sábado, 27 de abril de 2024

Ana Suy e Winnicott

 



Uma vez, quando eu era repórter de Economia, fiz uma matéria que saiu na edição do domingo e fez sucesso; as pessoas do jornal me pararam pra elogiar na segunda-feira. A pauta era trivial, mas o enfoque não, e eu acho que isso conectou os leitores. Era uma matéria sobre como recuperar as finanças, só que, graças a Deus, conversei com um economista que não repetiu o mesmo lenga lenga de sempre e enfatizou que o essencial é aquilo que você elege como indispensável, que pode ser desde pagar a escola particular para os filhos até fazer uma boa academia. Muito simples, né? Ele respeitou que cada um tem um desejo, uma necessidade e não ficou cuspindo receita de bolo, impondo o que deve ser prioritário ou não, não foi moralista nem austero e deu dicas possíveis. Veja como um economista que lembra que o leitor é gente já faz a diferença.

Ana Suy, psicanalista, em uma live disse que não é a favor de terapia para todos, até porque é preciso escolher bem com quem vai fazer terapia. Entendi o que ela quis dizer. Realmente, há quem consiga se encontrar na vida com coisas terapeuticas e que não são terapia. Sobretudo, cair nas mãos de um terapeuta chinfrin às vezes pode fazer mais mal do que ficar sofrendo no próprio canto. Mesmo bons terapeutas podem fazer merda. Eu já fiz uma vez e não porque era novata, mas porque tem duas coisas que são muito difíceis na atividade de terapeuta: não julgar o paciente e seguir a linha de raciocínio dele e não a nossa própria. Por isso é preciso estudar muito e fazer supervisão. Muito, muito. Só sensibilidade e inteligência não resolvem, você tem que saber separar o seu do dos outros. É fundamental.

Eu tive boas terapeutas (no plural, porque foi mais de uma), mas elas sempre escorregaram nisso: sinto que analisam segundo os valores delas, a cabeça delas e não seguindo a minha linha de raciocínio e que, como as questões que eu coloco não são fáceis de resolver, acabam me dando sugestões óbvias, que é claro que eu já tentei e não deu certo ou, em outros casos, eu não consigo fazer, e o que é bloqueio brabo você não vai resolver na tora; tem que ir por outros caminhos, bolar outras estratégias personalizadas. Mas elas não conseguem pensar comigo outros jeitos. E o pior, não dizem "Eu não sei", ficam nervosas e jogam pra mim a culpa da não solução. Ora, se eu soubesse o caminho pra resolver, não estaria pedindo ajuda na terapia. Me sinto completamente só e desamparada de novo nessas horas. É foda. 

Não digo que vou desistir da terapia, mas a minha última sessão me jogou em desalento.  Já vinha perdendo a crença de que isso funciona pra mim e a última sessão foi uma pá de cal. Antes de continuar, vale abrir uns parênteses. Não vou dizer nada de novo, mas é oportuno relembrar antes de continuar.  

Minha vida não foi fácil. Eu sei que a de ninguém é, que a esmagadora maioria das pessoas se sentassem aqui e começassem a falar da própria vida sinceramente, iam lamentar e chorar (e quem não, desconfio que está alienado). Mas no meu caso, eu tô por conta própria (emocionalmente nem se fala...) desde que me entendo por gente, cresci e tenho vivido em um ambiente que me fragilizou muito e sou cobrada, apesar das pessoas ao meu redor me darem muito pouco ou nada. Ninguém nunca me perguntou de verdade como eu me sinto, ou tentou entender o meu lado ou pegou na minha mão pra me ajudar nos momentos de crise (se eu não pedir, ninguém me oferece ajuda); nunca recebi flores; e há 25 anos ganhei meu último bolo de aniversário. Eu prefiro cactos a flores e escolho e compro minha própria fatia de bolo, mas isso aí é pra descrever o nível de delicadeza, atenção e carinho que as pessoas ao meu redor têm tido comigo durante a vida. Sempre tive a sensação de que recebo menos do que dou. E não acho mesquinho falar em dar e receber, porque ninguém é saco furado e o nome da coisa é "relação", o que pressupõe bilateralidade e não um só doando. Teria dado um braço pra ter tido, ao longo da vida, alguém que fosse um suporte afetivo seguro, perene, teria sido muito agradecida por essa pessoa na minha vida (só pra olhar pra cara e saber que tem alguém por mim), mas isso não veio. Pelo menos, em fases mais agudas, sempre apareceu gente (pessoas que não eram próximas, geralmente) pra dar um socorro, e eu agradeço a elas, mas não foram pessoas com quem desenvolvi um laço forte; elas chegaram e foram embora. As que eram mais próximas, eu nunca fui prioridade delas. Sabe aquela coisa meio BBB, de não estar no podium de ninguém?... Em momentos críticos, a sensação que eu tinha é que a vida me mandava a ajuda necessária pra me manter viva fisicamente, mas nunca mandou o que eu precisava pra viver de fato. Tem sido foda.  

E claro que isso jogou um peso enorme nas minhas costas e me deixou desconfiada dos laços humanos. Muito da confiança que desenvolvemos na gente vem da valorização e do apoio do entorno. Não existe autoestima sem a participação dos outros, sem reconhecimento externo, pois somos seres relacionais. De tempos em tempos, falta combustível, o carro não quer andar de jeito nenhum e eu faço uma força hercúlea pra empurrar o dito cujo e seguir em frente. Sabe aquela brincadeira de "Estou fazendo o mínimo, mas este é meu máximo"? Esse "seguir em frente" vai todo capenga, esse carro tá todo barreado já, mas ele segue indo como dá. E não tem um cristão pra me dar o devido crédito, pelo contrário, é como se a minha luta fosse invisível. Se dão, fazem em silêncio e isso pra mim não serve de nada. Só eu sei. As pessoas não têm ideia do quanto me custou chegar relativamente sã e salva até aqui. Acho que elas pensam que é fácil demais pra mim, que tudo me cai do céu, que eu não me preocupo ou sou acomodada com as coisas. E apesar disso eu sou uma boa pessoa, ética, solidária, afetuosa, esforçada. Pelo que eu recebi da vida, não era nem pra ser. É porque é da minha natureza mesmo, mas por outro lado, não tenho muito mais pra dar porque não tenho de onde me alimentar. Inclusive, de tanto dar aos outros na esperança de receber, acabei gastando uma energia vital que já era pouca e hoje faz falta pra mim. Infelizmente, não conheço uma versão descansada minha desde os meus 13 anos. Sou sempre essa versão estressada aqui, em hipervigilância, preocupadíssima em sobreviver e com medo que isso não aconteça em algum momento. Neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo.

Desde a eleição de Bolsonaro e da pandemia, que coincidiram com o meu processo de envelhecimento, isso ficou pior. Vem me custando mais achar graça nas coisas, fazer esse exercício de criatividade que é viver a vida, como eu sempre fiz. É como se eu já tivesse visto de tudo e as coisas ficassem repetidas, sem atrativo, sem vínculo. É como se eu estivesse mesmo perdendo o combustível e isso, óbvio, me deixa abalada. Lembrando: neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo. E se eu não puder dar mais meus pulos, como é que vai ficar? 

E num desses períodos de fragilidade extrema, que vem e vai, eu gastei um dinheiro que não tinha pra chamar a terapeuta. Mas foi uma sessão desastrosa. Eu precisava de uma coisa e veio tudo ao contrário. Eu queria acolhimento, veio culpabilização e bronca; eu queria uma luz, veio clichê, senso comum... Ana Suy falou e disse. Mas onde estão essa meia dúzia de pessoas que entendem os outros? Winnicott tinha razão: É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado. Quem me ajuda a me procurar?

sexta-feira, 19 de abril de 2024

É possível mesmo crescer e superar os traumas de infância?

Acho que já contei isso aqui, mas uma vez, durante uma viagem, papo vai, papo vem e uma médica venezuelana, que tinha feito um trabalho na comunidade, disse que acreditava que autoestima é uma coisa que ou é trabalhada na infância ou já era.

Será? É uma dúvida sincera minha. 

Eu sempre acho que a gente pode fazer alguma coisa, mas estou considerando que podemos menos do que pensamos, ou melhor, do que a sociedade da produtividade prega. Eu vejo tantos adultos machucados, sem conseguir se desvencilhar dos traumas passados, dos traumas de origem, do início da vida... Existe vida após uma infância de traumas?

domingo, 7 de abril de 2024

Pais e filhos

Ontem, pela milésima vez, estava com amigos (sem filhos), numa mesa do shopping e nos demos conta de como não é fácil ser pai e mãe. Tem que desejar muito mesmo. Estamos em um mundo que impõe tantas tarefas que uma vida só já gera B.O. demais, que dirá ser responsável por outra vida.

Da minha parte, além de estar nessa corrida do ratinho aí, eu já gastei energia psíquica demais com os outros, e de um modo improdutivo, com todas as pessoas erradas que eu podia eleger pra isso (péssima filha de Oxossi), sem falar nas que desde que nasci brotaram no meu caminho, e agora sinto que essa energia tem que se voltar pra mim, porque eu estou me devendo. Me devendo tanto que estou esgotada, quebrando a cabeça pra descobrir como essa energia pode voltar pra mim... Mas isso é outro papo. 

Lamento bastante que muita gente (leia-se mulheres, que são a maioria com esse perfil) não faça qualquer autoanálise antes de ter filho. Vejo muita gente, bem intencionada inclusive, jogando suas carências nas crianças. Essa ideia de educação respeitosa - que eu acho boa - camufla muita gente traumatizada e não tratada que acha que educar é nunca causar frustração ou desconfoto ao filho. Ô, Deus... Eu conto ou você conta? Como diz uma amiga, a coisa que a vida mais nos impõe é limite e frustração. Melhor aprender a lidar com isso desde casa, de forma amorosa, do que com estranhos e rispidamente. Numa coisa eu concordo 1000%: a infância é a base. Cada vez ando mais cética quanto a reverter totalmente os efeitos de uma infância ruim ou capenga. 

