Imagine que a sua vizinhança, onde sempre viveu gente como você, começasse a ser ocupada por moradores de todas as partes do mundo. Com o tempo, não seria incomum que os primeiros residentes, os considerados locais, se sentissem invadidos em seu território e até em perigo.
É o que vem acontecendo nas grandes metrópoles do mundo, em especial as europeias, nas últimas décadas. Londres hoje é mais indiana que inglesa; Paris é mais árabe que francesa; Roma é mais paquistanesa que italiana... E a profusão de culturas, esse tal multiculturalismo, começa a fazer europeus, que tanto valor dão à linhagem, ao sangue puro, se sentirem uma raça em extinção.
Por que tanto apego às nossas origens? Porque isso faz parte do nosso laço e orgulho enquanto comunidade, da construção do nosso eu. O ser humano não existe sem uma cultura. Fato.
Mas o problema não está exatamente no outro e sim na relativização que a presença dele faz da minha importância. Então, se sou europeia e me orgulho tanto das conquistas do meu povo - como é o caso da França que, em todos os seus monumentos, exalta o passado e os grandes homens da nação -, como vou ficar feliz vendo que diversos podem ocupar o "meu" lugar, que tenho tanta importância quanto os outros, que não sou especial? Não deveria ser assim em um mundo ideal, mas o ser humano, em boa porcentagem, ainda precisa se elevar às custas do rebaixamento do outro. Como se destacar se não for assim? #magoados
Mas, zombeteria à parte, há um componente adulto e primitivo nisso tudo que é o medo do desconhecido. Percebi isso quando passei três meses morando na França. Se você vive cercado por pessoas de nações das quais inclusive nunca ouviu falar, vai precisar de algum mecanismo para se organizar em meio ao desconhecido. Se não é o caso de ser budista, provavelmente será o caso de desenvolver desconfiança, medo - essa palavra cabe duplamente nessa discussão depois que li uma definição interessantíssima dela: "Medo é um preconceito dos nervos". (by Machado de Assis)
Uma amiga de espírito humanitário outro dia comentou comigo - baixinho pra ninguém ouvir e achar que ela é xenofóbica, o que é bem sinal dos tempos - que entendia o pânico dos europeus com a entrada dos refugiados, pois a leva de expatriados pode trazer junto mais terroristas. Eu já estava ligada nisso por causa de um comentário de Flávia nesse mesmo tom. Assim como minha amiga, eu sou a favor que eles entrem, sim, até porque a Europa e os EUA têm um dedo nisso, mas eu compreendo o medo dos europeus. (Aliás, nada melhor do que a ganância e o medo para nos fazer ser mesquinhos com os outros)
***
E é dessa salada de frutas humana que fala a comédia francesa "Que mal eu fiz a Deus?". O filme, de forma leve e sagaz, trata de temas densos, abordando intolerância, xenofobia, estereótipos, colonização, miscigenação, racismo, sexismo, família, religião, etc. Enfim, posso dizer que meu trauma com "Chou Chou" é coisa do passado depois dessa trilogia "Intocáveis", "Eu, mamãe e os meninos" e "Que mal eu fiz a Deus?".
O filme é a França rindo de si mesma. Fala de uma família classe alta do interior que, após mandar suas quatro meninas para estudar em Paris, as recebe de volta casadas com filhos de imigrantes, inicialmente um chinês, um judeu e um árabe - por isso as reuniões de família nunca acontecem em paz e sempre alguém se ofende com alguma piada étnica feita "para descontrair" - e, por último, um africano.
Nesse último casamento temos um elemento a mais: a oposição da família estrangeira, ou melhor, do pai, uma versão africana do patriarca da família francesa, aliás.
Os pais franceses surtam com isso, a mãe entra em depressão, o casal quer se separar, as irmãs começam a culpar a caçula pelo ocorrido... A coisa toda vira um caos.
A mãe se recupera primeiro e percebe que o que sente é, na verdade, um medo infundado do desconhecido. Por causa disso é acusada de comunista pelo marido, que demora um pouco mais para cair em si. Porém, ao final do filme, é ele quem dá uma preciosa dica de como resolver essa intolerância com outras culturas: é preciso se propor a conhecê-las.
Nenhum comentário:
Postar um comentário