Eu penso melhor em movimento ou debaixo d´água.
Outro dia, caminhando, refletia sobre a minha alegria em sair para algum barzinho ou festa, aos 35 anos. Eu me questionava se nunca isso iria passar, digo, essa necessidade de rua.
Se envelhecer é não querer sair de casa, minha mãe é uma velha desde os 20 anos. Sério. Pouco lembro de minha mãe saindo, tendo vida social sem a gente. Ela me intriga: não deseja nada, não vai pra lugar nenhum, não tem amigos, não se envolve em nenhuma atividade fora as de casa. Com todo o respeito, se tivesse vivido a vida dela, não teria vivido sequer 35 anos.
E boa parte da geração dela é assim. Eu acredito muito que minha mãe é fruto (e vítima) do tempo dela. Que se tivesse nascido no mesmo ano que eu, teria sido uma mulher diferente. Talvez como Flávia, com quem ela tem muito a ver.
Por que não falo de meu pai? Porque ele curtiu muito a vida, não tenho dúvida, embora viva dizendo que se sacrificou muito pela família (qua, qua, qua!... Nesse ponto, ele é mais garganta que realidade, que nem a filha dele do meio). Quem pagou o pato foi ela e sem reclamar, nunca saberei se por subserviência, ignorância, orgulho ou vergonha.
Vejo nos olhos dela que não entende muito o que eu quero dizer quando reclamo que uma vida só de obrigações sem recompensas não é para mim. Essa passividade dela, para mim, é um mistério. Não sei se desprezo ou admiro. Não sei mesmo porque entra no roll de coisas que nunca vou compreender de fato porque não as vivi.
E então, rodando no Facebook, vi colegas comentando sobre uma nova série do Netflix, "Master of None", na tradução, mestre de ninguém. É sobre a nossa geração, aquela gente que nasceu no início dos anos 80 e hoje já tá na casa dos 30 e alguma coisa, portanto madura a ponto de cair do pé.
Os dois protagonistas, Dev e Alan, são filhos de imigrantes, indianos e chineses, respectivamente. Eles já nasceram em solo americano, desfrutam de uma vida super confortável, cujo maior problema, segundo a observação irônica de um deles, "é se o wi-fi caiu". Isso às custas do sofrimento e do suor de seus pais, sobre quem sabem muito pouco, com quem quase nunca querem estar, mas a quem devem muito mais do que imaginam.
Essa velha geração passou por sufocos, privações, frustrações e humilhações para prosperar. Pouco fala de si mesma, talvez para enterrar os maus momentos do passado. A nova deseja apenas desfrutar e não banca nada que possa trazer desconforto. Por exemplo, filhos estão fora de cogitação, porque podem impedir a criatura de sair para comer massa quando quiser.
O roteiro é hábil. O primeiro episódio nos pega pelo estômago, ou seja, apela para o nosso desejo de liberdade, a nossa pouca disposição para o sacrifício, quando discute as vantagens e desvantagens de se ter filhos. O segundo episódio é um verdadeiro soco no estômago, ainda mais para quem se viu em Dev no primeiro. É quando os protagonistas e nós, espectadores, ficamos sabendo o preço que os pais desses personagens tiveram que pagar para chegar aos EUA. A solidão, o preconceito, a sujeição a subempregos em seus países de origem para bancar o sonho de vencer na maior nação do mundo.
Eu fiquei pensativa sobre isso. E olha que estou longe de ser fútil como Dev e Alan; eu ainda dou valor à luta pela sobrevivência ao contrário de muita gente da minha geração.
Engraçado que ontem, falando de um conhecido da Facom que quer ser escritor, mas que nunca teve um emprego, perguntei a um amigo em comum de onde ele tirava dinheiro para bancar esse estilo de vida. Meu amigo respondeu: "Sei lá, deve ser de alguma família rica". E eu respondi: "Ele não tem medo dos pais morrerem e ele passar dificuldades? Esse povo não pensa em velhice, previdência, plano de saúde, essas coisas?".
Me intriga. E me angustia também. Sonhar, se divertir, é bom e necessário, senão a gente embrutece. Mas isso, sem senso de realidade, pragmatismo, parece devaneio, delírio. Sei lá, acho que essa geração, que tanto quer, que se acha tanto, corre o risco de sair dessa vida sem saber o que é ir ao fundo das coisas, o que é construir, o que é considerar e prezar algo além de si mesmo. O que é crescer.