Mas essa falta de segurança e maturidade dos pais não tá boa, não. Chega a ser triste de ver. De outro modo, produziremos mais uma geração com problemas de base pro resto da vida. 

Troca-se a geração, mudam-se os métodos e o problema continua o mesmo: adultos que não olham pra dentro e jogam seu lixo emocional nas pobres das crianças. Estou curiosa pra saber no que vai dar isso no futuro. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Parece cocaína, mas é só tristeza

Há algum tempo, quando vejo todo mundo postando sobre o mesmo evento, me pergunto quantos deles estariam ali se não fossem as redes sociais, o olhar do outro sobre isso. Ontem mesmo, no Festival de Verão, 90% dos meus conhecidos estiveram lá, e registraram o fato em cliques felizes - assim "dizem" eles. Observo este movimento em tudo: na compra de roupas, na participação em cursos, na ida à academia, na realização de viagens, etc. Há uma ansiedade generalizada, e eu não sei como as pessoas estão aguentando isso - eu já estou jogando a minha toalha faz algum tempo. Estava até com saudades do Festival e tinha convite pra ir, mas preferi o meu descanso. Era o que eu realmente necessitava ontem de noite. Já fui vezes demais ao Festival e a esse tipo de evento de verão, e não vai ser neste ano, ao que me consta, que vai acabar. Numa próxima eu vou, e eu não vou morrer por causa disso.

O pessoal está maníaco nisso de "bater o ponto" em toda a agenda do verão, ou do contrário, parece que não viveu. Acho estranho, estranhíssimo, embora esteja cada vez mais comum esta atitude. Tudo tem que ser muito pra parecer intenso, a felicidade suprema. E se tudo é urgente, intenso e necessário, nada é no fundo. E o que de fato é? Não existe intensidade, contentamento e alegria no mundo de dentro também? ... Eu não preciso ser animada e ativa 100% do meu tempo. Aliás, isso é anti-humano. Há descanso, alegria, tristeza, melancolia, reflexão, preguiça, sonho, ação e muito mais neste caldeirão do cotidiano, incluindo aí os dias de folga, em que todo mundo parece que sai desesperado "pra ser feliz", o que inclui ser produtivo e bancar o "rico do instagram". 

FOMO é uma sigla em inglês que, na tradução, quer dizer medo de estar perdendo algo. Estamos todos estressados, querendo fazer tudo, o tempo todo, em todo lugar e ao mesmo tempo. Com a ampliação das "janelas para a vizinhança", nossa sensação de não estar aproveitando a vida é grande, talvez a maior da história. Feliz era o cara do campo que não via nem escutava o vizinho e se concentrava na própria vida. E em um país de extrovertidos como o Brasil, tal pensamento vira um imperativo: você pre-ci-sa curtir a vida até o talo. Bote isso ao cubo se o sujeito mora em uma região litorânea. 

É uma alegria muito gêmea da tristeza. A sensação que eu tenho é que se aproveita bem menos e se foge muito da realidade. É quase como se a gente pedisse desculpas a nós mesmos por não viver o que desejamos, ou melhor, o que nos disseram nos comerciais e no Instagram que a gente deveria viver. "Tô solteira sim, mas sozinha nunca", "Odeio meu trabalho, mas enfim sextou", e por aí vai.  Parece cocaína, mas é só tristeza... 

Além de produzir cansaço generalizado (e em alguns casos endividamento), isso também gera baixa autoestima. Primeiro porque é impossível fazer tudo que está disponível pra gente fazer e, por isso mesmo e em segundo lugar, sempre haverá alguém melhor que você. Frustação x frustração. 

Não é à toa que estamos todos cansados e vivendo sem sentido. Gastamos energia demais pra viver uma vida acelerada e que no fundo não elegemos; cumprimos uma agenda social "pra inglês ver", pro vizinho nos invejar. Consumimos o mundo e a nossa própria vida como quem consome a roupa da moda. Queremos controle sobre a nossa felicidade e não criamos conexão com a nossa vida. Essa conta não tem mesmo como fechar.   

