sábado, 21 de novembro de 2015

Racismo escondido de cada dia

Somos todos racistas. Eu sou racista. Mas há os que cultuam essa chaga da nossa sociedade e aqueles que lutam para se livrar dessa herança maldita. Eu sou do segundo grupo e digo que não é fácil. A luta é diária.

Você percebe que ainda há muito trabalho interno e externo a fazer quando entra no ônibus e fica com medo de um homem negro sozinho e sem mochila. Será que esse mesmo homem, só que loiro, com cara de estrangeiro, também me amedrontaria?

Acho cada vez mais natural ver um casal interracial, mas ainda não é 100%.

Vejo cada vez mais bonitos os que têm traços não caucasianos, africanos mesmo, mas ainda não estou 100%.

Sinto vergonha quando leio, de uma africana - repare que eu nem gravei de que país de lá ela é -, relatos horrendos da guerra e tenho certeza de que se ela fosse americana, sentiria muito mais por ela. Afinal, a violência contra os negros já é algo naturalizado.

Sinto vergonha porque sei que ao pedir a qualquer um de nós para imaginar um homem ou uma mulher, provavelmente não pensaremos em tipos negros.

Me dói quando vejo uma mulher negra com um cara super loiro e jeito de quem ganhou na loteria. Eu sei que ela sofre porque a solidão é quase certa para ela, por questão de cor. E eu sei que ela deve ter sido tão oprimida ao longo da vida, ao ponto de comprar o padrão estético do opressor, sem nem refletir sobre isso.

Me dói quando vejo mulheres negras na luta, sendo humilhadas por pessoas mais claras e ricas. São mães solteiras, esmagadas por todos os lados. Zero piedade para elas. Não fazem nada além da própria obrigação. Aliás, para a sociedade que vira as costas para elas, fazem aquém, já que geram esses marginais que vemos nos presídios. O sofrimento delas também não choca ninguém.

Sinto vergonha quando vejo que só consigo, ainda, ter solidariedade com elas. Deles, ainda tenho medo. Ainda olho com preconceito, embora a compaixão comece a crescer, aos poucos.

Sinto pena de mim quando olho para um passado recente e percebo que foi doloroso, pra mim, assumir minha raiz negra, que mesmo sabendo que tudo isso não é verdade, o olhar inferiorizador da sociedade para essa etnia me atingia durante esse processo.

Sinto pena de nós quando vejo que precisamos medir as palavras para não magoar e abrir velhas feridas.

Precisamos de mais dias da consciência negra, sim. Precisamos reconhecer nossos privilégios.
Há muito o que avançar nessa luta.


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