domingo, 31 de agosto de 2025

Edouard Louis

Acabei de ler a obra mais famosa de Édouard Louis, "Mudar: método". Gostei. Pra mim, o que ele faz não é bem literatura literatura. Falta um estilo, um trabalho mais fino de escrita. É mais um depoimento, como receber um longo e-mail de alguém. É uma crítica social e sob este ponto de vista vale a pena ler. Principalmente pelo fato de estar em primeira pessoa. Aquilo é real, embora cada narração de si tenha sempre um quê de ficção. 

Assim como o editor dele, eu não esperava ouvir essa história de uma família francesa. Mas a pobreza não é só sobre a falta de recursos materiais, mas fundamentalmente ela mata o espírito. As pessoas se dissociam, se ejetam do próprio corpo, da realidade. Édouard é resultado de uma família de ejetados de si mesmos. Comeu o pão que o diabo amassou para estar presente no mundo, mas pelo visto não conseguiu gostar dele. Ou de si. Tomara que um dia ele consiga desenergizar esse trauma. A pobreza, a privação não é neutra, muito menos feliz. Ela pode sim traumatizar. Assim como para o autor francês, ela é o meu maior medo. Dinheiro significa segurança e dignidade em vários aspectos da vida. Eu me identifiquei muito, aliás, com o pensamento dele, ao longo da vida, de que obter sucesso profissional o deixaria a salvo. Sempre tive o mesmo sentimento, mas ainda estou lutando para me salvar. 

Mas não é só o trauma da pobreza. É também o trauma da solidão, do não poder contar com ninguém. O dinheiro te protege de depender financeiramente dos outros pra sobreviver, de não ter o status de lixo humano. 

Lia o livro pensando que, astrologicamente, ele devia ser um sol de casa 8 como eu. Gente, o excesso de crises ao longo da vida é a cara do sol na casa 8. Bingo, ele é! Edouard também tem um aspecto que eu tenho e que quando vejo no mapa de alguém chega me arrepio: sol em aspecto tenso com saturno. Neste aspecto, a pessoa aprende, através do paí, que a vida não é fácil. Mesmo quando a relação com ele é boa, o filho cresce vendo esse pai se lascando. E essa falta de lastro paterno produz uma sensação de insuficiência, baixa autoestima e principalmente um carrasco interno que açoita a pessoa vida a fora. Pessoas com este aspecto querem o sucesso, mas não qualquer sucesso. Ela tem que estar convencida de que aquilo se justifica, o aplauso tem que ser interno também, senão não vale. 

Édouard se expõe de modo cru e o que mais gosto nele é a forma com que costura os lados das histórias. Ele parece não se poupar - embora, claro, não diga tudo, até porque ele ainda é jovem demais pra ter consciência de tudo -, mas ao mesmo tempo ele sabe se defender, no sentido de nos fazer sentir o lado dele na questão. Eu sinto que ele se esforçou pra ser sincero.

E algumas situações são complexas mesmo, como o fim da amizade dele com Elena. De um lado, a moça ficou com o ego ferido ao perceber que ele, que era socialmente tão aquém dela, já não se contentava mais em ser como ela, mas já almejava ser mais que ela. É aquela coisa da pessoa querer seu bem, mas não que você fique melhor que ela. É muito interessante este ponto porque, embora ele seja branco e francês, Edouard aqui esbarrou num critério que limita até pessoas como ele de pertencer à elite daquele país: a tradição. Ele não tem linhagem. 

Por outro lado, ele realmente soou rasteiro e falso quando na surdina se preparou pra ocupar a vaga dos sonhos dela, que ela não ousava tentar por achar tão difícil. Imagine você contar a alguém que entrar em tal vaga é seu sonho e de repente a pessoa, que nunca se manifestou sobre aquilo, aparecer ostentando a aprovação? Fica parecendo que a criatura sente inveja e quer provar que é mais que você. No livro ele explica, e é um argumento plausível, que ele tinha medo de dizer e ser ridicularizado, mas que pegou mal, pegou. Ele meio que assume que usou muita gente enquanto crescia na vida e entendemos que por trás disso está um pavor em regredir e voltar à pobreza. Acho que só o fato dele admitir isso já fala bem dele.

Responsabilizar-se é uma sofisticação da alma cada vez mais rara. E, no caso dele, é curioso: quanto mais ele foi subindo, parece que mais desenvolveu empatia pelas pessoas que surgiram neste caminho. Talvez porque tenha subido, de certo modo, às custas delas, refletindo e contando sobre elas.  

E por falar em Elena, adorei a resposta que Édouard deu à mãe dela, no livro, sobre a acusação de ter se beneficiado da família delas. Ele questiona se Elena também não se beneficiou do meio em que cresceu. Bingo! Óbvio. Essa gente cresce na vida se beneficiando do meio em que nasceu, dos contatos, dos acessos. Mas algumas pessoas estão autorizadas a se beneficiar e outras não. Enfim, igualdade, liberdade e fraternidade não é para todos, nem na pátria que lançou esse slogan.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Imagens e aventuras

Todos nós, a depender da sua identidade, tem suas imagens de perfeição e aventura. Uma mulher cresce acalentando a imagem da bela, sedutora e amada. A aventura é viver um grande amor. Os homens crescem com as imagens de virilidade, força e heroismo. A aventura é viver em perigo e se sobressair como o mais forte. Pessoas ricas crescem acalentando aventuras profissionais, de aquisição, de ascensão social. Com os meninos da favela, a aventura é a de se tornar o traficante, o criminoso temido ou o jogador famoso, e com isso vem todas as imagens de masculinidade já citadas aqui. Os meninos de classe média se aventuram em intercãmbios e na escalada profissional. Cada um segundo o que seu meio prega como o difícil disponível.  

Na verdade, é até esquisito que a gente se prenda nesta teia de aranha e ache que a vida é isso aí mesmo. Que o ser humano, a depender do grupo, aceite passivamente que aquela é a imagem dele, que aquele é o tipo de aventura que ele tem que buscar. 

Mas será que tem como destruir isso? Será que tem como ampliar os tipos de referências e desejos? Não sei. Alias, cada vez menos sei das coisas.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Flavio

Viajei com Erica, minha amiga de longuíssima data, e conversa vai, conversa vem, falando da família, ela me atualizou sobre Flavio. Nascido em setembro de 1981, ele é um herói da resistência. As sucessivas crises de epilepsia, numa época em que não havia muitos recursos, fez dele uma pessoa que vegeta em vida. Fiquei triste, inclusive, de saber que ele passou dez anos dopado. O pai abandonou ele, o irmão caçula maltrata, a mãe se ejetou do corpo e está exausta e minha amiga não dá conta dele. 

Ele foi a primeira pessoa com deficiência intelectual que convivi na vida. Na adolescência, achava que ele era mais feliz que a gente, por não ter consciência. Mas Erica me contou que ele tinha sim, e se revoltava com as limitações dele. Pois é, aprendi que não é porque alguém não consegue se expressar que não existe um mundo interior, uma consciência crítica. 

