quinta-feira, 1 de maio de 2025

Culpa, espanto e reparação

Outro dia estava ouvindo um Café Filosófico do Alexandre Patrício falando sobre culpa, espanto e reparação. Ele é sempre ótimo e este tema foi muito oportuno. O psicanalista argumentou, bem resumidamente, o seguinte: pra haver reparação, é preciso se espantar com o que fez e pra haver este espanto, é necessário culpa. Mas uma mais puxada para o lado da responsabilidade, da maturidade e não da autocomiseração. 

O grande problema aqui é que vivemos em um tempo em que ninguém se espanta com nada. Nada. Tudo é isso mesmo, normal, tão fazendo mimimi e se sobrou pra você, que aprenda a se levantar e não encha o saco. O império da racionalidade. É bem verdade que sociedade é selva e sempre, em alguma medida, será. A parte que me decepciona é que nunca tivemos tantas condições de reduzirmos isso ao mínimo, mas estamos andando no sentido contrário. 

As pessoas são indelicadas, pra dizer o mínimo, o tempo todo. Egoístas e autocentradas, então, nem se fala. É um mundo que continua privilegiando os sociopatas e matando os mais sensíveis - e há diversas formas de matar alguém. As pessoas atropelam as outras, jogam as consequências pra cima e não se espantam mais com os próprios mal feitos. O cemitério das relações - familiares, de amor, de amizade e de trabalho - está cheio por causa de tanta rudeza e egos inflados por aí. 

Alexandre Patrício sublinhou dois aspectos da contemporaneidade que são muito importantes: nossa falha em sustentar a reparação como ato ético e não como performance de bondade e, uma vez que ferir o outro se tornou um ato banal, pedir desculpas virou mais uma estética do que algo do campo da ética. Não há contexto social para a reparação. A gente se comporta nas relações como consumidores, não construtores. A gente quer vantagens e direitos e nunca doação e deveres. Não é à toa a atual epidemia de solidão. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário