acredita, pira.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Santo Antônio, me traga um Antônio!
Há um ano estava no México, em companhia de um monte de idosos simpaticíssimos. Bellos recuerdos!
Havia um casal bonito em particular, Lola e Antonio. Gente linda, que deve ter parado o trânsito quando mais jovem, um amor de vida inteira, delicado, cheio de admiração de ambas as partes... Eu queria uma máquina do tempo para vê-los se conhecendo e namorando. Antonio é um cavalheiro na acepção mesmo da palavra. Precisava ver ele contando como fez para protegê-la quando houve um problema durante uma viagem ao Egito. Ay, que amorrrrr!
E o México é um lugar que exala isso. Fica a dica. ;)
Ouro de tolo
Uma coisa que me desilude, quanto ao amor, é que hoje em dia pouquíssimos amam ou sabem amar (não sei ainda direito essa diferença). Ninguém quer ficar "por baixo", todo mundo só quer levar vantagem, e assim poucos casais perseveram, as relações não vão pra frente. É triste. Somos tantos, tão precisados de afeto, e então poderíamos ser muito mais amados se fôssemos mais espontâneos.
As mulheres são carentes demais e os homens, alheios demais: não falam de si mesmos e nem escutam a companheira.
As mulheres são carentes demais e os homens, alheios demais: não falam de si mesmos e nem escutam a companheira.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Sobre mulheres e feminismo
Eu questiono as opressões desde criancinha. Cresci rasgando meias-calças (que só serviam para esquentar as pernas em meio ao calor), questionando os "mulher tem que...". Enfim, tô pensando sobre isso faz muito tempo, muito antes do feminismo entrar para o hit parade.
Ontem, teve palestra de Marcia Tiburi sobre esse tema. Ela tocou em temas importantes, como gratidão às feministas do passado e a importância de termos representantes na política. Mas eu tenho algumas críticas a fazer ao feminismo. Para dizer a verdade, não consigo me denominar feminista porque:
- "Quem vigia o vigia?"
Meu ponto é: a militância traz muitas falas e questionamentos super válidos, quem sofre o preconceito e a agressão sabe melhor falar sobre isso, mas é também tentador ser raivoso quando há essa possibilidade (e até descontar, a pretexto disso, raivas produzidas a partir de outras situações). Então quem "vigia" os limites da militância, ainda mais quando ela reage com violência a qualquer tentativa de contradiscurso, como se isso sempre significasse incompreensão ou censura do que foi dito? Claro, muita gente fala merda, gente que não sabe do que está falando, gente que não quer admitir um problema, mas não é possível que nunca ninguém diga nada ao mesmo tempo contrário e sensato.
Minha esperança é que seja apenas uma fase, uma consequência da descoberta da opressão.
- Ainda não é um caminho feminino.
Como sabiamente diz uma amiga, o melhor jeito de ser "feminista" é resgatando um feminino sagrado.
Eu concordo. Em muitas atitudes, a mulher "moderna" é uma cópia do homem. Ou seja, estamos copiando um modelo fracassado e ainda nos achando por isso. Acordem! Leiam "As brumas de Avalon", hehe. Somos poderosas quando seguimos os nossos instintos, a nossa natureza.
- E por último, mas não menos, eu acho essa palavra ruim. Rima com "machista". Esse "ista"... Tem que pensar em outra coisa.
domingo, 1 de maio de 2016
Sobre a dor
Qualquer ser humano com um par de neurônios e algumas décadas de existência já é capaz de entender que a vida não é justa.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Como diz o ditado...
... gentileza gera gentileza.
Como disse uma vez Thiana Biondo, sinto que as pessoas esperam muito de mim.
Só pode. Ou quem sabe, me acham menor a ponto de ter que aturar tudo com um sorriso no rosto (a vontade é mostrar o dedo do meio, isso sim).
Vivem me mandando perdoar Fulano, compreender Ciclana, como se eu não fosse humana, portanto nada necessitada dessa empatia e insensível às atitudes ruins que os outros têm comigo. Um robô gentil.
Ah, para, né, gente? Quem quer gentileza, faz gentileza. Ninguém é um poço sem fundo de bondade. Chega uma hora que cansa, que seu limite estoura e, rudeza à parte, que nunca é justificável - um dia eu chego lá -, a gente chuta o balde.