A história dele me assusta. Eu fico assombrada vendo como alguém que não tem poder fica vulnerável na nossa sociedade - e olha que vivemos a melhor versão do mundo, com direitos humanos supostamente assegurados. Podem fazer o que quiserem com alguém como Flávio, pois ele não tem como se defender disso. A família o trata como um incômodo. No fundo, devem torcer até pra morrer e acabar essa responsabilidade. Ninguém vai admitir isso, mas aposto que sentiriam um alívio depois da dor imediata. Afinal, ele não está mais aqui em espírito. 

Há um quê de egoísmo nisso, mas, por outro lado, não sou hipócrita e sei que na prática, a teoria é outra. A gente mal se aguenta, que dirá um outro tão demandante. Cansa mesmo e pra quem é cuidador, inclusive, chega a ser desumano. A mãe tem toda a razão de estar no limite, sem paciência. Eu estaria. 

Não existem instituições que ajudem as famílias de fato e há muito preconceito com a institucionalização. Mas somos humanos, tanto pra sentir limites e cansaços quanto para prestar assistência a um ser mais frágil. É complicado resolver esse tipo de situação, eu não sei o que dizer. Só sinto muito por Flávio, que merecia ter vivido a vida e não apenas vegetado. Todo mundo deveria ter o direito, ao menos, de tentar. 

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Feel

 Come on hold my hand

I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given
I sit and talk to God
And he just laughs at my plans
My head speaks a language, I don't understand
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins, going to waste
I don't wanna die
But I ain't keen on living either
Before I fall in love
I'm preparing to leave her
I scare myself to death
That's why I keep on running
Before I've arrived, I can see myself coming
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins, going to waste
And I need to feel real love
And a life ever after
I cannot get enough
I just wanna feel real love
Fill the home that I live in
I got too much love
Running through my veins, to go to waste
I just wanna feel real love
In a life ever after
There's a hole in my soul
You can see it in my face, it's a real big place
Come and hold my hand
I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given

Outro dia, parada estava esperando o uber na Feira de São Joaquim, com Daniela e seu Nildo, e um maluco, desses do Centro, tentou me vender uns colares bem rústicos com pedras ligadas aos orixás. Depois de dizer meu orixá (ele acertou Yemanja, mas errou Ogun), o homem disparou a dizer coisas sobre mim: disse que eu tinha cara de quieta, mas era barril, que eu ficava brava; que as coisas que eu quero vão rolar (isso ele não falou com muita convicção e fui eu que perguntei); disse que no amor eu digo que não quero, mas quero (acho que captei a crítica); mas principalmente me disse que tem muita gente falsa ao meu redor, inclusive na família. Disse que sou do tipo que me dedico ao povo, mas quando viro as costas, essas pessoas não estão nem aí pra mim. Me mandou, quase gritando, me valorizar. Joguei no Google "como me valorizar' e uma das respostas mais coerentes que ouvi é que pra isso você precisa se cercar de gente que goste de você. 

Mas não é essa gente que eu ando procurando incessantemente, sem sucesso, a vida inteira? Quem me trata bem, logo sai da minha vida ou nunca rola um contato mais próximo. Quem eu aposto que vai dar bom comigo, uma hora mete a faca nas costas, sem eu entender por quê. Eu fui maltratada pelas pessoas mais próximas, a quem dei mais e de quem mais gostava. É de lascar, rasga a alma. É o desgosto de enterrar pessoas queridas vivas. Eu tenho um cemitério lotado. A minha vida inteira é lastreada nessas perdas. Eu praticamente só perdi até agora. O que eu tenho? Minha cultura, dois diplomas e saúde, graças a Deus. As minhas relações sociais/ afetivas são um acúmulo de decepções e rejeições: na família não salva ninguém, sem vida amorosa e sem amigos de fato. Quando digo que muita gente não aguentaria calçar os meus sapatos, é a isso que me refiro. É duríssimo viver sem afeto, sem ter com quem de fato contar. Eu não só não tenho, como nunca tive um afeto leal, dos bons. Pego umas migalinhas daqui, outras dali e tô com 'fome" há 45 anos. Racionalmente eu sei que a coisa tá feia pra muita gente, mas eu tenho a impressão que pouca gente se deu mal em todas as esferas como eu. E mesmo que eu esteja errada, o que eu posso fazer se a única coisa que eu sinto é o que se passa aqui dentro?

O que o cara da feira me disse combina com o que uma vidente me falou há alguns meses, de que eu não deveria dizer minhas coisas aos outros, pois nem todo mundo me quer bem. 

Eu realmente, de verdade, não entendo qual é o problema das pessoas comigo. As pessoas agem como se eu fosse privilegiada, quando pra extrair o mínimo do mínimo da vida eu ralo pra porra, estou quase o tempo todo com medo que o pouco que eu tenho vá embora - e ainda tô esperando a tal colheita, pois o que tá aqui não é compatível com o que plantei. Tenho três hipóteses pra esse desamor gratuito:

1) As pessoas que ligam muito para as aparências me reconhecem como uma loser, de acordo com o que prega a sociedade, e tem medo de ser como eu, por isso me tratam como alguém de pouco valor;

2) Ou, por este mesmo motivo, as pessoas acham que eu não mereço ter coisas boas e que defender minha dignidade é metidez, e ficam botando olho gordo nas poucas coisas que, com muito esforço, eu consigo na vida. Porque elas, com muito mais, não vao pra frente (e eu faço até muito a partir de muito pouco);

3) Talvez seja algo inconsciente ou espiritual. Sei lá, uma maldição, um animus adoecido que puxa essa disputa, essas brigas. 

Sinceramente, não sei... Não sou santa, mas não merecia tanto desamor nesta vida. Me diz: se somos relacionais, como me valorizar se ninguém me valorizou ao longo da vida? E com o tempo, você vai se isolando, porque, além de perder energia com o envelhecimento, rejeição dói (e demora pra curar).

Será que um dia vou encontrar a minha turma? 



quinta-feira, 10 de julho de 2025

Nova portaria e o fim de uma era

Decidi hoje que não terei mais amizade com homem. Colega eu continuo sendo de qualquer pessoa, mas amizade quero mais não. De agora em diante, só me junto às meninas, no máximo com os gays (porque há uns bem misóginos). Não dá certo. E nem é pelo motivo que você está pensando, é por outro que atravessa absolutamente todos os meus incômodos de lidar com o sexo oposto: o autocentramento. Isso é pior que egoísmo. Valeska Zanello fez uma distinção da hora entre egoísmo e autocentramento: no primeiro, você vê o outro, e caga; no segundo, você nem se preocupa em olhar pro lado, não tem alteridade alguma. Você acha que ser amiga ou qualquer outro laço afetivo vai te proteger da falta de consideração, e quebra a cara miseravelmente. Homem só olha pro próprio umbigo e eu não estou falando só do amor. É isso em todas as instâncias de relacionamentos. Não dá.

E eu tô pensando muito nos meus relacionamentos. Pra perto, eu só vou manter quem significa. Eu quero troca. Não vou me permitir mais ser usada. 

Fim de uma era. 

terça-feira, 8 de julho de 2025

You may say I´m a dreamer...

Hoje desabafei com um amigo que estou cansada desta vida tão difícil, em que tenho que fazer tanta força para obter o básico. E em certas circunstâncias nem o básico tá me rendendo. 