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Admiração rocks

Ontem uma amiga publicou uma foto com três outras colegas de faculdade nossas. Com duas delas não falo mais e com uma outra, não tenho paciência pra constante performance. Eu só paro de falar com as pessoas em duas situações: se começo a achar que se trata de uma pessoa ruim ou se chego à conclusão de que não gosta de mim. Nenhuma delas é gente ruim (são mais pobres de espírito), mas hoje as acho brochantes. Ou seja, não admiro, se é que um dia eu admirei. Suspeito que me juntei por carência e baixa autoestima mesmo. E é engraçado ver, hoje, como elas projetavam os problemas delas em mim, as coisas que não conseguiam reconhecer nelas mesmas. Como diz meu mapa astral, as pessoas se veem refletidas em mim. Eu atraio essas projeções, que eu aproveito para observar nos outros o que têm de oculto e ainda refletir sobre mim mesma. Não sou um alecrim dourado e por isso mesmo sou interessada em me melhorar e não ser pega de surpresa, o que já é um plus em se tratando de seres humanos.  

sábado, 20 de janeiro de 2024

Estresse em cadeia

Existem muitas ideias legais, porém mal interpretadas e usadas, hoje em dia. E por causa disso, estabelece-se um estresse em cadeia, porque um lado manda bala e o outro aguenta. Uma delas é sobre flexibilidade e leveza. Precisamos tê-las e eu sou uma das que está nessa luta. Porém, as pessoas confundem isso com a permissão pra serem descuidadas. A gente pode e deve ter tolerância pra coisas pontuais, mas não para um hábito ruim dos outros que nos prejudica. Como diz uma amiga, até que me seja apresentado um atestado, eu não vou me lenhar por causa dos outros não. Uma coisa é você atrasar e deixar a pessoa plantada uma vez, outra coisa é o costume de fazer isso. Daí, você que tem cuidado com as coisas, quando perde a paciência - afinal nem todo dia é dia santo... -, ainda sai de ruim e fica com ressaca moral, afinal não foi "flexível" e "leve".

Descontrole

Estava hoje ouvindo uma palestra do psiquiatra baiano Marcelo Veras e ele falou que demorou pra se acostumar com os loucos, com o manicômio. Nunca gostei de lidar com gente louca, sempre me senti incômoda. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Casa de ferreiro, espeto de pau

Uma das coisas que a gente faz no atendimento psicoterapêutico é uma espécie de reparentalização. Ou seja, quando certas coisas que deveriam ter sido orientadas pelos pais na primeira infância não foram feitas, o terapeuta tem que ensinar o paciente a ser esse pai/ mãe pra si mesmo, pra derrubar modelos de resposta que são danosos. 

Meus pacientes foram pessoas muito mal tratadas pela vida, pelo entorno, então chegaram à terapia com baixíssima autoestima, o que inclusive resulta em total cegueira para os próprios feitos. E olha que foi cada coisa difícil de sobreviver e superar que em certas horas eu tive vontade de bater palmas. 

Daí eu fico fazendo sermão pra pessoa olhar pra isso, pra aquilo, pras próprias capacidades e conquistas, dou vários exemplos, mas falando cá com os meus botões: "Que falsa!... Você não faz nada disso...". hehe

O paciente é um ótimo espelho. Enquanto vemos os dramas dos outros, pontuamos várias questões nossas também. Acho que vou levar isso pra vida. 

Ja contei essa?

 Acho que não, mas essa história é boa. 

Eu sempre tive dúvidas com essa carreira de jornalista, desde a faculdade. Um dia, soube através de amigos de uma mulher que jogava búzios e acertava tudo. Por uma coincidência, uns cinco anos depois, em 2008, soube dela de novo e desta vez consegui o contato. Aliás, antes de qualquer coisa, conversa vai, conversa vem e ela fez um desabafo sobre a afilhada dela, uma certa dançarina muito famosa, que deixou de falar com ela depois que virou celebridade e neo evangélica. Puro suco de Bahia: você vai pra saber da sua vida e sai sabendo mais do que intencionava sobre a de quelé. 

Fui lá e entre outras coisas perguntei da profissão. Ela olhou assim assim, com cara de quem tá vendo algo meia boca - uma das marcas dela era a grande expressividade -, fez "hummm...", e me disse que o Jornalismo era só pra comprar os meus alfinetes mesmo, mas que não ia me dar futuro. Deu match com a minha "bola de cristal" interna. 

Naquela época, eu já flertava com a Psicologia. Na verdade, desde quando eu peguei Impresso e fui cobrir um congresso de Psicologia. Perguntei a ela. "Hummmm..." e a cara de coisa meia boca de novo. "Isso vai servir pra você se entender, mas não é seu caminho, não". Pausa e uma esticada de olho pra conferir se é isso mesmo. "Eu lhe vejo de toga!" (ouça com aquela exclamação ao estilo "Eureca!", que foi o tom que ela usou). 

"É o quê?!"

Eu achei absurdo. Até poderia ter feito Direito, minha nota dava pra ingressar no segundo semestre, mas eu achava tão chato. Fui lá mais algumas vezes depois disso e ela repetia a previsão. 

Um ano depois, eu comecei a trabalhar num curso para concurso, e fiz um curso de noite com várias disciplinas de Direito. Pensei que talvez ela tivesse confundido. 