Mas, pelo visto, fino é manter o coração e a pele trancados em uma caixa, dentro de casa. Gente legal não sente nada, não se aborrece, não se magoa, enfim, não incomoda. Tá... Sei... Refletir sobre as próprias mancadas e se portar direito ninguém quer, né?
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Me desculpe a sinceridade, mas eu não quero nada além de viver bem
"Sambaby
Sambaby
Eu posso não ser um band leader
Pois é, mas assim mesmo lá em casa
Todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam
Pois é, essa é a razão da simpatia
Do poder, do algo mais e da alegria"
("País Tropical")
Quando eu era pequena, eu imaginava que um dia ainda ia fazer algo de destaque nacional.
Aos 13 anos, numa redação da escola, disse que ainda seria uma grande advogada.
Aos 15 anos, pedi ao meu pai pra entrar no curso de inglês a pretexto de querer me formar em Turismo.
Aos 17 anos, tive o meu primeiro choque de realidade. Aos 18 anos, escolhi a área de Comunicação por me parecer ser a menos penosa. Jornalismo venceu em um sorteio entre Radio e TV - nem existia esse curso na Bahia -, Publicidade e Relações Públicas.
Fui feliz com a minha escolha durante um mês, porque via muitas matérias que pareciam ser bacanas na grade do curso.
Depois eu vi que Jornalismo era um curso de gente vaidosa, com altas ambições midiáticas ou intelectuais. Não me identifiquei. Quis ir embora, mas como sou ruim de desistir, fui ficando.
Quinze anos depois, com passagens por assessoria, campanhas políticas e jornalismo impresso, tenho certeza que essa não é a minha vocação. Será que eu tenho talento? Não sei. Acho que, mesmo desmotivada, consigo um desempenho mediano, mas nunca poderei verificar qual seria mesmo o meu potencial.
Por enquanto, sabe o que eu gostaria mesmo? De trabalhar pouco e viver mais. Eu sempre trabalhei muito - e estudo também é trabalho - e vivi pouco. É hora de inverter. Não me julguem. Me amem. Eu preciso amar um pouco a vida, gente, e presa entre quatro paredes e muitas pressões não dá. Por hora, desisti de profissão. Quero curtir a vida, aprender. Quero o que for fácil, bom, suave.
Chega de "no pain, no gain".
Sambaby
Eu posso não ser um band leader
Pois é, mas assim mesmo lá em casa
Todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam
Pois é, essa é a razão da simpatia
Do poder, do algo mais e da alegria"
("País Tropical")
Quando eu era pequena, eu imaginava que um dia ainda ia fazer algo de destaque nacional.
Aos 13 anos, numa redação da escola, disse que ainda seria uma grande advogada.
Aos 15 anos, pedi ao meu pai pra entrar no curso de inglês a pretexto de querer me formar em Turismo.
Aos 17 anos, tive o meu primeiro choque de realidade. Aos 18 anos, escolhi a área de Comunicação por me parecer ser a menos penosa. Jornalismo venceu em um sorteio entre Radio e TV - nem existia esse curso na Bahia -, Publicidade e Relações Públicas.
Fui feliz com a minha escolha durante um mês, porque via muitas matérias que pareciam ser bacanas na grade do curso.
Depois eu vi que Jornalismo era um curso de gente vaidosa, com altas ambições midiáticas ou intelectuais. Não me identifiquei. Quis ir embora, mas como sou ruim de desistir, fui ficando.
Quinze anos depois, com passagens por assessoria, campanhas políticas e jornalismo impresso, tenho certeza que essa não é a minha vocação. Será que eu tenho talento? Não sei. Acho que, mesmo desmotivada, consigo um desempenho mediano, mas nunca poderei verificar qual seria mesmo o meu potencial.
Por enquanto, sabe o que eu gostaria mesmo? De trabalhar pouco e viver mais. Eu sempre trabalhei muito - e estudo também é trabalho - e vivi pouco. É hora de inverter. Não me julguem. Me amem. Eu preciso amar um pouco a vida, gente, e presa entre quatro paredes e muitas pressões não dá. Por hora, desisti de profissão. Quero curtir a vida, aprender. Quero o que for fácil, bom, suave.
Chega de "no pain, no gain".
sábado, 19 de dezembro de 2015
Como me tornei uma pessoa de "curto prazo"
... Nem eu sei dizer.
Mas o fato é que perdi totalmente o saco com coisas de longa duração.
Seriados? Não. Prefiro novela da Globo. Melhor ainda se for minissérie. Não dá para passar anos seguindo uma história, por melhor que seja. E sou da época em que acompanhávamos, no máximo, três por vez e não uma cacetada deles, que são lançados a toda hora.
Filme é uma coisa bem mais legal, rapidinha - contanto que não dure três horas.
Romances? Prefiro contos e crônicas.
Eu não sei se é falta de maturidade, de repente cansaço em meio a tantos estímulos, ou se é vontade de viver uma vida de verdade e não ficar afundada em ficção, em histórias dos outros. O caso é que para 90% dos meus amigos a ficção é um oásis, enquanto eu raramente me prendo ao que está passando. Me sinto um ET. Tem que ser muito bom para prender a minha atenção. Prefiro viajar, ver gente, ir para a rua, ou ficar em casa sozinha, pensando ou escrevendo.
Escrever. "Agente da ativa". Eu tenho pressa, acho que esse é o caso.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Batom
Gosto que as mulheres comecem a se dar conta das perversidades do sistema. Mas outro lado meu fica irritado com essa onda de feminismo.
Vamos aos fatos: falam em feminismo as mulheres protegidas, brancas, da classe média. O discurso feminista é bastante classe média. A mulher marginal sempre teve uma vivência feminista, ainda que não tenha consciência disso; foi obrigada a ser autônoma porque ninguém nunca se interessou em protegê-la.
Apesar de classe média, eu sempre fui marginal. E antes de ter consciência disso, já odiava um monte de coisas de mulherzinha.
Odiava quando minha mãe fazia aqueles cachos bizarros no meu cabelo.
Odiava usar meia calça em festa de aniversário (apesar de adorar me ver de vestido). Eu rasgava a dita cuja assim que chegava na festa, mas, na próxima, lá vinha minha mãe com outra, novinha, geralmente branca (argh).
Na adolescência foi pior.
Eu odiava ir ao salão de beleza. Os tratamentos eram doloridos e as pessoas, racistas. Ouvia das mulheres da família: "Ah, mas mulher tem que se cuidar". E o homem? Eles podem ser naturais. Quem nunca desejou ter nascido homem só pra gozar desse privilégio...
Meu pai não estava nem aí, a gente que se virasse.
Enfim, tratamento de princesa passava longe de mim nessa fase.
Eu não vou me estender, mas, para resumir, como sempre fui diferente da norma - e com pouca disposição para me encaixar nela -, sempre tive que defender a minha liberdade.
Isso aí que as neo feministas dizem pras mulheres não deixarem os homens fazerem eu penso desde que me entendo por gente. Cresci entre mulheres violentadas, eu sei bem como isso funciona, e desde criança isso me indignava.
Essa coisa de meu corpo, minhas regras, eu tive que exercitar desde a adolescência, enquanto olhava outras colegas fora dos padrões, como eu, se mutilando para serem como as meninas "adequadas".
Já fui e já voltei nessa história. Já estou na terceira onda, por isso acho que, ao contrário das neo feministas, entendo os críticos do movimento, como Camille Paglia. A independência feminina não acontecerá por mera imitação das atitudes masculinas, numa competição de quem pode mais. Temos que nos descobrir e achar uma terceira via, que não é essa que nos impuseram historicamente e nem a dos homens (que também precisa de revisão urgente). Há características que são, sim, genuinamente femininas e precisamos nos orgulhar delas.
Há 35 anos sou a mulher que quero e posso. Aprendi a gostar de algumas coisas de mulherzinha e para outras nunca terei inclinação. Fato. Sou feminista na minha vida e sempre defendi esse meu direito de performar o meu gênero como eu sei, como eu quero. A única coisa desse universo que eu realmente não abro mão é de batom.
sábado, 12 de dezembro de 2015
Nem todo mundo pensa bem de si mesmo
Um amigo meu costuma dizer que certas reações dizem mais sobre a pessoa do que sobre o fato em si.
Essa semana pude ter uma prova bizarra disso. Encontrei com uma assessora de imprensa que, ao me ver, não se contentou em me perguntar uma vez se eu estava bem (pergunta a qual respondi com um tranquilo "sim"). Perguntou três vezes, se deparando com a mesma naturalidade. Ao final, incrédula e, acredito, sem graça pelo papelão que estava fazendo, se despediu de mim e foi embora.
Ela queria choro por causa de uma demissão em massa? Ela esperava confidências de minha parte? Provavelmente sim. Mas principalmente estava ali alguém que morre de medo de perder o emprego, que provavelmente deve ser uma base grande da autoestima dela. Eu só lamento. Nem todo mundo pensa bem de si mesmo e algumas pessoas precisam desesperadamente do "ok" alheio para sentir que valem algo.
*
Ela se queixava ao terapeuta que não era valorizada. Ele escutava atentamente e, por fim, resumiu a vida dela em um par de frases:
"Você tem grandes qualidades, mas ninguém consegue ser mais dura com você do que você mesma, que já chega despejando todos os seus defeitos, desejosa de que ninguém crie expectativas sobre você".
Ela não pensava bem de si mesma e isso só atraía rejeição para a sua vida.
*
Duas amigas falam de uma terceira, que vive um relacionamento abusivo. Uma delas comenta: "Não sei por que ela se sujeita. Ela é tão cheia de qualidades e ele é tão...".
O abuso faz a gente não pensar bem de si mesmo. E se é assim, como desejar algo melhor?
Moral da história: a gente só consegue viver uma vida de verdade quando passa a ligar menos para os outros e a fazer coisas que nos façam pensar bem de nós mesmos.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Under pressure
Foi a semana de finalmente dar adeus à redação, junto com um terço dela, que teve que sair por causa da crise financeira da empresa, que acabou gerando o encolhimento do tamanho do produto e, claro, da equipe. Houve injustiças nessa lista e isso também foi difícil de lidar, especialmente com algumas covardias praticadas.
Pessoalmente, eu acho que mais uma vez a vida fez por mim aquilo que eu precisava, mas não tinha coragem. Então, vida que segue, agora sem desculpas, sem cansaços, mas, como nada é perfeito, com incertezas.
Uma das perguntas que me faço agora é se eu quero mesmo continuar ou mudar. Eu sei a resposta, mas aguardo uma confirmação.
No geral, vejo esse momento como uma oportunidade. Mas muitos colegas que foram demitidos estão sentindo que tiveram os sonhos interrompidos, que não valem grande coisa como profissionais. Isso tudo me ensinou muito, especialmente sobre desapego e auto respeito.
O jornalismo faz isso com a gente, mexe com a nossa autoestima frequentemente. Não basta ser competente; espera-se que seja brilhante. E tem que ser o tempo todo, mesmo numa rotina de seis dias por semana e muitos feriados. A gente vive (e é estimulado) se comparando.
Minha experiência em cinco anos de jornalismo impresso: geralmente - não é sempre, mas é comum - os mais "geniais" de uma redação são também os mais "preguiçosos". Produzem bem porque têm tempo, prazo mais longo pra fazer com calma, pra burilar o texto. Claro. Já viu gente exausta sendo criativa? Difícil, né, a não ser que a pessoa seja dona de uma energia fora do comum (ou um ego igualmente grande). Portanto, especialmente com as redações cada vez mais enxutas, há a necessidade de gente com vontade de fazer e disposição para cobrir coisas menos divertidas como buracos, deslizamentos, enfim, a vida real. Não é fácil como parece e nem dá para fazer algo muito criativo. O repórter aparece pouco no hard news. O talento aqui é deixar a história se sobressair, buscar todas as informações, de forma a dar o panorama mais completo possível. Você passa meses e meses cobrindo as mesmas coisas, lidando com fontes de má vontade, fazendo matérias fisicamente exaustivas. Essas pessoas são as que carregam o piano do jornalismo diário e, por isso, deveriam ser mais valorizadas. Mas quase nunca há gratidão pelos operários da primeira hora.
O caso é que esse tipo de ambiente competitivo acaba com a solidariedade entre as pessoas. Traz para os mais destacados a noção de que são estrelas, de que podem fazer o que quiserem, e isso, numa equipe, é ruim, porque sempre desequilibra as responsabilidades, que deveriam ser repartidas igualmente. Aos trabalhadores braçais, deixa a noção de que pouco valem, de que estão no lugar errado, de que não estão fazendo direito.