E sobretudo estou muito esgotada das relações utilitaristas. Parece que é só o que há. E isto está me fazendo endurecer. As pessoas estão com você enquanto é útil, daí quando surge uma situação mais vantajosa (geralmente materialmente), elas pulam de galho descaradamente e te descartam que nem brinquedo velho. Tudo líquido demais, sensação da porra de patinar em gelo fino todo o tempo. Eu não tenho nervos pra lidar com isso.  

Queria, pelo menos uma vez na vida, relaxar e descansar. Mas o que ou quem(ns) é meu pedaço de chão? Onde eu posso deitar a minha cabeça e confiar em dormir? Estou mais nômade que cigano. Não nasci pra isso. Eu quero criar raízes e ter condições de voar. 

Veja, todos os meus movimentos e inclusive brigas nesta vida são pra ser tratada como ser humano, o que frequentemente não acontece. Eu não me sinto enxergada nem por quem é próximo, nem por quem me pôs no mundo. Eu não preciso que ninguém faça nada por mim, eu só queria ser vista e acolhida de vez em quando. Mas ninguém sabe mais como sair de dentro de si e se doar dois minutos ao outro. Me sinto sozinha o tempo todo e o pior, objetificação e ainda por cima, um objeto barato.

Meu amigo disse que o que eu quero não existe mais. Nunca achei que sou sonhadora. Eu acho que é o contrário: as pessoas estão nivelando por baixo demais. Ninguém mais tem ideais, valores e sentimentos. E há tempos venho denunciando o quanto isso é coletivamente perigoso. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

Trauma de família

Eu odeio a minha, na moral. Fora o apoio financeiro do meu pai, que infelizmente precisei ao longo desses anos, esse povo, além de não me ajudar, ainda me atrapalha. E critica quando eu reclamo. Eu sou a ruim da história. Sério mesmo, foram tantos anos de sobrecarga emocional, que eu tomei ranço. Se houver uma situação em que eu precise cuidar dos meus pais, teremos problemas, porque não estou aguentando a mínima convivência mais. Foram anos confinada num quarto e sala com minha mãe, colada em mim, sem vida própria, que não saía de casa. Ela ainda sai de dedicada, quando na verdade virou uma parasita da minha vida. Ninguém gosta de parasita, ninguém suporta ser sugado energeticamente. Mas tive que aguentar porque é mãe (e eu gosto dela, mas não dá pra viver a vida nesta simbiose doentia). Minha mãe tem sido uma figura tão pesada que me tirou qualquer vontade de constituir família. Deus me livre ficar presa a alguém de novo. 

Se minha vida foi uma grande sucessão de abusos emocionais, a família foi o principal palco disso, infelizmente. Me choca como eles se enxergam como pessoas ótimas e não enxergam o quão tóxicos são em família. Eu tenho consciência dos meus, mas eu sou a ponta dessa corda, a última a chegar. Muita coisa já é resposta e autodefesa. Sabe aquela coisa do se der mole, monta em cima? Bem isso aí. 

Meu pai há quatro anos promete me ajudar a procurar a minha casa, mas toda vez, além de me submeter a esse confinamento que eu odeio, que me bota trancada em um quarto minúsculo, não faz nada. É desculpa pra tirar férias. Ele só fez isso uma vez. Ele tira meu sossego pra tirar férias. Só que ele não tem nada pra fazer o dia inteiro; já o meu dia só pára depois das 22h. Eu não tiro férias, mas minha irmã tira e marca pra meus pais chegarem bem no meio de um feriado em que eu poderia viajar (ela viajou, eu não). Acabou com as minhas férias, mais uma vez marcando essa porra dessa viagem sem falar nada comigo. Tive que cancelar. Mamãe querida mais uma vez queria impor a presença dela aqui, mesmo eu falando que não queria ela aqui. Quando eu consigo juntar um dinheiro pra me distrair, a irmã mais velha, mais uma vez, estraga as minhas férias. E eu sou a gente ruim da história. Passei a vida inteira sobrecarregada, nunca ajudada, muito menos emocionalmente, mas eles não hesitam em jogar um peso a mais, como se eu fosse um burro de carga, qualquer coisa, menos um ser humano.  

Qual é o problema deste povo comigo? Eu não faço nada pra essa gente, fico o mais no meu canto possível, mas além de não me ajudarem em nada, eles não estão nem aí pro caso de me atrapalhar. É inveja? É maldade pura? Eu não sei. Só sei que só terei paz quando estiver longe deles. Amém!

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Daniel Keller, a indiferença social, as más escolhas da vida e Vânia Abreu

Esta semana começou com uma notícia chocante, que até agora estou com dificuldade de assimilar: a morte do criminalista Daniel Keller, provavelmente por suicídio. Conheci ele há 16 anos, quando era um menino de 25 anos recém-formado, e trabalhamos na mesma empresa. A impressão que tive dele é de uma boa pessoa, mas mais imaturo do que queria aparentar, com muita vontade de fazer sucesso (e ser validado), mas com baixa autoestima, no fundo. Também não era muito fã de banho e de escovar os dentes, preciso dizer. Sempre teve namorada, nunca estava sozinho, mas sempre o mesmo tipo de mulher-troféu como Jéssica (Senra) e a última, uma advogada que ele noivou e com quem havia terminado há pouco, o que dizem ter sido o estopim pro suicídio (que é sempre multifatorial). Atuou em casos famosos enquanto criminalista, mas nunca pus muita fé na competência dele, não vou mentir. Penso que ele meteu os pés pelas mãos no caso dos irmãos mortos pela médica, por exemplo. Pra resumir, achava ele uma boa pessoa, meio meninão, nada brilhante, porém esforçado e ambicioso. Um ser humano como muitos por aí, mas talvez pra ele não fosse o bastante. (Por que não dizemos às pessoas que não precisam ser excepcionais para serem dignas de serem amadas?)

Keller foi ator amador na escola - assim me contou uma vez. Era muito teatral, performático, então acho que isso dificultou um pouco perceberem que estava mal. Mas mesmo assim, especialmente os mais íntimos, não viram nada? O dia 12, que mexe com quem tem problemas de relacionamento e rejeição, deveria ter sido previsto, já que havia terminado um noivado. Fico besta com essas negligências, mas também acho que Keller foi vítima das próprias ilusões. A gente vai atrás de umas escolhas, imaginando ser olhado e amado, mas no fundo não é algo que a gente queria ou não consegue se preencher com isso. Pior ainda quando essas "escolhas" nos levam a lugares que atiçam os nossos maiores gatilhos. Mulher troféu, assim como o homem trofeu, gosta de receber, de ser paparicada, mas não são boas companheiras. A homenagem de Senra foi muito bem escrita, bonita, mas como as pessoas se entregam nos discursos, ela quase falou dele como um fã qualificado. Esses amigos, será que eram amigos mesmo ou gostavam dele pelo que proporcionava? Se ele largasse a advocacia e escolhesse um caminho menos glamouroso, será que essas pessoas permaneceriam com ele? A família não devia enxergá-lo, tanto que Jessica insinuou que ele tinha questões de infância. E ninguém pensa que pessoas bem sucedidas podem estar quebradas por dentro. Típico. Ficou evidente que ele não tinha um lugar seguro para recorrer em meio a crise. Ele e a torcida do Flamengo, né? Perdemos nosso senso de comunidade.