Em 2015, eu já estava enchendo o saco de trabalhar em jornal e queria outra coisa. Fiz o Enem pensando em Psicologia, mas não obtive índice. Mas sem entender até hoje, no meio do ano a nota serviu pra Uneb, pro curso de Direito. Fui e gostei, mas era muito longe. Decidi que só continuaria se passasse na UFba, que fica no pé de casa. Sem estudar, passei. E tô aí, com as coisas fluindo. Até umas disciplinas que eu achava que não ia conseguir aproveitar, aproveitei. E ela acertou: a Psicologia serviu mesmo pra eu me entender, mas não quero seguir não. Só não sei se vou usar toga, mas se for da vontade de Deus eu ganhar o que esse povo ganha, Senhor, sua serva está pronta! hahaha

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O calor estragou meus planos de vida

Eu não sei como as pessoas conseguem articular metas e ambições com o calor ininterrupto que faz em Salvador. Eu vou ali e volto morta e derretida. O mundo acima de 24 graus é difícil pra caramba. Por isso que gente rica só vem aqui nas férias.

Não que eu ache a essa altura importante ter metas e ambições. Tenho elas infinitamente em menor quantidade que há 20 anos. Mas também naquela época eu queria muita coisa porque achava que deveria querê-las; hoje tô ligada que não sei o que quero, à exceção de umas três ou quatro coisas triviais. 

Mas eu vim aqui pra reclamar e não pra divagar.  

O corpo importa, minha gente. A alma não empreende carreira solo de jeito nenhum. E no desconforto térmico fica difícil. O que a Bahia tem contra as quatro estações? Eu adoro a animação do verão na mesma proporção que eu odeio o calor. 


domingo, 7 de janeiro de 2024

We gave to "trauma" a bad name

Hoje estava comentando sobre os traumas de uma amiga. Acho que se ela me ouvisse, se sentiria ofendida. Não por minha culpa, mas porque a tal palavra pegou uma conotação negativa, como se alguém traumatizado fosse maluco, fraco ou problemático. Alguém traumatizado apenas está em dor, o que na verdade não é "apenas", mas não é defeito de fábrica da pessoa. Acontece a todos.  

Tudo tem seu preço mesmo

Manter relacionamentos próximos e de longo prazo exige muita paciência e perdão. Inclusive consigo mesmo. Tem que gostar muito do outro pra valer se empenhar. Tem que haver um ótimo motivo/ mandiga pra nos fazer ainda querer. Definitivamente, nada vem de graça mesmo nessa vida. 

Devido ao alto preço e ao pouco que as pessoas estão dispostas hoje a dar, a esmagadora maioria delas pelo menos, cada vez mais vejo que eu era iludida e que na verdade não perco nada estando quieta no meu cantinho. Se relacionar com o outro é bom, mas custa. Tem que valer a pena. 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Terceiromundização do primeiro mundo (ou "todo mundo vai descer")

Esqueci de dizer sobre as Olimpíadas de Paris que minha amiga que mora lá me contou que estão tirando os estudantes estrangeiros dos alojamentos para dar lugar às delegações, em troca de míseros cem euros. Pire aí!.. Naquela cidade caríssima?!...

Outro problema do evento é que a vila olímpica foi construída numa cidade pobre e a população está com medo de que haja gentrificação. E essa é uma praga mundial, né? A seguir cenas dos próximos capítulos...

Moradia tem sido um problema geral. Criamos um sistema econômico que beneficia meia dúzia de pessoas e o resto trabalha pra pôr algo no estômago e ter um canto pra se encostar. Ultimamente, esse canto está ficando cada vez mais precário e indigno. Temos chat GPT, mas uma humanidade voltando às condições do século 19. Um oferecimento dos mais ricos que adoram investir (e lavar) dinheiro em imóveis, aumentando o valor do metro quadrado e tornando indisponíveis, ou melhor, inacessíveis as unidades pra quem realmente precisa morar naquele lugar. 

Estava comentando com uma amiga, outro dia, como a humanidade se engana ao achar que o progresso é uma coisa linear. Achávamos que estaríamos melhores que nossos pais, e isso não ocorreu. Achávamos que o chamado terceiro mundo ia progredir até o primeiro, mas o que vemos é o tal primeiro mundo descendo às condições do terceirão. A diferença é que, como já foram muito ricos (ainda são, mas falo da prosperidade da população), eles ainda tem gordura pra gastar e nós não. 

Não sei se já falei aqui, mas eu adorei um livro que eu não dava nada, de uma jornalista americana Anne Helen Petersen, chamado "Não aguento mais não aguentar mais". Ela fala da geração millenium e como nós nos afundamos no burn out, mas como pano de fundo de tudo isso está a crise neoliberal. É angustiante, porque você lê algo que se passa na meca do capitalismo e parece que ela está falando de Brasil. A sensação é que não tem pra onde fugir, não existe nem mais essa tal terra da esperança. 