Esse é um ambiente anti-felicidade. Bem-estar depende do oposto disso. Parem as máquinas: é atrás de satisfação que eu vou correr agora.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Que mal eu fiz a Deus?
Imagine que a sua vizinhança, onde sempre viveu gente como você, começasse a ser ocupada por moradores de todas as partes do mundo. Com o tempo, não seria incomum que os primeiros residentes, os considerados locais, se sentissem invadidos em seu território e até em perigo.
É o que vem acontecendo nas grandes metrópoles do mundo, em especial as europeias, nas últimas décadas. Londres hoje é mais indiana que inglesa; Paris é mais árabe que francesa; Roma é mais paquistanesa que italiana... E a profusão de culturas, esse tal multiculturalismo, começa a fazer europeus, que tanto valor dão à linhagem, ao sangue puro, se sentirem uma raça em extinção.
Por que tanto apego às nossas origens? Porque isso faz parte do nosso laço e orgulho enquanto comunidade, da construção do nosso eu. O ser humano não existe sem uma cultura. Fato.
Mas o problema não está exatamente no outro e sim na relativização que a presença dele faz da minha importância. Então, se sou europeia e me orgulho tanto das conquistas do meu povo - como é o caso da França que, em todos os seus monumentos, exalta o passado e os grandes homens da nação -, como vou ficar feliz vendo que diversos podem ocupar o "meu" lugar, que tenho tanta importância quanto os outros, que não sou especial? Não deveria ser assim em um mundo ideal, mas o ser humano, em boa porcentagem, ainda precisa se elevar às custas do rebaixamento do outro. Como se destacar se não for assim? #magoados
Mas, zombeteria à parte, há um componente adulto e primitivo nisso tudo que é o medo do desconhecido. Percebi isso quando passei três meses morando na França. Se você vive cercado por pessoas de nações das quais inclusive nunca ouviu falar, vai precisar de algum mecanismo para se organizar em meio ao desconhecido. Se não é o caso de ser budista, provavelmente será o caso de desenvolver desconfiança, medo - essa palavra cabe duplamente nessa discussão depois que li uma definição interessantíssima dela: "Medo é um preconceito dos nervos". (by Machado de Assis)
Uma amiga de espírito humanitário outro dia comentou comigo - baixinho pra ninguém ouvir e achar que ela é xenofóbica, o que é bem sinal dos tempos - que entendia o pânico dos europeus com a entrada dos refugiados, pois a leva de expatriados pode trazer junto mais terroristas. Eu já estava ligada nisso por causa de um comentário de Flávia nesse mesmo tom. Assim como minha amiga, eu sou a favor que eles entrem, sim, até porque a Europa e os EUA têm um dedo nisso, mas eu compreendo o medo dos europeus. (Aliás, nada melhor do que a ganância e o medo para nos fazer ser mesquinhos com os outros)
***
E é dessa salada de frutas humana que fala a comédia francesa "Que mal eu fiz a Deus?". O filme, de forma leve e sagaz, trata de temas densos, abordando intolerância, xenofobia, estereótipos, colonização, miscigenação, racismo, sexismo, família, religião, etc. Enfim, posso dizer que meu trauma com "Chou Chou" é coisa do passado depois dessa trilogia "Intocáveis", "Eu, mamãe e os meninos" e "Que mal eu fiz a Deus?".
O filme é a França rindo de si mesma. Fala de uma família classe alta do interior que, após mandar suas quatro meninas para estudar em Paris, as recebe de volta casadas com filhos de imigrantes, inicialmente um chinês, um judeu e um árabe - por isso as reuniões de família nunca acontecem em paz e sempre alguém se ofende com alguma piada étnica feita "para descontrair" - e, por último, um africano.
Nesse último casamento temos um elemento a mais: a oposição da família estrangeira, ou melhor, do pai, uma versão africana do patriarca da família francesa, aliás.
Os pais franceses surtam com isso, a mãe entra em depressão, o casal quer se separar, as irmãs começam a culpar a caçula pelo ocorrido... A coisa toda vira um caos.
A mãe se recupera primeiro e percebe que o que sente é, na verdade, um medo infundado do desconhecido. Por causa disso é acusada de comunista pelo marido, que demora um pouco mais para cair em si. Porém, ao final do filme, é ele quem dá uma preciosa dica de como resolver essa intolerância com outras culturas: é preciso se propor a conhecê-las.
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