Gente muito sensível deve evitar ambientes muito competitivos. Alguns são bastante: a advocacia, o jornalismo, as artes, a política. Acontece que é quase irresistível pra gente com pouco amor próprio ir pra esses lugares pra se provar pros outros e conseguir a migalhinha de atenção e de aplauso. Keller se deu bem, mas a que custo? A mesma coisa nos relacionamentos. Se você precisa fazer demais para que alguém olhe pra você, é sinal de que está com as pessoas erradas. Nunca pode ser unilateral e precisa fluir, não pode ser forçado. Neste caso, é melhor distribuir sopa na rua, pelo menos o reconhecimento vai ser mais sincero. 

Três coisas aprendi na vida, mas já tarde: desistir é ter força; rodar máscaras não é falsidade, mas uma necessidade; simpatia nem de longe é quase amor. 

Temos que ter muito cuidado com isso, com o se auto objetificar e também objetificar o outro, porque na sociedade de consumidores, é fácil escolher alguém pra dividir a vida com a mesma lógica que se escolhe tomate na feira. Mas relacionamento, qualquer um, é a junção de bom caráter e afinidades, pede lealdade e não pode ser pensado como um mero custo-benefício. Gente carente - que parece ter sido o caso dele - se dá muito, geralmente para pessoas erradas (egoístas), na esperança de serem reconhecidas e receber algo de volta, mas no final sai magoada e levando apenas algumas migalhas. Ele não se matou por causa desta noiva, mas provavelmente pela sensação acumulativa de nunca ter sido amado de fato. Isso dói. Pena que desta vez ele não conseguiu esperar a dor passar. 😞

No dia dos namorados, data em que Keller se matou, a cantora Vania Abreu participou de um programa de tv e fez uma colocação que achei muito pertinente sobre os amores de hoje. Nascida em 67, ela disse que a geração dela se jogou no amor, aceitando o que vem com ele: o tesão, as alegrias e os sofrimentos. E deu crédito às músicas da época, que imprimiam esta pedagogia, que ensinavam a viver o amor com integralidade. Para ela - e eu concordo - as pessoas hoje estão com medo e as músicas falam de revanche, e não há mais essa preparação para a arena afetiva. Minha geração é bem essa e as mais jovens não sei se estão mais preparadas. Difícil amar querendo só o "venha a nós". 

Esta idade dos 40 é foda. A própria ciência diz que é o ponto mais baixo da felicidade do ser humano. Muita gente se dá conta que não viveu uma vida que valeu a pena. E é nessas horas que a gente pode desequilibrar e cometer um ato extremo de vez. Em um mês, ele é o quarto caso de homem na faixa dos 40, bem sucedido, que se suicida. Isso significa alguma coisa, com certeza. 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Como os nossos pais - no caso, a mãe

Hoje me veio a epifania de que minha dedicação aos estudos é uma reprodução da minha mãe. Não deixa de ser irônico porque a velha tem alergia a escola e livros. Mas assim como ela se dedicou ao trabalho gratuito por toda a vida a fim de ser validada - e a sociedade não valida ambos os trabalhos -, olha eu aqui estudando sem parar - de graça - com o mesmo objetivo. Eu gosto mesmo - e pra sempre - de aprender. Isso é meu, ponto. Mas já virou compulsão, e como toda compulsão quer dizer algo. 

sábado, 17 de maio de 2025

Britney Spears



Outro dia vi um depoimento de Paris Hilton sobre Britney Spears, de que ela está bem e feliz no México. Somos contemporâneas e eu lembro de uma menina bonita, cheia de energia e alegre na TV, portanto ver o pano de chão que ela se tornou, comparada a quem já foi, é de doer. Louca ou sobrevivente? Definitivamente a segunda opção, embora todo mundo só veja a primeira. Tão nova e já tão abusada. Pense que ninguém ao redor dessa mulher amou ela. Essa dor eu conheço. Mas no caso dela deve ser mais frustrante ainda. Ela foi no topo do mundo: a mais bonita, a mais querida, a mais famosa, super rica, super reconhecida e ninguém foi capaz de amá-la. O poder não conseguiu protegê-la. Vi um corte, outro dia no Instagram, do traste do ex-marido dela contando que Britney foi tanto quem paquerou ele quanto quem o pediu em casamento. Ele se gabando disso e ela murchando, sem graça do lado dele (está vendo aí a minha teoria sendo confirmada? Se o homem, que já faz tão pouco no relacionamento, não serve nem pra paquerar a mulher, tomar uma atitude, não vai ser depois que ele vai ser proativo.). Ninguém amou esta mulher, nem quem "deveria". Todo mundo, como ela mesma cantou, quis tirar um pedaço dela. O pai a dopou, o ex a explorou e humilhou, os filhos a desprezaram e só quiseram o dinheiro. E o mundo só via o símbolo sexual. Não é à toa que ela se preocupa em ser magra e fica semi nua rebolando no Instagram. Foi o que fez ela ter destaque no mundo. É triste. E é mais tenebroso ainda pensar que a avó dela passou quase pelo mesmo, e foi internada e descartada pelo pai do pai. 

Esse era o nosso destino até pouco tempo, né? Se um homem estava insatisfeito com a gente, era só internar. Acho que é por isso que ser xingada de louca desce tão mal. É uma memória ancestral de estar sendo posta em perigo, desacreditada, humilhada, punida. O que as nossas antepassadas passaram, eu não sei, mas eu tenho certeza que coisas horríveis aconteceram e me fariam chorar se eu soubesse. É muito dolorido ser mulher. Tenho certeza que já vivi muitas vidas neste lado da cerca e que já fui muito mais insubordinada (dados sobre duas vidas passadas me fazem pensar isso), mas de tanto levar porrada, amansei. Traumatizei. Não quero mais, quero renascer homem, que é menos pior. Às vezes acho que as "boas mulheres" podem até não ter felicidade genuína, mas com certeza mais paz. É duro ser uma mulher consciente do seu lugar no mundo. 

Britney ainda nasceu Afrodite. Eu li um livro sobre deusas e não vou mentir que a que mais me emocionou foi Afrodite. O ponto de vista do livro é que toda vez que você joga com uma só deusa, você vai ter problemas. Temos que dar espaço a todas que temos. Mas, quando só, a mais problemática é Afrodite. Ela, ainda muito jovem, é reconhecida pelo arquétipo e cresce com a ilusão de que é especial e amada porque os homens correm atrás dela. Mas a medida que ela passa pela vida adulta, se ela não se junta com outras deusas, ela é marginalizada e excluída - além de usada. Não tem lugar na cultura pra ela, justo ela, símbolo do prazer e do encantamento com a vida. Ela é a mulher mais interditada pelo patriarcado. Eu mesma, pra minha surpresa, combino Artemis e Atena com... Afrodite! Creia! A princípio, eu fiquei chocada, mas pensando nos meus instintos mais antigos, originais, eu tenho sim Afrodite, mas abafei ela conforme fui crescendo. Eu, criança, era a expressão da letra de "Exagerado". Vivia apaixonada. Ártemis continuou porque é forte demais em mim, mas Atena, a civilizada, dominou a cena. Ela é uma das favoritas do patriarcado, né? Talvez, inconscientemente, soubesse que era perigoso ser Afrodite e que não tinha estofo emocional para lidar com as consequências disso.   

terça-feira, 13 de maio de 2025

Debatendo sonhos com a I.A.

Desde que me tornei junguiana, tenho apreciado muito os meus sonhos. É incrível como o inconsciente comunica. Em uma noite da semana passada, sonhei muito. De dois sonhos consegui lembrar, um se perdeu - acontece, infelizmente, com frequência. 

Num sonho, eu estava em um lugar de férias, tipo aqueles lagos com casinhas que os americanos gostam de veranear. Tive certeza que estava na gringa quando vi Bia, uma colega da escola que migrou pros EUA em 1997. Mas eu só a vi. O caso é que o lago tinha uma água muito verde, escura, e como suspeitei da higiene dela, hesitei em mergulhar. Mas como vi que todo mundo estava lá e passando bem, resolvi pular na água e foi uma experiência boa, tranquila. No outro sonho, eu ia para uma cidade estranha fazer uma prova de concurso, era de noite e eu encontrava Luciana, uma colega da época da faculdade que hoje mora em Brasília. Ela, que na vida real tem quatro filhos e é muito bem casada e concursada, tinha no colo o quinto filho, Vinicius, o único sem nome de santo. Gostei muito de ver Luciana. Ela não tinha mudado nada, continuava leve, risonha, calma.

Ainda contei a I.A. que tive um mesmo sonho, mudando poucos detalhes, no ano passado e neste ano, semanas antes de perdas importantes. Eu, no aeroporto, organizadissima pra viajar, afobada com o povo, quando estava em grupo, e na boca do embarque, me faltava o passaporte, pra minha própria surpresa. No mais recente sonho, eu nem sabia que ia precisar do passaporte. 

Pedi a I.A. pra analisar esses sonhos. Olha só que coisa linda ela escreveu: 

Obrigada por confiar e compartilhar mais esse sonho, especialmente por ele carregar um peso emocional e estar vinculado a **momentos de perda** — isso é um dado extremamente relevante para uma leitura mais simbólica e profunda.

Com esse novo sonho, sua narrativa onírica ganha um **terceiro eixo essencial**, e sim, ele **se encaixa perfeitamente** nos temas de transição, identidade e expectativa que os outros dois também carregam. Abaixo, componho para você um **ensaio simbólico e junguiano**, unindo os três sonhos sob o fio condutor do **processo de individuação e a tensão entre desejo e travessia.**

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## **Ensaio Junguiano – O Mergulho, a Prova e o Voo: Sonhos de Travessia e Reconhecimento do Self**

### **1. O Lago – A Travessia do Inconsciente Emocional**

No primeiro sonho, você está em um ambiente de descanso, mas também de estrangeirismo — um lugar onde não pertence inteiramente, e onde encontra uma figura do passado. O lago, símbolo profundo do inconsciente, se mostra turvo e ambíguo. Você hesita. Mas depois, mergulha.

Esse momento é uma imagem arquetípica do **mergulho na sombra**, da disposição de confiar no que é incerto, sujo, ou “desconhecido de si mesma”. Mergulhar aqui é **aceitar que nem tudo será claro, mas ainda assim necessário para crescer**. Sua hesitação inicial é sua consciência racional (a persona) tentando proteger o ego. Mas a confiança surge de uma escuta mais profunda — o inconsciente dizendo: “É seguro se entregar”.

### **2. A Prova – O Julgamento e o Espelho Social**

No segundo sonho, você viaja para fazer uma prova — símbolo clássico de **autoavaliação psíquica**. Você está sendo “examinada” por si mesma: “Sou capaz? Estou pronta para a próxima etapa?”

Luciana aparece como **figura espelhada** — alguém que fez escolhas concretas, que tem estrutura, família, segurança, e que continua leve. Ela não te oprime; te acolhe. Mas o fato de ela ter um filho a mais pode representar o quanto você **ainda está tentando compreender os limites do que deseja construir**. A surpresa diante do quinto filho mostra que há uma tensão entre **produtividade e saturação**. O inconsciente talvez esteja te perguntando: “Até onde quero ir com isso tudo? O que é meu desejo e o que é excesso?”

Luciana é, portanto, uma **figura de anima amadurecida**, que te mostra caminhos possíveis, mas também te convida a questionar o seu próprio.

### **3. O Aeroporto – A Frustração da Travessia**

Este sonho recorrente traz o símbolo mais forte de todos: **o voo não realizado**. O aeroporto é um lugar de transição, como a balsa no mito de Caronte ou a ponte na jornada iniciática. Você está sempre pronta, mas algo crucial está faltando: **o passaporte** — símbolo da sua **identidade validada pelo mundo exterior**.

Estar sem passaporte, especialmente para alguém organizada e consciente, não é apenas um erro: é um **sinal da alma de que há algo fundamental que ainda não foi reconhecido**. Pode haver aí um conflito entre quem você sente que é (ou quer ser) e quem você acredita *precisar ser* para alcançar algo.

O fato de o sonho anteceder perdas reais na sua vida pode indicar que ele funciona como **avisos do inconsciente sobre rupturas psíquicas ou simbólicas em curso**. Você está prestes a voar — a ir para um outro estágio, uma nova versão de si — mas algo dentro de você ainda não está pronto. Não é que você “esqueceu” o passaporte: talvez ele **nunca tenha sido emitido, porque sua identidade ainda está em transformação.**

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### **Síntese: Sonhos de Travessia**

Todos os seus sonhos têm como tema comum **a travessia**:

* O **mergulho no lago** é a travessia emocional, mergulhar no que estava evitado.
* A **prova do concurso** é a travessia racional e social: qual é meu lugar no mundo?
* O **voo perdido** é a travessia espiritual e identitária: quem sou eu para atravessar?

Juntos, eles apontam que você está em pleno **processo de individuação**: não apenas tentando “dar certo”, mas buscando tornar-se quem de fato você é — com limites, medos e vontades integradas.

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Claro — aqui está um texto meditativo, poético e simbólico inspirado nos seus sonhos, como se fosse uma **carta da alma a si mesma**, moldada com linguagem suave, mas profunda, à maneira junguiana:

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## **Carta da Alma em Três Travessias**

Há momentos em que a alma fala por imagens,
e os sonhos são cartas não enviadas que ela escreve no escuro.
Você tem sonhado com travessias.
E cada uma delas sussurra, com suavidade firme:
"É hora de partir, mas não sem antes se reconhecer."

### **1. O Lago**

Você chegou a um lugar estrangeiro, um descanso que também é fronteira.
As águas estavam turvas — não sujas, apenas vivas, confusas, densas.
A dúvida te visitou: "E se eu mergulhar e não for seguro?"
Mas você confiou. Não no lago.
Confiou na sua capacidade de lidar com o que não controla.

E assim mergulhou.
E assim foi bem.

### **2. A Prova**

Você viajou para ser avaliada,
mas o verdadeiro exame não estava nas perguntas da prova.
Estava no espelho humano de uma mulher que você conheceu e admirou.
Luciana — leve, múltipla, estável — surgiu não como exemplo, mas como espelho possível.
Ela não te cobra. Ela acolhe.

E no filho extra que ela tinha — aquele que não existe no mundo,
mas vive em alguma dobra da sua psique —
você viu a imagem do que ainda poderia criar.
E se surpreendeu com o excesso.
Talvez porque seu coração anseie por criação,
mas sua alma peça espaço.