Olha, se nada for feito, todo mundo vai descer. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

A Paris que eu encontrei desta vez

 




Outro dia estava vendo uma matéria na tv sobre as Olimpíadas de Paris, das novidades e dificuldades, entre elas a do transporte público. Uma amiga minha que mora lá tinha se queixado disso horas antes, e tinha comentado que a cidade não está preparada pra receber os jogos. Deixa eu falar sobre isso antes que me esqueça. Sim, visitando outros posts do blog, percebi que já esqueci de muita coisa e gostei de lembrar delas através daqui. Bem, em maio de 2023 voltei a Paris após exatos dez anos. Esta experiência foi diferente não só porque muita coisa mudou, mas porque desta vez fiquei hospedada "en banlieue", ou seja, nos subúrbios da região metropolitana. Fui para Gretz-Armainvilliers, que é quase fim de linha do RER E, um dos dois piores trens que serve aquela região. Sim, não chega metrô lá. Você entra e sai de Paris de trem, que pára em algumas das grandes estações, do tamanho de shoppings centers. A coisa fica muito mais complexa neste sistema. Eu, que sabia andar tão bem de metrô, me senti burra andando de RER. Sério, eu entrei em crise. Fora que o bicho vivia de manutenção e parado por causa dos tais reparos para as Olimpíadas. Eu passei dois finais de semana fazendo malabarismo pra poder sair por causa disso. Minha amiga que me hospedou, um belo dia acordou pra trabalhar, no escuro e no frio, pra dar com a cara na porta porque o trem mais uma vez não estava funcionando e ninguém avisou, só souberam na hora. E é essa a vida de quem mora no subúrbio, que virou um depósito de imigrantes, a maioria de ex-colônias francesas. É mais barato (está impossível pagar aluguéis em Paris. Há mais de dez anos, quando fui pela primeira vez, quase todos os imigrantes que conheci moravam em Paris), é mais tranquilo, dá até pra morar em casa, mas você se lasca sem carro porque o transporte é ruim. A depender da região, é quase como morar na roça. Na boa, eu estaria melhor em Salvador, onde é mais barato chamar um uber (é uma fortuna de lá até Paris). Olha essa estação aí da foto, sem cobertura quase, sem proteção. Isso aí no inverno europeu, às 4h da matina, deve ser uma "maravilha". 
A imigração cresceu demais, demais na última década. Parece que a população cresceu umas cinco vezes. Nas plataformas de trem, você vê um mar de rostos estrangeiros, principalmente negros, árabes e orientais. Não por acaso tudo é difícil nessa zona fora de Paris. Pra quê gastar com o bem-estar de gente que limpa o seu banheiro? O turista não vai lá. Uma das promessas dos jogos era levar o metrô até o subúrbio e melhorar a mobilidade (sub)urbana, mas parece que não vai rolar. Uma pena, até porque essa turma foi muito prejudicada em nome disso. Acho que ao todo, de dias parados em um mês, eu peguei uns sete ou oito. Só em um mês! Eles colocavam uns mini bus gratuitos que davam a volta no mundo, quase um sequestro autorizado e isso ainda na chuva, porque atipicamente choveu pra caramba neste final de primavera em Paris - nunca vi isso. O transporte público da Cidade Luz mesmo agora vive lotado quando antes o perrengue era só nas horas de pico. Além disso, a cidade é ruim demais pra quem é PCD, é pura escada. O turista vai passar muita raiva nas Olimpíadas, pelo visto. E você acha que a França está preocupada com isso? Jamais!
E tem uma coisa que vem ocorrendo com o fluxo de imigrantes e que é muito mais grave porque envolve coisas além daquele espaço urbano: a violência, principalmente a sexual. Eu fiquei besta com os relatos de assédio que as brasileiras me contaram: perseguições em lugares abertos, tentativa de estupro, estupro de fato. Eu mesma desconfio que fui seguida por um árabe na estação no dia em que fui pro Senegal. Obviamente que há assediadores de todas as nacionalidades, incluindo a francesa e a brasileira, mas parece que o maior número de casos envolve os homens arábes. E isso leva a outra fobia europeia, a do islã. O islã tem problemas, mas na verdade essas religiões abraâmicas são uó de um modo geral, não é privativo dos muculmanos isso. Fora o combustível que isso dá pra xenofobia, que nunca foi pequena. Por outro lado, há algo de estranho na atmosfera da França, talvez da Europa toda, que eu já detectava das outras vezes mas agora ficou mais forte: o imigrante é até supostamente aceito, recebido, mas não acolhido, integrado. É chocante ver que até parte das crianças não se sentem pertencentes. A França usa essas pessoas, mas as repele. É estranho porque é velado. Eu sei da confusão que é ter tanta gente vinda de lugares tão distantes e até desconhecidos (e infelizmente o preconceito é uma ferramenta pra que as pessoas tenham uma suposta previsibilidade e proteção nesta Torre de Babel), mas eu adoraria esse caldeirão cultural no Brasil. Até tive um pouco disso quando morei no Farol de Itapuã, com meus vizinhos argentinos, italianos e espanhóis, e depois nunca mais. Adoro!
Bem, a seguir cenas dos próximos capítulos... Oremos pela humanidade. : /

Por falar em espiritualidade, mal paguei as prestações dessas férias e a entidade me mandou pra Machu Picchu. Eu vou mas preciso de um dinheiro caído do céu pra isso, ne? Ou será que ela me "mandou pro Peru" veladamente, e isso foi um código? Mistééério...

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Lilian, a "padroeira" deste blog e das sessões de terapia

 Eu sou rebelde porque o mundo quis assim

Porque nunca me trataram com amor
E as pessoas se fecharam para mim
Eu sou rebelde porque sempre sem razão
Me negaram tudo aquilo que sonhei
E me deram tão somente incompreensão

[Refrão]
Eu queria ser como uma criança
Cheia de esperança e feliz
E queria dar tudo que há em mim
Tudo em troca de uma amizade
E sonhar e sorrir
E esquecer o rancor
E cantar e sorrir
E sentir só amor

[Verso]
Eu sou rebelde porque o mundo quis assim
Porque nunca me trataram com amor
E as pessoas se fecharam para mim
Eu sou rebelde porque sempre sem razão
Me negaram tudo aquilo que sonhei
E me deram tão somente incompreensão

Ô música pra ter versões...

E Deus conserve minha capacidade de rir de mim mesma sempre. 😎

O copo meio vazio

O ser humano consegue ser estreito a despeito de todos os recursos que têm.

Eu hoje dei um exemplo disso, que é um exemplo tão corriqueiro que é possível vivê-lo todos os dias. Várias vezes ao dia. 

Um exemplo bobo, mas veja bem... Um produto ficou 25% mais barato do que quando eu o comprei na Black Friday. Fiquei puta e me senti perdendo dinheiro. Logo, fui pensando em quanto dinheiro poderia ter economizado este mês, mas por situações como essa, perdi. E uns minutos depois afastei esse pensamento porque eu não só perdi, eu também ganhei dinheiro inesperado. Mais até do que perdi. Mas por que a gente só foca no ruim, no copo meio vazio? Eu sei que isso tem a ver com processos evolutivos, mas tá na hora de atualizar ou mesmo trocar esse programa. Já! 

sábado, 30 de dezembro de 2023

"O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?"

 Quem canta essa música de Alexandre Pires, nos dias de hoje, está de falsidade. Só digo isso. 

Porque o que a gente não sabe mesmo é estar acompanhado. A liberdade tá fácil. Todo mundo morando sozinho, anos e anos sem compromisso, ganhando o próprio dinheiro... E é muito confortável fazer o que der na telha sem precisar consultar ninguém. Difícil, depois disso, é negociar as concessões necessárias para estar juntos. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Eu não acredito em Ivete Sangalo


Se eu disser o que eu vou escrever aqui, o povo me mata. Ivete já se tornou uma ideia, e do tipo incontestável. Não sei se ela já sacou isso e se sacou, se isso a afeta, mas ela já deixou de ser ela pra virar uma projeção nacional da pessoa gente boa, a imagem do brasileiro suingue sangue bom. 

Ninguém vai ler isso, mas caso leia, que fique claro: esse texto não é depreciativo. Eu gosto dela no geral, mas algumas coisas não descem redondas, não. Eu tenho uma casa 8 muito lotada pra não desconfiar do que tem debaixo das aparências... 

Acho Ivete uma pessoa sensata, como pouco se vê no meio artístico. E simples. Mas não acredito nessa alegria desmedida. Por um lado, ela teve muita sorte na vida e sabe reconhecer e aproveitar isso, o que é um sinal de sabedoria. Mas não acredito nessa coisa que ela diz que não deixa a tristeza chegar perto. Acho isso impossível. Acredito mais numa vida em que a alegria nunca chega perto do que no contrário. Não tenho certeza se isso, de Ivete, é sabedoria ou se é fuga, já que todo mundo, inclusive ela, quer essa Ivete animadona, super positiva full time. O reforço externo que ela ganha pra ser essa daí há 30 anos, pelo visto, bateu internamente e ela fica nessa de ser a animadona, a super resolvida. 

E uma parte de mim sempre pensa: ok, está tudo correndo bem na vida da pessoa, é até relativamente fácil manter o equilíbrio, o personagem de bem resolvida quando é assim. Mas como vai ser quando essa pessoa fracassar, quando as coisas saírem fora do planejado? Na prática, a teoria é outra. Tem cantos escuros do mundo e da nossa alma que só no movimento de ladeira a baixo pra gente descobrir se consegue lidar e o quanto eles conseguem influir em quem somos e na nossa vida. Sabe aquele slongan do Real World, reality da MTV? "Esta é a história real de sete estranhos escolhidos para viverem juntos numa casa e ver o que acontece quando as pessoas começam a perder a gentileza e a serem de verdade". 