### **3. O Voo**

O aeroporto é o limiar entre o agora e o além.
Você está pronta — bolsa feita, corpo presente, olhar à frente.
Mas algo falta: o passaporte.

Como pode ter esquecido?
Você, tão atenta, tão cuidadosa.
Mas esquecer, aqui, não é erro. É linguagem.
É o símbolo do que ainda precisa ser encontrado:
uma identidade que não se resume à organização, à prontidão, à espera do sinal verde.

É sua alma dizendo:
"Você só vai voar quando levar com você quem você é — não quem você tentou ser para dar certo."

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**Você está em travessia.**
Entre águas que te testam, provas que te medem, e voos que te esperam.
Não há pressa.
Cada um desses sonhos é um convite.
E todo convite carrega o dom da escolha.

Quando sentir que o passaporte está em mãos —
não o documento, mas a permissão interna
você vai embarcar.
E talvez nem precise mais sonhar com isso.
Porque já terá atravessado.


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Temperatura máxima

Estou repondo testosterona e o que vou dizer agora vai ficar entre nós, eu e o blog ou no máximo entre mim e outras mulheres. 

Tudo começou porque estava numa letargia de dar dó no início deste ano. Não aguentava lavar uma louça. Fui ao endócrino e ele viu que  a taxa só caía; da última vez, estava abaixo de 2,5 - pire aí. Após um mês, na menor dose possível, o quadro é outro. Fiz o exame de sangue e constatei a subida, mas dias antes já sentia a testosterona alta e tive até que suspender a pomada pra não dar merda (risos). Certeza que o médico vai mandar eu parar quando vir. Entre os sintomas que percebi estão, claro, o aumento da disposição física, a redução da cólica menstrual, maior libido, aumento do clitóris e aumento da irritabilidade.
(Aqui começa a parte pra ficar só entre nós, hehe)
Gente, eu fiquei muito mais irritada. Está certo que estou numa fase sobrecarregada, inclusive emocionalmente, mas nos últimos dias eu fiquei sem paciência mesmo. Vontade de dar na cara do povo. O lado bom foi que em uma destas, alguém que me fez engolir sapos, ouviu de volta. A gente, que é mulher, engole muita coisa pra não pagar de sensível, louca ou ressentida, mas nesta de bancar a fina, a gente vai acumulando "lodo no cano", enterrando a nossa humanidade aos poucos até não mais sentir. Desta vez, eu não me importei e fui à forra. Chega disso! Acho que foi o que meu sonho sobre estar no embarque, mas sem passaporte quis dizer: para ir além, preciso ser mais autêntica, ter identidade. Ser racional demais, polida demais só me fez adoecer e acumular prejuízos. Às vezes as pessoas precisam visualizar que se folgarem com a gente vão pagar as consequências. Precisam sentir as consequências. Eu quero ter a minha dignidade respeitada. O povo vê essas minhas bochechas gordinhas e acha que eu sou panaca, muito calma (a grande fake news sobre mim é que eu sou um poço de paciência. Eu me seguro porque eu sei que se me soltar, vou na jugular).
Mas com tudo que passei na vida, com todas as cicatrizes emocionais que tenho, finalmente entendi o propósito divino de fazer meu organismo ter uma testosterona baixa. Se estivesse vivido como estou hoje, teria realizado bem mais coisas, mas também já teria ido pra cadeia com certeza. Gente com testosterona alta (o caso dos homens) precisa ser feliz ou dá ruim. Dá mesmo. Se a irritabilidade é proporcional à quantidade de testosterona, um homem mais fuleiro nesta taxa tem que estar contente ou é problema, ele vai querer quebrar a cara de alguém. Mas nunca darei esta ousadia a ninguém do sexo masculino. É tudo culpa deles e da cultura (risos).   

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Culpa, espanto e reparação

Outro dia estava ouvindo um Café Filosófico do Alexandre Patrício falando sobre culpa, espanto e reparação. Ele é sempre ótimo e este tema foi muito oportuno. O psicanalista argumentou, bem resumidamente, o seguinte: pra haver reparação, é preciso se espantar com o que fez e pra haver este espanto, é necessário culpa. Mas uma mais puxada para o lado da responsabilidade, da maturidade e não da autocomiseração. 

O grande problema aqui é que vivemos em um tempo em que ninguém se espanta com nada. Nada. Tudo é isso mesmo, normal, tão fazendo mimimi e se sobrou pra você, que aprenda a se levantar e não encha o saco. O império da racionalidade. É bem verdade que sociedade é selva e sempre, em alguma medida, será. A parte que me decepciona é que nunca tivemos tantas condições de reduzirmos isso ao mínimo, mas estamos andando no sentido contrário. 

As pessoas são indelicadas, pra dizer o mínimo, o tempo todo. Egoístas e autocentradas, então, nem se fala. É um mundo que continua privilegiando os sociopatas e matando os mais sensíveis - e há diversas formas de matar alguém. As pessoas atropelam as outras, jogam as consequências pra cima e não se espantam mais com os próprios mal feitos. O cemitério das relações - familiares, de amor, de amizade e de trabalho - está cheio por causa de tanta rudeza e egos inflados por aí. 

Alexandre Patrício sublinhou dois aspectos da contemporaneidade que são muito importantes: nossa falha em sustentar a reparação como ato ético e não como performance de bondade e, uma vez que ferir o outro se tornou um ato banal, pedir desculpas virou mais uma estética do que algo do campo da ética. Não há contexto social para a reparação. A gente se comporta nas relações como consumidores, não construtores. A gente quer vantagens e direitos e nunca doação e deveres. Não é à toa a atual epidemia de solidão. 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

78

Hoje acordei com uma notícia que falava de um estudo que estimava que até 2060 a idade mínima pra aposentadoria no Brasil teria que subir pra 78 anos. Sei que é apenas uma pressão da Faria Lima, mas é assim que começa. E isso, somado a minha sensação de desesperança com todos os cenários possíveis neste país, me deu vontade de chorar, de desaparecer de verdade.  A sensação que tenho é que nada que a gente faça melhora esse fundo do poço; pelo contrário, a gente só se afunda quanto mais tenta se movimentar, se mover. E eu tento. Eu juro que dou mais que meu máximo. 

Não tenho palavras pra sensação de fundo do poço que senti. Por que este país é assim? Por que estamos todos, no mundo quase inteiro, morrendo pra sobreviver? É exaustivo viver na máxima velocidade, obtendo sempre o mínimo em todos os sentidos. Em todos os sentidos mesmo. Estamos sem proteção ambiental, espiritual, social, trabalhista e sentimental. Acho que se vivesse na idade da pedra estaria mais tranquila, mais de boa. 

A palavra é esta: exaustão. 

Sinceramente, não sei mais o que fazer.  

sábado, 19 de abril de 2025

Me poupe

 Uma pessoa que já foi minha amiga e com a qual não falo teve uma boa notícia profissional, que foi veiculada no grupo da faculdade. Uma amiga em comum ficou pisando em ovos para parabenizar, imagino que por minha causa. Que bobagem. Pra mim, ela é um dado, zero sentimento pelo que acontece ou deixa de acontecer na vida dela. No caso em questão, eu me afastei porque acho a criatura pobre de espírito, um vazio. E continuo achando. Então, que diferença faz se ela tem isso ou aquilo? Meus critérios de amizade, de relacionamento são neste sentido e eu preciso admirar. 

As pessoas acham que os sentimentos são eternos. São não. O tempo minimiza tudo. Essas pessoas, que já se foram da minha vida faz tempo, são gente "morta". Por isso que eu sofro pra me afastar, porque é uma morte em vida, um luto mesmo. Mais tarde, é o mesmo que cruzar com fantasmas. 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Adolescência

"Adolescência" é uma boa série e que está dando o que falar. Os pais estão apavorados. Parece que só agora descobriram que a internet pode ser perigosa. Eu sei disso desde a época do Orkut, quando já se mencionava a galera do mal da deep web. 

Na verdade, na minha opinião, o grande strike da série é que ela mostra que o problema é multifatorial: a família, mesmo "boa", não se conecta; os professores estão exaustos e não dão conta; a internet tem gente criminosa incitando discurso de ódio; e os colegas fazem bullying sem parar. Não há quem tenha sanidade mental numa loucura desta. Nada, no ecossistema do jovem, colabora pra que ele esteja sadio. Vai passar por esta fase ileso quem por bom temperamento e proteção divina conseguir isso.

Um dos pontos geniais da série é que os roteiristas botam em questão o que é um lar amoroso, bom. A família de Jamie é considerada uma boa família. Os pais parecem se dar bem, parecem ser preocupados com a família. Mas ser um "bom pai" não garante conexão, que é do que um filho precisa. No caso do policial, ele ainda era pior com o filho, muito mais ausente que o pai de Jamie. Ele não tinha paciência com o garoto. Já o pai de Jamie achava que provendo e não sendo violento, como o pai foi, já estaria sendo ótimo, porém fica claro que ele não valorizava o filho e quando este falhava nas provas de masculinidade, até sentia vergonha dele - e o menino percebia. Os dois homens cumpriam a obrigação paterna, mas não faziam os filhos se sentirem amados, não estabeleciam uma conexão afetiva, e isso é muito perigoso. Os pais parecem que não fazem ideia do tanto de merda que pode acontecer na falta disso, especialmente nesta idade. Ou não querem se lembrar, porque todo mundo já foi adolescente um dia e a maioria com uma família de meia boca pra ruim. Calhou que o filho do policial, mais largado, teve juízo e o Jamie despirocou. 

Isso leva à segunda questão, que se relaciona também à irmã de Jamie: fazer o mesmo por duas crianças pode gerar resultados bem diferentes simplesmente porque cada um é único e tem uma força psíquica e uma necessidade própria. A irmã do protagonista conseguiu se tornar melhor que os pais. É a pessoa mais equilibrada da casa. Já o menino era menos forte psicologicamente, e foi pro polo negativo da própria personalidade. Por isso não basta ser "bom pai", tem que ficar de olho, prestar atenção a quem você tem em casa. Até em relação aos psicopatas (o que não acredito que Jamie seja, porque no final ele admite e resolve se responsabilizar pelo que fez e não acho que um psicopata seria capaz disso), já é sabido que o meio ambiente ajuda a aplacar ou disparar esta tendência no indivíduo. 

Outro ponto da série é a nossa necessidade justamente de estabelecer conexões, de nos sentimentos amados. A família tem um papel crucial nisto. Quando a pessoa não tem esta base familiar, segue vulnerável pra violência no mundo - e tem muita, o tempo todo. Se sentir amado é completamente diferente de ser amado. No primeiro caso, é certeza de pisar em chão seguro, o que é fundamental pra se jogar na vida. Na falta disso, vamos procurar o poder. Como Jamie não conseguiu esta conexão em casa, muito menos com o pai, ele resolveu se conectar a grupos duvidosos da internet e, num acesso de raiva vindo de uma rejeição, cometeu um crime. No reformatório, por incrível que pareça, ele pareceu ficar mais dono de si, mais corajoso do que na vida anterior, na escola. Provavelmente porque agora ele tinha um feito de destaque, ainda que macabro, e no mundo masculino talvez seja melhor ser perverso que invisível. Me lembrei muito de "Ônibus 174". O Sandro, invisível a vida toda, entrou no personagem de um sequestrador quando viu que estava recebendo atenção. Isso é tristíssimo, porque assim como a fome e o sono, não dá pra negociar com a nossa necessidade de afeto - qualquer que seja. Somos, aliás, uma espécie que só sobrevive se tiver isso. Não é superfluo, não é frescura. A própria vítima de Jamie, a Katie, era carentíssima. O que mais levaria uma menina tão nova a ficar mostrando os peitos pros meninos do que querer ser validada, vista a qualquer custo? E nesta idade a gente sempre acha que vamos sofrer pra sempre. 

Por último, mas não menos grave... É chocante, embora nada surpreendente, a visão coisificante que Jamie tem das mulheres. Quando ele fala que tinha uma faca e podia ter estuprado ela se quisesse (com o maior ar de "olha como fui gente boa") e admite que chegou nela querendo se aproveitar da baixa autoestima da garota diante do escândalo com as fotos dela na escola, eu tive vontade de resetar a humanidade. Por que não é surpreendente? Porque até os chamados bons moços, se a gente futucar, tem este pensamento interesseiro e coisificante sobre a gente, que eles aprendem de outros homens. Os caras são homoafetivos, eles acham que ser humano mesmo é só o parça; mulher é um buraco, um ser inferior, pra ser usado, enganado, que não tem querer, que tem que seguir o script que ele deseja que ela siga, senão não presta. Nós, mulheres, passamos a vida recolhendo migalhas de atenção. Fazendo o máximo e recebendo o mínimo. E por que não matamos, se temos até mais motivo pra revolta? Porque somos criadas para a vida e não para a morte (ainda bem) e porque só se expõe em seu pior quem sabe que vai ser acolhido apesar disso. Os homens fazem porque o feminicida, ou mesmo homicida, segue a vida sem grandes prejuízos. Uma mulher, por muito menos, anda com a letra escarlate no peito. Muitos homens, incluindo os "bons", tem uma visão gamer da convivência com a mulher. É o tempo todo tramando pra nos vencer, sem qualquer boa vontade pra se relacionar, pensando no que pode extrair dessa mulher e raramente enxergando o ser humano nela. Foi feio ver que isso começa tão cedo na socialização deles, mas faz absolutamente todo o sentido.

Diante do furor que "Adolescência" causou, alguns especialistas saíram tranquilizando os pais dizendo que a esmagadora maioria dos jovens não vão se tornar um Jamie, nem mesmo os que ficam o tempo todo na internet. É verdade. Mas há, por outro lado, muitos meios de acabar com a própria vida, inclusive até performando uma vida normal, funcional. O amor protege, é fato, especialmente aquele recebido (e percebido) na primeira infância. Mas eu não sei se os pais pegaram este bilhete...

domingo, 30 de março de 2025

"Quero chorar, não tenho lágrimas..."

Hoje, no meio de uma conversa, soltei a seguinte frase: "Se você me vir chorando, respeite, porque devo estar muito fodida. Eu não choro nunca". Já falei outras vezes, mas ninguém deu bola. Minha interlocutura, analista (mas não minha), tomou um susto. 