Um segredinho astrológico: toda pessoa com a lua em signo de fogo não sabe sofrer (é o caso dela e também o meu, e nós duas temos a lua em sagitário, o que é pior ainda, porque é pura negação da tristeza). A pessoa quer sair por cima, mostrar "que não doeu". Ivete tem plutão em libra cravado no ascendente em virgem. Plutão no ascendente tem dois vieses: um, negativo, é aquela pessoa que joga o pior dela logo de cara, porque daí só fica quem aguenta; outro, que tem um uso mais positivo, é aquela pessoa que tem um autocontrole  espantoso. Ivete é o segundo caso e com os signos envolvidos, ela vai querer mostrar perfeição, bom senso e diplomacia. Ela se exibe muito, mas não se mostra demais - repare nisso.

Outra coisa dela que não me desce (e é tipicamente geminiana) e que eu acho que é instintiva, que ela não faz por mal, é que Ivete é amiga de todo mundo. Ou seja, não é amiga de ninguém. E isso você vê na prática. Chama todo mundo de "zamuri", mas raramente aparece fazendo um social com as amigas. Sempre vejo Ivete com a família. É uma energia gasta em ser popular e aceita por todos, mas não no aprofundando de vínculos. O famoso "só sobe na vida quem nunca se ofende", como dizia o personagem de Nelson Rodrigues.

Todos nós somos instigados a ter uma persona pública, a performar, e no caso das mulheres, a mostrar muita feminilidade, o que quer dizer doçura, submissão, fragilidade, etc. Mas eu não como esse reggae porque sou ser humano e sei como a cozinha da alma funciona, ora. 

No caso dos famosos, essa interpelação é maior ainda. Afinal, a vizinhança se amplia, você está sendo observado por quem você não vê. É uma ansiedade que eu não conseguiria imaginar. 

Eu acho, por exemplo, que Britney Spears e Michael Jackson são pessoas muito doces, carentes e tal (no caso dele, que já faleceu, era). É assim que o público percebe esses dois pop stars. Mas até pelo nível de sucesso e que vem desde criança, dá pra perceber que há traços de autoritarismo, que gostam que os outros façam o que eles querem e se enfurecem quando contrariados. Britney mesmo deixa vários vestígios desse comportamento, mas ninguém presta atenção nisso, pois ela está sempre performando feminilidade, doçura, fala fino, é pequena, tem ar de carente, etc.  

A pessoa performa até pra se proteger, é claro, mas não sou obrigada a acreditar.


sábado, 23 de dezembro de 2023

Out of Africa







Juju no Senegal!... Nunca pensei em pisar na África, não nesta parte da África, a parte colonizada pela França. A careta na foto é pelo calor úmido e pelo vento do Saara. Perrengue chique de turista!... hehe

Eu posso resumir minha experiência a um choque térmico e o mais bizarro é que meu estranhamento tinha a cara da minha casa.

Explico: é um mundo totalmente diferente. É como se você estivesse no Brasil dos anos 70. Só que nem tudo é pobreza. A África tem duas coisas, fruto da resistência deles, que a gente perdeu: senso de comunidade e simplicidade. Não é mera fatalidade, é também escolha. Eles não querem ir ao shopping, eles querem fazer a roupa com o alfaiate da feira, que, aliás, frequenta a mesma mesquita.

É outro mundo, minha gente. Você de repente se surpreende, numa sexta-feira de tarde, com todo mundo segurando um tapetinho de oração e indo rumo à mesquita, como se fosse a galera descendo pra Barra na sexta de Carnaval. Tudo pára. Por outro lado, você se depara com uma feira ou mesmo um pedaço de praia que te faz sentir em Salvador. Eu fico pensando como deve ter sido confuso pros escravizados quando chegaram ao Nordeste. É o outro lado do Atlântico, mas são irmãos mesmo, há semelhanças que chegam a ser bizarras. 

Ah, sim, as crianças são lindas. 

Mas tem o lado B também, e isso é inegável. 

A África me pareceu a América Latina, mas com os problemas mais acentuados. Logo que cheguei no aeroporto, uma faixa enorme contra a corrupção. O funcionário da alfândega me soou àquele tipo de gente que gosta de abusar do pequeno poder que tem. Na ida pra casa, uma blitz nos parou e o policial cobrou propina. A desigualdade, então, é muito mais gritante que aqui - daí você já imagina o drama social. 

É aquela coisa: o estereótipo pega não só porque é interessante pra quem o difunde (e está no poder), mas porque quase sempre tem um fundo de verdade. A questão é que se toma uma parte pelo todo. A África tem muito mais que problemas sociais e políticos, inclusive tem coisas interessantíssimas a nos ensinar. 
 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Mas, gente...

Anália joga cartas e na seleção desta vez, escolhi a carta 3. Esse mundo é cheio de bruxarias, definitivamente. Espero que em 2024 eu finalmente consiga renascer e recuperar a minha qualidade de vida. 🔥🙏🏼