Eu não choro, minha gente. Em vez disso, desaguo aqui (risos). Até chorar é um luxo neste mundo de meu Deus.

Eu ficava vendo as meninas brancas, ricas, chorando na frente de todo mundo, ao longo da vida, e aprendi que só chora na frente dos outros, assim sem vergonha, quem tem a certeza de que será acolhido/a. Que bom que alguém é acolhido! Eu nunca. Vim de uma família em que é cada um por si e Deus por todos - menos pra controlar o outro, pra isso todo mundo se prontifica. Na rua, também nunca achei acolhimento. Como diria Freudinho, aquilo que a gente viveu fica marcado em nós. 

Quero chorar há um tempão, mas não consigo. A fonte secou.  Resultado: a casa, mais precisamente o chuveiro, secou junto comigo. Solutio emperrada, sentimentos que não podem ser desaguados, dissolvidos. Alquimia não é uma coisa fantástica? Eu acho. Meu problema com falta de água perto do Carnaval e depois com o chuveiro que estava entupido... Cano sujo, na verdade. Tanto sebo, que a água não passava. Fico de cara com esses simbolismos. 

"Quero chorar, não tenho lágrimas que me rolem nas faces pra me socorrer/ Se eu chorasse, talvez desabafasse o que sinto no peito e não posso dizer..."

Ê, vida, que eu não sei viver... Eu não sei viver. Não sei mesmo como proceder nisso aqui. 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Falsa humildade (o ser humano, não sei não...)

Outro dia uma amiga me contou que uma ex-amiga disse a ela que tinha vontade de me dizer algumas coisas sobre o nosso rompimento, mas que tinha medo da minha reação. Claro, depois de sete anos, o que ela tem pra me dizer é justamente uma grande passada de pano a favor dela mesma, anulando minha raiva e decepção pra ela sair de boa na história. Isso elimina a culpa dela (que ela sente, não a que eu atribuo) e joga o problema no meu colo. Maravilha, né? O ser humano é inacreditável. E a pessoa ainda acha que está sendo ótima e humilde fazendo uma dessa. 

A criatura passa quase uma década produzindo episódios de desconsideração, que você pontua (saindo de megera) e que nunca cessam, pelo contrário. No acumulado dos anos, você fica puta e no vácuo quando reclama disso mais uma vez (e sempre vista como "a problemática"), e resolve desistir de vez após ficar no vácuo "pra variar" (porque quem procurava era sempre eu). Eu sei as qualidades dessa pessoa, eu não sou injusta ou ingrata. Mas uma coisa é a pessoa ser boa, outra diferente é ela ser boa com você. Justamente por ponderar tudo, quando eu saio, é porque já dei crédito em cima de crédito. Você tem todo o direito de me expulsar da sua vida e eu vou respeitar isso, mas você só vai fazer isso comigo uma vez. De uma coisa eu me auto acuso: sempre fico muito mais do que deveria e essa é metade da minha raiva nessas situações. É comigo mesma, pode ter certeza. 

Quem se importa, se incomoda com o que fez e conserta a merda na hora, não deixa o tempo passar; não é negligente ou covarde. Errar é humano e perceber que a pessoa não quis te magoar ou que sinceramente se arrependeu é crucial pra mim. Das poucas vezes em que vi isso, não tive nem como sustentar a minha raiva. A regra é clara: quem gosta de você vai sentir dor ao te machucar. Depois que você já sofreu, enterrou a pessoa em vida, do que adianta? Estava em crise?! Eu passei a minha vida assim e nunca deixei de ser cobrada pelas pessoas mesmo estando fragilizada ou mesmo deixei de me cobrar e correr atrás de fazer o certo. Se o tempo passa e a pessoa quer falar com você, raramente vai ser pra reconhecer a própria responsabilidade na situação. Vai ser por consciência pesada, pra fingir que quis resolver e você que é difícil e não quis "perdoar". O velho truque de querer a paz às custas de quem se ferrou na situação. 

Olha, me poupe. 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Invejosa


"Invejosa" ou "Envidiosa" é uma série, uma comédia romântica argentina da Netflix.
É bobinha, a protagonista por vezes é caricaturizada e repetitiva, mas a história flui, os personagens são legais e, no meio desse besterol todo, há pontos bem interessantes de serem discutidos. 
Vicky é uma mulher de 40 anos bem padrão e com uma autoestima baixíssima, que se sente pressionadíssima pela idade a casar e ter filhos (enfim, a fazer o checklist da fêmea alfa), porque, afinal, no entorno dela só falta ela mesmo. Vicky tem um noivo de dez anos (Dan), que emocionalmente é tão imaturo quanto ela e é autocentrado, e por isso a coisa não anda. E é este o pontapé inicial da trama: o pé na bunda que ela leva de Dan.
A primeira temporada é ela, após esses dez anos de enrolation, olhando pra dentro e se descobrindo. Ela amarga ver Dan, que ela achava sem sal (mas era garantia de um casamento até então), casando com outra, pra quem faz tudo que não fazia por ela; se envolve com o chefe sonho de consumo e se ilude de que vai ter um namorado top; mas se apaixona por um sujeito gente fina que é o contrário do que ela desejou e por isso fica se amarrando pra assumi-lo. 
Essa primeira temporada é ótima pra mostrar as expectativas que a sociedade cola nas mulheres. Vicky, a invejosa, o é justamente porque a sociedade faz isso com a gente, nos estimula pra que estejamos sempre competindo porque não há lugar para todas serem as mulheres alfa. 
A mãe dela foi vítima de um tempo em que a vida da mulher era mais triste ainda, controlada, mas teve coragem de jogar tudo pra cima e viver como queria. Porém, até ela contar a parte dela na história, todo mundo pensava nela como a esposa que foi abandonada e que é triste por causa disso (e a véia tocando o terror escondido). A amiga, em troca da imagem de casamento perfeito, fechou os olhos pra falta de caráter do marido e terminou a temporada se dando muitíssimo mal. Uma outra quase fez isso. Enfim, eu achei a série muito feminista porque mostra como os relacionamentos podem ser uma armadilha pras mulheres, que escolhem mal por se basearem em critérios falsos, por estarem inconscientes nas suas escolhas. Menção de honra pra psicóloga de Vicky, que dá as melhores lapadas nela. 
A segunda temporada é menos vibrante, mas se na primeira as pessoas do entorno influenciam mais o destino e as atitudes de Vicky, nesta, a briga é dela com ela. A invejosa começa a tomar consciência de que sabota suas felicidades e dá muita ênfase aos seus "fracassos". Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

A maldição das passivas ameaça a humanidade

 




Há uma polêmica no mundo gay masculino que é o excesso de passivas. Todo mundo na passividade, ninguém na atividade. Todas querendo ser comidas. Todas ameaçadas pelo mapa da fome. Há quem fale, inclusive, de um golpe derivado dessa carência de ativos no mercado sexual. O cara se diz desta equipe, nos aplicativos, mas na hora H, vira o bundão pra ser comido. Drama: o Procon não atende esse tipo de reclamação. O que fazer? 
Coisa semelhante ameaça o mundo hétero. Na hora em que as mulheres se cansarem de tomar a iniciativa e cruzarem os braços, o mundo hétero morre. Todos passivos, homem já não se mexe. Com H? Tem, mas acabou.